Todos os artigos de Valupi

Não é lenda

Durante longas décadas espalhou-se por Lisboa o boato acerca da existência de um fogareiro que fazia a corrida sem falar no Benfica, culpar Sócrates pela Guerra Colonial ou louvar a seriedade de Manuela Ferreira Leite. E, para alcandorar o boato à dimensão das grandes lendas urbanas, acrescentava-se que ele tinha o rádio sintonizado na Antena 2.

Pois bem, é verdade, o lendário chauffeur existe e cobra o mesmo que os outros. Pasmai, ó gentes!

Não se deve contrariar os malucos

O conflito entre o Ministério da Educação e os sindicatos dos professores tinha um único ponto de força para o Governo: a legalidade. Tirando esse último reduto, os sindicatos poderiam impor o que quisessem, pois tinham obtido a vitória completa no dia 27 de Setembro. Mário Nogueira disse-o à boca cheia desde 2008, assumindo que a luta dos professores seria instrumental para retirar autoridade parlamentar à reforma em curso. Sem maioria para o partido reformista, Nogueira ficava senhor da nova maioria irreformável, esse pardieiro de reaccionários que une o PCP ao CDS, o PSD ao BE.

Como decorre do acordo de princípios assinado, fica consagrado que, por princípio, a quase totalidade – ou mesmo a totalidade – dos professores vai ascender ao topo da carreira. Isso significa que a figura das quotas para as classificações de Bom é apenas um recurso destinado a tornear as normas da Função Pública. Como é óbvio, caso um professor fique mais de 3 ou 4 anos à espera, depois de obtida a classificação, virá logo para uma televisão denunciar a injustiça que se abate sobre o seu legítimo direito a progredir na carreira, ele que é um excelente professor Bom. Agora, multiplique-se por não sei quantos mil a situação, e volte-se a este acordo de princípios para antecipar o inevitável: toda a minha gente avança a alta velocidade para a remuneração máxima.

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Sinais interiores de riqueza

O interior do País está um luxo. Estradas impecáveis, casario renovado, parque automóvel de qualidade, comodidades e serviços urbanos, limpeza, tranquilidade. E fora o resto que só se vê na rede familiar ou de amigos: o recheio das casas, o estilo de vida, a educação, a segurança.

Sim, há pobreza em Portugal. Como nos Estados Unidos, em Inglaterra, em França, na Alemanha. Como em todos os países do Mundo. O que nem todos os países têm é a riqueza do nosso Interior.

Malefícios da fé

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Foi decifrado o texto em hebraico mais antigo que já se descobriu, datado do século X a.C.; portanto, escrito há 3.000 anos. Diz isto:

1′ you shall not do [it], but worship the [Lord].
2′ Judge the sla[ve] and the wid[ow] / Judge the orph[an]
3′ [and] the stranger. [Pl]ead for the infant / plead for the po[or and]
4′ the widow. Rehabilitate [the poor] at the hands of the king.
5′ Protect the po[or and] the slave / [supp]ort the stranger

Em português do século XXI, pode ser traduzido como:

Vamos cuidar dos miseráveis, mesmo que sejam estrangeiros.

É uma ideia inaceitável, não é?

Gente como Vara e Morais

O interesse que Helena Matos me desperta está directamente relacionado com a pulsão caluniadora a que dá largas. Trata-se do seu passatempo favorito, não perde uma oportunidade. Ora, caluniadores há muitos, mas nem todos são jornalistas e colunistas. Estes têm superior encanto, porque reclamam ter um pouco mais de credibilidade do que o fogareiro comum.

Veja-se este exemplo, onde Vara e Morais são apresentados como moralmente repelentes ou inequivocamente criminosos. Provas? Nenhuma. Factos? Nenhum. Indícios? Nenhum. Só a soberba calúnia. Porquê? Porque pode, porque eles não lhe merecem qualquer respeito, porque ela está do lado das forças do Bem e eles no lado do Mal.

Helena Matos oferece um perfeito retrato do que é a actual direita: um conúbio de calhordas.

Crise neuronal

Das inanidades que a inane direita reuniu para lidar com mais um daqueles momentos em que fica a ver passar a História, nada foi mais bronco do que se terem lembrado de protestar contra a conquista de um direito, que dignifica Portugal, alegando que essa aprovação iria desviar recursos do combate ao desemprego.

Desta crise neuronal, esta direita nunca irá recuperar.

Os professores é que a sabem toda

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Os professores são os maiores e contaram com o apoio do PCP, BE, PSD e CDS. Ganharam, claro. Agora já podem voltar para a depressão que arrastam há décadas.

Acabaram as excursões à Capital nos próximos tempos, acabaram os piqueniques e as algazarras, a juvenil folia de quem se acha no centro do mundo. Aguentem-se o melhor que puderem, e rezem para que a sociedade continue sem querer avaliar o que se passa nas salas de aula.

Voto inútil

O interesse em afastar Cavaco Silva de Belém não pode ser maior. A Presidência está conspurcada, falhou escandalosa e gravemente, tendo deixado de merecer a confiança do cidadão. A promessa eleitoral de contribuir para o bom governo da Nação com judiciosos, discretos e humildes conselhos vindos de uma mente brilhante em finanças e economia, que até suscitou críticas negativas da direita por receio de um apoio à perpetuação de Sócrates no poder, acabou em espionagem à moda da Madeira e spam conspirativo. Resultado: Cavaco não é parte da solução, é parte do problema.

Mas Alegre também é parte do problema, não da solução. A escolha do candidato presidencial do PS é um dos mais fascinantes problemas de estratégia política da década que acaba neste ano. Precisamente porque Alegre vai ganhando peso dentro do PS, captando a adesão daqueles que apostam na unidade da esquerda. Ora, tal intento é meritório, mas não é o único possível.

Alegre, face a tudo o que fez e deixou que se fizesse consigo até agora, não é o candidato do PS coisa nenhuma – é o candidato do Louçã. O BE vai apoiar Alegre porque é a forma de atingir o PS e sacar protagonismo, ao mesmo tempo que sobrevive numas eleições onde se arriscaria a desaparecer eleitoralmente. Daqui decorre uma outra consequência que desmente a promessa da unidade à esquerda: Alegre nunca será apoiado pelo PCP surgindo como candidato do BE. Donde, na 1ª Volta aparecerá um Jerónimo, ou um Carvalhas, a segurar o eleitorado comunista e a boicotar as candidaturas da esquerda. Só numa 2ª Volta o PCP apoiaria Alegre. Para o PS, estes prognósticos levam a constatar que o principal objectivo será o de levar o seu candidato à 2ª Volta. Este cenário ganha favor caso Cavaco se recandidate, pois não é crível que repita os números da sua eleição.

Há vários nomes que representam o melhor do PS, e em que votaria sem problemas de consciência: Jaime Gama, Alfredo Barroso, Maria de Belém; por exemplo, mas há outros. No Alegre não votarei, nem que isso implique mais desgraça cavaquista. Porque Alegre não foi leal para com o seu partido, e para com o Governo, nos momentos mais difíceis da difícil legislatura anterior – logo, não foi patriota. Ainda por cima, nada de nada de nadinha de nada do que Alegre diz, desde que ficou à frente de Soares, tem importância política. O homem está tão cheio de si que já nem o meu voto lá cabe.

Sócrates, o Responsável

Apesar da maioria parlamentar, o PS não viabilizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo na anterior legislatura. Porque tal não constava do seu programa.

Agora, o PS não quer viabilizar a adopção para casais de pessoas do mesmo sexo. Porque tal não consta do seu programa.

Caso Sócrates desse liberdade de voto, e a adopção acabasse por ser aprovada, a direita diria que Sócrates era o anticristo. Como impera uma lógica de responsabilidade, a direita diz que Sócrates é o diabo.

Entretanto, e pese embora a força dos corolários abstractos que decorrem da legitimidade para casar, a problemática da adopção por casais homossexuais pede mais tempo de investigação, mais reflexão, mais debate. Não há ainda informação suficiente na sociedade, nem na comunidade científica, para que esse passo seja dado com maturidade cívica. E há menores, à nossa guarda, que têm direitos.

A crise chegou ao Ponto G

O Ponto G desapareceu, foi o que uma investigação britânica descobriu fazendo perguntas a gémeas, pelo que se levanta um problema político: aceitarão as mulheres ficar espoliadas do misterioso e andarilho ponto?

Dr Petra Boynton, num inglês que qualquer português entende desde que saiba inglês, explica que a ela não lhe vão tirar o Ponto G. Porquê? Porque a sexualidade feminina continua a ser essa ilha dos amores, onde

Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.

(não, não consta que a senhora tenha alguma vez lido Camões)

Humano est

O ataque no Afeganistão que matou oito agentes da CIA, a segurança nos aeroportos que continua sempre a precisar de melhoramentos apesar do 11 de Setembro e o facto de os serviços secretos de meio Mundo não serem capazes de apanhar Bin Laden, eis a prova de que a imperfeição e o erro não desaparecem com a abundância de recursos humanos e materiais.

Os defensores da raça

No Luxemburgo, os portugueses mostram a sua raça. Uma raça de empregados de mesa, motoristas, porteiras, mulheres da limpeza, camareiros, pedreiros, empregados fabris, desempregados. Uma raça de manipulados pelos doutores que são patrões, directores, chefes, capatazes. Uma raça que cultiva a tragédia de não votar, ou de votar nos que desprezam o aumento da escolaridade obrigatória, nos que boicotam a avaliação dos professores, nos que odeiam o projecto Magalhães e nos que gozam alarvemente com o programa das Novas Oportunidades. Uma raça a carregar, desde que há memória, a pior das misérias: a desistência de si própria.

Muito gosta desta raça quem entende o exercício de oposição como uma luta sem quartel pela conquista do Poder.

Rastilhos

A Mensagem de Ano Novo do Presidente da República condensa os lugares-comuns da retórica da impotência, característica dos discursos da direita em geral, e do PSD em especial. Que sentido tem repetir maniacamente que há desemprego e défice demasiado altos? Acaso só a direita é que está preocupada? Será que o Governo ignora os números, esse mesmo Governo que reduziu o défice quando pôde e apoiou as vítimas da crise internacional quando foi necessário? Este alarmismo estéril e tóxico, nunca se comprometendo com alguma solução, manifesta a paupérrima qualidade intelectual e cívica que constitui a actual direita.

Mas o melhor do discurso de Ano Novo vem do reino da metáfora: situação explosiva. Coincidindo com o descalabro no BCP e BPN, finais de 2007, os círculos cavaquistas passaram a falar da ameaça de explosões sociais. A SEDES, no princípio de 2008, foi para a janela gritar que havia na sociedade um difuso mal-estar – isto é, que o relógio já estava em contagem decrescente para o grande peido. E em Junho desse ano sentiu-se o cheiro da pólvora, com o bloqueio das transportadoras, animado por um gabiru ligado ao PSD. Este quadro de ameaças vagas e crescente retórica catastrofista, misturado com apelos à intervenção presidencial, recolheu imediata adesão dos sectores da sociedade mais fragilizados cultural e cognitivamente, tendo sido transformado em estratégia política com os tópicos da política de verdade, asfixia democrática e medo.

Acontece que em Portugal as explosões sociais são um negócio do PCP. Eles é que têm as carrinhas, camionetas e camiões autárquicos, assim como uma base de dados nacional com os nomes dos revolucionários sempre prontos a largar o bulimento, ou a bisca deslambida, e vir até à Capital abrir o apetite com umas caminhadas avenida a baixo. Depois, chegam os manfios do BE, colocam-se no passeio sorridentes e fazem os directos para a TV. Uma explosão social bem organizada funciona assim – escusado será lembrar que as explosões socias desorganizadas não funcionam, isto é de lenina caprina.

Moral da história: os que à direita falam em explosões sociais mal conseguem conter o seu desejo que aconteçam, deixando-se apanhar a acender o rastilho. Ver o Presidente da República alinhado com esses irresponsáveis, só confirma que os mínimos para estar à altura da função há muito explodiram em Belém.

Aveiro Disconnection

Em qualquer democracia, a imputação de factos criminosos praticados pelo PM no exercício das suas funções é matéria de interesse público.

Paulo Pinto de Albuquerque

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Devemos fazer coro com os pulhas: o procurador e o juiz em Aveiro não são loucos, pelo que é inquestionável terem encontrado algo nas escutas a Sócrates que é do foro criminal, daí as certidões – logo, nós precisamos de saber o que se passou. Embora seja um infame sofisma, o argumento é inatacável. De facto, não é crível que os magistrados em Aveiro tenham enlouquecido aos pares, pelo que tem de existir uma racionalidade que justifique a tão grave decisão de imputar a um Primeiro-Ministro indícios de crime contra o Estado de direito. É neste ponto que os pulhas pretendem interromper o pensamento, apelando a que se faça o julgamento sumário do suspeito, com a consequente execução na praça pública.

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Abraços

Para o Carlos Santos, que devia ganhar o Prémio Revelação – Blogosfera 2009. As suas competências analíticas e expositivas, tanto no campo da economia como da política, aliadas à extraordinária capacidade produtiva, fizeram dele um sucesso instantâneo na primeira metade do ano. Depois, foi a consagração, tornando-se uma nemesis para a direita que aceitou debater com ele. Acresce ainda ser uma das mais simpáticas figuras no meio, sempre à procura de pontes de diálogo e cooperação entre adversários, e distribuindo esmerada educação e classe por onde passa.

Para o Eduardo Pitta, que celebra os 5 anos Da Literatura e faz uma declaração de independência que é um manifesto de cidadania. O Eduardo é também um dos mais prestigiantes fazedores de comunidade na blogosfera, citando frequentemente os textos e ideias que lhe merecem favor. Trata-se de um autêntico trabalho comunitário, e gratuito. Eis aqui o segredo para o tão adiado triunfo do comunismo: ter de ser espontâneo e nascer da imperativa liberdade de cada um.

Para o António Parente, que se lançou na criação e promoção da opinião social e política de inspiração cristã e católica. Se pensarmos que nem nos partidos da direita encontramos quem represente essa tradição milenar, mais importante fica o intento de contribuir com uma fonte de inteligência que é desconhecida da enorme maioria da população, mesmo daquela que vai à missa. Sim, a Igreja não se esgota no Papa, no Vaticano, no clero ou nos Textos Sagrados. Reduzi-la a essas entidades será pecar contra o Espírito Santo. E, aqui entre nós que ninguém nos lê, se há coisa que temos toda a vantagem em evitar é pecar contra o Espírito Santo. Quem tiver ouvidos que oiça.

Melhor de 2009

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Ganhou as eleições contra tudo e contra todos. Não há político tão investigado e devassado como ele, nem nada que se pareça com as campanhas de assassinato de carácter que lhe têm feito desde 2004. Foi vítima de uma armadilha como nunca se tinha visto por estas bandas, envolvendo juíz e Ministério Público de Aveiro. E aceita a responsabilidade de governar nas piores condições económicas em 80 anos.

Sócrates não é apenas uma força sem émulo na política actual, é também uma novidade amoral na cultura portuguesa. E, mesmo depois de cumprir o seu ciclo governativo, continuará a influenciar aqueles dispostos a romper com o marasmo e as pulhices que nos atrofiam.