Vicente Jorge Silva, jornalista

Se Vicente Jorge Silva foi um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, como as eulogias publicadas consagram e a memória não tem pejo em aceitar, vale a pena tentar um exercício de celebração alternativo ao registo encomiástico. Ir por um caminho que faça justa – portanto, implacável – homenagem ao que parece ter definido existencialmente esse homem, o ter sido jornalista.

Um jornalista não existe sem uma era, um tempo histórico, um lugar político, uma estrutura económica, um processo social e uma corrente de circunstâncias colectivas e individuais. Acontece que os jornalistas sempre tiveram má fama por causa dos poderes fácticos que aceitam servir. Como lembrou Belmiro de Azevedo, isto de ter um jornal é muito giro mas é preciso que alguém pague as contas. E para quê estar com essa despesa se não vier daí algum proveito, alguma satisfação? Pelo que as agendas políticas, logo a partir de Gutenberg, fizeram dos órgãos de comunicação de massas imediatas arenas de combate ideológico e partidário. O ideal de um jornalismo puro, exemplar no cumprimento da deontologia que a si mesmo impõe, lembra a moral kantiana: é para anjos, não para seres humanos.

O Vicente, diz quem com ele conviveu e trabalhou, nem era um anjo nem um anjinho, antes parecendo ter acessos demoníacos conformes ao folclore de uma profissão de egos hipertrofiados e tóxicos. Apesar disso, ou por causa disso, o seu nome aparece como responsável principal por duas publicações que marcaram gerações de leitores no tempo em que os jornais em papel ainda moldavam o espaço intersubjectivo: a “Revista” do Expresso e o Público. Sobre esses dois feitos que inovaram a imprensa portuguesa nos anos 80 e 90 as homenagens são consensuais. Pois este meu exercício minúsculo começa a partir daí, da saída do jornal de que foi o primeiro director. Que aconteceu depois de 1996 a esse extraordinário jornalista então livre para fazer e ser o que quisesse ainda com uns saborosos 51 anos de idade no corpinho?

Nada. Nada que tenha relevância para o jornalismo, sua história ou mera reflexão a respeito de qualquer uma das suas dimensões ou facetas. Ficou na bancada a assistir à degradação completa do Público sob a direcção do José Manuel Fernandes, ignoro o que pensava de Ricardo Costa como czar de Balsemão, desconheço qualquer posição sua a respeito do poder persecutório e criminoso da Cofina ao longo dos anos, e quando voltou para o jornal da Sonae foi chocante vê-lo neste papel. Até no Sol aceitou deixar o seu nome como colaborador.

O Vicente sem papas na língua e mandão poderia responder que não lhe competia ser um provedor oficioso das lides jornalísticas e respectivas responsabilidades na qualidade da democracia e na coesão da comunidade, que tinha bem mais e melhor para fazer com a sua pessoa, que estava farto do meio ou que não queria chatices. Pois sim, teríamos de concordar porque primeiro está o mistério da liberdade de cada qual. Mas a sua ausência no combate contra a pasquinagem ilumina uma paisagem onde não se vê uma única referência de ética e coragem para acudir à derrelicção dos raros que ainda conseguem fazer miraculosamente peças de jornalismo exemplares de honestidade intelectual e serviço público. Se nem este excelso madeirense nos valeu, e se ele foi mesmo um dos mais importantes jornalistas portugueses após o 25 de Abril, então emerge o corolário: os nomes mais importantes do jornalismo em Portugal são muito pouco importantes para o que mais importa.

9 thoughts on “Vicente Jorge Silva, jornalista”

  1. só m’alembro do comércio do funchal onde o cor de rosa seria dispensável. o resto foi vedetismo de intelectual da treta e da teta, que cedo ficou sem investidores que lhe pagassem as idiotices que fazia disfarçadas de vanguardismo da azia.

  2. Quando hoje ousamos homenagear ou só meramente lembrar alguém não pela sua criatividade numa determinada área mas porque ousou fazer um jornalismo minimamente livre e independente em plena Democracia, estamos a dizer praticamente tudo sobre o estado a que chegou o jornalismo em Portugal. E com ele o país. Que ainda assim, continua a presumir-se hoje, como nas décadas de oitenta e noventa do século passado, quando o Vicente Jorge Silva foi figura de proa no panorama jornalístico em Portugal, como um verdadeiro Estado de Direito Democrático. Hoje já sem o contributo de um dos seus principais pilares – uma comunicação social livre e independente. Que hoje sem qualquer ética e deontologia profissionais e muito menos livre e independente, muito contribui para outros tipos de regime.

    RIP

  3. Concordo com o minúsculo exercício. Pessoalmente só o vi uma vez, num restaurante, e, francamente, não me agradaram, os seus ares, a sua voz, o seu protagonismo, a sua pretensão em dar- se a conhecer.
    Reconheço, no entanto, que, como jornalista, comparar José Manuel Fernandes, o director do Público que lhe sucedeu, com Vicente Jorge Silva, é comparar serradura com pão ralado.

  4. E para não estarmos sempre concentrados na política. E para comprovarmos como a imprensa tablóide e a comunicação social sensacionalista na sua generalidade influi mesmo na vida real das pessoas e do país. Concentremo-nos na Justiça e nomeadamente no caso Rosa Grilo. Mais um famoso caso de homicídio em Portugal para os tablóides. E mais concretamente no volte face da sentença que ocorreu ontem num Tribunal de Recurso em Portugal e que acabou a sentenciar alguém com a pena máxima!!! E o problema nunca estará num Tribunal de Recurso alterar qualquer sentença. No caso em concreto, depois de absolvido em 1ª Instância, onde o colectivo de juízes e os jurados tiveram a humildade necessária para admitir a falta de provas no que respeita a quem realmente disparou, isto é, efectivou realmente o homicídio e in dúbio pro reu. Independentemente do que cada um pensa, porque num Estado de Direito Democrático os julgamentos realizam-se nos Tribunais. Um órgão de soberania também supostamente livre e independente.

    Mas pelos vistos influenciável. Sobretudo depois de passados os últimos meses a verem e a ouvirem vários marretas que vão quase diariamente à cmtv, para complemento da reforma com toda a certeza, afirmarem também com toda a certeza e vezes sem conta que era impossível a Rosa ter transportado sozinha o cadáver da vítima… Teoria ou raciocínio que curiosamente também aparece agora no acórdão. E o Tribunal da Relação, não obstante continuar a admitir a falta de provas no que respeita ao disparo e ao efectivar do homicídio no acórdão, desta vez decidiu-se pela pena máxima!? E mais uma vez, independentemente do que cada um pensa. E até admito que é quase impossível alguém não pensar alguma coisa com o julgamento a decorrer diariamente num canal de televisão sensacionalista mas com uma audiência muito considerável em Portugal. Infelizmente talvez por ser mesmo sensacionalista. Não sei se repararam mas só nas últimas duas frases existem pelo menos quatro problemas graves em Democracia.

    Mas independentemente do desfecho final do julgamento, até com mais ou menos Justiça, este caso serve sobretudo para ilustrar a forma como uma comunicação social sem um pingo de ética jornalística e sensacionalista consegue influir na vida das pessoas e do país. E onde para afinal a soberania dos órgãos de soberania do nosso Estado de Direito Democrático?

  5. O Orelhas acaba de abrir o telejornal da televisão pública aos saltos com tantas novas infecções. O azar dele é que os teatros também estão quase fechados por cá. Era uma sorte para todos se algum recrutador de talentos para o drama estivesse a assistir ao telejornal lá fora através da RTP Internacional.

  6. A comparação do Público do tempo do VJS com o pasquim do tempo do JMF é que explica o grande conceito que se tem do falecido.

    E, de facto, em que país viveu essa figura de proa do jornalismo desde que deixou a direcção do Público? Acaso disse alguma coisa digna de registo sobre a inventona de Belém, parida no seu ex-jornal, ou sobre qualquer assunto candente? Não me lembro de nada.

  7. Estava a fazer cinema Júlio. A grande habilidade do Vicente foi sempre cravar os investidores. E foi assim que sempre teve o dinheiro que outros não tiveram para criar aqueles suplementos fantásticos e o que mais lhe apetecia. Ainda o ano passado deu uma entrevista – ao amigo do Valupi – em que afirmou que sempre teve consciência da cabala política em que se transformou o caso Casa Pia com a ajuda de muita imprensa escrita, estava ele a brincar aos parlamentares e nem assim admitiu qualquer “pedido de esclarecimento” aos jornais implicados na cabala. E já na altura o problema era o timing das fugas do segredo de justiça mais adequadas. Quando Ferro caiu ele aproveitou e saiu de fininho da política. Já na altura quem queria responder aos jornais e lhe fez frente no PS foi precisamente Sócrates, o odioso.

    Mas à pergunta: “Estava no Parlamento no dia em que o juiz Rui Teixeira lá foi?” Devia ter sido foi lá mas prosseguindo, ainda teve isto para responder: “Eu devia estar, mas acho que soube isso a posteriori. Achei inacreditável. Ele fez isso de propósito para achincalhar o Parlamento, não tenho a menor dúvida. É um imaturo, um irresponsável. Aliás, aquele procurador João Guerra não regula bem da cabeça. A maneira como tudo isto foi tratado… E vamos ver se ainda alguém vai ser condenado.”

    Mas claro que o julgamento – com tentativas de assassinato de carácter pelo meio admitidas pelo próprio Vicente – podia prosseguir à vontadinha nos jornais. Até hoje.

  8. Joaquim Vieira e Tolentino Nóbrega foram os únicos jornalistas com ligação ao Público (o Vieira apenas como provedor do leitor) que se portaram honestamente no caso ou inventona das escutas de Belém. O resto do rebanho calou-se até hoje sobre o caso, solidarizando-se pelo silêncio com o Zé Manel, a São José Almeida, o Luciano Alvarez e a presidência do Cavaco. Pela sua atitude honesta, Joaquim Vieira chegou a ser insultado de ‘mentiroso’ pelo Zé Manel, que sem licença lhe foi vasculhar a correspondência electrónica. O Tolentino, que se portou decentemente na informação envida para o jornal sobre o alegado espião de Sócrates na Madeira, morreu sem prestar mais esclarecimentos sobre o caso. É pena.

    Quando a inventona Belém-Público foi corajosamente denunciada a 18 de setembro de 2009 pelo DN, alegando interesse nacional, pois estava-se então em pré-campanha eleitoral e Belém recorria a acusações gravíssimas e falsas contra o governo de Sócrates, o Correio da Manhã perguntou a Vicente Jorge Silva o que achava sobre a divulgação do email do Alvarez. A resposta dele, a 19 de setembro de 2009, foi esta, que já aqui transcrevi a 3 de abril 2013 no post ‘Ainda sobre inventona de Belém’:

    Correio da Manhã – Como comenta a divulgação da troca de e-mails entre dois jornalistas do ‘Público’?
    Vicente Jorge Silva – Primeiro devo dizer que quando o ‘Público’ escreveu sobre o caso das escutas, achei aquilo inconcebível e disse-o. Não se faz uma coisa daquelas baseada em fontes anónimas e sem contraditório. Mas nunca pensei que um jornal em Portugal publicasse e-mails internos de outro. Fere os princípios mais básicos da relação entre órgãos de comunicação social. Acho um crime o que o ‘DN’ fez.
    – Se fosse director do ‘Público’ o que faria ?
    – Eu processava o ‘DN’. Estamos perante um comportamento pidesco. Espero que, por uma questão de seriedade pública, o jornal seja processado.
    – A nota de direcção do jornal alega interesse nacional para a divulgação do assunto. Então, não concorda?
    – Gostava de perguntar ao director do ‘DN’ qual é o seu conceito de deontologia e ética profissional. Vale tudo? É assim que se resolve as fracas tiragens?
    – Chegou-se a falar na possibilidade de o SIS estar envolvido na divulgação dos e-mails. Como comenta?
    – Já vi de tudo. Tudo é possível. Mas seria ridículo os Serviços Secretos servirem para isto.

    Ficámos assim a saber que o ‘grande jornalista’ Vicente Jorge Silva, se ainda fosse director do Público em 2009, teria feito o que nem o Zé Manel ousou fazer: processar o DN. Alegando o quê? Que a divulgação tinha ferido ‘os princípios mais básicos da relação entre órgãos de comunicação social’. E que princípios básicos eram esses? Não explicou. Referia-se talvez a princípios éticos, que não são leis cuja infracção justifique processos judiciais. Em todo o caso, o Público era e é useiro e vezeiro em atropelar princípios éticos e deontológicos, de que um óptimo exemplo é o próprio caso da escutas de Belém, como na altura provou Joaquim Vieira. A usar esse critério de Vicente Jorge Silva, o Público deveria ser processado quase todos os dias.

    Até à leitura desta entrevista eu queria acreditar que Vicente Jorge Silva, se fosse director do Público em 2009, não teria alinhado com Belém na invenção do caso das escutas. Após ler a sua resposta ao CM, fiquei na dúvida. Vicente Jorge Silva declarava na entrevista ter achado ‘inconcebível’ que o Público tivesse publicado os artigos (de São José Almeida e Luciano Alvarez) sobre as alegadas escutas, porque ‘baseados em fontes anónimas e sem contraditório’. Mas as ditas fontes anónimas só parcialmente o eram, porque se sabia que as informações provinham da casa civil da presidência da República. Só faltava lá o nome do Fernando Lima. Por outro lado, o grande problema dos artigos do Público não era o alegado anonimato das fontes, mas sim a falta de provas da grave acusação que a presidência fazia ao governo — uma simples ‘paranoia’ de Belém, como chegou a admitir privadamente o próprio Luciano Alvarez. Sobre o obsceno conluio de Belém com o Público revelado pela divulgação do email de Alvarez, Vicente Jorge Siva simplesmente recusou pronunciar-se, considerando-o assim um não facto.

    Perguntado pelo CM sobre se o ‘interesse nacional’ alegado pelo DN não justificaria a divulgação do email, Vicente Jorge Silva esquivou-se a responder à questão precisa, desviando a conversa para a deontologia e a ética profissional. O ‘interesse nacional’ é que teria de curvar-se à ética profissional, portanto.

    Sobre a acusação do Zé Manel de que o SIS estaria envolvido na divulgação do email, Vicente Jorge Silva até admitia essa possibilidade: ‘Já vi de tudo. Tudo é possível’. Nesse momento já nem o Zé Manel insistia na acusação ao SIS, que só durou 24 horas. A reforçar subtilmente a possibilidade de envolvimento do SIS, Vicente Jorge Silva tinha antes falado de ‘comportamento pidesco’, sem nomear nada nem ninguém.

    De tudo isto concluí eu que Vicente Jorge Silva tinha concepções muito peculiares de ‘ética profissional’, para já não falar da sua ideia de ‘interesse nacional’. Segundo ele, no segredo de um jornal podem cozinhar-se as piores patifarias (inclusive contra a ética profissional!), mas nenhum outro jornal tem direito a denunciá-las (por uma questão de ética profissional!), mesmo que no caso estejam envolvidos interesses superiores.

    Ainda há jornalistas competentes, honestos e corajosos em Portugal, mas Vicente Jorge Silva não era um deles. O coro de elogios fúnebres não me faz mudar uma vírgula no que eu pensava sobre ele.

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