Breve retrato de Mário André

Passa o dia a viajar como um cigano
Entre a Lezíria e a Estrada de Pegões
Respira o verde todos os dias do ano
Entre a casa e a Escola de Campeões

Chega a esquecer-se das suas lesões
No esforço de curar quem o procura
No relvado eles correm como leões
Na marquesa sofrem com amargura

Passa o dia a viajar como um cigano
De terra em terra a fazer tratamentos
Os olhos são Atlas do corpo humano
Percebe uma lesão em dois momentos

Tudo o que diz é genuíno e verdadeiro
Tudo o que faz tem o toque dum artista
A sua vida não se esgota no enfermeiro
A sua alma está para lá do massagista

O Daniel e o blogodrama

O Daniel saiu do blogue com estas palavras. De comum com a saída do Fernando, e para além da proximidade temporal dos eventos, temos a surpresa causada, a ausência de comunicação interna, o laconismo críptico da justificação. Quanto às razões silenciadas, ou tão-só esboçadas, não nos dizem respeito por não terem sido explicadas. Já o lado público do acontecimento permite uma breve reflexão. Entretanto, assino por baixo o que o meu primo disse aqui e aqui, igualmente me sintonizando com a declaração da Susana.

Só há 5 anos é que os blogues apareceram em força em Portugal. Sabemos como utilizá-los e para que servem, mas ainda não estamos imunizados contra a sua ilusão. Isso leva a que alguns imaginem vir a ser lidos por milhões, ou pela elite que influencia o gosto institucional, quando começam a escrever num blogue. A verdade pede água geladamente gelada na ambição: um blogue é lido por umas poucas dezenas de indivíduos, se correr muito bem. Em casos raros de popularidade, é lido por centenas. E será preciso algo de extraordinário para ser lido por milhares. 99,999% dos blogues não têm um único leitor para além dos autores. Os números que se apresentam relativos ao tráfego são isso mesmo: passagens. Mas passar não é ler, é partir.

Ainda mais relevante do que a quantidade, para a higiene e ecologia autoral em blogues, é a qualidade dos leitores. Nos blogues que permitem comentários, em especial nos que fazem moderação mínima e retroactiva, os leitores podem interagir sem mediação temporal ou de conteúdo. Isso confere-lhes um poder de recontextualização que ultrapassa o do autor, por causa do acrescento de interpretações. As caixas de comentários são selvagens e tempestuosas, as temáticas intencionadas nos postes poderão ser completamente ignoradas, deturpadas, fragmentadas. Não se controla o ambiente, a menos que se entre nele abdicando dos poderes inerentes à administração do espaço: de censuras, inconfidências e ameaças. E deste caldo caótico, onde qualquer um pode expressar livremente qualquer coisa, desde que não seja ilegal, nasce vida.

Que têm estes considerandos, que deveriam ser óbvios para todos os que optam por gastar o seu irrecuperável tempo nos blogues, a ver com a saída do Daniel? É que o Daniel saiu a conversar. Deixou o seu email e anda por cá a discutir o que lhe dá na gana. Ou seja, tornou-se um bloguista completo, finalmente aceitando que os blogues também podem ser tertúlias de arruaceiros — e que a barulheira é sinal de alegria. Eis um caso de blogodrama propedêutico.

Olha, já agora, eu também want to be like water and never need um endocrinologista faxavor

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Apesar de toda a gente reconhecer a autêntica revolução que o YouTube representou para a web 2.0, nem todos terão reparado na sua influência na criação de novos conteúdos audiovisuais. Não é por acaso que videófilos e audiófilos abominam o YouTube: as suas limitações de upload e streaming (resoluções de 320×240 ou 480×360 a 314 kbits/s para as imagens e compressão a 64 kbits/s para a faixa sonora) são um verdadeiro pesadelo para quem venera a alta fidelidade. O vídeo de «Water Curses» dos Animal Collective realizado por Andrew Kuo e Snejina Latev, consegue a proeza de transpor aquilo que são aparentemente as limitações do YouTube (e de outros programas semelhantes) para o interior do próprio processo criativo de uma forma que, para além de ser absolutamente inovadora, possui resultados estéticos que me deixam num estado entre o transe e a levitação. Ou muito me engano ou temos aqui, se não o melhor, pelo menos o mais importante vídeo musical desse admirável mundo novo que é o HTML.

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Há vida na Internet – II

O nosso amigo Rui Vasco Neto junta-se ao nosso amigo Shark no fértil pantanal Sapo. O Sete Vidas Como Os Gatos está com um ar todo catita, ostentando veludo granadino (ou assim me aparece no monitor) num fundo donde saltam os saborosos textos do patrão — e a que se junta a presença assídua do Daniel de Sá, neste momento com uma imponente resenha histórica acerca da ópera em Portugal.

É de lá ir e voltar para mais.

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Tenho cá em casa um gato muito giro chamado Xavier, que tem uma fixação doentia por fitas de cabelo. Apesar de ter as mãos todas arranhadas pelo bichano, é óbvio que me divirto imenso com essa sua fixação. Inspirado por essas andanças felinas, resolvi fazer um mash-up de duas bandas desenhadas que adoro: os Bunny Suicides de Andy Riley (vénia) e os Mutts do Patrick McDonnell (tripla vénia, amén). O Mooch faz de Xavier e o coelho usa a fita à Rambo. Ai ai, as merdas que me passam pela puta da cabeça.

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com bola vermelha

Se um dos elementos da rapaziada aspirínica tivesse colocado aqui um post com uma vulva exposta na maior descontracção, teria sido um malandreco. Como fui eu, devassidão. Não admira; apesar do andar dos tempos, à mulher continua a ser consignada uma dicotomia entre a santa e a flausina. Mulheres-putas só no uso privado.
A intrusão da temática é tão poderosa que se impuseram as discussões em torno da eventual carga erótica da imagem, como se o erotismo, ou o estímulo sexual, fossem os propósitos quer da pintura quer do post. Outro aspecto curioso foi cada um ter presumido na pintura um objectivo correlativo à provocação exercida: o de chocar, o de seduzir, o de vender, o de banalizar o sexo numa corrupção dos costumes. Com a evidência de se tratar de um sujeito de interpretação individual articula-se o contra-senso: quanto mais a temática interfere com as nossas dificuldades, mais difícil se torna separar representação e realidade representada.
Mas já não é politicamente correcto ser-se moralista nas temáticas sexuais e, por mais que esticasse a corda, os defensores e as defensoras dos bons costumes femininos foram escudando as suas posições por detrás da esquiva definição do artístico–ou não. Foi preciso dizer-se «cona» para se dar o salto para a verdade, pela mão de um comentador: as boquinhas das senhoras sérias não devem conspurcar-se com vernáculo, nem os seus olhos com visões perniciosas das suas próprias anatomias. Todavia a palavra não me saiu da boca, chegou sem voz. Eu posso nem ser uma mulher. Quem sabe a Susana é apenas o João Pedro, ou o José do Carmo Francisco, mas com bigode. Que importava aqui – a autoria, ou o conteúdo? Para mim, sem dúvida alguma, contou a discussão e o seu subtexto.
Por isso, irei voltar ao tema. Para já, no entanto, faço uma concessão às retinas sensíveis no que respeita à exibição de alegadas cruezas. Agora, quem quiser ver a imagem terá que se sujeitar à ignomínia perversa do peep-show, e clicar no link abaixo. Assim, passamos a obedecer às leis da pornografia, escondendo o distrito vermelho suave e felpudo debaixo do lençol.

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