Rastilhos

A Mensagem de Ano Novo do Presidente da República condensa os lugares-comuns da retórica da impotência, característica dos discursos da direita em geral, e do PSD em especial. Que sentido tem repetir maniacamente que há desemprego e défice demasiado altos? Acaso só a direita é que está preocupada? Será que o Governo ignora os números, esse mesmo Governo que reduziu o défice quando pôde e apoiou as vítimas da crise internacional quando foi necessário? Este alarmismo estéril e tóxico, nunca se comprometendo com alguma solução, manifesta a paupérrima qualidade intelectual e cívica que constitui a actual direita.

Mas o melhor do discurso de Ano Novo vem do reino da metáfora: situação explosiva. Coincidindo com o descalabro no BCP e BPN, finais de 2007, os círculos cavaquistas passaram a falar da ameaça de explosões sociais. A SEDES, no princípio de 2008, foi para a janela gritar que havia na sociedade um difuso mal-estar – isto é, que o relógio já estava em contagem decrescente para o grande peido. E em Junho desse ano sentiu-se o cheiro da pólvora, com o bloqueio das transportadoras, animado por um gabiru ligado ao PSD. Este quadro de ameaças vagas e crescente retórica catastrofista, misturado com apelos à intervenção presidencial, recolheu imediata adesão dos sectores da sociedade mais fragilizados cultural e cognitivamente, tendo sido transformado em estratégia política com os tópicos da política de verdade, asfixia democrática e medo.

Acontece que em Portugal as explosões sociais são um negócio do PCP. Eles é que têm as carrinhas, camionetas e camiões autárquicos, assim como uma base de dados nacional com os nomes dos revolucionários sempre prontos a largar o bulimento, ou a bisca deslambida, e vir até à Capital abrir o apetite com umas caminhadas avenida a baixo. Depois, chegam os manfios do BE, colocam-se no passeio sorridentes e fazem os directos para a TV. Uma explosão social bem organizada funciona assim – escusado será lembrar que as explosões socias desorganizadas não funcionam, isto é de lenina caprina.

Moral da história: os que à direita falam em explosões sociais mal conseguem conter o seu desejo que aconteçam, deixando-se apanhar a acender o rastilho. Ver o Presidente da República alinhado com esses irresponsáveis, só confirma que os mínimos para estar à altura da função há muito explodiram em Belém.

17 thoughts on “Rastilhos”

  1. tens razão dir-se-ia que há alinhamentos de forças aparentemente contrárias a suscitar a berlusconização cá do canto, soluções autoritárias, onde se acentua a ordem natural dos ricos e poderosos, das famílias, avillezzzes, dissimuladas e hipócritas. opus dei. Pó galheiro, isso vai tudo de revés!

  2. A proposito, vale a pena ler esta
    entrevista sobre a Revolução Republicana de 1910. O Fernando Rosas é um dos maiores conhecedores deste periodo e diz-nos alguns factos interessantes.
    Claro que a situação explosiva a que o PR se refere é uma bem diferente e que passa todos os dias no peak time televisivo, o wishfull thinking dos novos “gregos”, ex-irlandeses e ex-anti-franceses, ex-etc… Como diz aquele slogan mural “Não saiam de casa para não baixarem as audiências” A Grécia numa estação perto de si.

  3. Este blog é imperdível.
    Que a coragem não vos falte para denunciar toda a pouca vergonha de quem não se conforma em continuar na oposição.
    Ah “ganda” VAL.
    Igual ou tão bom como este blog são para mim “o jumento” e o “Corporações”, todos irmanados na denúncia das hipocrisias da direita (e não só…)
    Feliz 2010!

  4. Val:

    Como sempre os seus pots são de uma lucidez extrema. Da maneira que os relata e os que o contesta, estou sempre à espera que mais tarde o vão silenciar. Quando uma parte desses, queriam que você revelasse a sua identidade, morada, nº. Telemóvel e de bilhete de identidade, era para lhe mover um qualquer processo ou o tal silenciamento.

    Julgo que não faltariam pretendentes para esse efeito. Quando se mexe com o que eles julgam ser um direito seu, pondo na praça pública as suas tramóias, é preciso ter cuidado com eles, fera enfurecida não se sabe como ataca.

    Quando diz que nas manifestações o PC não se inibe de angariar pessoas para esse fim e com tudo pago, e o BE aplaude, eu posso testemunhar, já fui convidado para esse efeito, mas como na vida sigo os meus ideais, não me presto a este tipo de vassalagem.

    Estou convencido que Freeport – li na imprensa que a Moura Guedes tem mais “factos” – e o Face Oculta ainda vão dar muito que falar e escrever. Alguém está interessado em que este assunto não morra, que enquanto falam nele, os seus, estão adormecidos em qualquer gabinete de um Ministério Público, da sua cor partidária.

    Brinde-nos sempre com posts em que nos relate a podridão da direita ranhosa e da esquerda imbecil.

    O Francisco está todo aflito com o processo. Então tem medo das suas verdades. É o que acontece a quem fala de mais. Não nutro qualquer simpatia por Teixeira Pinto, mas tem de haver alguém que ponha tento na língua de Louçã.

    Continuação de bom ano para si e sua família.

  5. A situação explosiva deve derivar do facto da boliqueimada criatura se preparar para explicar os negócios que fez com a SLN. Todos, mesmo os ranhosos, vão confiar na perclara sabedoria do marido da D. Maria. para saber dos conhecimentos deste num negócio em que o estrago foi só (como vem no HOMEM AO MAR de MFerrer) nas equivalências abaixo:

    Com 9.710.539.940,09 € (NOVE MIL SETECENTOS E DEZ MILHÕES DE EUROS…..) poderíamos:
    Comprar 48 aviões Airbus A380 (o maior avião comercial do mundo).
    Comprar 16 plantéis de futebol iguais ao do Real Madrid.
    Construir 7 TGV de Lisboa a Gaia.
    Construir 5 pontes para travessia do Tejo.
    Construir 3 aeroportos como o de Alcochete.

    Para transportar os 9,7 MIL MILHÕES DE EUROS seriam necessárias 4850 carrinhas de transporte de valores!

    Bom Ano para todos, mesmo para os ranhosos que o não merecem.

  6. Qual é o sentido de repetir que a taxa de desemprego é alta e continua a subir?, pergunta o surpreso Valupi, mas certo de que tal repetição é um absurdo. Bem… Se calhar o rapaz até tem razão: realmente, que sentido existe em dizer-se algo que não é novidade nenhuma, em dizer-se algo que é uma «marca da governação falhada» do Pinto de Sousa, em dizer-se algo que constitui a essência da realidade sócretina, em dizer-se que esse desemprego constitui o sentido da sócretinice? Isso só faz sentido para os filósofos que andam à procura do sentido último das coisas, e que querem saber qual é, precisamente, o sentido do sentido. Este «eterno retorno do mesmo», como diria o outro irracionalista, não faz sentido nenhum…
    Por isso devemos falar é daquelas coisas que são novidades, que são diferentes, e que, por o serem, chamam a atenção das pessoas: falar daquilo que, por outras palavras, desvia a atenção das pessoas do essencial para o acessório e que não as confunde com conversa de filósofo. Por exemplo, por que não falarmos daqueles que insistem em falar do sentido obscuro das coisas e que nos querem fazer querer que está iminente uma explosão social? Espera aí! Mas isto também já não é novidade nenhuma, porra! Aqui o rapaz das aspirinas para adormecer as cabeças, está sempre a bater nessa tecla. Até já inventou uns conceitos para classificar esses sujeitos que incluem todos os que não são parte da substãncia sócretina: são os ranhosos e os imbecis.
    Moral da história: os sócretinos são uns sofistas incapazes de irem ao fundo das coisas. Querem fazer esquecer os ensinamentos de Sócrates, preferindo os do Sócretino, e por isso são incapazes de se conhecerem a si mesmos: porque se se conhecessem a si mesmos, se se recordassem da sua vida e discursos passados, saberiam que o combate ao desemprego foi a sua bandeira de campanha eleitoral, e saberiam que as suas cassetes sobre «modernismo» e sobre os «pessimistas» e «bota-abaixistas» já estão riscadas de tanto tocarem. Ser «responsável» é, nestas cassetes, não cumprir com as suas obrigações e compromissos….

  7. O Cavaco está com saudades dos velhos tempos, daqueles em que era ele o primeiro-ministro. Não que existissem situações explosivas, mas as pessoas, vá lá saber-se porquê, protestavam. E se ele gostava das manifestações daquele tempo, até as mandava filmar. Vai daí, apetece-lhe espicaçar a malta, é que se não fossem os professores a animar a coisa de vez em quando, isto era uma pasmaceira de meter dó.

  8. Realmente no tempo do Cavaco era outra coisa… Até os Varas andavam nos protestos e nos buzinões… E então o actual secretário de estado da economia? Esse andava a liderar as manifs contra as propinas, imagine-se! E quantos mais clones destes dois haverá?

  9. Primeiro tivemos espiões na Presidência, depois foi a pirataria informática e agora chegaram as situações explosivas. Estamos transformados num país de terroristas, está visto.
    É um futuro risonho à nossa espera: terrorismo português suave para entretenimento.

  10. O discurso é todo ele medíocre. Nada mais se podia esperar de quem tem tido o posicionamento que todos sabemos. Ficou claro também que em muitos pontos este discurso está alinhado com as diversas intervenções que a Sra. Manuela costuma fazer, e está dado o mote para as intervenções do PSD na discussão do Orçamento de Estado.

    O mais inacreditável, na minha opinião, é termos um presidente que nos diz, a finalizar o seu medíocre discurso: não tenham medo. (algo do género – dói mas depois passa)

    Achará este senhor que os portugueses são filhos dele ???

    Francamente…

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