O Daniel saiu do blogue com estas palavras. De comum com a saída do Fernando, e para além da proximidade temporal dos eventos, temos a surpresa causada, a ausência de comunicação interna, o laconismo críptico da justificação. Quanto às razões silenciadas, ou tão-só esboçadas, não nos dizem respeito por não terem sido explicadas. Já o lado público do acontecimento permite uma breve reflexão. Entretanto, assino por baixo o que o meu primo disse aqui e aqui, igualmente me sintonizando com a declaração da Susana.
Só há 5 anos é que os blogues apareceram em força em Portugal. Sabemos como utilizá-los e para que servem, mas ainda não estamos imunizados contra a sua ilusão. Isso leva a que alguns imaginem vir a ser lidos por milhões, ou pela elite que influencia o gosto institucional, quando começam a escrever num blogue. A verdade pede água geladamente gelada na ambição: um blogue é lido por umas poucas dezenas de indivíduos, se correr muito bem. Em casos raros de popularidade, é lido por centenas. E será preciso algo de extraordinário para ser lido por milhares. 99,999% dos blogues não têm um único leitor para além dos autores. Os números que se apresentam relativos ao tráfego são isso mesmo: passagens. Mas passar não é ler, é partir.
Ainda mais relevante do que a quantidade, para a higiene e ecologia autoral em blogues, é a qualidade dos leitores. Nos blogues que permitem comentários, em especial nos que fazem moderação mínima e retroactiva, os leitores podem interagir sem mediação temporal ou de conteúdo. Isso confere-lhes um poder de recontextualização que ultrapassa o do autor, por causa do acrescento de interpretações. As caixas de comentários são selvagens e tempestuosas, as temáticas intencionadas nos postes poderão ser completamente ignoradas, deturpadas, fragmentadas. Não se controla o ambiente, a menos que se entre nele abdicando dos poderes inerentes à administração do espaço: de censuras, inconfidências e ameaças. E deste caldo caótico, onde qualquer um pode expressar livremente qualquer coisa, desde que não seja ilegal, nasce vida.
Que têm estes considerandos, que deveriam ser óbvios para todos os que optam por gastar o seu irrecuperável tempo nos blogues, a ver com a saída do Daniel? É que o Daniel saiu a conversar. Deixou o seu email e anda por cá a discutir o que lhe dá na gana. Ou seja, tornou-se um bloguista completo, finalmente aceitando que os blogues também podem ser tertúlias de arruaceiros — e que a barulheira é sinal de alegria. Eis um caso de blogodrama propedêutico.