Podia ser uma comédia se não fosse tão triste

«O ministro é evidente que se tinha que demitir, já vai muito tarde. Na primeira fase, quando começou com graçolas, percebeu-se logo que ele não tinha muita habilidade para fazer aquilo que fazia. Depois, com o conhecimento do memorando, nós ficamos a saber que o homem nem sequer sabia o que se passava no seu gabinete quanto mais nas Forças Armadas.»

[SIC Notícias]

«um ministro que diz graçolas do género "nem sei se houve assalto"»

[DN]

Pedro Marques Lopes

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Sou fã do Pedro. Vejo nele um autêntico liberal, de cepa clássica. Alguém que coloca a liberdade acima do sectarismo, do tribalismo, do egoísmo. Daí, conseguir ter a independência e a coragem para defender a decência e a comunidade bastando-lhe o critério da sua honestidade intelectual. Dado não passar fome, nem parecer ter problemas bicudos para desfrutar com os seus do conforto e segurança que lhe aprouver, corresponde ao modelo de cidadão descrito por Aristóteles como sendo o esteio do melhor dos regimes: aquele onde a classe média governa. Não faço ideia se o seu território de afirmação mediática iria resistir à entropia e dialéctica de um cargo partidário ou governativo, mas fica a bela esperança de que um dia façamos tal experiência; seja com ele ou com outro qualquer congénere.

Como admirador, tenho especial prazer em usar o seu exemplo para zurzir no espectáculo que começou a 10 de Setembro de 2017. Nesse dia, a TSF e o Diário de Notícias publicaram uma entrevista a Azeredo Lopes, feita por Anselmo Crespo e Paulo Tavares. Essa entrevista foi antecedida da publicação de textos de opinião de ambos os jornalistas onde optaram por um registo incendiário, sensacionalista e de ataque ao ministro da Defesa em cima do acontecimento. No decorrer da entrevista, esse clima de hostilidade, perseguição e acinte está presente na escolha das perguntas obsessivamente persecutórias de uma suposta responsabilidade política no caso, tendo acabado por gerar dois factos notáveis e com destino oposto. Um deles, a escolha do seguinte título: “”Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto“. O outro, a censura no DN a parte da entrevista onde o então ministro desmente uma mentira publicada pelo jornal. Quanto ao primeiro, tal lançou uma reacção de matilha onde se passou a caricaturar Azeredo Lopes não por causa das verdadeiras e contextualizadas declarações com as quais (duas, separadas na entrevista) se montou o título, mas por causa da intencional perversão sensacionalista da responsabilidade exclusiva dos dois jornalistas e do então director, Paulo Baldaia, ao inventarem uma sequência de frases que não existe na entrevista. Quanto ao segundo, nenhuma alma falou nisso, sendo eu, se calhar, uma das 5 pessoas neste planeta que conhece a inacreditável violação deontológica. É comparar: entrevista transcrita com entrevista captada (as declarações censuradas começam ao minuto 22:23 e vão até 25:05, buereré de caracteres). Sei bem que jamais alguém irá aparecer a justificar o corte, a começar porque também ninguém está para perder uma caloria com o assunto, mas seria lindo ouvir uma qualquer tanga a respeito por parte de quem assim decidiu.

O ataque a Azeredo Lopes passou a fazer-se quase exclusivamente, até à sua demissão e ainda nos comentários à mesma, usando a munição dada pelo DN a quem a quis usar. E todos quiseram. Todos. Porque era de um sarcasmo universal, permitia pintar o ministro como um tontinho que andava a apanhar bonés. E quem é que resiste a juntar-se a essa turbamulta que atira ovos e tomates aos malandros dos políticos, para mais apanhados num caso escabroso e inacreditável, ainda por cima socialistas e, para cúmulo, tendo andado pelos mares profundos da comunicação social armados em importantes? Pelo que se tornou obrigatório associar “Azeredo Lopes” e “Pode não ter havido furto” se algum macaco se lembrava de dizer coisas a respeito de Tancos. E quanto menos tivesse para dizer mais se agarraria à banana do Azeredo. No entanto, contudo, todavia, a tal entrevista dada à TSF e ao DN é um exercício de apurada racionalidade e sentido de Estado, mesmo de alta responsabilidade política, que o presente confirma e o futuro reforçará. Por cada novo dado que aumente a nossa incredulidade face ao que se passou, ao mesmo tempo aumenta a relevância do que o Governo, pela boca do ministro da Defesa, veio dizer aos cidadãos nessa ocasião. Recordemos os factos estruturantes desse sofisticado e poderoso acto comunicativo:

– Azeredo Lopes deu a entrevista na sequência de ter recebido as conclusões dos primeiros inquéritos dos diversos ramos das Forças Armadas e da Inspeção-Geral da Defesa Nacional. Ter falado antes seria irresponsabilidade. Não falar depois, estando o tema a ser usado como arma de arremesso contra o Governo e havendo uma necessidade política de dar explicações preliminares pela tutela, seria irresponsável.

– Azeredo Lopes descreve na entrevista o que fez dentro da sua responsabilidade governativa após receber a notícia do assalto. Nessa descrição, deixa a nu, para quem quiser ver, que Tancos faz parte de uma questão cuja profundidade e complexidade atinge o próprio regime. Ao mesmo tempo, e precisamente por causa da gravidade geral do problema que ultrapassa desmesuradamente a ocorrência do assalto aos paióis, transmite a mensagem de que o problema não se vai resolver numa legislatura, muito menos começando a disparar contra o Exército.

– Azeredo Lopes responde à acusação dos direitolas – e dos jornalistas úteis aos direitolas – de que Tancos pedia a sua cabeça repetindo rigorosa, zelosa e enfaticamente que a solução para a crise aberta pelo assalto iria passar inevitavelmente pela acção do Ministério Público. Com isso transmitiu outra poderosa mensagem, a de que o Governo não seria conivente com as diversas ilegalidades que vieram espantar a sociedade no episódio. Quem tinha roubado, e quem tinha ajudado a roubar, teria de ser apanhado e castigado. Mas não pelo ministro da Defesa – e também não pelos próprios militares. Algo tão sério como o que se via e entrevia carecia dos mais poderosos instrumentos policiais do Estado civil para impor a força da Lei. Um ano e pouco depois, o primeiro-ministro fez exactamente dessa mensagem uma bandeira que agitou no momento mais intenso do cerco a Azeredo.

– Azeredo Lopes, no auge do aproveitamento das potencialmente ambíguas declarações de Marcelo a respeito de Tancos, responde exemplarmente dizendo o óbvio. Hoje sabemos que Marcelo e Costa – e, muito provavelmente, uma boa parte das cúpulas das Forças Armadas – estão unidos no propósito de tratar esta questão com pinças. Pinças de titânio, mas pinças. Ou seja, é um trabalho de ourives (um broche, usando o vernáculo de caserna).

Parafraseando o último “Eixo do Mal”, quem está de boa-fé percebeu que o ministro da Defesa foi alvo de uma pulhice jornalística. Um ministro com currículo incomparável na forma como fez respeitar a Constituição e o Estado de direito democrático na relação entre o Governo e o Exército. Ora, com aqueles que estejam de má-fé não vale a pena discutir. Daí o meu interesse pelo Pedro Marques Lopes, no qual jamais acreditarei que ceda à desonestidade intelectual. E, não cedendo, segue-se que ele jamais conseguiria provar que o ministro da Defesa alguma vez disse “graçolas” a respeito de Tancos, tal não passando do resultado de as suas emoções estarem a distorcer por completo a sua capacidade analítica. Essa constatação surge como uma disfuncionalidade importante por exibir incoerência com os valores que o próprio assume e promove. Seja como for, o seu caso não é tão grave como o do Anselmo Crespo. O mesmíssimo Anselmo Crespo que entrevistou um ministro da Defesa só para o queimar, para mais nada que tenha remotamente a ver com a missão do jornalismo enquanto actividade que ajuda o público a descobrir a realidade. Este amigo, cuja expressão escrita é um festival de empáfia e piroseira assanhada, chega a 12 de Outubro de 2018, depois do tudo que se sabe dentro do tudo que se desconhece, e abre assim um Bloco Central:

«O azar do Azeredo. Podia ser o nome de uma comédia se não fosse tão triste e, sobretudo, tão grave. O ministro que depois do assalto aos paióis de Tancos teve pérolas como "Não tenho noção exacta do material que foi roubado" ou "No limite, pode não ter havido furto nenhum", só para dar alguns exemplos, saiu de cena. [...] O que Azeredo Lopes não faz, nem na hora da despedida, é reconhecer qualquer responsabilidade política neste caso. [...]»

6 thoughts on “Podia ser uma comédia se não fosse tão triste”

  1. Ó Valupi, mas daquela gente do Eixo-do-mal aproveita-se alguém? Ou do outro bando congénere de fedorentos?
    A clarinha parece uma maria vai com as outras e ou canta loas ou desfaz o ministro ou deputado com epítetos de troça. É sua prática habitual alinhar sempre na corrente de opinião politicamente correcto do momento mediático.
    E dum modo geral é esse o modelo da tactica utilizada por todos, uns mais que outros menos. Andam ao sabor da onda mediática; ser popular e servil ao dono compensa.
    No caso do PM Costa andam todos sempre à volta desta situação: num mau momento de desempenho roçam imediatamente pelo ataque velado ao PM mas logo que este dá a volta ao caso lá estão eles na apologia bacoca de que o homem é inteligente e parece um mágico, como se lhe referiram na última reunião do bando.
    Contudo nota-se uma vontade enorme, do todo no eixo, de minar a credibilidade da governação e do o PM em especial porque, como é habitual, neste tipo de grupos “intelectuais” de mentes prenhas de ego não pode haver gente mais sábia ou mais competente na política que as auto-convencidas mentes grávidas.
    Foi ele que afirmou convicto, nas eleições de 2011; ” não sei o que vai acontecer mas uma coisa sei de certeza que é; sei que Cavaco foi o melhor PM da Democracia portuguesa e que Passos vai ser muito melhor PM que Sócrates”.
    O PML é, tal como os outros do eixo ‘pensionista’ dos media e, como todos nessa situação, isso iníbio de ter opinião livre e ser isento.
    Como diz George Steiner, ” Intelectuais exaltados dançam como animais de circo mal os meios de comunicação lhes acenam com as suas remunerações”.
    Fica tudo dito.

  2. Ó Valupi, confesso que tenho dificuldade em perceber por que caralho é que entendes que gajos como o PML ou o Paulo Tavares merecem o beneficio da dúvida quando resolvem dar à estampa opiniões elaboradas em cima de permissas falsas. Então quem escreve num jornal, seja a que titulo for, não tem a obrigação de fazer tudo o que esteja ao seu alcance para verificar os factos sobre os quais elabora ?! Mais: achas que teria sido assim um incómodo tão grande para PML chegar à fala com meia dúzia de gajos que conheçam por dentro o funcionamento das casernas antes de ter atirado para a categoria de “anedota” a afirmação do ex MD quando disse que no limite nem sabia se teria havido assalto ? O que é que achas que, além da má-fé, pode autorizar os PML desta parvónia, a dar como provado a existência de uma assalto a Tancos ?

  3. esse pedro ´um palerma convencido, o eixo já não presta para nada ao tempo, parecem uns marretas.
    e o vieira da silva, com a cena das reformas que eram, mas não, talvez, depois, agora, onde estão as reformas??, ainda é pior que o azarado lopes.

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