Revolution through evolution
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Dominguice
O meu primo disse-me “Aqui ninguém se entende.” Aqui era ali, para os lados de acolá. Só muito mais tarde consegui compreender o que tinha ouvido. Que era isto: “Ninguém se entende.” Nem ali, a terra dele, nem em nenhures. Nem nas terras dos outros nem nas casas dos mesmos. Nem ontem nem amanhã. A discórdia é o estado natural da política e da sociabilidade. Daí ser preciso recorrer à violência máxima – como as calúnias e campanhas sujas que destroem a reputação, saúde e o futuro dos alvos, ou os assassinatos de opositores e as ditaduras policiais – para tentar reduzir a discórdia à expressão mínima. Apenas para que ela rebente, vingativa ou revolucionária, mais tarde. Inevitavelmente.
A democracia é para heróis. Dos mais valentes, mais belos. Aqueles que estão apaixonados pela alteridade.
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Estado da direita: Santana exemplar
Quando Pedro Santana Lopes surge como arauto da decência e do respeito pelas instituições, ou até mesmo como paladino da coesão e integridade da República, sabemos que a decadência da direita há muito que bateu no fundo. E não tem parado de escavar.
Sim, este Pedro, que agora apregoa um nobilíssimo “não gosto de coisas à traição“, foi o mesmo que em 2005 encomendou no Brasil uma campanha negra para lançar o boato de Sócrates ser homossexual, campanha essa que era como a cereja no cimo da outra já a correr sobre o Freeport, lançada esta por elementos do PSD e CDS em trama com agentes da autoridade.
As cãs trazem a sabedoria e a santa amnésia.
Malucos por Trump – Putin bem os percebeu
Prophet Julie Green, who shares the stage with Eric Trump & Michael Flynn on the ‘Reawaken America’ tour, usually reads the messages she gets from God. But this time God speaks directly through her, and God says he is about to overturn this election. pic.twitter.com/XDUNmLlp3C
— Ron Filipkowski (@RonFilipkowski) November 17, 2022
Putinismo canino
«“Tenho um amigo de infância e a determinada altura — miúdos de seis, sete anos — ele tinha um cachorrinho. Então a brincadeira que se montou, que era uma coisa completamente absurda, era três crianças que à vez atiçavam o cão. Atiçavam o cão, quando o cão vinha para morder gritavam e o cão, coitado, baixava... A brincadeira era assim. Esse meu amigo, que era o dono do cão, quando foi a vez dele de fazer esse movimento de atiçar o cão, o cão deu-lhe 20 e tal dentadas. Ao dono! E a pergunta é: a culpa é do cão? O cão é culpado desse acto?”, elaborou Paulo Raimundo.»
E pensar que foi Sócrates quem meteu este pobre diabo no Banco de Portugal
Saliva e desespero
Supondo que o PCP quer aumentar a sua votação nos actos eleitorais futuros, estará então interessado em atrair o interesse e a vontade de quem não pretende actualmente votar nos comunistas portugueses. Nesta lógica, é mais importante aparecer em espaços de comunicação neutros e públicos do que apenas comunicar nos eventos do partido para os militantes. Parece uma evidência.
Ora, esta entrevista a Paulo Raimundo não oferece nenhuma de nenhuma razão para cativar votos extraviados ou novos. Pelo contrário, reforça a percepção de continuar a ser o PCP uma cassete, só que agora com a fita partida. Já não há musiqueta nem folclore, substituídos pelo fedor do putinismo.
Paulo Raimundo é um líder sem carisma, um avatar de Carvalhas no pior sentido da comparação – tal como Jerónimo foi um avatar de Cunhal, no melhor sentido da comparação. Como quase todos os comunistas, transmite a impressão de ser uma excelente pessoa. E teve o condão de apelar à empatia, dando-se a ver como normalzinho da Silva. Veremos se tal imagem se mantém quando estiver no calor da luta.
No discurso da Conferência Nacional, disse que “há quem salive e desespere pelo fim do PCP“. Haverá, com certeza, pois há sempre de tudo. Mas esse grupo é minúsculo e constituído apenas por direitolas fanáticos e broncos. O novo líder do PCP teria feito uma pequena revolução se dissesse exactamente o contrário, que há muitíssimos mais que salivam e desesperam vendo o PCP a desaparecer. Muitíssimos mais, milhões, que estão agradecidos ao PCP pelo seu contributo para a qualidade da democracia até aos idos de Fevereiro deste ano. É para esses que a Soeiro Pereira Gomes deve falar caso o plano seja ter alguma relevância no futuro político de Portugal.
Começa a semana com isto
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Dominguice
Governar, numa democracia, será a mais complexa tarefa ao alcance da experiência humana — assumindo que os governantes procurem tomar as melhores decisões de acordo com a sua honestidade intelectual. Não é que seja mais intenso, ou desgastante, ser primeiro-ministro do que ser neurocirurgião, general ou astronauta. Até um vendedor de tremoços e pevides poderá dar por si exausto no final do dia (especialmente se não lhe compraram nada). O que confere esse grau superlativo de complexidade à actividade dos políticos é a consciência que eles têm da falta de controlo sobre quase tudo o que lhes é confiado em nome do Estado. O clima, um vírus, a guerra, um taralhouco incendiário, um partido que resolve chumbar o Orçamento, há quintiliões de possibilidades para as coisas irem de mal a pior. À volta desse pré-desespero, as oposições e seus meios de comunicação apelam sem descanso à estupidez da populaça e à pulsão de condenação política, moral e (com sorte) judicial dos cidadãos que se oferecem para governar. A imagem de “sete cães a um osso” é a metáfora perfeita para a violência latente e explícita que as oposições alimentam de forma maníaca.
Num Estado de direito democrático, a fragilidade dos governantes é muito mais perigosa do que a sua força.
Vamos lá a saber
À justiça o que é da justiça
Marcelo, larga o vinho
O estrambólico ataque fulanizado de Marcelo a Ana Abrunhosa foi rapidamente abafado, ou mesmo completamente ignorado, pelo editorialismo e comentariado. Sem a mínima surpresa. João Taborda da Gama, um direitola ilustrado filho de ilustre socialista, até conseguiu pintar Costa como o mau da fita no episódio: O Outro Lado (chamo a atenção para a perspicaz opinião de Ana Drago a respeito, e ainda mais para a excelente prestação de Paulo Pedroso acerca do PRR).
Porém, contudo, no entanto, as cenas captadas são política e deontologicamente chocantes – Marcelo Rebelo de Sousa deixa aviso à ministra da Coesão – uma mistela de soberba autoritária, pose patriarcal, assédio laboral, violência emocional e puro desconchavo cognitivo. A promessa de não “perdoar” a ministra, a qual nem sequer é a responsável pelos fundos europeus, foi uma exibição machista cujo intento está directamente ligado com a presença de Luís Montenegro naquela arena. Marcelo quis mostrar à sua gente que pode, se lhe der na telha, despachar um membro do Governo, assim causando uma crise para desgaste do PS e aproveitamento do PSD.
O momento mais popular de Marcelo como Presidente da República ocorreu quando aproveitou os incêndios de 2017 para fazer de Constança Urbano de Sousa um bode expiatório e um troféu político para a direita. Foi muito aplaudido, até por simpatizantes socialistas, porque foi um número retintamente populista. Voltou a tentar repetir a proeza com Azeredo Lopes e Eduardo Cabrita, aqui sem sucesso e sem coragem. No caso de Ana Abrunhosa, cheirou-lhe a sangue e não se controlou, cedeu à pressão da baixa política e à megalomania alimentada por uma direita decadente.
Victor Moura-Pinto fez um delicioso trabalho de interpretação e montagem dos devaneios marcelistas. A tese é a de que o tinto está a fazer o seu efeito nos neurónios presidenciais: “Corrigir e retificar”: o aperto de Marcelo à ministra Ana Abrunhosa
Costa diz que Marcelo é maluco e um porreiraço
"Sou sincero, no sábado, desliguei para descansar. Portanto, não ouvi diretamente as palavras [do Presidente da República]", começou por responder António Costa, provocando alguns risos aos jornalistas. "Sim, sim, não riam, lá porque sou primeiro-ministro também tenho direito ao descanso", reagiu logo a seguir o líder do executivo.
"Comecei as funções com o anterior Presidente da República [Cavaco Silva], mas tenho uma longa experiência com o atual. Cada um tem o seu estilo, cada um tem a sua forma de agir, cada um tem a sua forma de interpretar os poderes constitucionais, visto que a nossa Constituição é bastante clara, embora ajustável à personalidade de cada um que exerce essas funções", disse.
Na perspetiva de António Costa, "todos os portugueses têm apreciado a forma como o Presidente da República tem exercido as suas funções, que tem momentos de maior criatividade". "Mas acho que isso é normal, ninguém leva a mal. A senhora ministra [Ana Abrunhosa], aliás, disse que não tinha levado a mal, estava lá e compreendeu perfeitamente a intervenção no quadro da informalidade com que tudo decorria", acrescentou.
Ignoro se a resposta do Governo à afronta de Marcelo foi coordenada, embora apostasse os 10 euros que tenho no bolso como a displicência comunicacional de Costa favorece antes a hipótese de residir na Ana Abrunhosa o acerto da postura. Foi ela que começou por se negar no local a comentar as palavras indignas do Presidente da República a seu respeito. E veio dela o golpe de judo perfeito, ao mostrar um sentido de Estado exímio que, simultaneamente, reduzia Marcelo à figura daquele tio bronco que nos jantares de Natal só diz merda, para embaraço e suplício dos convivas.
Na dimensão institucional das suas declarações, o que temos é uma ministra a explicar que o Presidente da República decidiu diminuir-se, abandonando o estatuto de Chefe de Estado para se comportar como um outro qualquer ministro. Daí tê-la interpelado directamente, sem passar pelo primeiro-ministro. São intimidades próprias de colegas de Executivo, ou então de um líder da oposição.
Depois aparece Costa, e o subtexto das suas palavras é letal para o prestígio do actual Presidente da República. Começou por exibir desprezo, frisando que não estava sequer a prestar atenção ao que acontecia na Trofa. De caminho, aludiu à necessidade de descanso, indicando que ele trabalha que se farta enquanto há outros que se limitam a passear e a abrir a boca. De seguida, espetou fundo o ferro ao frisar que Marcelo estava a abusar dos poderes concedidos pela Constituição ao seu papel – a este respeito, Vital Moreira anda há anos a denunciar o mesmo. Concluiu dizendo que o povo gosta de Marcelo como ele é, um palhaço dado a venetas.
Pode-se achar poucochinha esta pose de nacional-porreirismo de Costa mas abrir um conflito seria inútil para qualquer agenda do Governo e uma irresponsabilidade para o interesse nacional. Donde, é a única estratégia possível para lidar com um Presidente da República que gosta de mostrar a pilinha a ministras socialistas.
Ana Abrunhosa muda a fralda a Marcelo
"Partilhamos totalmente da preocupação e da pressão do senhor Presidente da República [PR]. O senhor Presidente, por diversas vezes, transmite [a sua opinião] em privado e em público. Desta vez, teve maior visibilidade", disse hoje Ana Abrunhosa aos jornalistas.
"Não há melindres, há uma partilha de preocupações e há uma partilha da ambição de aproveitarmos bem estes fundos [europeus] que nós temos à nossa disposição. E não vale a pena dramatizar, não vale a pena, porque o senhor Presidente faz o seu papel, que é exigir ao Governo que faça trabalho", disse, quando confrontada com as declarações do PR.
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Dominguice
Ontem, em Mirandela, uma criança de dois anos morreu atropelada acidentalmente pelo tractor conduzido por um seu avô. Deus, que observava com divina atenção o movimento da máquina, resolveu não intervir. Podia ter forçado o pé do avô a afastar-se do acelerador, podia ter provocado uma avaria no motor ou mesmo ter dado um empurrão ao menino. Teria sido um bom gasto da sua omnipotência, assim evitando a destruição absurda da vida de tanta gente. O horror que tomou conta dos dias que restarem ao velho. A agonia desesperada de quem ao perder o filho se sabe a perder o pai. O espanto dilacerante, esmagador, infernal para todos os familiares, amigos, vizinhos. Mas não, preferiu deixar acontecer.
A ser verdade que Deus há só um, pode ser que tenha enlouquecido. De solidão.