Costa e a habilidade

Cavaco gravou num livro, em 2018, que Costa é “um hábil profissional da política”. Foi a forma que ele encontrou para lhe chamar cabrão. Mas em 2018 essa fama de Costa ser habilidoso já era um estafado bordão na retórica da direita, o substituto do “mentiroso” urrado sem parar quando se cagavam todos de medo ao ver Sócrates pela frente. Muito provavelmente, foi o Marcelo comentador que inventou o carimbo após as peripécias da luta entre Costa e Seguro para a liderança do PS; antes, ninguém tinha reparado em especiais habilidades de Costa, limitava-se a parecer competente. Depois ficou como eufemismo de trafulha para gasto com um alvo que não podia ser engolido pela indústria da calúnia.

No mundo feérico e obsessivo do comentariado, o termo ganhou estatuto de categoria hermenêutica, passando a ser uma forma de despachar crónicas ao metro. Há sempre alguém que imagina que existe um outro alguém preocupado com o que o primeiro alguém pensa a respeito do estado da suposta habilidade de Costa. E rapidamente o fenómeno se torna mágico, atribuindo-se à sua habilidade tudo o que pareça correr-lhe bem e, simetricamente, abrindo-se uma crise cósmica quando os acontecimentos põem em causa a incensada predestinação. Governo minoritário com apoio do BE e PCP? Habilidoso. Elogios da Europa às contas certas? Habilidoso. Recuperação do poder económico dos portugueses, explosão do turismo, défice zero, domínio nas sondagens, campeões da Europa e da Eurovisão? Super-habilidoso. Participação numa conversa privada com jornalistas depois de dar uma entrevista, quando era suposto nada ficar gravado, e participação como cidadão na vida de um clube de futebol? Temor e tremor… Que é feito do Costa hábil?

O comentariado vive de simplismos, caricaturas, deturpações, berreiro. Não poderia ser de outra forma pois estamos perante um estilo de entretenimento. Escreve-se e palra-se para plateias que se divertem a aplaudir e apupar. Mas não convidem esses bufões para cuidar da cidade pois adormecem nas muralhas ou aproveitam para vender entradas aos bárbaros. Marcelo é o exemplo supremo. Enquanto astro da TV acertava em tudo, tudo parecia fácil e cristalino no seu teatro. Escurecia-se o currículo onde era apenas mais um professor de Direito, e um viciado e vicioso jornalista de opinião, e onde tinha sido o tal falhado dirigente partidário e o tal falhado candidato à câmara de Lisboa. Os holofotes iam todos para aquela parte do palco onde imitava, com paixão e donaire, os políticos que arriscam coiro e reputação. Só que imitar não é ser, como ensina Platão. Assim que o Marcelo outra vez político apanhou uma tempestade gigante pela frente, em Março de 2020, mostrou o que era realmente: um general em quem não se pode confiar.

Já Costa viu-se coroado nos meses de Março e Abril. A direita ficou apopléctica com a visão do primeiro-ministro budista, seráfico perante a notícia de o mundo estar a desabar à sua volta. Ainda por cima, os números das infecções, mortos, vagas em hospitais pareciam não só controlados como muito melhores do que se previu no pânico inicial. Que era feito daquele Pedrógão vezes mil que estava prometido, perguntavam os pulhas? Para quando a boa nova do colapso do Serviço Nacional de Saúde e do horror a sair à rua, mordiam-se os canalhas? Não foi nada fácil para a direita decadente atravessar esse confinamento do seu ódio. E lá no fundo, porque os neurónios (ou falta deles) não dão para mais, também atribuíam à sua habilidade a roleta da propagação da epidemia em Portugal e a imagem de segurança e confiança que transmitiu em período tão original, angustiante e perigoso para a comunidade. Mas será Costa realmente esse portento de habilidade que os seus adversários agitam vencidos?

Vicente Jorge Silva pode ajudar-nos a encontrar a resposta. Em Novembro de 2017 deixou no Público a tese de que Costa não só atravessava um período de inabilidade extrema como talvez nem tivesse vocação para o cargo. O texto chama-se Que aconteceu a António Costa?, sendo banal na forma e torpe no conteúdo – excepção para a partilha da anedota onde se relata uma suposta conversa tida entre os dois em 2004, a qual teria levado Costa a declarar-lhe que nunca seria líder do PS nem primeiro-ministro (por não ter vontade, fica implícito no relato). Ora, sou comprador da veracidade dessa memória. Costa não parece ter a gana de querer atingir o topo da pirâmide, realmente, antes aparecendo como um fortuito líder que, com algum manifesto contragosto, se vê obrigado a dirigir as tropas. Essa tipologia concorda com o que todos vimos aquando dos movimentos para derrubar Seguro, em que começou logo por meter os pés pelas mãos com uma falsa partida, e depois com a campanha de merda que fez para chegar a secretário-geral. O mesmo perfil para os excessos emocionais que parecem absolutamente amadores, podendo calhar com jornalistas ou políticos. É como se ele não se importasse de regressar à função de tenente e aí descansar para não ter grandes chatices. Como se sonhasse todos os dias com o remanso de um gabinete pintarolas mas discreto, perdendo-se secretamente na contemplação das futuras sopas e descanso, mas leal ao grupo que aceitou chefiar e vestindo a camisola do serviço público até ao fim da missão.

Não querer o poder é um arcano sinal de vocação para lhe dar o melhor uso. Se for o caso, é quase perfeito. E, ironia suprema, talvez esse desprendimento pachola nasça de uma certa falta de habilidade para fazer das pulsões tribais o centro da sua vida.

10 thoughts on “Costa e a habilidade”

  1. EH PÁ, ESTOU DE “BOCA ABERTA”… SEM FÔLEGO, VALUPI…. É UMA PERSPECTIVA DO NOSSO PRIMEIRO MINISTRO QUE EU AINDA NÃO TINHA FEITO…E ANDAVA ÀS VOLTAS PARA JUSTIFICAR A “TONTICE” – ou não – DE ELE DECIDIR PARTICIPAR NA ESTÓRIA DAS ELEIÇÕES DO L.F.V….. Mas talvez também demonstre a tal coragem que ele tem de manter “a sua rota”, contra ventos e marés e que passa por “trabalho é trabalho e cognac é cognac”….

  2. Valupi: aquele diálogo infra, se calhar, eleva o nível baixinho do teu blogue e esse post trapalhão embrulhado em nada de substancial. Eu conheço a personagem quase uma década antes de 2004 mas só me foi dado a perceber o for-de-série que estava ali (missionário/imortal) quando o António Costa calçou os sapatos do defunto e, finalmente, se viu trajado de PM.

    Aliás, desde os fogos de Pedrógão, com o PR a meter-lhe a mão por baixo em troca da cabeça da incapaz ministra Constança Urbano de Sousa senão o governo do PS acabava ali mesmo e o Costismo batia com as nalgas no cimento, isto tem sido sempre um alegre passeio até morrer (como também dizia o Platão, aliás).

    Lê.

    15.09.20

    O apoio a LFV por parte de António Costa não foi um deslize motivado pela paixão clubística. Creio que é consensual afirmar que a astúcia política é umas das qualidades de António Costa; permitiu a um simplório pouco culto, sem capacidade de expressão, sem conhecimentos técnicos, sem percurso profissional fora da política, chegar a primeiro ministro e com ambições para ir ainda mais longe. Seria muito estranho que um tipo que só entende de chicana politiqueira, e vive desde sempre no meio dela, fosse agora cometer um disparate destes.
    A razão pela qual Costa se envolve com LFV é porque não quer que LFV caia do pedestal. Sabendo a regra em vigor em Portugal – dirigente de grande clube desportivo tem imunidade judicial, saindo do clube cai-lhe tudo em cima no dia a seguir – Costa está mesmo muito interessado em que LFV continue na presidência do Benfica. O grande medo de Costa é que, quando se começar a desatar o nó que é o percurso empresarial de LFV, quando se pegarem nas cerejas que são os processos em que está envolvido, não apareça lá pelo meio o nome de Costa. Costa tudo fez para que os processos em que o Benfica e LFV estão envolvidos não tivessem andamento. Chegou a respondeu com piadas quando foi interrogado sobre um deles.
    Para mim é simples: caem juntos, por isso vão agarrados até ao fim.

    15.09.20

    … a tal astúcia política é manha, tudo se resume a isso: pensava eu que durante este tempo todo em que o PM se tornou conhecido dos eleitores portugueses, em que o tipo esteve pela primeira vez sob os holofotes como artista principal digamos, esta sua qualidade que o tornaria num num messias para a Esquerda e num imortal para a Direita morreu mas ainda não foi enterrado, não de doença, mas por má figura. Vai para a vala comum, que Deus me perdoe.

    Nota. Isso de-de é conversa para tanguistas, sanguessugas do PS e meninos.

  3. Finalmente Valupi estás a pensar António Costa como realmente ele quase é mesmo. Houve tempo que tergiversaste algo substantivo sobre a persona António Costa.
    Mas AC é isso tudo e mais alguma coisa; ele será genuinamente como pessoa política aquilo que é normalmente no seu dia a dia como pessoa não política. Ou melhor dizendo, ele faz política tal qual ele é a fazer o que quer que seja de não político.
    Porque AC, ao contrário de ser “habilidoso” ou “manhoso” como o querem caracterizar os verdadeiramente manhosos e incompetentes pombas brancas pàfistas, tem as características pessoais únicas de fazer acontecer a política como ele vê que deve ser feita e merece ser feita para melhorar a vida dos seus compatriotas. E quando algo corre menos bem do que deveria correr sabe reconhecer, ser humilde, remodelar e reorganizar para que, segundo o seu modo de pensar de que tudo é possível melhorar, na próxima acção idêntica à falhada, haja melhoria visível nos acontecimentos; o caso dos ‘fogos’ e Pedrógão quase desapareceram da agenda mediática dos media sempre à cata do sensacionalismo conta o governo.
    Outro caso de índole genético é a sua coragem de temperatura mole em resposta aos que o atacam, mesmo quando, brutalmente. Nestas situações actua, brandamente, respondendo racionalmente aos brutos malévolos acusadores pelo exemplo; assim, ao narcisista megalómano juiz Alexandre que o queria ‘apanhar’ à força enredando-o no roubo de Tancos respondeu publicando as respostas no site do governo matando a farsa à nascença e depois dizendo-lhe que o Julgamento do roubo das armas se transformara no julgamento dos que tentaram recuperar as armas.
    O caso Sócrates é outro importante sinal de como Costa, tendo sido 2º homem do governo, se eximiu do caso pelo uso e apelo à justiça o que é da justiça e deixou os farsantes Alexandre &Teixeira a falarem e tratarem sozinhos e apenas de justiça; ele sabe da não culpa de nada de Sócrates mas pensa que a melhor forma de defender o seu antigo PM é deixar que os farsantes, uma vez que nunca encontrarão provas de qualquer acto corrupo, eles próprios se enredarão em qualquer processo que pretendam culpar injustamente um inocente.
    Desse modo, até hoje, ninguém ainda ouviu Costa inocentar Sócrates mas mais significativo é que também ninguém o ouviu culpar minimamente do que quer que fosse; uma coragem técnica à maneira dos resistentes anti-fascistas e anti-denunciantes perante a Pide.
    O Costa é daqueles raros homens que fazem acontecer as coisas como entende que devem acontecer e quando tal assim não acontece ele próprio toma o comando e faz que aconteçam.
    Eu conheci e fui sócio e amigo até à sua morte de um homem assim.

  4. Finalmente, para desanuviar, um excelente artigo de Valupi e um excelente comentário de José Neves. O Primeiro-ministro António Costa merece-os.

  5. há quem lhe chame “coveiro” , por causa de nunca ter morrido tanta gente como nos governos da geringonça.
    ui , não sabia que o pm tinha ensaiado a música da eurovisão e muito menos que tinha treinados os tipos da bola . parabéns , de facto , dominada muitas habilidades.

  6. A direitistas em Portugal sempre tiveram visão de merceeiros no raciocínio politico, na governação, e até nos comentários como por exemplo Pombas Brancas, Yo, etc etc …

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