Um homem apaixonante

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A imprensa censurou a manifestação do Chega “contra a pedofilia e a corrupção”. Nem sequer publicaram o resumo da Lusa. Toda a imprensa? Não, o esgoto a céu aberto noticiou e o Observador alimentou as suas milícias nas caixas de comentários com esta bela e imperdível nova ocasião para se agarrarem a Sócrates e Vara:

Aparentemente, vivemos num país onde só há dois grupos de líderes de opinião, tipologia onde se encontram todos os representantes políticos, jornalistas e comentadores com acesso aos mais poderosos meios de comunicação social. O primeiro consiste naqueles líderes de opinião que não têm opinião sobre uma manifestação onde um deputado acusa um cidadão de “pedofilia” e mais três de “corrupção” sem os seus alvos terem qualquer condenação relacionada com esse tipo de atracção sexual ou tipo de crime (“pedofilia” é um termo que não consta no Código Penal e Sócrates e Vara podem ser condenados por corrupção mas nem sequer sabemos, ao dia 5 de Outubro, se sequer serão julgados por tal). O segundo consiste naqueles líderes de opinião que gostam de ver um deputado acusar de “pedofilia” e de “corrupção” três dos quatro alvos porque odeiam esses três gajos e acham que a política se confunde com a pulsão tribal, que a política tem de ser uma guerra civil onde vale tudo e, em vez de balas e bombas, se usam tácticas de medo, promoção da segregação e discriminação, apelos à violência irracional, calúnias e golpadas.

Aconselho o visionamento do vídeo acima. Aguentá-lo do princípio ao fim, como TPC (trabalho para a coragem). É preciso ver, ouvir e intuir antes de pensar. O espectáculo não dá vontade de rir nem assusta, antes estimula o pensamento. Para quem não tiver paciência, mas ainda mantenha módica curiosidade, que gaste dois minutos nesta passagem onde Ventura reclama ser o representante do salazarismo e do Estado Novo. O problema não está no discurso lunático deste infeliz que atrai outros infelizes e miseráveis, está na lógica que valida a sua retórica. Os públicos a que se dirige andam desde 2008 a receber das fontes mediáticas que lhes entram em casa e no telefone a mensagem de que a classe política é corrupta, que a Assembleia da República é uma máquina de fazer leis que permitem aos políticos serem corruptos e que os políticos corruptos dominam as instituições da Justiça, daí escaparem impunes.

Não foi o traste do Ventura quem inventou esta estratégia de terra queimada, foram Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz, em tandem com a oligarquia rancorosa, para só nomear os generais. O fervor demente com que quiseram caçar Sócrates e vingar-se do PS levou a direita portuguesa para um combate político nunca antes visto na democracia pois usaram os poderosíssimos instrumentos policiais e judiciais para espiarem um primeiro-ministro em funções e condicionarem a liderança do PS abrindo uma frente judicial em cima do renovo da sua liderança e da entrada num ano eleitoral. O argumento de que a corrupção em Portugal é uma façanha exclusiva dos socialistas, e que a ausência de condenações é a prova mesma da existência de criminosos, foi uma diabolização que até serviu para justificar a traição de Passos Coelho ao bem comum e ao interesse nacional ao chumbar o PEC IV e ao afundar Portugal tendo a Europa pronta para nos livrar da devastação pretendida pelos ideólogos e predadores da “austeridade salvífica”.

Acima e antes de tudo, importa perceber que quando Ana Gomes clama contra as “roubalheiras” que lhe chegam à pituitária ela está a validar a bandeira do “fim da impunidade” passista que trouxe para a ribalta Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre. Importa perceber que quando Marcelo Rebelo de Sousa escolhe um caluniador profissional especializado em socráticos para representar oficialmente o regime se está a dar ao povo a marca d’água para acreditar na indústria da calúnia. Ventura não é um pedaço de bosta colado por azar na sola do sapato da República. Ventura é só a mais recente emanação, pese ser obscenamente pérfida, da mesma decadência em que a direita portuguesa se barricou por causa da paixão por um homem.

6 thoughts on “Um homem apaixonante”

  1. Atenção o Poder sempre andou de mãos dadas com a Pedofilia, tirem as vossas conclusões em relação aos anseios e objetivos do (A)ventu(R)as. A droga e o sexo com crianças praticado pela oligarquia e não só é triste e humilhante, mas claro é tudo às escondidas. Engraçado antigamente a pedofilia era permitida, agora os gajos devem fazer às escondidas e claro nunca são apanhados…. :P:D

  2. SÓ TENHO A DIZER QUE É ESTA SUA FORÇA ANALITICA E CORAJOSA QUE ME DÁ A CONFIRMAÇÃO DE QUE NÃO ESTOU SÓ NO QUE PENSO DA ACTUALIDADE POLITICA …. !

    …. Oh Daniel, então nem sequer a droga e a pedofilia são para si transversais à sociedade ???… Até isso acha que só é prática da “oligarquia?” ???

  3. “Não foi o traste do Ventura quem inventou esta estratégia de terra queimada, foram Ferreira Leite, Pacheco Pereira, Cavaco Silva, Passos Coelho e Paula Teixeira da Cruz, em tandem com a oligarquia rancorosa, para só nomear os generais.”

    Também o PS tem a sua, não pequena, responsabilidade na situação. Tivesse o PS reagido como lhe explicou pelo exemplo o Mário Soares, político batido nas golpadas políticas dos adversários (e também dos amigos ressentidos), nunca a situação teria chegado ao ponto actual.
    Contudo, para maior desgraça da política e nossa, o PS estava nas mãos de um trafulha aliado com os que queriam derrubar o PM para lhe suceder. Tal obrigou AC, posteriormente, a jogar à defesa com o “à justiça o que é da justiça”. Contudo, para o futuro do partido, teria sido sempre melhor que Costa tivesse de imediato travado uma luta sem desfalecimento pela honra do seu PM. Teria aberto os olhos de muita gente e diminuído, substancialmente, as possibilidades dos venturas.

    Mas a vida são como as coisas correram e não como deviam ter corrido. Assim de acordo com o acima transcrito e, putativamente, ainda hoje em dia é o slogan de que todos os políticos são todos corruptos que marca a fala política dos cafés, da taberna e muita gentinha letrada ressentida porque, afinal, a eles ninguém ainda lhes deu a oporunidade de ir ao pote.
    Alimentar continuamente uma ideia totalitária (todos são) isto ou aquilo é colocar o detonador numa bomba de destruição maciça ao retardador até que expluda nas próprias mãos.
    Pelo visionamento do vídeo salta à vista impreparada que o Ventura não faz outra coisa no seu discurso que vá além da repetição exaustiva desse tipo de slogan como, excepto ele e seus apaniguados, todos são “pedófilos”, corruptos”, “ladrões”, e cada um transporta consigo os três flagelos que infectam, corroem, adoecem, destroem e matam o país.
    Repare-se que para alem desses slogan repetidos e repetidos não há uma ideia, uma ideiazinha diferente para o país a não ser, como assinala o Valupi, remeter a sua ideologia política como herdeiros do salazarismo. E nesse sentido deixam claro ao que vêem e se propõem; chegados ao poder mandam prender todos os “ditos” corruptos, pedófilos, ladrões e, certamente, os discordantes de suas políticas.
    Note-se qual a sua noção de democracia; eles no poder “mandam” prender todos os diferentes ou que não são ou pensam como eles; logo eles dão ordens às polícias, à justiça, aos militares, à AR (aos políticos), às instituições.
    No fundo eles serão o Estado e os “ddt” inescrutináveis do país logo, serão por inerência os donos da corrupção, da pedófilia, da roubalheira total e oficializada.

  4. “Porque eu não estou aqui para enganar um, dois ou três! Eu estou aqui para enganar todos ao mesmo tempo, que é para isso que a fábrica me paga! Comprem, meninas, comprem as meias da marca ‘Corona’, que tapam da ponta dos pés até às bordas da co… mprem, meninas, comprem! Chega! Chega! Chega! Oinc! Oinc! Oinc!”

  5. ÚLTIMA HORA: O Ventura vai ser substituído na liderança do Chega… pelo José Gomes Ferreira. Zieg heil!

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