O interesse em afastar Cavaco Silva de Belém não pode ser maior. A Presidência está conspurcada, falhou escandalosa e gravemente, tendo deixado de merecer a confiança do cidadão. A promessa eleitoral de contribuir para o bom governo da Nação com judiciosos, discretos e humildes conselhos vindos de uma mente brilhante em finanças e economia, que até suscitou críticas negativas da direita por receio de um apoio à perpetuação de Sócrates no poder, acabou em espionagem à moda da Madeira e spam conspirativo. Resultado: Cavaco não é parte da solução, é parte do problema.
Mas Alegre também é parte do problema, não da solução. A escolha do candidato presidencial do PS é um dos mais fascinantes problemas de estratégia política da década que acaba neste ano. Precisamente porque Alegre vai ganhando peso dentro do PS, captando a adesão daqueles que apostam na unidade da esquerda. Ora, tal intento é meritório, mas não é o único possível.
Alegre, face a tudo o que fez e deixou que se fizesse consigo até agora, não é o candidato do PS coisa nenhuma – é o candidato do Louçã. O BE vai apoiar Alegre porque é a forma de atingir o PS e sacar protagonismo, ao mesmo tempo que sobrevive numas eleições onde se arriscaria a desaparecer eleitoralmente. Daqui decorre uma outra consequência que desmente a promessa da unidade à esquerda: Alegre nunca será apoiado pelo PCP surgindo como candidato do BE. Donde, na 1ª Volta aparecerá um Jerónimo, ou um Carvalhas, a segurar o eleitorado comunista e a boicotar as candidaturas da esquerda. Só numa 2ª Volta o PCP apoiaria Alegre. Para o PS, estes prognósticos levam a constatar que o principal objectivo será o de levar o seu candidato à 2ª Volta. Este cenário ganha favor caso Cavaco se recandidate, pois não é crível que repita os números da sua eleição.
Há vários nomes que representam o melhor do PS, e em que votaria sem problemas de consciência: Jaime Gama, Alfredo Barroso, Maria de Belém; por exemplo, mas há outros. No Alegre não votarei, nem que isso implique mais desgraça cavaquista. Porque Alegre não foi leal para com o seu partido, e para com o Governo, nos momentos mais difíceis da difícil legislatura anterior – logo, não foi patriota. Ainda por cima, nada de nada de nadinha de nada do que Alegre diz, desde que ficou à frente de Soares, tem importância política. O homem está tão cheio de si que já nem o meu voto lá cabe.