Terça-feira, 22 de Setembro, final de tarde. Olho à volta e a cidade parece-me igual, inteira. Ninguém diria que, na semana passada, o comentariado decretou o estado de calamidade na Grei porque Costa e o Benfica, o Benfica e Costa. Fico sempre desasado quando vejo figuras que admiro pelas melhores razões a deixarem-se cair nas piores emoções. Fernanda Câncio e Pedro Marques Lopes alinharam no coro da chachada, tendo assinado exercícios retóricos sem qualquer utilidade, no caso do Pedro, e a divergir para outras problemáticas relevantes mas sem relação com o episódio, no caso da Fernanda – algo raríssimo neles. Vou atribuir à pulsão catártica que o tempo alimenta a opção pelo teatro das ofensas à honra (conceito convenientemente subjectivista e inescrutável) e a imitação em manada do espancamento do primeiro-ministro (em grande parte gerado pela rivalidade clubística de apoiantes do FCP e por apoiantes da impoluta Ana Gomes, os quais aproveitaram para juntar o inútil ao desagradável).
Entre os profissionais da indústria da calúnia que molharam a sopa, e depois do Pacheco já por cá ilustrado, trago agora Paulo Baldaia e o seu Enxotado como cão com pulgas. No último parágrafo, esta inteligência deixa o seguinte:
«Aliás, por perceber está igualmente a convicção que o primeiro-ministro tem da total inocência de Filipe Vieira em todos os processos em que está envolvido. Que é feito do despacho "à justiça o que é da justiça"? Não chega a presunção de inocência que é devida a toda a gente que não tenha sentenças transitadas em julgado. Ao encabeçar a comissão de honra, António Costa está a dizer-nos a todos que confia inteiramente na inocência do presidente do seu clube e, desta forma, pressiona a justiça para ilibar Filipe Vieira. [...]»
Obviamente, não há nada de errado em considerar um erro a participação do chefe do Governo na comissão de honra de Vieira em 2020. Nem errado me parece cobrir esse erro com uma montanha de adjectivos castigadores. É lá com eles e com quem lhes paga. O que assinalo são apenas dois pormenores que expõem a decadência da classe jornalística, uma decadência concomitante e congénere da decadência da direita portuguesa – a qual tem dominado a comunicação social portuguesa nos últimos 35 anos: a obsessão báquica com Sócrates e a promoção da anomia.
Comparar a situação de Vieira com a de Sócrates, papagueando sem parar o “à justiça o que é da justiça” como se aqui tivesse sentido equivalente, não é apenas ser estúpido, é ainda querer ser calhorda. Quando Sócrates foi detido e imediatamente preso, acção planeada para coincidir com a consagração de Costa como novo secretário-geral do PS e o início de um ano eleitoral de legislativas, Costa foi colocado numa situação inaudita na história da democracia portuguesa – e em quase todas as outras, trata-se de um acontecimento excepcional em qualquer parte do Mundo. Por um lado, não podia saber o que a investigação a Sócrates iria revelar nem por quanto tempo o processo estaria em aberto a servir de arma de arremesso. Por outro lado, não podia cair na armadilha de se deixar afundar na judicialização da política e politização da Justiça, precisamente o terreno donde os adversários lançavam os seus devastadores ataques. O caminho seguido de equilíbrio entre a mínima lealdade partidária (recorde-se, no contexto, a entrega de Soares àquela que foi a sua última causa política, a denúncia da Operação Marquês) e o escrupuloso – e repetido à exaustão – respeito pela separação de poderes talvez fosse o único possível tendo como critério o interesse nacional. Precisamos da passagem de muitos anos e de memórias ainda por escrever para ter alguma ideia mais sólida do que apenas um palpite absolutamente ignorante (que é só o que tenho).
Quanto à promoção da anomia, ela está no desplante com que se admite a volubilidade – portanto, corrupção – dos procuradores e juízes. Se a Justiça se deixa pressionar por uma comissão de honra de um clube de futebol, como declara Paulo Baldaia escrevendo num “jornal de referência”, a pergunta seguinte é: haverá alguém em Portugal que ainda não tenha pressionado a Justiça, escapando impune e obtendo o que pretendia? A única forma de introduzir responsabilização nesta dissoluta forma de intervenção no espaço público seria agora obrigar o fulano a demonstrar a tese. Como é que, exactamente, a notícia de um primeiro-ministro ser apoiante de um candidato numas eleições para um clube desportivo vai inibir os magistrados de cumprirem a lei? Eu pagava, e talvez mais do que os 10 euros que tenho no bolso, para assistir ao chorrilho de disparates que o espectáculo iria proporcionar.
E se a sua defesa se limitasse ao “trata-se de uma opinião, não tenha de justificá-la, viva a liberdade” não daria o meu tempo por mal empregue. É que a decadência do jornalismo também mora aí, na hipocrisia e ocultação do que motiva os jornalistas no seu papel de editorialistas – função que muitos confundem com uma câmara baixíssima onde se imaginam membros de um órgão soberano. Este Baldaia foi o co-autor (primeira responsabilidade para Anselmo Crespo e Paulo Tavares, última para o então director do jornal) de um título para uma entrevista a Azeredo Lopes que é uma invenção, para começo da história, e que intencionava ser uma incendiária deturpação das afirmações do entrevistado, como alcançou ser. A fazermos fé nos seus apregoados dotes telepáticos e proféticos, então, é impossível não ir dar ao corolário: Carlos Alexandre no processo de Tancos deixou-se pressionar pela pulhice que o Baldaia mandou publicar com a finalidade de pressionar a Justiça. Vou até mais longe, pedindo licença ao preclaro autor do raciocínio para o levar às últimas consequências: quem não se deixa pressionar não vai para juiz.