Vamos lá a saber
Perguntas simples
De Portugal para a América: o caso para um segundo debate entre Kamala e Mike
Fazemos raciocínios motivados. A memória, automaticamente, selecciona a informação que nos confirma a motivação inicial. Protegemos, por vezes correndo risco de vida, uma identidade que nos pareça coerente ou importante para aqueles que nos são importantes. Donde, num debate, de qualquer tipo e sobre qualquer assunto ou assuntos, os vencedores no final tendem a ser os mesmos que já eram vencedores no início.
Por exemplo, para mim Kamala Harris transmitiu honestidade intelectual, genuína empatia, humanismo cidadão, entusiasmo democrata e capacidade de liderança. Enquanto em Mike Pence vi desonestidade intelectual, hipocrisia política, cinismo de Estado, profissionalismo sectário e mediocridade como líder. Estou a ser objectivo? Sim mas apenas para a minha motivação. É um maniqueísmo indulgente, para gasto imediato, posto que nada mais está em causa – para mim, agora – do que o espectáculo.
Kamala tinha o ónus de ser mulher, negra e desconhecida da enorme maioria do eleitorado. Mike tinha a vantagem de ser homem, irresponsável e artista evangélico. A fazermos fé nas sondagens da CNN quanto à aceitação de Kamala como eventual futura presidente dos EUA, a inevitável conclusão é a de que estamos perante um histórico triunfo para si e para os democratas.
Com a América nas mãos de um louco febril encharcado de esteróides, num ano louco com o Mundo mergulhado numa pandemia, daqui de Portugal faço um pedido maluco que espero chegue a quem de direito: que se troque um dos dois restantes debates presidenciais entre Trump e Biden por um inaudito segundo debate entre Pence e Harris. Assistiríamos em directo ao começo do fim do pesadelo da trampa.
Lapidar
«A direita americana (bem como a direita noutras paragens ocidentais) é hoje uma ameaça à democracia, à Constituição e à segurança nacional dos EUA.»
Os coveiros da democracia americana – Bernardo Pires de Lima
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Notas:
– O Bernardo não é de esquerda.
– O Bernardo não é socialista.
– O Bernardo não é socrático.
– O CDS poderia ter um líder como o Bernardo chamado Bernardo Pires de Lima mas esse partido prefere um líder como o Chicão chamado Francisco Rodrigues dos Santos.
– A direita poderia ter um líder como o Bernardo, alguém que até agora sempre se apresentou decente, culto e intelectualmente honesto no espaço público, mas nesse caso a direita teria de abandonar a sua decadência e Passos Coelho e Joana Marques Vidal ainda têm muitos cartuchos para gastar antes de a evidência se impor como destino: a pulhice da direita é a sorte grande do PS.
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Um homem apaixonante
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A imprensa censurou a manifestação do Chega “contra a pedofilia e a corrupção”. Nem sequer publicaram o resumo da Lusa. Toda a imprensa? Não, o esgoto a céu aberto noticiou e o Observador alimentou as suas milícias nas caixas de comentários com esta bela e imperdível nova ocasião para se agarrarem a Sócrates e Vara:

Aparentemente, vivemos num país onde só há dois grupos de líderes de opinião, tipologia onde se encontram todos os representantes políticos, jornalistas e comentadores com acesso aos mais poderosos meios de comunicação social. O primeiro consiste naqueles líderes de opinião que não têm opinião sobre uma manifestação onde um deputado acusa um cidadão de “pedofilia” e mais três de “corrupção” sem os seus alvos terem qualquer condenação relacionada com esse tipo de atracção sexual ou tipo de crime (“pedofilia” é um termo que não consta no Código Penal e Sócrates e Vara podem ser condenados por corrupção mas nem sequer sabemos, ao dia 5 de Outubro, se sequer serão julgados por tal). O segundo consiste naqueles líderes de opinião que gostam de ver um deputado acusar de “pedofilia” e de “corrupção” três dos quatro alvos porque odeiam esses três gajos e acham que a política se confunde com a pulsão tribal, que a política tem de ser uma guerra civil onde vale tudo e, em vez de balas e bombas, se usam tácticas de medo, promoção da segregação e discriminação, apelos à violência irracional, calúnias e golpadas.
Aconselho o visionamento do vídeo acima. Aguentá-lo do princípio ao fim, como TPC (trabalho para a coragem). É preciso ver, ouvir e intuir antes de pensar. O espectáculo não dá vontade de rir nem assusta, antes estimula o pensamento. Para quem não tiver paciência, mas ainda mantenha módica curiosidade, que gaste dois minutos nesta passagem onde Ventura reclama ser o representante do salazarismo e do Estado Novo. O problema não está no discurso lunático deste infeliz que atrai outros infelizes e miseráveis, está na lógica que valida a sua retórica. Os públicos a que se dirige andam desde 2008 a receber das fontes mediáticas que lhes entram em casa e no telefone a mensagem de que a classe política é corrupta, que a Assembleia da República é uma máquina de fazer leis que permitem aos políticos serem corruptos e que os políticos corruptos dominam as instituições da Justiça, daí escaparem impunes.
Não foi o traste do Ventura quem inventou esta estratégia de terra queimada, foram Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz, em tandem com a oligarquia rancorosa, para só nomear os generais. O fervor demente com que quiseram caçar Sócrates e vingar-se do PS levou a direita portuguesa para um combate político nunca antes visto na democracia pois usaram os poderosíssimos instrumentos policiais e judiciais para espiarem um primeiro-ministro em funções e condicionarem a liderança do PS abrindo uma frente judicial em cima do renovo da sua liderança e da entrada num ano eleitoral. O argumento de que a corrupção em Portugal é uma façanha exclusiva dos socialistas, e que a ausência de condenações é a prova mesma da existência de criminosos, foi uma diabolização que até serviu para justificar a traição de Passos Coelho ao bem comum e ao interesse nacional ao chumbar o PEC IV e ao afundar Portugal tendo a Europa pronta para nos livrar da devastação pretendida pelos ideólogos e predadores da “austeridade salvífica”.
Acima e antes de tudo, importa perceber que quando Ana Gomes clama contra as “roubalheiras” que lhe chegam à pituitária ela está a validar a bandeira do “fim da impunidade” passista que trouxe para a ribalta Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre. Importa perceber que quando Marcelo Rebelo de Sousa escolhe um caluniador profissional especializado em socráticos para representar oficialmente o regime se está a dar ao povo a marca d’água para acreditar na indústria da calúnia. Ventura não é um pedaço de bosta colado por azar na sola do sapato da República. Ventura é só a mais recente emanação, pese ser obscenamente pérfida, da mesma decadência em que a direita portuguesa se barricou por causa da paixão por um homem.
Começa a semana com isto
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Elliot Aronson é um dos mais importantes psicólogos contemporâneos, com especial relevo na área da dissonância cognitiva e do racismo. Na palestra que escolhi podemos ficar a conhecer o essencial da sua vida profissional e pessoal. Com estes dois bónus:
– Em relação a Trump, estávamos em Maio de 2016, esta mente brilhante engana-se com estrondo.
– Em relação ao que cada um pode fazer consigo próprio, este ser bem vivido deixa um luminoso tesouro de sapiência (com que termina a lição, antes das perguntas da assistência).
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Serviço público
Pela Liberdade e pela Democracia – chega do Chega! – Garcia Pereira
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Nuno Melo esbardalha-se todo contra Helena Ferro de Gouveia – a partir de 1:11:29
A TVI proporcionou perto de 40 minutos de original e preciosa educação cívica ao juntar uma das mais verrinosas e chicaneiras personalidades políticas com uma ex-jornalista que quase ninguém conhece (não me lembro de a ter ouvido ou lido antes, pelo menos). Para quem tiver o mínimo interesse em aprender a lidar com um fanático sem um pingo de honestidade intelectual recomendo este debate registado em vídeo. Não importa que Melo mantenha a pose até ao fim e se recuse a pensar no que lhe estão a dizer, repetindo a cassete contra o BE e a sigla LGBT, importa é a capacidade de Gouveia para expor as suas informações objectivas e ideias relevantes de forma clara para um público generalista. A sua segurança, descontração e domínio verbal foi quase sempre exemplar. À sua frente, o descendente dos Teixeira Coelho de Melo, antigos Senhores do Morgado da Falperra, reforçou a sua candidatura a um futuro ingresso no Chega.
Chamo a atenção para a parte, no final, em que o bestial deputado europeu se mostra baralhado com a possibilidade de se falar de cidadania e desenvolvimento a partir da ciência e do que nela se vai abrindo como investigação com implicações sociais, culturais e, portanto, políticas. A sua dificuldade nasce de ser profundamente inculto sobre matérias científicas em geral, e sobre ciências sociais em particular. Não está sozinho, diga-se em abono da verdade, é um traço transversal à direita política e jornalística.
Outro aspecto altamente valioso desta reunião consiste no confronto de dois catolicismos. Um, hipócrita e instrumental, de reles fancaria. O outro, genuíno, bondoso, cidadão. Helena Ferro de Gouveia, ao contar que as suas filhas tiveram educação sexual numa escola católica, está a dar uma imagem da comunidade religiosa com que se identifica que os próprios responsáveis religiosos máximos e intermédios não conseguem dar. Está a dar uma imagem da humanidade essencial do seu credo e da sua fé. Uma humanidade onde cabem todos, crentes e não crentes, mas onde não cabe Nuno Melo por se ter autoexcluído com medo de deixar de gostar de mulheres e passar a gostar de pessoas (sic e sick).
Joe Biden, my new hero
Não sei, não conseguiria sequer começar a explicar, por que razão o Partido Democrata não encontrou um candidato melhor do que Joe Biden. Contudo, e com tudo o que nele parece inadequado à função e à situação, desde o fim do 1º debate presidencial que o tenho como um genuíno herói norte-americano.
Quem tiver acompanhado a CNN desde a tomada de posse de Trump, a 20 Janeiro de 2017, que acredita com esperança renovada a cada semana estar por dias a iminente queda do clown. Essas doses de excitação e invariável frustração aguentam-se durante um ano, máximo dois. Depois temos de desligar e desaparecer dali pois só aumenta a perplexidade e derrelicção em que já estávamos. O que recordo e realço é isto: nem a CNN, que pôs a carne toda no assador de um posicionamento opositor à actual Casa Branca, conseguiu encontrar o caminho das pedras para converter os apoiantes de Trump. Aliás, nem sequer sabemos se o massacre mediático ao longo de quase 4 anos teve algum efeito nos indecisos. A avaliar pelo teste feito pela própria CNN após o debate, népias.
O mundo não estava preparado para o coronavírus e menos preparado parece continuar para a virose da trampa que ameaça afundar os EUA numa das maiores crises da sua História. A inacreditável conjugação de factores que se reuniu para permitir a eleição de Trump só é superada pela inacreditável estabilidade na sua base de apoio. Foi contra este fenómeno, que aparenta ser misterioso ao deixar baralhados os cientistas políticos e demais especialistas que não descobriram o antídoto, que Joe Biden se apresentou representando a racionalidade e a decência.
Aquele que poderá ter sido o pior debate presidencial de que há memória na América foi igualmente revelador do que está em jogo nesta eleição. Biden apareceu extremamente bem preparado para não se deixar apanhar nas provocações emocionais e com uma estratégia de comunicação com a audiência televisiva que seguiu na perfeição ou lá perto. Para lidar com o caudal de mentiras a opção foi a da tolerância zero, em cada ocasião repetindo até ficar com a última palavra que Trump tinha mentido. Já Trump não mostrou ter qualquer plano para além de insultar Biden e focar-se nas calúnias e ofensas aos filhos do seu opositor à mistura com clichés inanes. Daí ter perdido por completo o autocontrolo, passando a comportar-se como se estivesse num comício. Foi assim que acabou abraçado aos Proud Boys, graças à sua imbecil e debochada arrogância. Para quem precisava de conquistar indecisos, a sua prestação foi um desastre.
O aspecto mais interessante do ponto de vista antropológico, para mim, não o vi referido por ninguém; talvez por ter sido subtil. Aconteceu ao longo do debate quando Biden resistia às interrupções e passava ao ataque. O efeito foi o de efectivamente conseguir que ele se calasse e ir diminuindo a energia de Trump ao ponto de, lá para o meio do debate, até parecer que a alimária enraivecida tinha aceitado comportar-se à altura do acontecimento. Esta dinâmica gerou na minha percepção um efeito paradoxal, em que o protagonista com a imagem de maior fragilidade se mostrava muito mais forte do que a besta insana a poucos metros de si.
Depois do debate, Biden continuou sem convencer os comentadores. Achei injusto. E achei que nenhum deles teria conseguido sair daquela câmara de tortura com a dignidade e confiança que Joe Biden tinha mostrado ao enfrentar uma das maiores desgraças planetárias do começo do século XXI.
Ilíada, Canto IX, 438-43
Não custa a entender. Quem defende o ostracismo de Ventura, recusando dar-lhe atenção e palco, está cheio de boas intenções: limitar a sua influência, manifestar a repugnância que a sórdida figura suscita, evitar lutar com o porco para não ficar emporcalhado. Acontece que quem assim pensa está também a pensar mal.
A Odisseia é muito mais popular do que a Ilíada mas é nesta que se encontra uma lição política fundante e fundamental: aquele que é bravo na assembleia é valente na batalha – aquele que for bravo na batalha será valente na assembleia. A capacidade de tomar a palavra e enfrentar a ameaça de injustiça, como faz Aquiles na abertura do poema na cara de um rei, não é menos heróica do que a capacidade de enfrentar Heitor junto às muralhas de Tróia. As gerações que vieram a criar a primeira forma de democracia beberam desde o berço esta e outras lições – onde o falar livremente numa comunidade, de deuses ou humanos, era toda a civilização.
Se João Miguel Tavares merece ser uma das personalidades mais importantes do regime, tendo-lhe sido oferecida a raríssima e supina honra de presidir ao mais densamente simbólico dos feriados patriotas, por que razão se foge do Ventura alegando ser má companhia? Um e outro devem o seu sucesso exactamente à mesma fórmula, tentam ocupar os mesmos segmentos de mercado. Ambos viram uma oportunidade na decadência da direita, afundada na impotência e no ódio, e criaram marcas fortes e independentes. Um tornou-se caluniador profissional especializado nos alvos de quem lhe paga. O outro alinhou com Passos e serviu de cobaia para se ensaiar em Portugal o radicalismo da direita inimiga dos direitos humanos. Loures só foi uma derrota nas urnas, no plano da inovação política corresponde a um triunfo da fórmula pois vimos um presidente do PSD, ex-primeiro-ministro, a promover e consagrar uma cópia à portuguesa de Trump. O caminho que trouxe o Chega para os boletins de voto ficou então aberto.
O equivalente da sonsaria torpe do bracinho do Ventura a simular a saudação nazi numa manifestação encontra-se nos artigos e intervenções deste Tavares entretanto rico quando ensaia a defesa do Estado Novo e a diabolização do 25 de Abril debaixo de camadas de torpe sonsaria inspirada em Rui Ramos e quejandos. Ambos, André e João Miguel, comungam da visão intencionalmente mentirosa e alucinada em que a corrupção é a mãe de todos os males, em que quase todos (ou todos, depende do espectáculo) os políticos são corruptos e fazem leis para blindarem a corrupção na impunidade, em que o Estado não presta e deve ser reduzido à expressão mínima para não andarmos a sustentar madraços e estroinas, e em que só Passos Coelho e Joana Marques Vidal nos poderão proteger dos monstros socialistas que nos querem devorar. Os públicos a quem se dirigem são uma mistela de fanáticos, broncos e descompensados.
O Daniel Oliveira, por exemplo, entrevistou com gosto e compadrio o caluniador profissional. E ouviu dele, sem ripostar, a celebração da actividade criminosa no seio do Ministério Público ao serviço de uma agenda de perseguição política. Que razões terá para continuar sem convidar Ventura para o Perguntar não ofende quando estamos, como diria o Jerónimo, perante farinha do mesmo saco? Acaso Ventura não é interessante e importante por desvairadas razões ou sob variegados pontos de vista? Acaso os seus ouvintes não adorariam assistir à conversa sobre a podridão de Pedroso, Vara e Sócrates? Ou será que o Daniel teme ficar outra vez em silêncio face às barbaridades que saíssem do boca do seu entrevistado e, nesse caso, tal já daria que falar, e depois era chato?
Deixar o Ventura, um hipócrita que se desfaz com um sopro de decência e duas ou três noções básicas de História, sem contraditório, olhos nos olhos e de peito cheio, acaba por ser um monumento ao estado degenerado da sociedade. Uma sociedade que tem alinhado cobardemente com a violação do Estado de direito democrático ao serviço de vinganças oligárquicas e corporativas. Uma sociedade que aceitou ser cúmplice da pulsão do linchamento moral. Ventura nasceu nesse esgoto e foi subindo pela sua montanha de merda até conseguir empestar a Assembleia da República. O Portugal da indústria da calúnia sente que Ventura é um dos seus, e cala-se consolado. O Portugal que se respeita a si próprio mas que opta por fugir de um palhaço que nos quer fazer mal pagará o preço de não combater pela liberdade.
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Adeus, Quino!
A beleza da democracia é…
A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump vencer uma das americanas mais bem preparadas da História para a função de presidente dos EUA.
A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump ir para um debate na campanha da sua eventual reeleição e comportar-se como um pulha desvairado.
A beleza da democracia é a real possibilidade de um ser abjecto como Trump ser derrotado pela decência, pela liberdade e pelo instinto de sobrevivência da humanidade.
Aquelas três frases
Inês de Medeiros estava numa reunião da câmara. Um vereador do BE estava nessa reunião. Esse vereador fez uma intervenção onde introduziu na conversa a temática da beleza paisagística dos projectos de habitação social. Inês de Medeiros responde-lhe fazendo uma brevíssima-e-espontânea-e-irrelevante-e-natural-e-saudável referência à beleza paisagística dos projectos de habitação social, temática que tinha sido introduzida na conversa pelo vereador do BE. Escândalo.
Um demagogo profissional não deixará de aproveitar a ocasião para sacar o seu e despachar mais umas centenas de caracteres em 30 minutos de teclado e/ou ir para a TV fustigar a criminosa. E assim foi. Tudo bem, vivem disso. Mas a estupidez da perseguição, a ganância de transformar o humano no acéfalo, deixa ver o processo de atrofio sistemático da cidadania a que a comunicação social se entrega compulsivamente.
Em 2012, Maria de Lurdes Rodrigues foi chamada à Comissão de Educação e Ciência no Parlamento. Um deputado do PSD fez uma intervenção. Nessa intervenção introduziu na conversa, de forma acintosa, a referência à gestão da Parque Escolar como tendo sido uma “festa” de desperdício de dinheiros públicos. Na resposta, para se defender da calúnia, Maria de Lurdes Rodrigues usou o termo “festa” para o corrigir com a sua versão: «A Parque Escolar foi uma festa para o País, para os alunos, a engenharia, a arquitectura, o emprego, a economia. Fizemos escolas robustas, aptas para o futuro. Conseguimos crédito com juros de menos de 3% a 30 anos. Deixámos uma dívida boa.» Ainda a comissão não tinha terminado e já os demagogos profissionais espalhavam urbi et orbi que para esta odiosa socrática a Parque Escolar foi uma festa, obliterando o contexto e pondo a lenha toda na diabolização do alvo. Oito anos depois, a expressão está cristalizada no arsenal da chicana.
Azeredo Lopes nunca disse «Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto». O que ele disse foi “Não sei se alguém entrou em Tancos” num passo de uma entrevista para responder aos jornalistas. E também disse “No limite, pode não ter havido furto” num outro passo dessa entrevista, para responder aos mesmos jornalistas que o interrogavam sobre aspectos diferentes daqueles que geraram a primeira resposta. À volta dessas duas pequenas frases, deixou gravadas extensas explicações onde reconhecia a gravidade do caso, onde se comprometia em dar às autoridades todos os meios para a investigação da ocorrência e para reforçar a segurança das instalações militares, e onde reconhecia que naquela fase em que se estava não era possível ter qualquer certeza a respeito do que teria realmente acontecido, donde todos os cenários terem de ser admissíveis. Os jornalistas, com a aprovação ou inspiração do seu director, juntaram as tais duas frases pequeninas da sua predilecção e fizeram delas uma parangona gigante. Ou seja, criaram um acto de fala original e atribuíram-no ao entrevistado, sabendo que o iriam queimar. Só tenho pena que não tenham aproveitado a avaria para lançar um passatempo onde os leitores do DN eram convidados a enviar outros exercícios sensacionalistas seguindo o mesmo brilhante método da colagem de frases à Lagardère. Talvez acabássemos por descobrir que Azeredo Lopes igualmente terá revelado ao Anselmo Crespo e ao Paulo Tavares em que ilha açoriana o Elvis se encontra escondido.
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Aprender a ser humilde com Paulo Pedroso
Ana Gomes convidou Paulo Pedroso para fazer parte da sua campanha presidencial e ele aceitou. Entendo as razões do convite, e aplaudo-o, não entendo as da ligação do Paulo a uma candidata que representa as piores pulsões justiceiras de que o próprio é uma vítima já inscrita na História.
A minha mãe, a poucos meses dos 86 invernos, disse-me “Já tinha decidido que nunca mais iria votar, fosse para o que fosse, mas agora com a Ana Gomes a concorrer quero ir votar nela.” Esta cidadã, com a 4ª classe tirada numa aldeia durante o salazarismo e uma vida de serviço à família, não adquiriu competências e conhecimentos para teorizar a sua motivação. Mas ela, sem carência de inteligir a afectividade motora, está a reagir à marca da personalidade pública. Ana Gomes encena ter pureza moral, integridade inviolável, coragem heróica, fervor anticorrupção. As suas prestações mediáticas são invariavelmente exercícios de pathos em que repete os clichés dos populistas que vingaram como artistas da política-espectáculo num longo processo que remonta aos anos 80 e explodiu com a crise de 2008 e suas devastadoras consequências económicas. Basta um exemplo entre, literalmente, milhares: Ana Gomes diz que se candidata às presidenciais para limpar o país
O País está sujo, emporcalhado, fede, pois anda tudo a roubar menos a Ana Gomes, claro. E não só anda tudo a roubar como apenas se rouba porque eles, os políticos, deixam que se roube. Donde, basta colocar no lugar dos políticos quem odeie os políticos-ladrões para acabar a roubalheira; exactamente como promete, garante e afiança esta garbosa senhora disponível para passar com a esfregona nas fuças dos corruptos, esses porcalhões. É a mesma cassete do esgoto a céu aberto, do Pacheco, do presidente do 10 de Junho de 2019, da claque da Joana e do Calex, da comissão para o regresso do Passos, e ainda do tal Ventura que apenas tem de acelerar na autoestrada da pulhice que a indústria da calúnia foi construindo desde 2004 por causa de um certo Sócrates.
Não há quem se lembre de algo aproveitável acerca da corrupção saído da boca ou do teclado de Ana Gomes por uma simples e incontornável evidência: ela não tem dessa fruta para vender. Tal como os seus restantes colegas caluniadores profissionais, não estudou o assunto e tem alergia aos números. Aliás, quem pretenda singrar nesta carreira tão bem remunerada tem de ter o maior cuidado com as fontes e dados objectivos acerca da corrupção em Portugal. Há que fugir disso como o Diabo da cruz, a realidade só atrapalha e confunde o público. O que se pretende são títulos garrafais, escutas escolhidas a dedo e montadas à maneira, fotografias vexantes e a beleza daqueles videozinhos em que vemos a bandidagem a gaguejar ou a exaltar-se com os santos dos procuradores e suas convicções graníticas. A energia que Ana Gomes gasta a insinuar, ou declarar sem rebuço, que fulano não presta e beltrano é ladrão flui sem obstáculos e vai sempre em crescendo porque ela também tratou há muito de varrer os princípios da presunção de inocência e do direito a um processo justo para debaixo do tapete. Um outro tipo de limpeza, agora dessa tralha toda pela qual tantos deram a vida ao longo de séculos e séculos, portanto.
Nos últimos anos, no quase anonimato dos seus blogues, Pedroso tem sido capaz de fazer o que não vi ser feito por mais ninguém com a sua acutilância e autoridade – a denúncia da sistémica disfunção das magistraturas do Ministério Público e judicial de que resulta a violação do Estado de direito democrático pelo pilar do regime a quem é dado o poder de fazer justiça. Tópico que suscita indiferença a Ana Gomes, ocupada como está com os malvados socráticos e contas desse rosário. Os jornalistas censuram passivamente as palavras de Pedroso porque o sistema partidário, os Presidentes da República e os poderes fácticos censuram activamente o seu pensamento. O regime convive bem, e até mais do que bem, com o festival de se acusar um ex-primeiro-ministro de corrupção. Já não convive tão bem com o aborrecimento de se acusar um superbanqueiro de corrupção porque, lá está, o coitado nem sequer é político e foi generoso com tanta gente. Agora, pensar em questionar o mandato da Santa Joana ou em beliscar os superpoderes do superjuiz e seus clones, isso jamais. O episódio em que Costa chumbou a candidatura de Pedroso para o reingresso activo nas fileiras socialistas é uma lição paradigmática em que o cinismo de um bom líder convencional espezinha sem hesitar a lhaneza e parrésia de quem sofreu a desgraça da perda do bom nome. Razões de Estado, obviamente; estado da razão, consequentemente.
Por tudo isto, não entendo Paulo Pedroso. Mas compreendo-o quando se quer cumprir na sua liberdade. E então, para sempre agradecido e finalmente humilde, desejo-lhe boa sorte no combate implacável contra o absurdo.
“Isto também tem de ter um pouco de boa disposição”
Claro que o RAP não me quer convidar, sabe que levava a maior coça da vida dele. No dia a seguir ou aderia ao CHEGA ou desaparecia para sempre dos ecrãs. Nada de novo!https://t.co/Wzt9yBJNsK
— André Ventura (@AndreCVentura) September 22, 2020
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O Sr. Araújo tem nojo ou medo do Sr. Ventura? É o dilema com que ficamos depois desta entrevista: Por que é que Ricardo Araújo Pereira não convida André Ventura? No segmento disponível, o famoso humorista nada explica, preferindo voltar a chamar maricas ao deputado. Na resposta deste, acima em exposição, testemunhamos a regressão do igualmente famoso líder do movimento anti-anti-racismo para os 10 anos de idade; o que corresponde, com rigor estatístico, à média da idade mental da audiência e eleitorado que persegue.
Ventura tem tentado com insistência aparecer na pantalha ao lado do RAP, por motivos que não gastaria meia caloria a elencar e que são exactamente os mesmos que levam João Miguel Tavares a publicitar os almoços e visitas caseiras com a estrela fedorenta cobiçada. Acontece que a razão está do seu lado: o RAP tem, realmente, medo de levar a maior coça da vida dele. Porque estamos perante dois grandes cómicos, dois monstros da bazófia, e o espoliado do BES pressente que a força está com o rival.
Vejamos, o nosso Ricardo faz humor a partir de crimes de violação do segredo de justiça, aproveitando para os legitimar e expandir no dano potencial ao celebrar a exploração mediática da privacidade, e até da intimidade fragilizada, e espalhando e reforçando calúnias sobre os alvos. Esta é uma actividade a que se entrega na imprensa escrita e na TV com afinco e proveitos invejáveis. E o nosso André faz humor a partir da violação dos direitos humanos, permitindo-se gozar com qualquer valor e instituição que tenha relação com o cânon da tradição greco-romana, cristã, iluminista e liberal que sustenta aquilo a que chamamos civilização ideal ou ideal cívico. Esta é uma actividade a que se entrega com entusiasmo no Parlamento e na inerente projecção pública. Pois bem, qual deles tem maior probabilidade de receber umas festinhas no lombo dadas pelo líder da única superpotência mundial?… Estas merdas pesam na cachimónia do Pereira que ainda não tem dinheiro para comprar um porta-aviões.
Que RAP e André Ventura são competidores no mesmo campeonato foi atestado recentemente por outra grande figura da comédia, de seu nome Rui Rio. Ele actua em vários palcos, com um reportório por vezes original e, noutras vezes, originalíssimo. No final de Julho, realizou o seu mais hilariante espectáculo até à data, ao declarar numa entrevista que admite alianças com o Chega caso essa agremiação de mutiladores “evolua para uma posição mais moderada“. A gargalhada foi geral, foi homérica, e continua. Desde aí, o Ventura nunca mais deixou de agradecer a Rio o estatuto de parceiro desejado recorrendo a um estilo chunga de fazer corar pedreiros e estivadores. Ora, o actual presidente do PSD, indiferente aos piropos do seu futuro ministro da ciganada corrupta e mostrando que já é um especialista em humor twitteiro de qualidade mundial, ofereceu-nos o seu entendimento do que foi a convenção do Chega em Évora:
Pelos vistos, parece que a coisa esteve animada em Évora. Ainda bem. Isto também tem de ter um pouco de boa disposição, senão é uma chatice. 😺 https://t.co/P168cVbvAs
— Rui Rio (@RuiRioPSD) September 20, 2020
Castração química e física, prisão perpétua, pena de morte, ilegalização de partidos marxistas, limitação de cargos governativos a quem tiver nacionalidade portuguesa originária, desprezo pelas minorias, abolição de direitos individuais, imposição de um estado securitário e destruição de ovários, eis alguns dos tópicos que fizeram parte substantiva das conversas dos delegados e dirigentes presentes na convenção do Chega em 2020. Rio acompanhou os trabalhos à distância como bravo líder da oposição e fatal próximo primeiro-ministro que é. Dessa torre de vigia da República, do regime e da comunidade, analisou, interpretou, antecipou, ponderou, considerou, matutou e, no momento exacto, conseguiu decidir-se: ia mesmo terminar o tweet com o emoji, giríssimo, de um gatinho a rir.
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