144 thoughts on “Coisas que podem acontecer”

  1. Chegado de Cumprir o serviço militar em Angola, o meu pensamento deparava-se com a minha nova situação. Estive uns dias de férias, não tinha decidido se ia trabalhar para a mesma empresa. Um dia o meu pai disse-me se queria ir para a que ele trabalhava, que um dos administradores lhe disse para me fazer o convite. Resolvi aceitar, acima de tudo era uma empresa que já conhecia, foi lá que dei os primeiros passos da minha vida profissional. Tempos bons, eram os patrões que procuravam os empregados, que diferente é hoje, em que são os Centros de Formação Profissional a mandar uma carta para lá se apresentarem – dizem que não há fome que traga fartura – não vejo luz ao fundo do túnel, para resolver tal situação, a máquina revolucionou tudo. Tínhamo-nos que fazer à vida, não havia subsídios para nada, se é que a palavra existisse, ou seja, existir, existia, não era tão pronunciada. Hoje tudo pede subsídio; é o pobre, o rico, o empregado, o desempregado, o solteiro, o casado, o viúvo a viúva, o idoso e o jovem. Dos problemas que mais me preocupava era enfrentar a vida, não era fácil. Pensava em casar, tinha a noção que devia ajudar os meus pais que nessa altura bem precisavam. Em conversa com o meu pai ele disse-me se eu concordava em trabalhar para a casa durante um ano, depois ganhava para mim, para comprar a mobília. Para se arranjar casa havia uma certa dificuldade e as rendas um pouco caras, para o nível de vida praticado nessa época. Assim andei entre trabalhar, jogar futebol e os divertimentos, até que chegou o 25 de Abril. Fiquei apreensivo, de política percebia pouco, Não tinha contribuído para a eleição dos deputados da União Nacional. No comício da Oposição, em 1973 que se efectuou no Salão dos Bombeiros Voluntários de Lousada, ouvi comentários de alguns meus amigos, que lá foram como meros espectadores, levaram umas coronhadas, tendo alguns partido a cabeça, mas no dia das eleições, lá foram dar o voto aos seus agressores. Nessa altura andavam os senhores feudais, cá do burgo, de porta em porta a elucidar o voto na lista da União Nacional. Deixavam uns boletins, o meu logo que os senhores feudais foram embora, entrou no fogão que a minha mãe tinha acendido, para a confecção do almoço. A seguir ao 25 de Abril, o tempo era confuso, uma vez fui a casa da minha irmã mais velha, na Avenida Alvares Cabral no Porto e vi uma ocupação – de uma casa que estava desocupada – pelo MRPP/BR, não achei certo, mas que podia fazer, era o que estava na moda. Nesse tempo a minha terra era apelidada de comunista e por força de conversas e opção, o meu voto lá ia parar. Em Maio de 1975 casei, a minha esposa era empregada fabril, tinha um bom vencimento e juntamente com o meu fazíamos face à vida. Fomos morar para um bairro do patrão da minha esposa, a renda era acessível, mesmo assim em 1976, mudamos para uma casa dos meus sogros, pagava mil escudos por mês. Os anos iam passando a empresa onde trabalhava a maior parte das obras era para o Estado. Começou a haver uma crise, na altura pertencia à comissão de trabalhadores e juntamente com um dos patrões, chegamos a ter reuniões com as PMEs, mas não se solucionava nada. Para se aguentar e como a empresa tinha marcenaria e serralharia civil, uns recebiam no dia um, os outros recebiam no dia quinze de cada mês. Com isto se foi fazendo face a vários dilemas. A crise continuava e o dinheiro faltava. Foi feito um estudo pelos empregados com melhores posses, quando o dinheiro não chegava para pagar os vencimentos, recebiam mais tarde e com isto resolvia-se o problema dos mais necessitados. Há mais ou menos três anos a fábrica fechou. Lutou sempre com problemas financeiros, no seu fecho não ficou a dever um euro aos seus empregados. Senti uma grande alegria quando soube – deixei de ali trabalhar em Janeiro 1980, tomei outro rumo. Essa alegria é derivada a que o seu sócio gerente, Teodoro Pereira, por quem nutro uma grande simpatia e respeito, se opor sempre aos outros sócios que por vontade destes iam para a falência, não se importando com os empregados.
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  2. Continuação
    Em 1978 concorri a guarda da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, depois de prestar provas físicas, escritas e psicológicas, fui seleccionado. A 28 de Janeiro de 1980 tomei posse, – há datas que para mim ficam sempre na memória – neste dia fazia trinta e um ano de idade. Nessa época não havia, como condição, o máximo de vinte e sete anos de idade para se concorrer. A tomada de posse aconteceu no E. P. Coimbra, sendo director, Victor Brito. Sofri uma grande modificação na vida, quando era militar dizia que farda nunca mais. Passados uns dias estive para abandonar mas como tive sempre a oposição da minha esposa e não queria dar parte de fraco lá continuei. Notei que era tudo diferente do que imaginava. Para pior, tanto as condições físicas como humanas, para mais, nunca tinha entrado numa cadeia. A física era uma estrutura muito pesada, portões de ferro atrás de portões de ferro, é evidente que para este tipo de situação não havia outra alternativa. A humana julgava que as pessoas eram dotadas de outra formação, não quero generalizar, mas acontecia com uma boa parte. Passei a desempenhar serviço nas torres de vigilância que circundam o E.P., neste ponto estava melhor que os meus colegas que desempenhavam serviço no interior, ou seja, lidar directamente com os reclusos. No primeiro mês enquanto recebíamos algumas instruções – não havia cursos de formação, era uma espécie de atirar as pessoas às feras, género desenrasca-te – fiz uns serviços às obras, que era vigiar e acompanhar reclusos que estavam a restaurar a parte subterrânea do E.P., que antes um tempo tinha sofrido um incêndio. Lembro-me de uma vez um desses reclusos ser o famoso “Pistolas” tenho a dizer que era um recluso de fino trato, sempre que precisava de algo, dizia: o senhor guarda faz o favor de me acompanhar que preciso de ir a tal sítio. Não sei se era por ser novo no serviço, mas comigo aconteceu assim. Quando passei a fazer serviço às torres, chamada, “periferia” beneficiei da experiência do técnico-adjunto Crispim, que estava sempre pronto a nos explicar a melhor solução. Passado uns meses sofri uma redução no vencimento com a equiparação à P.S.P. para efeito de vencimento e outras regalias. Se não fosse a minha esposa também trabalhar, estava bem arranjado, não ganhava para as minhas despesas.
    Em Dezembro fui transferido para o E.P. Paços de Ferreira, aqui ficava mais próximo, em Coimbra estava a cento e cinquenta quilómetros, em Paços de Ferreira a onze. O E.P. era e é enorme, em comparação com o E.P. Coimbra, é maior e tem mais cimento armado e ferro. Havia menos disciplina os reclusos andavam mais à vontade e tinham acesso a quase tudo. Não era só da estrutura física, o E.P. Coimbra estava melhor concebido, o octógono controlava toda a circulação de reclusos; oficinas, recreios, balneários, refeitório, alas, obras e hortas. O E.P. Paços de Ferreira era mais abandalhado. Os reclusos eram alocados por alas, pisos, celas ou camaratas, se fosse primário ou reincidente, menor de dezoito anos ou de maior idade, – para estes efeitos era os dezoito anos – tinham livre acesso aos recreios tanto da ala A como da B. Nos princípios de 1981 o director, Miranda Pereira, foi nomeado Secretário de Estado do Ministério da Justiça, sendo Ministro, Meneres Pimentel. Para coadjuvar o E.P. veio o Dr. Avelino Marques, que dirigia o E. P. Santa Cruz do Bispo, a partir daqui é que foi a rebaldaria total. Um dia um recluso pôs termo à vida, “enforcou-se” como forma de protesto, na hora da segunda refeição, quando me encontrava com mais dois guardas no refeitório, uns poucos de reclusos, à sua frente vinha o Delinger, deram cabo dos recipientes com sopa que estavam distribuídos pelas mesas, tendo-me atingido. Não se tomavam medidas, estávamos a ser enxovalhados na nossa dignidade e profissionalismo. Fomos informados que ao outro dia os reclusos se preparavam para uma greve geral e tinham ameaçado os reclusos cozinheiros, para não confeccionar qualquer tipo de refeição. Nessa manhã só foram abertos os reclusos que laboravam na cozinha e a primeira refeição foi distribuída nas celas. Ainda de manhã, começou-se a ouvir um barulho ensurdecedor, como o bater com objectos nas portas, não se podia aguentar tal coisa. Sabíamos quem eram os cabecilhas, falou-se com o director para se tomar medidas para os isolar, parecia o PREC, não se tomava qualquer solução, o que viemos por nossa iniciativa, a pôr termo a tal anarquia. Remédio santo a partir desse momento reinava a paz, o nosso respeito e profissionalismo voltou ao normal. Nestas situações são meia dúzia deles que querem a confusão, os restantes, desejam que os deixem em paz com a sua condenação. Nessa altura trabalhava no posto de rádio, numa escala de quatro dias de trabalho e dois de folga, juntamente com o guarda Monteiro, quando era preciso fazíamos outros serviços, como render um guarda em qualquer posto de serviço, fazer uma diligência, etc. Um dia fui escalado pelo chefe de guardas, para fazer uma diligência, ao Centro de Saúde Mental, na Rua do Bonjardim no Porto, com um recluso. A viatura usada nessa diligência foi um Mercedes, tipo turismo, bastante velho, que saía só em casos excepcionais. Nela seguia o guarda motorista, eu, outro guarda e os dois reclusos. Levaram-me primeiro ao Centro de Saúde Mental, tendo seguido, o motorista, o outro guarda e recluso para tribunal Judicial de Matosinhos. Na recepção tratei da papelada, de seguida dirigi-me para um local de fraco acesso, só com uma porta, encontrava-se lá uma senhora, disse ao recluso para se encostar a um canto, ficando eu de frente da porta. Passado uns minutos e para meu espanto está um sujeito de boné, com uma pistola apontada a mim, tendo essa pessoa dito, Domingos, vamos. Foi uma confusão tremenda no Centro de Saúde Mental. Dirigi-me para a porta com o intuito de seguir no rasto deles, quando verifico uma viatura a arrancar com mais pessoas lá dentro e seguir em direcção à praça do Marquês – a rua era só de um sentido. Através do telefone do Centro, foi dado conhecimento à P.S.P., tendo comparecido no local um carro patrulha que tomou conta da ocorrência. Contactei o E. Prisional, dando conta da ocorrência, disseram-me que tinha de esperar pela viatura que me tinha transportado e que se tinha deslocado para o tribunal de Matosinhos. Chegado ao E.P. fiz a devida participação dizendo que a pessoa que me apontou a pistola, tinha estado a visitar o recluso no sábado anterior. Mais tarde foi apanhado pela Policia Judiciária, fui chamado a fazer um reconhecimento e de entre várias pessoas reconheci-o. No julgamento, o juiz perguntou-me se afiançava com toda a certeza se era ele. Respondi que tudo foi numa fracção de segundos, que há muitos sósias e por esse motivo não podia dizer com toda a certeza que era ele, mas que as semelhanças eram as mesmas. Julgo que não foi condenado.
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  3. Continuação
    Os dias iam decorrendo, só Deus sabe como me sentia, parecia que via nos meus colegas uma certa satisfação pelo que me aconteceu. É nomeado um instrutor. No dia vinte e seis de Outubro se a memória não me atraiçoa, estava de serviço no posto de rádio e recebo uma chamada pelo telefone interno, do guarda Valente, desempenhava serviço na Portaria, para o render que precisava de se deslocar a uma secção administrativa para tratar de um assunto de serviço, perguntei-lhe se tinha sido comunicada a rendição ao chefe de guardas, o que me foi dito que sim. Dirigi-me à portaria, foi-me transmitido o serviço, estavam ali umas pessoas há espera de serem atendidas, disse-lhes para aguardarem numa sala, que era utilizada nos dias de visita, para revista às do sexo feminino. Fui correspondido por todos, só um advogado que estava à espera de ser atendido por um Técnico de Educação, deixou-se ficar no mesmo local. Como usamos um certo fair-play para com esta classe não insisti. Passado um pouco dirigiu-se à portaria um Técnico de Educação para falar com o dito advogado, abri o gradão, não era chapeado, tinha-se visibilidade para a parada que fica entre a portaria e o edifício administrativo. O Técnico de Educação começou a falar com o advogado por entre o gradão, nesse momento, vim abri-lo para lhe dar passagem. O gradão estava semi-aberto, tinha a chave na fechadura, aguardava que o Técnico de Educação entrasse no recinto da Portaria. De repente surgiu um recluso de nome “Manel Tedyboy” que de pistola em punho, me mandou encostar à parede assim como o educador e advogado, ainda fiz um gesto, levei uma coronhada nas costas. De imediato surgem mais dois reclusos Raul e Didier, este de origem francesa, revistaram as gavetas da secretária não tendo encontrado nada de seu interesse. Nesse momento vem o guarda Valente para a portaria e quando se apercebe do sucedido vem para fazer frente aos mesmos, mas é intimidado, mesmo assim começou a berrar para a torre nº. 1, dando conta do sucedido, o guarda da torre não reagiu. Saíram os dois, Raul e Didier da portaria logo seguido de Tedyboy, nesse momento fui ao armeiro buscar uma G3 – nessa altura na portaria era só um guarda que prestava serviço e desarmado – com o intuito de os apanhar no exterior. Ali chegado, vejo que os mesmos iam dentro dum táxi – estava próximo da portaria com as chaves na ignição – a uma distância de trezentos metros, fiz fogo para o táxi, nesse momento vem uma viatura em sentido contrário, o que me levou a suspender a acção, com receio de a atingir. Se a minha situação profissional já estava num caos, a partir daqui piorou e de que maneira. Os guardas a quem tinha por amigos, olhavam-me com desconfiança, só o Subchefe de Guardas, Gonçalves, veio estar comigo e disse defenda-se, não confie em ninguém. Fiz a participação relatando toda a ocorrência, o Chefe de Guardas nem tão pouco me perguntou como aconteceu. Nos dias seguintes não saía de casa, a não ser para ir trabalhar. Os meus colegas extra trabalho, vieram um dia a minha casa, para ir com eles dar um passeio, só me refugiava em casa. Um dia numa dessas saídas, num café, alguém insinuou pondo em dúvida a minha seriedade, disse-lhe se voltasse a pronunciar o mesmo lhe partia os dentes todos. O meu pai veio estar comigo, dizendo se eu não tivesse a vida à feição, me emprestava dinheiro para me estabelecer na minha antiga profissão, não aceitei, enquanto o processo não estivesse concluído não me demitia, depois se veria. Se precisasse de trabalho tinha os meus antigos patrões, quando me fui despedir disseram-me que tinha sempre as portas abertas. Foi nomeado como instrutor o “Capitão” Aguiar, Técnico Superior de Vigilância, desempenhava funções no E. P. Porto, o que para mim foi bom, não confiava no primeiro e este vinha de outro E. P., não havia intimidades. Nas declarações prestadas fiz valer a minha inocência. Também fui ouvido pela Polícia Judiciária, salvo erro pelo inspector Edgar e dois agentes que o acompanhavam. Numa dessas inquirições um agente insinuou que estava combinado com o recluso Domingos, – o da fuga do Centro Saúde Mental – pelo motivo de morarmos na mesma terra. Disse ao inspector para dizer ao referido agente, que moderasse a linguagem, senão não respondia por mim e que não mamei do mesmo leite que ele, tendo o inspector e agente saído da sala. Passado uns minutos só entrou o inspector. Quando me sinto com razão não há ninguém que me cale, dê para o que der. Contudo o inspector disse-me para acusar o Técnico de Educação, disse-lhe que não o fazia, porque não tinha bases para tal, o inspector disse-me que depois me oferecia os dados. Respondi sempre que não, que ele podia estar inocente como eu. Depois do processo concluído, falava-se que o Técnico de Educação, esteve em França, a passar oito dias de férias em casa dos pais do Didier. Assim como a pistola veio dentro de uma televisão destinada ao recluso Tedyboy. Mais tarde fez-se o espólio dos reclusos, ao Tedyboy, faltava-lhe certos valores, entre os quais um casaco de antílope. Nesse vai e vem continuava serenamente no meu serviço e um dia veio o recluso José Maria, “ O Máquinas” dizer-me que tinha um abaixo-assinado de reclusos, a provar a minha honestidade e dedicação ao serviço, disse-lhe se tivessem consideração por mim que o rasgassem. Assim como o recluso Fernando “China” me disse, – estava próximo da liberdade – que me deixava a sua direcção, para ser minha testemunha, que avisou o Chefe de Guardas do que estava a ser planeado e como recompensa, foi mandado de castigo para o Pavilhão de Observação. De facto, nesse dia foi armado um alvoroço no recreio de uma das Alas, tendo-se dirigido para lá o Chefe de Guardas o que era raro acontecer, dificilmente ia à zona prisional. Quando tomei conhecimento da conclusão do inquérito, era o que esperava. Fui declarado inocente, tendo o Chefe de Guardas sido aconselhado a pedir a reforma antecipada ou compulsiva. O guarda que prestava serviço na Lavandaria, era onde prestavam serviço como faxinas, o Raul e o Didier, não tinham que estar na zona da Administração, assim como o guarda de serviço ao portão do Corpo Central e Administração, foram multados, numa pequena quantia em dinheiro, para mim, os dois últimos estavam inocentes, era assim que se desenrolava o serviço diariamente. O recluso Tedyboy todos os dias se dirigia ao Gabinete da Chefia da Guarda, para levantar os jornais diários destinados à Biblioteca dos reclusos, estava superiormente autorizado era ali faxina.
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  4. Continuação
    O E. P. entrou na normalidade, a partir dessa data na Portaria, passou a ter dois guardas ali de serviço, na parte diurna à noite era só um, assim como na Administração e Corpo Central. Mas faltava iniciativa. Tinha proposto e dei início a umas transformações – anotar numa folha a entrada e saída dos reclusos – mas não eram aceites pelos guardas e a chefia também não se opunha, dava mais trabalho. Um dia, um recluso impedido na Oficina de Mecânica – era aberto mais cedo para tratar das viaturas que de manhã saíam para os vários serviços – a meio da manhã, não se sabia do recluso, se ele estava para a Zona Prisional ou por onde andava. Perguntava-se ao guarda da Administração não sabia se tinha passado ou não para a Zona Prisional, perguntava-se ao do Corpo Central a mesma coisa. Perto do meio-dia recebeu-se um telefonema do pai do recluso para o irmos buscar que se encontrava em casa. Feitas as averiguações confessou que se meteu na parte debaixo do autocarro do E.P., que todos os dias transportava os alunos para as escolas em Paços de Ferreira.
    O ambiente entre reclusos decorria bem, entre trabalho e lazer. No trabalho faziam-se boas mobílias, bom artesanato, nos dias de visita eram colocadas na Portaria em exposição. Na cantaria fazia-se fogões de sala, jazigos para cemitérios, na serralharia, portões, gradeamentos e um sem fim de outras coisas, na sapataria além dos consertos, também se trabalhava na cosedura manual de sapatos, para fábricas de calçado. No lazer realizavam-se jogos e torneios de futebol, com equipas do exterior. Diziam os reclusos que sabia bem este tipo de convivência, era uma lufada de ar fresco que entrava no E. P., grandes jogadores que lá foram jogar; Fernando Gomes, Jaime Pacheco, João Pinto, etc., etc. Nunca houve problemas, nestes dias eram os próprios reclusos que se guardavam entre si. Ai daquele que armasse confusão. Na população prisional havia de tudo, aliás lá dentro, é um pouco da sociedade cá de fora. Há o intelectual ou que se julga ser, o analfabeto, o remediado e o menos remediado, com menos e mais instintos, o reguila e o saloio. Contam as mais disparidades, assim como outras mais reais. O Jaime “Cristo Rei” tem esta alcunha porque o tentou vender a umas turistas espanholas com uma certa idade, o Simplício que era um carteirista profissional dizia que até aos familiares roubava a carteira para se treinar, o Vitorino que quando veio pela segunda vez preso disse, “ouvia os meus colegas contar como faziam que, na primeira vez que os tentei imitar, fui logo preso”. Tem que se ter queda. Outro que se fez de padre, no dia de Páscoa andou com o compasso, de porta em porta, numa freguesia do distrito de Vila Real. Um dia pediu o carro ao padre e nunca mais apareceu. Fez-se de filho de um ministro, pediu dinheiro emprestado, nunca mais o devolveu.
    Na parte profissional no que me tocava as coisas corriam bem. Fui nomeado para representar a comissão de Guardas, era uma espécie de delegado sindical, tratava de angariar sócios, receber as quotas. Conseguimos a legalização do sindicato, que ficou com as siglas de S.N.C.G.P., deu-nos bastante trabalho mas conseguiu-se. O primeiro presidente foi o Tenente, Vieira, Coordenador de Vigilância no E. P. Coimbra. Houve uma ruptura com os guardas e desde aí só fazia parte do sindicato quem fosse guarda. Foram marcadas eleições, ganhou a lista do Guarda Rogério, também fazia parte dessa lista, entre vários. Marcaram-se reuniões com o Director Geral, Castelo Branco, eram reuniões tensas, não se conseguia nada, um dia de manhã quando se dirigia para a Direcção Geral foi assassinado. Sentimos pena, a vida tinha que continuar. Foi nomeado Director Geral o Dr. Fernando Duarte. Aqui as nossas revindicações começaram a ser aceites; subsídio de renda de casa – havia guardas que tinham casa do Estado, a maioria não. Transportes gratuitos -vários guardas foram detidos por se negar a pagar, ganhamos todos os processos. Promoções na carreira – todos os guardas eram iguais, foi criado o posto de Guarda Principal. Pagamento de horas extras – O horário era excessivo. Estas regalias foram fruto de todo o sindicato, mas aqui quero ressalvar o nome do guarda Ramiro Coutinho, que foi de uma voluntariedade a toda a prova, sem ele o sindicato não era nada, nesse tempo era amor à causa, não é como se vê hoje. O guarda Ramiro Coutinho merecia que o sindicato, hoje, lhe fizesse uma homenagem, nunca vi pessoa tão séria e abnegada.
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  5. Continuação
    Foi aberto concurso para Guarda Principal, não era para concorrer. O Subchefe de Guardas, Borges, – excelente profissional e pessoa – insistiu para eu concorrer, até queria pagar os impressos. Concorri, tive uma classificação de muito bom era novo no serviço tive de esperar pela vaga. Quando fui promovido alguns guardas ficaram com inveja por ter pouco tempo de serviço. Neguei-me à promoção o Director Eugénio Coelho, disse-me que estava sujeito a um processo disciplinar. Passado pouco tempo abriu concurso para Subchefe de Guardas ao qual concorri. Fiz provas quer escritas e físicas fiquei bem classificado e em 1987, fui frequentar o curso para Tires. Ficamos instalados num edifício que foi uma cadeia, dormíamos em celas, tínhamos que fazer todo o tipo de faxina; limpar os quartos de banho, lavar a louça, incluindo pratos e panelas, pôr e retirar a comida, limpar os corredores, tirar as ervas, cortar relva e limpar os jardins, nunca vi coisa assim. Faltava pouco para terminar o curso, um Técnico Superior de Vigilância que nos dava instruções para defesa das instalações, resolveu dar-nos um exercício com o lançamento de gás lacrimogéneo, tínhamos viseiras, mas faltava os filtros de ar para podermos respirar e aqui inalei bastante gás lacrimogéneo julguei morrer abafado – não queiram passar por esta experiência. Estas situações dão-nos as mais díspares reacções e a que me deu foi de abandonar o curso, fui impedido pela maioria dos meus colegas. Faço estes reparos porque nos impusemos e a partir daí todos os cursos ministrados, quer de Subchefes ou Guardas não foram mais assim. Estive um ano à espera de ser promovido nesse tempo desempenhei funções de Graduado de Serviço. Um dia o recluso Mário da Luz, de origem Cabo-verdiana, foi punido com oito dias de cela habitação a cumprir no Pavilhão de Observação, era um pavilhão destinado a castigos mais graves. Foi incumbido o Subchefe de Guardas, Godinho, para lhe ler a ordem de serviço e levá-lo para o dito pavilhão. Acompanhava-o nessa diligência mais os guardas Américo Santos e Afonso, após lhe ter sido lido a ordem de serviço e de ser dito para preparar os haveres que podia levar, de um momento para o outro, puxou de uma faca que tinha na manga do surrobeco (espécie de samarra) e desferiu dois golpes, um no cachaço, outro no abdómen, do Subchefe. De imediato fechamos o recluso para socorrer o Subchefe – estávamos no terceiro piso. Depois de socorrido e de ter ido para o Hospital de S. João, fomos à cela do recluso para acabarmos de cumprir a ordem, deparamos com a cela trancada por dentro. O recluso estava preparado para o que desse e viesse deu-nos bastante trabalho, tentou esfaquear outro guarda. Levou algumas cacetadas, tive que me impor, achei que era demasiado. Acabei por ter a maioria dos guardas contra mim, não me importei, dei a demonstrar que a nossa atitude tinha de ser proporcional, senão éramos todos iguais, éramos agentes de autoridade não assassinos. Foi levado para o Pavilhão de Observação chamou-se o enfermeiro para o tratar, mais tarde foi para o Hospital de S. João, tendo seguido para o Hospital Prisional S. João de Deus em Caxias. Depois foi transferido para o E. P. Linhó, teve atitude igual, esfaqueou outro Subchefe, acabando por morrer naquele E. Prisional. Em Junho de 1988 fui promovido e como tinha pedido para ser colocado no Cadeia de Apoio de Guimarães, o Director fez uma promoção simples e desejou-me as maiores felicidades mas, sem deixar de dizer, que não contava que eu pedisse a transferência. Disse-lhe que entendia que devia ser transferido, ainda hoje entendo que em qualquer promoção e, não só, se devia ser transferido ainda que passado uns dois a quatro anos regressássemos.
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  6. obrigado Manuel, gosto destas histórias, são mundos que conheço pouco e tu conta-los como uma espécie de fotografias humanas. Fica bem.

  7. Continuação
    A Cadeia Apoio de Guimarães era chefiada pelo Subchefe, Josefino, que foi transferido para o E. P. Vale dos Judeus. Esteve uns dias para me dar umas instruções e me fazer a entrega do armeiro e outras mais. Era pequeno, a lotação era de vinte e nove reclusos, tinha setenta. Adaptei-me com facilidade embora reconhecendo que era muito diferente do E. P. Paços de Ferreira. Havia falta de muita coisa, o Director era também do E. P. R. Braga, ou seja, a Cadeia de Guimarães, era de apoio ao E. P. R. de Braga, vinha poucas vezes ali. Comecei a inteirar-me do serviço e da parte da população prisional. A alimentação era fornecida por um restaurante próximo da Cadeia, “O Castelo” servia bem, embora houvesse um ou outro recluso que fizesse criticas. Acompanhava quase sempre as refeições, é nesses momentos em que está presente a população prisional e merece mais atenção da nossa parte. No refeitório havia disciplina, primeiro entravam os reclusos que eram os chefes de mesa, ao entrar levantavam dez garfos e dez colheres, o recluso faxina do refeitório, estava ali à entrada para os dar. De seguida dirigiam-se para as mesas, quase todos iam sempre para a mesma. O chefe de mesa recebia a senha do vinho, cerveja ou sumo, tinham cores diferentes, estas senhas eram compradas de véspera na cantina da Cadeia, o faxina da cantina servia a bebida conforme a entrega da senha. Aqui os guardas de serviço ao refeitório, tinham que controlar a bebida para não haver trocas. Quando todos acabavam de comer o chefe de mesa recebia os talheres e ia entregá-lo ao faxina do refeitório. Se faltasse algum não saía ninguém até aparecer. O chefe de mesa pedia autorização ao guarda mais graduado para saírem do refeitório, este por sua vez verificava se estava tudo normal, copos vazios, podia haver algum recluso que tentasse levar vinho ou cerveja para a cela e fazer acumulação e mais tarde embebedar-se. Uma vez o recluso José “Lingrinhas” tratou mal um seu colega, mandei-o calar, não obedeceu, mandei-o abandonar o refeitório, barafustou mais. Tive de o mandar encerrar na cela disciplinar, não tínhamos outras para esse efeito, mesmo na cela começou a fazer disparates, desloquei-me lá e avisei-o que cada vez se estava a prejudicar mais. Disse-me que era um fascista, esse dia era o dia 25 de Abril. O recluso “Lingrinhas” estava em trânsito, pertencia ao E. P. Paços de Ferreira, quando se encontravam neste tipo de Cadeia, querem mostrar que são superiores e mais cadastrados, já o conhecia assim como ele a mim, por isso a minha admiração pelo seu comportamento. Tinha uma língua afiada, mais afiada que uma faca. Em liberdade foi assinado, era o que se previa, quanto a mim não se perdeu nada, a sua casa era a cadeia. Havia reclusos com penas grandes mas tinham bom comportamento e acabaram por ficar ali afectos. Houve um recluso que um dia pediu para eu o atender, mandei-o chamar ao gabinete da chefia da guarda e perguntei-lhe o que desejava. Disse-me que a pena era de nove meses e que o advogado lhe tinha dito para recorrer e se o podia aconselhar. Disse-lhe que não gostava de dar opiniões, sabia que os advogados levavam a mal, mas como era um recluso carenciado de tudo, disse se recorresse e o juiz o quisesse tramar, dava-lhe uma pena de seis meses e aí é que era lesado. Para se beneficiar da flexibilidade da pena, a condenação tem de ser superior a seis meses e um dia, como era condenado só a seis meses perdia a regalia de poder beneficiar de uma saída precária prolongada e de uma possível liberdade condicional. Assim fez e beneficiou de ambas. No dia de ser libertado a mãe veio buscá-lo e pediu para falar comigo, dirigi-me à portaria, perguntei o que desejava, disse-me que era para me oferecer uma prenda pelo que fiz ao filho. Disse-lhe que não estava habituado a esse tipo de coisas e ordenei que a pusesse fora dos terrenos da cadeia enquanto aguardava pelo filho. Sei que fui brusco, era uma senhora humilde, fazia-me lembrar a minha mãe, mas não estava para pactuar com esse tipo de situações. Pela vida fora fui abordado por várias vezes com situações iguais. Em casa, disse para nunca aceitarem nada de ninguém.
    No fim do ano abre-se concurso para fornecimento da alimentação, mediante aviso em três jornais diários e com bastante audiência. Concorreram vários e quem ganhou foi o restaurante Lobo, que estava sediado no edifício dos Bombeiros de Guimarães. Começou a servir razoavelmente, passado pouco tempo, começou a faltar qualidade e quantidade. Avisei-o que havia uma contestação por parte dos reclusos, para tomar cuidado, se não punha por escrito o problema ao Director. Como não mudava e para não haver grandes problemas na população prisional, (quando a barriga padece a cabeça não pensa) fiz uma comunicação por escrito ao Director. Passado pouco tempo fui chamado ao Director, para me dar conhecimento do despacho da Direcção Geral, sobre o assunto. Dizia o seguinte: que o declarante usou em sua defesa, que todos os dias vinha uma marmita a mais – a alimentação vinha servida neste tipo de recipiente – e que eu a comia e não o referia na participação. “Notei que o Director ao ler esta parte fez uma certa acentuação” deixei que acabasse de ler o restante. Tendo-lhe dito que me admirava com o que ouvia. Pedi-lhe para ver o que constava do contrato celebrado entre as partes, se lá não se referia a que todos os dias tinha de vir uma marmita à parte, para servir de prova. Que me admirava do que ele – Director – andava ali a fazer e não defendia os funcionários que estavam a seu cargo de tais calúnias. Quando se deslocava à Cadeia de manhã e ia após o almoço para Braga, quando se levava a ele a amostra para fazer a prova essa marmita vinha de onde? Para chamar o recluso responsável pela distribuição da alimentação, a ver se não confirmava que a marmita que servia de prova, depois de a prova ser feita, não a mandava para dentro, caso algum recluso desejasse repetir. Que também informasse a Direcção Geral, para verificarem o teor do contrato e que enquanto ali estivesse nunca mais provava a alimentação. Um dia o Guarda motorista tinha de levar o Director a Braga, havia muito serviço da parte da tarde, pedi-lhe para vir rápido para darmos vazão a tanto serviço. O motorista nunca mais chegava. Quando chegou disse-lhe, parece impossível. Argumentou que demorou muito tempo com o Director no restaurante dos Bombeiros, à espera que lhe servissem a alimentação para o director levar para casa. Onde estava a seriedade! Bem prega frei Tomás…
    Continua

  8. Continuação
    Um dia o recluso que se fez passar por padre veio para aqui transferido, o Director Geral, telefonou ao Director a dizer que a transferência era temporária. Conhecia-o, sabia que era educado e que tinha uma inteligência para além da normal, vinha para aqui reivindicar, por todos os E. P. que passou deixou a sua marca. Nenhum Director ou Chefia da Guarda gostava de o ter no seu E. P., tocava-me a mim tal prenda. Propus ao Director que o colocássemos como faxina numa pequena biblioteca que ali existia e assim estava fora da zona prisional. Estava melhor controlado por nós e menos tempo passava com os seus companheiros. Gostava de ser líder. Começou a ter a sua movimentação e passado pouco tempo o Director colocou-o a fazer limpeza ao seu gabinete. Na zona prisional começou a usar essa influência para tirar partido de certas benesses dos reclusos. Passado uns meses o recluso como sabia que a sua situação era precária, pediu a sua afectação à Cadeia. Foi reunido o Conselho Técnico para se pronunciar, fui contrário à sua afectação, assim como a Técnica do Instituto de Reinserção Social, não havia Técnico de Educação e Ensino, só o Director foi favorável. Na Cadeia havia assistência religiosa, aos sábados de manhã, ia celebrar missa o Padre Domingos, responsável pela Igreja de Nossa Senhora de Oliveira – junto ao Campo de S. Mamede, Guimarães – auxiliado pelo Sr. Ferreira, como sacristão. O padre Domingos não demorou muito a pedir ao Director a colocação do dito recluso, como seu auxiliar o que foi aceite, mas com a minha discordância. O recluso começou a movimentar-se melhor e passado uns dias pediu o Regime Aberto Voltado para o Interior. Fui o único a opor-me, até a Técnica de Reinserção Social, que uns meses antes foi contrária à sua afectação, agora era a favor. Na altura havia em Vizela uma fábrica de calçado com o nome Veleiro, fez um pedido para esse recluso ir para lá trabalhar. Foi efectuado novo Conselho Técnico, para a colocação, agora de Regime Aberto Voltado Exterior, voltaram a ser favoráveis, eu como sempre fui contra. Começou a desempenhar funções na dita fábrica, saía de manhã e regressava à tarde de segunda a sexta-feira. Mais tarde a fábrica argumentou que precisava dos seus serviços aos sábados o que também foi autorizado. Uma segunda-feira de manhã quando cheguei ao serviço – trabalhava de segunda a sexta-feira, folgava sábado e domingo – uma funcionária disse-me que no sábado este recluso ajudou o Padre Domingos a celebrar a missa e fez a homilia, pondo os fiéis todos a chorar. No final e quando todos saiam da Igreja foram-lhe dar dinheiro. Não estava a gostar do que sucedia e vinha a suceder, fiz uma informação por escrito ao Director. Passados pouco tempo veio transferido para ali o Subchefe Abreu, era mais velho na carreira, ficou com a missão de chefiar, mas sempre com a minha colaboração. Estava o Subchefe de Guardas Abreu de férias, andava farto das peripécias do recluso, para mais nesse dia o recluso não tinha ido trabalhar e escreveu para o jornal, O Caso, coisas bastantes graves, apreendi-lhe a correspondência e como desconfiava que o Director, já andava manietado pelo recluso, resolvi fazer uma chamada telefónica para o Director Geral. Quando estava a pedir a ligação, entrou o Subchefe Abreu, nesse dia fez a apresentação de férias, disse-lhe que ia fazer uma chamada telefónica para o Director Geral, sobre o recluso faxina da biblioteca que já não o podia suportar mais, ao que me respondeu para fazer o que quisesse mas, se fosse ele aguardava mais uns dias. Não aguardei, a secretária do Director Geral passou a chamada para ele, tendo-me apresentado e, de seguida falei-lhe do recluso e do teor da carta. O Director Geral perguntou-me se ali não existia um Director ao que lhe respondi, haver, há, mas é mesma que não exista. Disse-me para quando chegasse lhe telefonar e que eu mandasse passar uma revista à cela e apreendesse a correspondência suspeita e se houvesse motivo para lhe voltar a telefonar. Foi feita a respectiva revista, acompanhei-a de princípio ao fim com o recluso presente. Entre vária documentação, foi-lhe apreendida uma agenda em que o recluso apontava o seu dia-a-dia, referia-se a várias pessoas entre elas juízes, advogados, as cadeias por onde passou com todos os pormenores e do próprio Directo Geral. Entrei novamente em contacto com o Director Geral dando-lhe conta do que se encontrou na revista, tendo-me dito para lhe enviar toda a documentação apreendida. Mais tarde o Director chegou à cadeia, disse-lhe para telefonar ao Director Geral. De seguida fui chamado juntamente com o Subchefe Abreu ao gabinete do Director, dando-nos conta que o Director Geral tinha suspendido o RAVE ao recluso, mas que o queria informar na nossa presença. Foi chamado e comunicado mas o que me deu a entender era que o Director tinha receio de o confrontar sozinho. Passado uns dias, foi transferido para um E. P., na zona de Lisboa, nunca mais soube do seu rasto.
    Continua

  9. Continuação
    A corporação de guardas era reduzida para o serviço que nos estava incumbido. Tínhamos muitos Tribunais de comarcas sobre a nossa jurisdição; Guimarães, Fafe, Lousada, Felgueiras, Amarante, Mondim de Bastos, Celorico de Bastos e Cabeceira de Bastos, só com uma viatura celular, houve dias em que os juízes se insurgiam contra nós, pelo atraso. Sem ovos não se faz omeletas. No aspecto da laboração dos reclusos havia; os faxinas do refeitório, dos corredores, do parlatório, das hortas, o serralheiro, o carpinteiro, o alfaiate e os reclusos na cosedura de sapatos. Trabalha-se para a fábrica Kyaia, Campeão Português e para a dona Joaquina. Sempre que vinham trazer sapatos, havia um recluso encarregado de os receber e distribui-los pelos outros, assim como saber e ensinar o ponto que, de modelo para modelo, sofria modificações. Os reclusos mais desembaraçados tinham meses de tirar aos quarenta mil escudos. De tempos em tempos mudava o encarregado, para não entrar na rotina, houve reclusos que se queixaram que lhe tinham apontado menos sapatos do que os que tinha confeccionado. A dona Joaquina era intermediária, uma vez trouxe um tipo de sapatos idênticos aos que a Kyaia nos trazia, o recluso encarregado dos sapatos disse-me que ela pagava menos vinte e cinco tostões e que assim estavam a ser explorados, que os outros reclusos se negavam a executar o trabalho que ela trazia. Falei com a dona Joaquina disse que se não desse mais, os reclusos negavam-se a trabalhar para ela. Argumentou que não podia dar mais e que esses vinte e cinco tostões eram o ganho dela que me ia arrepender. A Kyaia deixou de nos trazer calçado, reparei logo que havia mão da dona Joaquina. Falei com o Professor José Manuel, dava aulas na cadeia e era uma pessoa bem relacionada em Guimarães e um desenrasque para a cadeia e para mim. Telefonou para a administração da Kyaia, marcou-se uma reunião. Nessa reunião pedimos se nos voltavam a dar sapatos para coser, queríamos os reclusos ocupados e não tínhamos nada para os ocupar. O administrador disse que a missão deles era ganhar dinheiro e ao entregar os sapatos à dona Joaquina, ganhava uma viatura e um motorista. De lá viemos sem antes agradecer a cortesia e que estávamos sempre ao dispor. Passados uns meses vieram-nos pedir para trabalhar novamente para eles, fiquei contente assim como o Professor e os reclusos.
    Havia uma brigada de reclusos a trabalhar diariamente para a Câmara Municipal de Guimarães. Tinham sido propostos os que mereciam mais confiança e conforme o tipo de pena e com mais carências financeiras e familiares. Acompanhava os reclusos um Guarda de segunda a sexta-feira, só para este efeito, havia outro que o rendia nas férias. Vinha uma viatura da Câmara com um encarregado buscar os reclusos, assim como o guarda, ao meio-dia vinham almoçar, às treze horas e trinta minutos novamente vinham buscá-los e regressavam às dezassete horas e trinta minutos. Um dia o guarda que de vez em quando fazia rendição disse-me que também necessitava de fazer este serviço, ao que lhe perguntei qual o motivo. Disse-me que como fazia serviço de segunda a sexta-feira – fazia diligências aos tribunais, hospitais, etc. – se fosse para brigada da Câmara ganhava mais algum dinheiro. Fiquei estupefacto com tal afirmação, pedi-lhe para me explicar melhor, tendo-me dito que o guarda ganhava um ordenado igual aos reclusos pago pela Câmara, se estava estupefacto, mais estupefacto fiquei. Fui inteirar-me com o Professor José Manuel, recebendo como resposta que a condição que se pôs foi que o guarda só ia se ganhasse um ordenado. Combinou-se com a Câmara que se inscrevia mais um recluso na folha de vencimento, esse ordenado era para o guarda que custodiava a brigada. Disse ao Professor para resolver o mais rápido possível com a Câmara, que a partir daquele momento não queria tal situação. No mês seguinte o guarda veio estar comigo dizendo que o tinha prejudicado, tinha comprado um carro novo e andava a pagar a prestação com aquele dinheiro. Respondi-lhe para ganhar juízo, senão ainda tinha que repor o dinheiro até ali recebido.
    Continua

  10. Continuação
    A cadeia estava super lotada, tivemos que acabar com uma secção onde tínhamos a carpintaria e adaptá-la com uma camarata para alocar lá reclusos, chegou-se a ter lá quarenta. As condições já eram exíguas, assim ficaram mais, quando começa a faltar o espaço físico começam as complicações. Chegamos a ter cento e cinquenta reclusos a lotação era de vinte e nove, teve-se que improvisar, não cabiam no refeitório, a maioria comia nos corredores, colocamos mesas e cadeiras o espaço ficou exíguo. Não havia camas, roupa de cama, talheres, foi-nos dito pela Divisão das Penas e Medidas de Segurança, para não aceitarmos mais reclusos, dizer à G. N. R. e P. S. P, quando ali fossem entregar por ordem dos tribunais, para os levar ao E. P. R. Braga. Os tribunais de Comarca de Amarante, Mondim de Bastos, Celorico de Bastos e Cabeceiras de Bastos, ficaram a pertencer ao E. P. R. Vila Real, os reclusos que estavam presos à ordem daqueles tribunais, nesse momento passaram para lá, a Cadeia ficou mais vazia. O juiz do Tribunal de Execução de Penas, do Porto, era o juiz Cabral Ribeiro, fazia confiança no meu trabalho, muitos reclusos beneficiaram da saída precária prolongada foi sempre um êxito, regressaram sempre, nunca faltou um recluso. Um dia apareceu na Cadeia para se fazer o Conselho Técnico, não tinha chegado o Director e nem a Técnica de Reinserção Social, comentei-lhe esse facto e obtive como resposta se faziam alguma falta. Tenho a dizer que foi do Conselho Técnico que mais reclusos beneficiaram de saída precária. O que me pedia sempre era para lhes demonstrar a responsabilidade da medida que a partir daquele momento iriam beneficiar. Como era meu hábito, depois de acabado o Conselho Técnico, chamava os reclusos um por um e dava-lhes a conhecer o resultado, aos que iam pela primeira vez exigia-lhes que a sua apresentação tinha de ser antes trinta minutos e que todos cumpriam com o estipulado, assim como aos que eram indeferidos dizia-lhes o motivo, não era só dar as boas notícias, as más também tem que dar e houve reclusos que reagiam mal, são os ossos do ofício.
    Num invento ao qual tive a oposição da corporação de guardas, mas como não estava ali para receber as suas ordens, avancei com uma ideia e com a colaboração do Professor José Manuel e autorização do Director. O recreio onde os reclusos passavam a maior parte do tempo era o único espaço a céu aberto, era reduzido, só dava para jogar voleibol não tinha capacidade para mais. Fui com o Professor José Manuel a várias instituições da cidade de Guimarães, que possuíam pavilhão desportivo, se nos arranjavam um horário aos sábados na parte da manhã, estavam todos ocupados, a nossa única esperança era o pavilhão desportivo da Escola C S de S. Torcato, pedimos uma reunião com o presidente do Conselho Directivo a qual nos foi marcada. Nessa reunião o presidente do Conselho Directivo mostrou-se receptivo, havia um horário aos sábados de manhã, com a condição de termos de pagar o tempo de serviço ao empregado responsável pelo dito pavilhão, – mais tarde e num programa de televisão, vejo o presidente do Conselho Directivo, ser nomeado seleccionador Nacional de futebol das camadas jovens e, que se chama Agostinho Oliveira – eu e o professor ficamos contentes, agora era meter mãos à obra. No principio comecei a seleccionar a maioria de reclusos que beneficiavam da flexibilidade da pena, não queria que logo no princípio desse barraca. Tinha as minhas folgas aos sábados e domingos, mas todos os sábados de manhã – a expensas minhas, residia a vinte e cinco quilómetros de distância – lá aparecia e dava-lhes a preparação física e jogava futebol de cinco com eles. Como tive uma vida dedicada ao futebol, sabia executar e ensinar a maioria dos exercícios e ali me entretinha. Este invento teve um efeito benéfico por parte da população prisional, a partir dali sabiam que eram seleccionados os que tinham bom comportamento. Se um recluso por qualquer motivo cometesse uma infracção ou que não desempenhasse os seus deveres laborais, sabia de antemão, que não era seleccionado. Todos os sábados iam na viatura celular, dez a doze reclusos, acompanhados pelo motorista e um guarda a fazer a custódia, – conforme o turno de serviço, se não iam dois – quando ia só um, ia na viatura celular, quando iam dois ia no meu carro. Os meios eram escassos não se podia levar mais reclusos, mas era melhor isto que nada. Não iam sempre os mesmos, revezava-os, mas ia sempre uns cinco ou seis habituais para contrabalançar e tomarem conta uns dos outros. Eles sabiam que eram os verdadeiros beneficiados se as coisas corressem mal acabava-se com tudo. A corporação de guardas a certa altura aderiu e havia uma equipa de presos e outra de guardas, que se defrontavam, aí a segurança já não era tão problemática.
    Continua

  11. Continuação
    A Cadeia de Apoio passou a E. P. Regional, passou a ter Director neste caso, uma Directora e uma Técnica de Educação e Ensino. Passei a ter menos trabalho com os reclusos havia a Técnica de Educação. Fizeram-se obras, começou-se pela Secretaria e Gabinete da Directora, as condições habitacionais dos reclusos não importavam – muito mais tarde é que começaram as obras de beneficiação – já lá não prestava serviço. Gastou-se um balúrdio com o quarto de banho, privativo da Directora, os guardas não interessava como estavam alojados. A Directora inteirou-se como estava definido o E. P., a sua organização e concordou com a maioria das coisas. A Educadora começou a colaborar com as idas dos reclusos aos sábados ao pavilhão desportivo. A Câmara Municipal de Guimarães organizou um torneio de futebol de cinco, no campo de S. Amaro ao ar livre. Fomos convidados mas deparamo-nos com o problema de ser ao ar livre, o que para nós reduzia a segurança. Falou-se com os reclusos que faziam parte da equipa e dissemos que os íamos pôr à prova, que contávamos com a sua colaboração que o bem era deles, foram excepcionais. No aspecto desportivo fomos umas nódoas, no disciplinar ganhamos a taça, deu-nos mais prazer esta que a de campeão. Um dia andavam dois reclusos a trabalhar entre o edifício prisional e os muros que protegem o E. P., não havia torres de controlo. Faziam parte da equipa de futebol, como nos confrontávamos com falta de guardas, não tinham custódia, ia-se ali esporadicamente para ver como decorria o trabalho e se estavam presentes. Quando se foi novamente verificar se ali estavam os dois tinham fugido. Saltaram o muro que media seguramente três metros. Vá lá compreender o ser humano. Um deles até beneficiava do RAVI. A Educadora uma sexta-feira veio estar comigo e disse, tem aqui a lista de reclusos, elaborada por mim e pela Sr.ª Directora para irem amanhã jogar futebol ao pavilhão. Não queriam saber se tinham bom comportamento, se estiveram todo o dia na cama, não correspondesse com os seus deveres laborais, entendi que assim, se estava a promover a indisciplina e a preguiça. A Técnica de Educação nunca lá foi um sábado, para ver como decorria essas actividades desportivas, se lhe fosse pedido um relatório da Divisão de Educação e Ensino, não sabia responder, tinha que perguntar. Não concordei e entendi que era uma forma de me verem pelas costas, abandonei, custou-me tomar essa posição. Andava a perder meio-dia de folga, a gastar gasolina, nunca se prontificaram a darem-me transporte, falei com os reclusos da minha intenção, mostraram-se tristes, mas compreenderem a minha situação. Um guarda – hoje Subchefe – que ultimamente colaborava comigo, disse-me se eu achava que também havia de abandonar, disse-lhe para continuar.
    O E. P. Feminino de Felgueiras era dirigido pela Directora do E. P. R. Guimarães. Não dependia do E. P. Guimarães só, na parte da direcção. O Subchefe de Guardas, Teixeira, ia frequentar um curso para Chefe de Guardas, a Directora convidou-me para o ir substituir enquanto durasse o curso. Aceitei, gosto de experiências e era uma maneira de me ambientar com outro tipo de pessoas, embora soubesse que era mais problemático. A mulher quando entra numa cadeia deixa atrás de si um sem número de problemas – o homem não os tem – a casa, os filhos e por natureza é mais sentimental. Apresentei-me antes uns dias para tomar conhecimento das instalações. O espaço físico era diminuto, a lotação era de vinte reclusas, tinha quarenta. Na parte da corporação de guardas, tinha os guardas masculinos em menor número, e as guardas femininas. Os guardas masculinos faziam o serviço à Portaria e havia um que era motorista. As guardas femininas faziam serviço na zona prisional e todo o tipo de diligências ao exterior. As reclusas estavam alocadas duas por cela e numa camarata. As que tinham filhos menores, até três anos, podiam estar com elas, havia oito, duas eram gémeas. Estas reclusas podiam optar por não estarem acompanhadas com outra reclusa mas, quase sempre optavam por ter companhia, diziam que passavam melhor o tempo. As ocupações laborais eram poucas: faxina da limpeza, da cozinha, do bar, da lavandaria, da enfermaria, cozinheira, havia três, uma era da nossa messe. O recreio era a céu aberto e pequeno. Havia reclusas que não tinham ocupação, optavam por ficar na cela, só eram abertas para as refeições. Diziam que durante a noite dormiam mal, depois era só pedir calmantes ao Dr. Novais, médico da cadeia. Ao notar estas deficiências propus à Directora que se houvesse reclusas em grande número não me importava de lhes dar educação física. Inscreveu-se a maioria, só as mais idosas é que não e havia umas poucas. Desde já realço, que por parte da corporação de guardas, viram nisto uma loucura, onde se tinha visto um Subchefe de Guardas, a dar educação física às reclusas. Como sou dos que pensam que o tempo é o melhor conselheiro, deixei o tempo correr. As reclusas eram cumpridoras com os exercícios que lhes ministrava, andavam maravilhadas, julgava que ia ter desistências, pelo contrário, algumas que não se tinham inscrito pediram se o podiam fazer. Os calmantes reduziram drasticamente, as noites eram melhor dormidas, as guardas não eram tão solicitadas durante o período nocturno. Com uma pequena coisa, resolveu-se um sem número. A cadeia era cercada com rede de arame e na parte de cima da rede, com arame farpado, a hipótese de fuga era reduzida, para mais durante este período a vigilância era reforçada e nessa altura só havia uma reclusa que nos era mais problemática. Neste espaço onde se fazia educação física, era de maior dimensão, era em frente da Portaria, propus à Directora que se desse duas horas de recreio de segunda a sexta-feira, da parte da tarde, aos sábados e domingos eram dias de visita – não se podia dar recreio – o que teve a concordância da Directora. Aqui caiu o Carmo e a Trindade. Devemos dar o nosso melhor e se com isso conseguimos melhores resultados, porque não avançarmos, não havia maiores gastos, pelo contrário. O curso estava no fim, o Subchefe de Guardas, Teixeira, apresentava-se na segunda-feira, a Directora tinha-me pedido para continuar ali, mas disse-lhe que era difícil trabalhar com o Subchefe, Teixeira, já o conhecia – era prepotente – se houvesse problemas apresentava-me de imediato no E. P. R. Guimarães. Disse-me, não vai ser preciso, vão-se dar bem. Apresentou-se e quando começou a ter conhecimento das alterações chamou-me irresponsável, disse-lhe para medir as palavras, tudo o que estava alterado tinha o consentimento da Directora, se queria chamar irresponsável que o chamasse a ela. De imediato telefonei à Directora dizendo-lhe que ao outro dia me ia ali apresentar. Começou a tentar demover-me, não valeu de nada, preferia trabalhar com o Subchefe Abreu, havia mais colaboração e assim apresentei-me ao outro dia no E. P. R. Guimarães.
    Continua

  12. Continuação
    No E. P. R. Guimarães era sempre a mesma rotina. Um dia numa diligência ao tribunal Judicial de Fafe, um recluso efectuou dali uma fuga. Enquanto o guarda tratava da sua apresentação, naquela secção, o recluso efectuou a fuga mesmo algemado. Os guardas que faziam a custódia eram dois incluindo o motorista, perseguiram-no até à casa do recluso – residia perto do tribunal, quando lá chegaram foram recebidos por um irmão de arma na mão. Era uma família que entre mãe, filha e dois filhos por várias vezes passaram pela cadeia só o pai é que não. Um dia uma patrulha da G. N. R. de Fafe foi entregá-lo à cadeia mediante mandato de detenção, estava no Gabinete da Chefia e ouço berros à entrada da Portaria. Desloquei-me ali para me inteirar do sucedido, era a G. N. R. a ser insultada e o recluso negava-se a abandonar o Jipe, disse-lhe venha daí, de imediato acompanhou-me para a Portaria a fim de procedermos à respectiva formalidade documental, já o conhecia há bastante tempo e por nós havia um certo respeito. A directora nomeou-me instrutor do processo, fiz diligências nessa secção para ouvir os funcionários, não fiquei convencido com as declarações que prestaram e nas conclusões finais mencionei isso. Fez-me lembrar numa diligência feita ao tribunal Judicial de Lousada, com um recluso para julgamento e depois de se saber que ia ter continuação da parte de tarde, chegou um funcionário do tribunal junto do guarda motorista e disse. “Como o julgamento continua da parte de tarde o Sr. Guarda podia deixar o recluso ir almoçar com os seus familiares”. Encontrava-me próximo e não acreditava no que estava a ouvir. O guarda motorista disse, está ali o Subchefe de Guardas peça-lhe autorização. Quando o funcionário se dirigia a mim, disse-lhe, assine a guia de presença em como o recebeu, depois pode fazer com o recluso o que entender. Não aceitou o proposto, segui com o recluso para o E. P., e de tarde lá comparecemos. Pimenta no rabo dos outros para nós é um refrigerante.
    O Subchefe de Guardas, Teixeira, ficou aprovado no curso e foi nomeado para chefiar o E. P. Coimbra, a directora nomeou-me para chefiar o E. P. Feminino de Felgueiras. Já o conhecia assim como a corporação e a população prisional, não tive problemas era só dar continuidade. Havia reclusas de todo o tipo; velhas, novas, bonitas, feias, ciganas, de cor, estrangeiras, a maioria portuguesas. Havia uma que era a faxina da lavandaria, bem-parecida, com um corpo escultural, estava constantemente a pedir para ser recebida por mim, quando entrava no Gabinete da Chefia a primeira coisa que fazia era fechar a porta, dizia-lhe para a abrir que sofria de claustrofobia. Noutro tempo a Cadeia estava sobre o comando do E. P. Porto e na passagem de ano foi lá um forrobodó, guardas a dançar com reclusas, houve um inquérito, depois de concluído a cadeia foi encerrada temporariamente. Com o tempo fui notando uma certa simpatia e algo mais, para comigo mas nunca dei importância a esses pormenores. Um dia o guarda motorista disse-me que esteve a falar com o marido de uma cigana, que estava ali presa, que lhe mostrou ciúmes em relação a mim. Já tinha notado esse pormenor sempre que pedia para a receber no meu gabinete, perfumava-se toda que não podia suportar o odor, quando me dirigia à zona prisional e passava por ela não cheirava assim. Como fui sempre a favor de certos ditados, entendo que, “onde se ganha o pão não se deve querer comer a carne.” As reclusas tinham bom comportamento, havia alegria, de vez em quando começavam com cânticos e cantavam bem, principalmente o “Apita o Comboio.” O juiz do Tribunal de Execuções de Penas do Porto (T. E. P. P.) era o Dr. Dias Ferreira, conhecia-o do E. P. Paços de Ferreira, era simpático e amigo das reclusas, só não concedia saída precária se o Conselho Técnico fosse todo desfavorável mesmo assim, quando chegava ao fim de todas serem vistas perguntava não é melhor revermos as outras situações. Íamos buscá-lo à central de camionagem para ganhar algum tempo e poder depois do Conselho Técnico almoçar à vontade, – perguntava sempre se havia maçã, era a sua fruta preferida para a sobremesa – para depois apanhar outra vez o autocarro que saía por volta das doze horas e quarenta e cinco minutos. Andava sempre com pressa, deslocava-se para Felgueiras em transporte público e os horários eram poucos. Perguntava-me se não havia outro tipo de transporte andava sempre numa correria. Dei-lhe como alternativa, uma vez que passava sempre em Lousada – ia em transporte próprio – esperava pelo autocarro e depois ele seguia dali comigo e adiantava um bom pedaço de tempo. O autocarro de Lousada a Felgueiras fazia uns desvios e demorava quase o mesmo tempo que demorava do Porto a Lousada. Assim se fez, sempre que havia Conselho Técnico, éramos notificados antes uns dias, mas na véspera telefonava sempre a lembrar a sua vinda. Faço referências ao Meritíssimo Juiz, Dias Ferreira, pelo seu profissionalismo e bondade, o que é raro num juiz e por ter morrido há anos motivado por um cancro.
    Continua

  13. Continuação
    A cadeia feminina de Tires estava superlotada, era preciso transferir para outras cadeias, várias reclusas, para a de Felgueiras vieram vinte. Não tínhamos mais lugares. Para alocatar estas teve que se acabar com o refeitório e passar a camarata. No corredor do piso do rés-do-chão improvisou-se o refeitório. A cadeia a partir daqui ficou com o dobro dos problemas. Quase todos os dias de manhã, quando chegava ao serviço tinha reclamações das guardas, quando não era das guardas era das reclusas. Diziam que algumas colegas (reclusas) eram umas porcas, que lhes faltava perfumes, havia sempre reclamações, havia uma que era manca tinha uma perna mais pequena que a outra, andava sempre a discutir e a falar mal das colegas, o que lhe faltava na perna sobrava-lhe na língua. Lutava com a falta de guardas femininas, se uma metesse atestado médico tinha que telefonar a outra guarda que estava de folga, para fazer o turno da noite, na parte diurna ia-se remediando. Alternadamente convocava uma e tinha que a avisar logo de manhã, as guardas eram de bastante longe. Quando a guarda tinha de se deslocar a qualquer sítio ou ia almoçar, era eu que a rendia. As reclusas sabiam de antemão que fora das celas tinham de andar trajadas decentemente, ia várias vezes à zona prisional para me inteirar do serviço e não queria as ver com trajes íntimos. Não era autorizado o uso do calção de perna, um dia propus à Directora para que fosse autorizado. Achava mais decente que a minissaia. Foi autorizado, o facto da minha proposta era devido a que quando as reclusas vinham para o recreio e como era em frente à Portaria, havia guardas masculinos, que as espreitavam e algumas estavam descompostas outras faziam de propósito. Não era que não merecessem ser espreitadas, mas estávamos numa casa onde devia imperar todo o respeito. É como disse mais acima, “onde se ganha o pão….” Um dia o Subdirector Geral, Celso Manata, fez uma visita surpresa à cadeia, fiz um telefonema para a Cadeia de Guimarães a avisar a Técnica de Educação, estava a substituir a Directora – estava de férias – para ali se deslocar, o Subdirector Geral necessitava de falar com ela. Na visita à cadeia e sempre que o Subdirector Geral perguntava se tudo estava bem, a Substituta da Directora, dizia, está tudo bem. Já não aguentava mais e para mais, a guarda que nos acompanhava era a que tinha convocado de manhã para se apresentar ao serviço – tinha faltado uma e só havia outra para o serviço. Fui obrigado a intervir para dizer que não estava tudo bem. Que a guarda que nos acompanhava estava esse dia de folga, só entrava ao serviço ao outro dia e de manhã tive de telefonar para casa dela em Leiria, para se apresentar ao serviço – antes tinha dado conhecimento à Substituta da Directora. Quando foi à camarata – onde era o refeitório – a maioria das reclusas encontravam-se ali, o Subdirector Geral disse quem tivesse problemas para os colocar e como nenhuma falava, pedi autorização para sair – disse talvez a minha presença as atrapalhasse. De imediato uma reclusa disse, não saia, porque do Sr. Subchefe nada temos a dizer, pelo contrário. Há palavras que sabe bem ouvir.
    Havia reclusas que tinham os maridos presos na cadeia de Paços de Ferreira, estavam autorizadas a duas vezes por mês ali se deslocar para os visitar. Nos dias da visita tinha-se que ir por duas vezes à cadeia de Paços de Ferreira, só tínhamos uma viatura celular e as reclusas eram muitas. Havia uma – a tal problemática – que dizia lá vamos ao boi – referia-se ao que faziam os lavradores quando levavam a vaca ao boi, para a emprenhar. Havia reclusas com todo o tipo de crimes; homicídio, lenocínio, tráfico de droga, assaltos, furtos, cheques sem cobertura, infanticídio – havia uma que matou o filho, ainda bebé e o deu a comer aos porcos, para esconder o crime – estava sempre a reclamar por não beneficiar de saídas precárias, enquanto prestei ali serviço nunca beneficiou. Dos mais mediáticos, a Malha branca, o assassínio do guarda-redes do Futebol Clube Tirsense, Reis, da morte do ex-Polícia e esposa, retalhado e colocado nas malas de viagem, etc. Numa visita inesperada do Director Geral, Marques Ferreira, depois de falar com a maioria das reclusas, veio para a Portaria, falar com a Corporação de Guardas e quando um guarda lhe pôs certos problemas, sentou-se em cima da secretária, que ali se encontrava, dando um mau exemplo, pensei para comigo não vamos longe com este tipo de gente. Foi para o E. P. R. Guimarães para outra visita. Passado algum tempo recebo uma chamada telefónica da Directora, a incriminar-me porque não a avisei que ele se dirigia para lá. Disse-lhe que o Director Geral não me tinha dito para onde ia. Mesmo que soubesse não lhe telefonava, entendo que estas visitas devem ser secretas para se ver alguns podres.
    Os filhos das reclusas iam diariamente para o infantário de Santa Quitéria, havia um protocolo para esse efeito. Todos os dias ia uma reclusa levá-los e trazê-los a um sítio e hora combinada onde passava o autocarro. Tivemos a colaboração da Irmã Teresa, que prestava assistência espiritual às reclusas.
    Continua

  14. Continuação
    A alimentação era confeccionada na cozinha da Cadeia. Havia duas reclusas cozinheiras, quatro faxinas lavavam a loiça, descascavam batatas etc. Os géneros alimentícios todas as sextas-feiras ia o Guarda motorista com a viatura celular, à Manutenção Militar buscá-los. Vinham acompanhados com todos os pormenores, ementa diária, peso que se devia colocar, até ao último grama. Como não havia hipótese de estar a conferir tudo ao pormenor, quando se chegava à quinta-feira havia falta de alguma coisa. Se não era azeite, era arroz, se não fosse massa, era as batatas. Como não tínhamos fundo de maneio para estas situações, era do meu bolso que saía o dinheiro, por várias vezes coloquei a situação à Directora, tendo-me sido dito que o que vinha da Manutenção Militar tinha de chegar. Triste vida de um Subchefe de Guardas que tem de servir para tudo. Passou a ser uma empresa privada a confeccionar a alimentação (Unisef). Estes problemas desapareceram, vieram outros. O responsável pela cozinha passou a ser um cozinheiro, funcionário da empresa, sendo ajudado por algumas reclusas que já trabalhavam na cozinha. O comer passou a ser em menor quantidade, havia reclusas que o médico receitou dieta, o comer era quase igual, ponham-me o problema, falava com o cozinheiro dizia que era o entendido e que tinha tirado um curso de nutricionista. As reclusas ameaçavam que um dia lhe davam com o prato da comida na cara disse a várias se o fizessem era o mesmo que o fazer a mim, com isto ia segurando o ambiente. Quando se soube que o cozinheiro era homem, receamos, ia passar a maior parte do tempo com mulheres (reclusas) e ia-nos causar algum problema, mas tivemos sorte era todo afeminado.
    Como disse, entendo que entre dois a quatro anos devíamos ser transferidos. Encontrava-me no Cadeia de Felgueiras ia fazê-los. Estava a ficar saturado de ver sempre as mesmas caras. No aniversário da Cadeia foi convidado o Director do E. P. Paços de Ferreira Dr. Eugénio Coelho, quando me encontrou perguntou-me, quando vai para Paços de Ferreira respondi-lhe, estou farto de estar aqui qualquer dia peço a transferência. Disse-me que havia um Subchefe de Guardas em Paços de Ferreira, que tinha problemas, devia estar interessado em trocar comigo e que ele não se opunha. A Directora estava presente e disse que se opunha ela que não saía dali tão cedo. Passados uns dias recebo uma chamada telefónica desse Subchefe para fazermos a permuta. Passados quinze dias apresentei-me no E. P. Paços de Ferreira.
    O E. P. Paços de Ferreira era chefiado pelo Chefe de Principal, José Augusto, era a primeira vez que trabalhava sobre as suas ordens. Como tinha conhecimento que quando era guarda e antes de ser transferido, tratava das escalas de serviço e dos recursos humanos nomeou-me para esse efeito. Na escala de serviço os números eram passados a lápis de papel e só depois do serviço efectuado é que era passado a esferográfica, para irem para o arquivo. Era um problema por vezes se compreender os números escritos. Achava que era um processo arcaico e como tínhamos um computador antigo não descansei enquanto não arranjei forma de fazer a escala através do computador. Havia um recluso que dava cursos aos reclusos sobre informática falei com o Chefe Principal, José Augusto, se o recluso me podia dar umas instruções de computador, todos os dias na hora de almoço arranjava disponibilidade para receber as lições. Aos poucos e poucos lá começou a ser feita a escala de serviço num impresso criado para esse efeito. Houve logo invejas e apontamentos de defeitos. Como Roma e Pavia não se fizeram num dia, também ali à medida que se progredia fazia-se certos ajustes. Tinha muito serviço era a escala, a distribuição das viaturas para os tribunais, hospitais, jogar sempre com os horários para não se atrasar, se não tínhamos os juízes a reclamar, as férias dos guardas era um sem número de coisas. Além disso fazia certas diligências aos tribunais como foi o caso, do julgamento do processo da Boite Diamante Negro. Só para este julgamento andamos a correr para o tribunal judicial de Penafiel, uma eternidade de tempo. Era observado por muita gente, a sala estava sempre repleta e juntava-se muitas pessoas nas imediações. A segurança era reforçada mas mesmo assim lutávamos com muitas dificuldades. Os réus ficavam numas celas do tribunal, eram chamados conforme o caso. Muitas vezes somos apelidados de desconfiados, acontece que nestes casos vemos caras e não corações, para mais tinha passado por más situações. Os funcionários do tribunal incluindo juízes, sabiam que aquela área era restrita, quando queriam passar por ali pedíamos a identificação e víamos uma certa relutância em se identificar. A juíza presidente do colectivo determinou para não deixar passar ninguém sem ser identificado, há sempre um esperto que as quer obstruir. Não percebo, para este tipo de julgamentos não se criarem condições para serem realizados nas instalações dos E. Ps., assim acabava uma série de obstáculos. No julgamento foram libertados alguns réus, outros condenados a penas pesadas foi um crime horrendo. Com o passar do tempo e com o comportamento que vinham evidenciando admirávamos, como foi possível fazer aquele crime, eram uns novatos só o Queirós é que já tinha uma certa idade, o que faz a inveja. Outra situação que deparei e a qual me faz pela vida fora alguma confusão: foram transferidos do E. P. Porto, dois reclusos irmãos, condenados a vinte anos de cadeia, cada um, pelo assassínio do pai e da amante. Recorreram da sentença em primeira instância, foram absolvidos e restituídos à liberdade. Nunca percebi e ainda não percebo, como é que um colectivo de juízes se engana a cem por cento, numa condenação e não sejam responsabilizados. Depois vem os juízes defenderem a honra e que não são pressionáveis como fez o presidente do Sindicato do Ministério Público, no caso Lopes da Mota. Enganarem-se a cem por cento, não acredito, se fosse a cinquenta, ainda vá lá, foi uma machada para o colectivo de juízes de primeira instância.
    Continua

  15. Continuação
    Próximo do fim do ano o Director foi transferido para administrar outro E. P., na zona centro, foi contra a sua vontade. Nesse dia o Director Geral – agora era o Dr. Celso Manata, logo no princípio notei que Dr. Marques Ferreira, não tinha capacidade – foi fazer a apresentação do novo Director, neste caso, Directora. Assisti à tomada de posse achei que foi uma desconsideração, o Director estava presente há pessoas que não medem os actos ou gostam de espezinhar as pessoas. O serviço ia decorrendo começou a haver uma certa bonomia mas, estas casas tem de funcionar com melhores ou piores atitudes. O serviço cada vez era mais, os guardas os mesmos. Havia a nível nacional uma comissão, para estudar um tipo de escala de serviço, – nesta comissão, havia elementos do sindicato de guardas – para colmatar estas deficiências. Foi marcada uma reunião no E. P. Coimbra com todos os elementos responsáveis pela escala na zona norte, juntamente com os Directores e Chefias da Guarda e o “Capitão” Oliveira, Subdirector Geral. Foram postos à apreciação os tipos de escala de serviço para os E. P. Centrais e outro tipo para as Regionais. Chegada a vez de me pronunciar disse que com aquele tipo de escala de serviço para os E. P. Centrais, era a mesma coisa que a adiar eternamente. Fui considerado um pessimista até pela minha Directora e Chefe Principal, mas aleguei que nestes casos era como S. Tomé. Esta reunião deu-se no ano de 1998 fui aposentado em 2007 e nessa data ainda se praticava o mesmo tipo. Havia e há interesses instalados e ninguém os quer perder. Há E. Ps., com escalas de serviço com menos sobrecarga e com mais guardas e a maioria deles encontram-se sediados na zona Centro e Sul. O Sindicato sabe que qualquer que seja o tipo de escala de serviço vai arranjar discordância e por esse motivo, não interessa que se avance, há E. Ps, que tem os guardas subaproveitados, mas dizem que há faltas de guardas.
    O Chefe de Principal, José Augusto, era uma pessoa de bom trato, relacionava-se bem com o Sindicato, com o Director Geral, era solicitado constantemente para ministrar cursos aos novos Guardas e a futuros Subchefes de Guardas. Uma vez em que estava em Caxias a ministrar um curso, também foram dois Subchefes frequentar o curso para Chefes de Guardas, como não havia mais velho na categoria, a não ser eu, fui nomeado para chefiar o E. P., durante a ausência que se prolongou por dois meses. Nesse intervalo houve um conselho técnico para saídas precárias prolongadas, o guarda responsável por uma secção veio falar comigo para se dar uma oportunidade a um recluso que trabalhava nessa secção. Como gosto de ouvir os responsáveis pelos vários sectores e entendo que eles os conhecem melhor que nós, perguntei-lhe se fazia confiança no recluso. Disse-me que sim. No conselho técnico, a maioria foi a favor e o recluso foi gozar cinco dias, não fazendo a apresentação no dia determinado. Fiquei desiludido, era o primeiro recluso que não se apresentava desde que interferia em conselhos técnicos, ouvi umas conversas não tinha provas.
    O Sindicato resolveu fazer uma greve a nível nacional, os Subchefes de Guardas aderiram, era a reivindicar algumas coisas e havia motivo para isso. Passado uns tempos resolveram fazer outra greve, achei que os motivos não eram válidos, era para medir forças e não alimento este tipo de situações, alguns meus colegas Subchefes resolveram fazer o mesmo que eu, outros não sabiam para que lado se virar. Nesse dia de manhã as coisas correram bem houve uma reunião com a Directora, Chefe Principal e Delegados Sindicais tendo estes se prontificado a cumprir umas certas regras. Na parte de tarde não sei porque motivo, o que se tinha prometido foi tudo alterado. Tínhamos um recluso que durante um ano andou duas vezes por semana, a ser presente na Universidade com custódia, para tirar um curso, que agora não posso precisar, nesse dia era o último dia de exames, se não fosse presente a exame, todo o sacrifício que a Direcção e Chefia fez ia por água abaixo. Combinaram de manhã que se deixava sair o recluso para fazer o exame, à tarde deram o dito por não dito. O Chefe Principal reuniu com a corporação e Delegados Sindicais, como havia um guarda motorista e um guarda que não aderiram à greve, seriam estes que faziam a escolta e ele, Chefe Principal, dava passagem à viatura para não melindrar quem ali fazia serviço. Nem assim concordaram, tive pena da maneira como procederam com o Chefe Principal, não era merecedor daquele tipo de atitude. Tenho assistido ao começo de manifestações e de greves e sei que é fácil dar início, difícil é terminá-las, era o que estava a acontecer previ um mau final. A Directora mandou reunir a Chefia, Subchefia e Delegados Sindicais no seu Gabinete, juntamente com o Dr. Paulo de Carvalho – hoje Subdirector Geral. A reunião correu mal os Delegados Sindicais opuseram-se a tudo, a Directora expulsou todos de lá para fora, as cabeças estavam quentes, não se estava a raciocinar. Saí dali vim para o Gabinete dos Subchefes e passado uns minutos recebo uma chamada telefónica pelo telefone interno, do Dr. Paulo de Carvalho para me apresentar novamente no Gabinete da Directora. Disse que não ia, que fui expulso, quando estava a colaborar para se resolver a situação e não compreendia a atitude da Directora, se quisesse que me dirigisse lá tinha de ser ela a me telefonar. Assim aconteceu, foi-me feito um pedido de desculpas e então metemos mãos à obra, desse para o que desse. Os guardas grevistas começaram a aproximar-se da Portaria para darem força a quem se encontrava ali com os mesmos intuitos. Notei que havia uma certa desunião entre eles e alguns guardas a dizer aos Delegados Sindicais que a partir daquele momento acabavam com a greve. Fui falar com o Chefe Principal que estava na altura de avançar com a viatura, o recluso encontrava-se no seu interior assim como os guardas custodiantes. Disse que eles não deixavam passar a viatura, tendo-lhe respondido como é que sabia, se não se tinha feito qualquer tentativa. A viatura celular avançou, o guarda de serviço à Portaria não abria o portão, os guardas grevistas insultavam o Guarda motorista e o outro que o acompanhava, assim como insultaram um Subchefe. Não entendia a maneira de agir de certos guardas. Era uma confusão, comecei eu e um outro Subchefe a tirar a identificação aos que estavam a provocar com palavras menos dignificantes. Alguns para mostrar que não tinham receio, vinham dar o nome em atitude de gozo. Até um Guarda motorista e um Subchefe, que tinham saído na véspera numa diligência para o E. P. R. Faro, com um recluso para ter julgamento no dia posterior, ao dia de greve e tiveram de dar entrada antes das zero horas, senão não o recebiam, vieram dar o nome em como tinham aderido à greve. Respondi, não estejam no gozo se estavam solidários com a greve deviam de estar na Cadeia de Faro e só depois da meia-noite é que regressavam. A Directora teve que dar conhecimento ao Director Geral da situação. Este mandou passar o telefone ao Chefe Principal e disse que ia mandar um piquete da Polícia para pôr ordem no E. P., o chefe pediu por quanto havia para o não fazer que parte da corporação não merecia e era uma vergonha.
    No outro dia apareceu um inquiridor para fazer averiguações, como houve uma participação dos factos e com os nomes dos maiores prevaricadores, começou a interrogá-los, todos negavam que se puseram à frente da viatura celular e que ela não chegou perto do portão da Portaria. Quando fui chamado a depor foi-me posto esse problema, disse que esteve tão perto do portão, que uma mosca se quisesse passar entre a viatura celular e portão julgo que não passava. O inquiridor conhecia-me de outras inquirições e fez fé no que lhe disse. Estiveram todos para serem transferidos para outros E. P. do sul do País e Ilhas, aqui outra vez o Chefe Principal, José Augusto, intercedeu e como o Director Geral tinha bastante consideração por ele, voltou atrás com a decisão. Houve um Guarda que teve de assinar um termo de responsabilidade em como não voltava a fazer greve. Estava marcada uma greve para um outro dia mas foi um fiasco. Disse a esse Guarda se eu estivesse no lugar dele avançava com a greve, tanta coisa e agora acovardavam-se, o Chefe Principal, não merecia o que lhe fizeram. Depois da tempestade vem a bonança, foi o que aconteceu.
    Continua

  16. Num domingo depois de acabar o período da visita, estava no gabinete da chefia da guarda a preparar as folhas de serviço para o encerramento, recebo uma chamada telefónica pelo telefone interno, a darem-me conta que um recluso picou um guarda com uma seringa e esse recluso era seropositivo. Mandei que trouxessem o recluso à minha presença, para me certificar dos factos, os guardas afiançaram-me que o recluso o tinha picado. Perguntei ao recluso se era coisa que se fazia, que andava sempre a lamentar-se que era perseguido, que não tinha sorte nenhuma e que ia demonstrar que o que se dizia dele era tudo mentira e à primeira oportunidade demonstrava o contrário. Disse-me que era tudo invenção, que era o turno que mais o perseguia não sabia porque motivo. Perante tal situação disse-lhe se sabia o que lhe ia acontecer, pois tinha que tomar medidas. Respondeu-me para fazer o que eu achasse justo, não discutia a minha decisão e até achava que o devia mandar para o Pavilhão de Observação para sua segurança. Quando recebi a participação e a li verifiquei que o guarda Chefe de Ala era testemunha, chamei-o à minha presença e perguntei-lhe como tudo se tinha passado, recebendo como resposta que não tinha presenciado nada mas que confirmava o teor da participação. Fiquei mal disposto com o que acabava de ouvir não podia fazer nada porque eram uns poucos contra mim e havia a participação, dei conhecimento à Directora que me disse que ao outro dia se resolvia o assunto. O guarda foi transportado ao hospital de S. João para fazer análise, mais tarde veio-se a confirmar ser negativa. O recluso ao outro dia regressou à Ala. Durante a minha carreira deparei com situações destas o que me revoltava, havia as participações e testemunhas o que me tornava impotente.
    Um dia fui ter com a Directora e na presença do Chefe Principal pedi-lhe se intercedia junto do Director Geral, precisava ser transferido e optava pelo E. P. Funchal, por desentendimento com familiares da minha esposa e não queria estragar a minha vida, andava com fracas intenções. Foi-me oferecido de imediato colocação no E. P. R. da Horta, nos Açores, disse que estava mais interessado no do Funchal. Tinha um irmão a prestar serviço nesse E. P. e como dependia de várias coisas, entre elas, fazer de comer, passar a roupa a ferro, um sem números de coisas. Aqui culpo a minha falecida mãe, por nunca me ter obrigado a fazer certos serviços domésticos. Naquela altura diziam que esses serviços eram só para as meninas e como até aos catorze anos, só tinha irmãs, nunca me obrigou. Também não queria sacrificar a minha esposa a ir comigo, tinha dois filhos solteiros e precisavam da mãe junto deles. Em Junho de 1999, veio a autorização da transferência com efeitos imediatos, no dia 8 de Junho lá parti para a Madeira. Conhecia o E. P. só por fora. Em 1998 passei dez dias de férias em casa do meu irmão, que habitava num apartamento do bairro do E. P. O Director conhecia-o desde a década de 80, tinha desempenhado funções no E. P. Paços de Ferreira, como Técnico de Educação e Ensino, apresentei-me ao serviço chefiava o E. P., o Subchefe de Guardas, Góis, conhecia-o era do meu curso de Subchefes. Andei uns dias para conhecer a parte física, assim como a parte humana: reclusos, corporação de Guardas e funcionários. No aspecto físico, tenho a mencionar que foi das Cadeias em que vi tanto na estrutura física como na orgânica, das melhores do País. Tudo se interligava. O coração da cadeia é o Posto 1, onde diariamente se encontrava um Graduado, coadjuvado por dois guardas, responsável por todo o serviço. Por aqui passa tudo; reclusos para a Oficina de Marcenaria, Padaria, Gráfica, Mecânica Auto, Bate-chapas, Pintura, Artesanato, Jardins, Tribunais, Hospitais, Enfermaria, Cozinha, Pavilhão Desportivo, Anfiteatro, Refeitórios, Lavandaria, Sector Um e Dois, Alas, Notificações a reclusos, etc. Alas são dez; A-D, B-E, C-F, G-I e H-J, além dos sectores da Admissão e Celas disciplinar. Na Cadeia Feminina tinha a confecção de tapetes, secção de costura, onde se confecciona as fardas do recluso, se passa a ferro toda a roupa da cadeia. Como digo está bem estruturada e não compreendo como as restantes cadeias, que se construíram a seguir a esta não teve a mesma tipologia. Compreender, compreendo, tem de se inovar para dar trabalho a outros arquitectos e engenheiros mas é um desperdício. Nos recursos humanos o que se faz com cem Guardas na Cadeia do Funchal, nas restantes é preciso o dobro. A escala de serviço foi das melhores que encontrei, não é tão saturante e como a maioria dos guardas vivem no bairro do E. P., ainda se torna melhor. Ainda tem fora do perímetro da Cadeia a secção do RAVI, onde todos os reclusos que fazem parte das brigadas ali estão alocados, não havendo contacto com outros reclusos. Quando precisam de se deslocarem à enfermaria, ou outro sector da cadeia, são acompanhados pelo guarda que ali presta serviço. Após o trabalho, as brigadas estão incumbidos pelo arranjo dos jardins exteriores, assim como na limpeza do bairro. Tudo está organizado, requer dedicação e isso é o que não falta em quem dirige a cadeia. Tudo se interliga e quando se quer passar uma ronda diurna aos recreios ou outros sectores, há os corredores de segurança nas galerias, e tem-se uma visibilidade de toda a cadeia. Os reclusos em dias de visita são obrigados a ir devidamente uniformizados, com farda própria, senão, não recebem visita. Os haveres que os seus familiares lhes levam, são controlados pelos guardas da revista e mencionado o que entra, num impresso próprio, sendo o duplicado entregue à visita e outro colocado no saco para o guarda no acto da entrega ao recluso, fazer a conferência. Quem faz a revista são os guardas que fazem parte do grupo de intervenção, (GI) que existe para todo o tipo de serviço ao exterior, assim como para manter a ordem e disciplina, quando a isso são obrigados. Ali vi reclusos de toda a parte do mundo, quando são presos no Continente e como não tem familiares para os visitar, vão para ali transferidos. Do Continente havia alguns. A maioria dos Madeirenses, são de Câmara de Lobos, (Chavelhas) do Porto Santo, só havia uma reclusa. As alas são coordenadas ou por um Subchefe de Guardas ou graduado. Os reclusos quando ali dão entrada são encaminhados para o sector da Admissão, onde permanecem cerca de oito dias, findo os quais, dão entrada numa ala – quando são reclusos com uma idade avançada vão directamente para a ala. Chegados à ala é-lhes distribuída uma cela, a qual é vistoriada pelo próprio e por o chefe de ala e assinado um impresso próprio, o seu estado de conservação, sendo dado ao recluso o duplicado. No E. P. Funchal só não sabe trabalhar quem não tem interesse. Em todas as alas e secções existe as NEPS, “Normas Execução Permanentes” quando há alguma dúvida os guardas socorrem-se a ela. Havia reclusos problemáticos, faziam distúrbios, cortavam-se e se tivessem de ser tratados no hospital, tinham de pagar as custas, assim como quando destruíam a cela, fazia-se a participação, além de um inventário com os prejuízos causados, era imediatamente fechado, com duas horas de recreio diárias durante oito dias, caso a participação não estivesse concluída era aberto e esse tempo contava para a punição. No E. P. Funchal um guarda era mais respeitado que a maioria dos Subchefes nas cadeias continentais.
    Continua

  17. Continuação
    Todos os dias por volta das onze horas, lá ia o Director acompanhado umas vezes outras não, pelo Chefe de Guardas neste caso, Subchefe – era raro ter ali um Chefe de Guardas, esses tinham de ser colocados no Continente, não estavam para ter de aturar ilhéus – provar a alimentação que ia ser fornecida nesse dia à população prisional. Não vi em mais nenhum E. P. por onde passei o Director tomar atitudes destas, todos faziam a prova no seu Gabinete, para esse efeito vinha o Guarda responsável pela cozinha, com um recluso da sua confiança, trazer a prova, claro está, com o que de melhor havia – quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte. Além disso tomava conhecimento como funcionava a cozinha, o estado dos utensílios, a limpeza que ali se praticava e os problemas de certos reclusos que ali trabalhavam. Foi construída uma carreira de tiro subterrânea, que faz a inveja a qualquer força de segurança, seja G.N.R. ou P.S.P., não falando na maioria dos E. P. que nestes, quando se pratica o tiro tem que se esperar que as condições climatéricas o permitam, quando se dá fogo na posição de deitado, suja-se a farda toda. Assisti a um torneio denominado por (Futup) futebol ultra periferias, que foi das melhores coisas que vi nos Serviços Prisionais, futebol de salão, ténis de mesa e xadrez. Foram várias instituições convidadas; Policia Judiciária; Guarda-fiscal; Florestal; P.S.P.; a equipa de Guardas Prisionais do E. P.; a campeã do torneio realizado pelo Sindicato Guardas Prisionais; uma equipa de Guardas; das Ilhas Canárias; e uma equipa de reclusos. Neste período houve um passeio de barco a vários pontos da ilha, onde estava incluída a equipa de reclusos. Houve uma palestra num hotel do Funchal, tendo sido moderador sobre desporto José Peseiro, treinador do Nacional da Madeira – nessa altura. Este invento causava muito trabalho, mas sem trabalho não se consegue nada e causava muita inveja, principalmente aos órgãos máximos da Direcção Geral. Estive a chefiar o E. P. durante algum tempo, depois por questão de saúde e algum aborrecimento entre o Director e a minha pessoa, fui colocado no E. P. R. Funchal também com funções de chefia. Vem isto a propósito como uma declaração de interesses para tudo o que relato, nada tem a ver com bajulação, não preciso e não sou pessoa que se presta a esse tipo de coisas e não estou a fazer um descargo de consciência, ainda penso durar mais uns anos, tenho de me vingar da aposentação que é o que acontece neste momento.
    O E. P. R. Funchal é pequeno, como todos os E. Regionais. Neste existe uma torre de vigilância o que dá uma certa segurança ao E. P., por dia faziam ali serviço cinco Guardas e um Graduado. A cadeia tinha sessenta reclusos distribuídos por camaratas, entre eles, um ex-guarda prisional que dava que fazer por dez. Estava alocado num sector à parte, comia as refeições na cela, tinha recreio, num pequeno recreio à parte, assim como as visitas. Aos sábados e domingos, a esposa ia-o visitar e levava-lhe um saco com vários haveres. O saco era sujeito a uma revista, só entrava o que estava autorizado e constava da N.E.P., o restante era entregue à família no fim da visita. Aconteceu que uma vez a Guarda Feminina disse-lhe que tinham ficado retidos alguns artigos para a esposa no fim da visita levantar. Fez uma discussão, tive de o chamar à razão, e disse-lhe se não se calasse terminava-lhe a visita – não sirvas a quem serviu e não peças a quem pediu. Queria ser diferente dos outros reclusos, mas para mim a partir de ser condenado era um recluso como outro qualquer. Estas situações acontecem e alguns Guardas cedem a vários tipos de pedidos, estragando por vezes a sua situação profissional. Ali estiveram presos algumas individualidades, P.S.P, Guardas Prisionais e Presidentes de Câmaras, mas para mim eram todos iguais, ou seja ajudava mais, os mais desfavorecidos. Havia uma brigada de reclusos que trabalhavam para a Câmara Municipal do Funchal, todos os dias uma viatura da Câmara os vinha buscar e trazer eram acompanhados por um Guarda para os custodiar. O restante serviço era dividido entre faxina de Refeitório, Portaria, Limpeza de Corredores e Recreio. A parte do tempo era passada no recreio a divertirem-se. Não havia grandes problemas a não ser uma pequena zanga entre eles o que era logo sanada.
    Continua

  18. Continuação
    O serviço nocturno era efectuado por dois Guardas e o Subchefe ou Graduado. Um guarda ia para a torre de vigilância o outro ficava no interior do E. P. com o Subchefe ou Graduado. Os guardas de hora a hora eram rendidos entre si. Nos dias em que fazia serviço nocturno efectuava várias rondas, umas vezes sozinho, outras acompanhado com o guarda. Um dia por volta das vinte horas, na Madeira já é noite, fiz uma ronda acompanhado com o guarda e chegados a poucos metros da torre de vigilância – tínhamos subido um patamar, que circunda quase todo o edifício e estávamos ao mesmo nível da torre – vi que o guarda estava atento e quando chego próximo dele, puxa pela arma (HKMP3) e mete bala na câmara. Perguntei-lhe qual o motivo para tal atitude, tendo-me respondido que o devia de avisar que ia passar ronda, que noutros tempos, um Subchefe fez o mesmo e o guarda lhe mandou fazer alto e rastejar até ser reconhecido. Disse-lhe para deixar de brincar – era uma ronda, e as rondas não são avisadas – com coisas sérias e que ia comunicar o sucedido. Fiz a respectiva comunicação, li-a ao guarda que me acompanhou, tendo-me dito que estava conforme o que se passou. Mencionei o que o guarda me disse, e quando disse para assinar fez umas certas reservas, eu sabia o que a casa gastava, mas lá pôs a assinatura. Outra vez num Domingo dia de visita, as visitas eram só da parte da manhã, pelo motivo de ou dávamos visita ou recreio, não se podia dar as duas em simultâneo, dávamos o recreio à tarde. Havia um café que abria ao Domingo da parte da manhã, com o intuito de ganhar algum dinheiro com os familiares dos reclusos que iam à visita, ao meio-dia fechava. No E. P. R. não havia qualquer bar ou café, pelo que quando os guardas queriam tomar algo – fora o domingo de tarde – pediam autorização para ali se deslocarem. Sempre autorizei e se fosse preciso até os substituía, era raro ir ali tomar alguma coisa. Nesse Domingo estava no Gabinete da Chefia, sempre que o recluso – ex-guarda, era outro – tinha visita deixava-me estar por ali. Era no recinto da Portaria e tinha receio que manietasse a Guarda Feminina e dali se pusesse em fuga – o outro tinha sido transferido para o E. P. E. Santarém, que era o que estava destinado às forças de segurança – neste fazia menos confiança por isso aguardava ali. Por volta das quinze horas, aparece-me um guarda à porta do Gabinete, dizendo-me: “tenho direito a quinze minutos e venho-lhe dizer que os vou aproveitar para ir tomar um café”. Disse-lhe, não tem direito nenhum e não dou autorização a ausentar-se da cadeia, se a guarda lhe abrir o portão participo de ambos. Responde-me, “tenha cuidado que vai haver um Madeirense que o há-de meter na ordem”, mandei-o dirigir-se para o seu serviço porque ninguém lhe deu autorização para se ausentar. Passados uns minutos chega-me outro guarda com as mesmas intenções. Disse-lhe, admira-me de si, quantas vezes fico a substitui-los e não é a minha missão se, se ausentar não volta a entrar ao serviço e é comunicado por escrito o seu abandono. Pediu-me desculpa e que não voltava a acontecer, que eu não merecia essa atitude por parte dele e do seu colega. À noite, como sempre o Director ia-se inteirar como tinha decorrido o serviço, dei-lhe conta do sucedido e que de manhã seguia a participação. No outro dia apareceram os delegados sindicais a inteirar-se do sucedido e foram logo comunicar o sucedido ao jornal Noticias da Madeira. Sabia o que queriam, a intenção era contestar o Director, este perguntou-me se tinha a certeza que a lei não previa esta situação, respondi-lhe que se estivesse enganado sofria as consequências. Como referi mais acima sou dos fundadores do S.N.C.G.P., estes delegados sindicais ainda não sonhavam ser guardas e já perdia tempo com problemas da corporação. Não se dirigiram a mim a perguntar como tudo se passou e se precisava de algo para me defender. Era só sede de vingança, um deles tinha sido destituído do G.I. e não me perdoava isso. De imediato mandei uma carta registada ao presidente do sindicato para que me suspendessem as quotas, que enquanto se mantivessem, ele como presidente e os guardas como delegados sindicais, não descontava mais um cêntimo, foi com alguma tristeza que tomei essa decisão. De há uns tempos a esta parte os delegados sindicais eram eleitos dos piores guardas que tinha a corporação, tinha-me apercebido no E. P. Paços de Ferreira e aqui tinha a prova. Sei que a intenção era contestar o Director, não se lembravam que estavam a desempenhar serviço no melhor E. P., do País. As condições eram as melhores, não sabiam o que era uma cadeia, ali parecia mais um infantário, comparada com as do Continente. O sindicato que de volta e meia andava a arranjar problemas, devia de se orgulhar de haver assim um Director e exigir à Direcção Geral que os outros fossem iguais. O Director enviou as participações para a Direcção Geral, Serviço de Auditoria e Inspecções, (S.A.I.) para serem estes serviços a fazer as inquirições, com o intuito de ser um organismo independente. Encontro-me aposentado há dois anos, estes acontecimentos tiveram lugar no ano de dois mil e um, não tive conhecimento se houve punições, eu não as tive, o que desconfio era que o S.A.I. queria este tipo de situações para irem dar um passeio à Madeira à custa do Estado. Do que relato do Director, tenho quase a certeza que não gosta que o mencione, mas estou-me marimbando e lamento que nunca tenha sido convidado para Subdirector Geral, capacidades não lhe falta e tenho a certeza que mudava certas procedimentos, não é homem de pactuar com eles e as verdades são para ser ditas.
    Continua

  19. Continuação
    Em dois mil e dois fui transferido para o E. P. Paços de Ferreira a meu pedido. Tinha que resolver a minha situação, como comprar apartamento, a idade ia avançando e ia fazer um pedido de empréstimo ao banco. Ao meu filho foi detectado as diabetes, passou a ser dependente da insulina. A minha esposa não podia se manter na Madeira com o meu filho neste estado, eu vinha constantemente ao Continente e esse dinheiro que gastava nas viagens dava para ajudar a pagar a prestação mensal. Por esse motivo pedi a transferência senão terminava ali a minha carreira. Um guarda que presta serviço nas cadeias do Continente, comparado com os que prestam nas duas cadeias da Madeira, devia de se aposentar mais cedo uns cinco anos, derivado a que no Continente há um maior gasto de energias.
    O E. P. Paços de Ferreira era administrado pelo Dr. Paulo de Carvalho – hoje Subdirector Geral – e chefiado pelo Chefe Principal, Barreira, conhecia ambos. Os Guardas eram os mesmos, não houve aposentações, transferências ou entradas. A população tinha aumentado, entravam reclusos melhor preparados em tudo, a maioria era seguranças privados, treinavam em ginásios, eram corpulentos, continuaram a manter essa preparação no Ginásio do E. P. Connosco não havia problemas a não ser coisas de rotina, constava-se que havia reclusos ameaçados mas estes não os denunciavam com receios de represálias. Quando beneficiavam de saída precária, eram assediados para no regresso trazer droga, alguns reclusos não se apresentavam e quando recapturados alegavam ser esse o motivo mas não os denunciavam. Julgo que ser preso é um terror, entre eles há divisão e rivalidades, os mais aventureiros querem ser lideres, havia algumas lideranças, tentávamos sempre desmembrá-los mas havia alguns que só denunciavam se lhes desse protecção. Castigos havia alguns e quando isso acontecia iam cumpri-lo ao Pavilhão de Observação, era para isso que existia. O Refeitório era o local de maior aglomeração de reclusos, chegavam a juntarem-se aos quatrocentos, entre os que se encontravam a comer e os que estavam na fila de espera. Houve ocasiões de me encontrar só com um guarda para tantos reclusos. A maioria dos guardas de serviço apareciam ali só no final, avisei o Chefe de Guardas, mas as coisas continuavam. Tinha de abrir o refeitório se esperasse por ter guardas suficientes, neste momento ainda esperava que tal acontecesse. Prevejo em alguns E. P. com este tipo de situação, um dia haver graves problemas. Tinha-se que controlar a maneira como ali se apresentavam, era proibido entrarem em chinelos, mangas cabeada, em pijama, de calções, fato de treino ou com a cabeça coberta. Tive de tomar posições ou pouco arriscadas, só me encontrava com um Guarda, tinha de ser e a disciplina era para se manter. Os restantes reclusos compreendiam e queriam que nesse lugar houvesse respeito que quando assim é ganham todos. Numa visita de estudo ao Centro de Formação Profissional do Porto, custodiava reclusos que frequentavam o curso de Serralharia Mecânica, na partida intercedi que houvesse o máximo respeito. Chegados lá e quando fomos para almoçar vi coisas que não queria acreditar. Os formandos do Centro de Formação não respeitavam ninguém, comiam com as cabeças cobertas com bonés e capuz, era um barulho ensurdeçor. Próximo de mim encontrava-se um segurança privado e fiz-lhe a seguinte observação: isto acontece todos os dias. Ao que me respondeu que sim, que os professores deviam nas aulas ensinar-lhes os bons costumes. Se eu perguntasse o mesmo aos professores eles diziam que os seguranças privados deviam de ensinar as boas maneiras. Concluindo, ninguém quer tomar posições, julgam que ganham o mesmo. Ganhar! Ganham, perdem em autoridade e respeito. No aspecto laboral há a Oficina de marcenaria, serralharia, havia vários cursos de formação; Serralharia Mecânica e Civil, Olaria, Electricista, Padeiro, Informática, Marcenaria, etc. No ensino desde o primário à Universidade, refiro isto porque há muita gente que desconhece o esforço que se faz para ter os reclusos ocupados. As cadeias deviam-se abrir mais à sociedade civil, embora hoje note-se uma pequena abertura. A comunicação social anda ao sabor das notícias, se for notícias que vendem essas são noticiadas, se não for não interessa. Há dias vi uma notícia num jornal que agora não posso precisar que dizia que durante o semestre de 2009, tinha havido dezanove fugas, não especificando que tipo de fugas. Para serem mais explícitos, deviam dizer que entre essas, estavam os não regressados de saída precária prolongada, autorizadas pelo Conselho Técnico, entre eles o juiz do T.E.P. E por falar em T.E.P., acho que os juízes deviam acreditar mais nos Conselhos Técnicos dos E. Ps., embora a última palavra seja sempre dele. Assim como ouvir os reclusos, está consagrado em decreto-lei, é raro serem ouvidos a não ser quando é apreciada a liberdade condicional. Acontece que é neste momento que o juiz fica a conhecer o recluso, só o conhece pelo processo e acho pouco para quem vai deliberar algo de importante para a vida futura de uma pessoa. O Sindicato Magistrados Ministério Público a isto não se refere, interessa-lhe o que lhe dá mais protagonismo e ouvir reclusos dá chatice. Em todos os E.Ps. há um livro para os reclusos se inscreverem e sempre que o juiz faz a visita mensal, é obrigado a recebê-los – o que é raro. O sindicato que faça uma averiguação para se inteirar o que se passa, como referi isto não dá protagonismo. Depois quem sofre são os guardas com os lamentos dos reclusos, quando são só lamentos.
    Continua

  20. Continuação
    O dia-a-dia continuava e num desses recebemos uma ordem da Direcção Geral, para se transferir o recluso Alberto Ferreira (Berto Maluco) para o E. P. Coimbra, quando lhe foi dito ficou aborrecido, mas lá arrumou as suas coisas e antes de partir fez ameaças ao Chefe Principal. Este recluso directamente com a vigilância não dava problemas, o que de outras formas as vinha a causar porque era um dos líderes, que já referi. Um domingo fui com a minha esposa ao NorteShoping a Matosinhos e encontro o Alberto Ferreira ali a passear. Desconfiei que estava em liberdade definitiva dada a tranquilidade como ali passeava, quando se encontram em situação ilegal, não demonstram tal à vontade. Ao outro dia dei conhecimento ao Chefe Principal para estar prevenido. Passados uns meses fui com a minha esposa e os meus netos à praia de Lavadores em Vila Nova de Gaia, os meus netos foram brincar para o parque infantil, quando me apercebo o mais novo vinha agarrado à mão de uma menina e uma senhora a acompanhá-los. Conheci a senhora, era a companheira do Alberto Ferreira, chamei o meu neto e quando reparo deparei-me com o ele. Dirigi-me para a minha viatura para os meus netos lancharem e outra vez aparece o Alberto Ferreira, a sua viatura estava estacionada à beira da minha. Fui outra vez com os netos para o parque infantil e passado um pouco de tempo vejo o Alberto, a insurgir-se contra uns sujeitos que iam dento de um BMW descapotável, a tirar fotografias, dizendo que não estava correcto tirar fotografias às crianças, ainda olhou para mim a ver a minha reacção, desconfiei que o motivo não era as crianças, passados uns meses é assassinado como é do conhecimento público. Muitas vezes os Guardas Prisionais e outras forças de segurança são acusados de serem desconfiados, se olhamos para tudo com um olhar bastante observador, é derivado aos ossos do ofício.
    Um dia foi-nos dito por um irmão de um recluso que não se apresentou de Saída Precária Prolongada, que todos os dias à noite, se deslocava para sua casa para ali pernoitar. Fui incumbido mais um Subchefe e um Guarda Motorista, de nos deslocarmos à sua residência para o recapturar, o local da residência era o bairro de Santa Tecla em Braga. Estava combinado com esse irmão de nos auxiliar na recaptura – mas não queria ser visto – o que aconteceu. Quando chegamos à casa fomos recebidos pela esposa do mesmo que nos abriu a porta, mas já tinha avisado o marido para fugir por uma janela. Depois de isto tudo jurei que nunca mais me metia em tal, fomos rodeados por ciganos e vi a nossa integridade física em perigo. Mais tarde tivemos conhecimento que tanto a P.S.P. como a Policia Judiciária, tinham sido alertados e nunca lá puseram os pés. Uns meses depois foi recapturado mas na rua.
    O E. P. sofreu alterações na Administração, o Dr. Paulo de Carvalho foi transferido para o E. P. Porto (Custoias) e o Dr. Hernâni, que estava nesse E. P. veio para o de Paços de Ferreira, foi uma troca com prejuízo para nós. Logo a seguir abriu o E. P. Feminino de Santa Cruz do Bispo e quem o foi chefiar foi o Chefe de Guardas que estava a chefiar os Pavilhões Complementares, junto ao E. P. Paços de Ferreira, que abriu em 2003, sobre a sua autonomia. É composto por três pavilhões, cada pavilhão comporta cem reclusos. Volto a referir que não percebo a ideia de não ter a mesma tipologia da do E. P. Funchal. Os reclusos que eram transferidos para o E. P. Paços de Ferreira, depois de uma observação e se houvesse necessidade eram transferidos para os Pavilhões Complementares. No princípio havia uma selecção nos reclusos, que iam para ali transferidos, depois deixou de haver o que tornou estes pavilhões numa bandalheira. O pavilhão Nº. 3 recebia a maioria dos reclusos que beneficiam da flexibilidade das penas, assim como os que frequentavam cursos de formação, os pavilhões nºs 1 e 2 os restantes reclusos. Não compreendia porque não se fazia uma distinção e como prémio pelo seu comportamento, eram mudados de pavilhão para pavilhão, ou seja, quando desse a sua entrada, entrava no pavilhão Nº. 1, nessa altura via-se qual o melhor comportado nesse pavilhão, passava para o pavilhão Nº. 2 e assim sucessivamente. Parece que há interesse em fomentar o quanto pior melhor. Aqui com menos condições de segurança vinha parar tudo, até se chegou ao cúmulo de reclusos que vinham de outros E. Ps, com medidas de segurança especiais, transferidos para o Pavilhão de Segurança, criado para esse efeito – são dois, este e o do E. P. Monsanto – quando a Direcção Geral entendia que se devia tirar esse regime, iam transferidos para os Pavilhões Complementares. Cada pavilhão tinha um bar para reclusos, um recreio, um refeitório – a alimentação vinha do E. P. – uma sala oficinal, uma barbearia, um gabinete para atendimento da Técnica de Educação ou I.R.S., um gabinete de atendimento para os advogados, a escola era comum, uma enfermaria, quatro celas disciplinares, no pavilhão nº. 1, abdicou-se de quatro celas de habitação que passaram para cumprimento de sanções disciplinares – vinham reclusos dos outros pavilhões para esse efeito, quatro quartos para visitas íntimas, um parlatório para visitas. Havia todas as condições para se fazer um bom trabalho se houvesse perspicácia e vontade. Os Pavilhões Complementares começaram a degradar-se chegando ao cúmulo, de os reclusos do E. P. Porto, quando eram punidos com cela disciplinar, virem cumprir aos Pavilhões Complementares esses castigos. Argumentava-se que as celas disciplinares estavam a sofrer beneficiações – fui aposentado em 2007 e os reclusos do E. P. Porto, ainda vinham ali cumprir as punições – o Director do E. P. Porto era o Dr. Paulo Carvalho, ex-Director do E. P. Paços de Ferreira e dos Pavilhões Complementares – aqui segue a máxima, quem parte e reparte e não fica com melhor parte ou é burro ou não tem arte. O Director do E. P. Paços de Ferreira, Dr. Hernâni, não tinha voto na matéria e éramos nós que sofríamos as consequências. O E. P, e os Pavilhões cada vez degradavam-se mais, a disciplina se não fosse o Chefe Principal opor-se, entrava na anarquia, como nos anos oitenta. Um dia um recluso que beneficiava da flexibilidade da pena (Saídas Precárias e Regime Aberto Voltado para o Interior) por uso indevido do computador que existia na Biblioteca, onde o mesmo era faxina, passou a pronto do seu impedimento, e resolveu querer complicações com a Direcção e Chefia, fez um pedido para que lhe tirassem quatrocentas fotocópias de documentos seus, o que lhe foi indeferido, em discordância com esta decisão resolveu entrar em greve de fome. Quando os reclusos entravam em greve de fome vinham cumprir essa greve, às celas destinadas às sanções disciplinares, era essa determinação, negou-se, mas acabou por vir. Escreveu para tudo que era sítio, passado um dia, por volta das dezoito horas, a Subdirectora desloca-se aos Pavilhões Complementares e diz-me para fazer comparecer o recluso à sua Presença. Assim se fez, passado uma hora a Subdirectora dá-me ordens que o recluso ia para o seu pavilhão e mandar-lhe o jantar que o mesmo terminava com a greve de fome. Quando a Subdirectora se despediu de mim, disse não há aqui ninguém que resolva os problemas, é preciso vir alguém para os resolver. Como me disse isto, perguntei-lhe qual foi a solução, dizendo-me vou dar autorização para lhe tirarem as fotocópias. Respondi-lhe, é assim que as coisas se resolvem, não era preciso deslocar-se aqui para fazer isso, dava-nos ordens e nós fazíamos. Não ficou contente, advertindo-me, ao qual lhe voltei a responder, Doutora não lhe perguntei nada a Doutora é que se quis vangloriar. Este mesmo recluso numa saída precária de curta duração, na sua apresentação, trazia objectos que eram proibidos, o guarda de serviço à Portaria não os deixou entrar, fazendo um levantamento dos haveres apreendidos. No outro dia entregou-me a relação, onde fiz uma informação ao Subdirector sobre o facto, como o Subdirector sabia que era um recluso que reclamava por tudo e para tudo, levou ao conhecimento do Director, que pôs como despacho: não autorizo a entrada, desse conhecimento ao recluso e que este avise os seus familiares, para numa próxima visita fazer o seu levantamento. Não concordou, fez uma queixa para o tribunal judicial de Paços de Ferreira, queixando-se que tinha sido feito refém, violação de correspondência e perseguição. Foi chamado para prestar declarações, o Director, Subdirector e eu. Quando fui ouvido a primeira coisa que o juiz me disse foi: tem conhecimento do motivo porque aqui foi chamado. Disse que sim. Vai ficar sujeito ao termo de identidade e residência, aqui disse que não percebia o motivo do termo de identidade e residência, que cumpri com o estipulado no decreto-lei nº. 265/79, de 1 de Agosto, no que toca à entrada e saída de objectos. Passados uns meses fui notificado que o meu procedimento foi dentro do estipulado na lei, que por esse motivo era dado como arquivado. Fui impedido de várias coisas, o recluso beneficiava de todas e mais alguma. Um dia escrevi ao juiz do T.E.P., era uma juíza, contei-lhe a situação e num conselho técnico para saídas precárias prolongadas, para Junho, concederam-lhe oito dias, que é o máximo. Não fazia parte do conselho técnico – se fizesse mostrava a minha indignação – o Subdirector tinha conhecimento da carta que enviei e disse Meritíssima: o Subchefe Pacheco, enviou uma carta para o T. E. P. relatando algo sobre este recluso e concede-se oito dias? Disse que realmente tinha recebido uma carta, já não se lembrava, por esse motivo se o Conselho Técnico fosse favorável retirava-se quatro dias, assim aconteceu. A seguir pediu uma saída de curta duração – há muito que beneficiava deste regime – nestes pedidos a chefia tem de pôr uns certos dados assim como o comportamento, como houve a queixa para o tribunal, a greve de fome, tive de mencionar isto e dizer que a chefia da guarda entendia que não estava a ser merecedor, mas deixava à consideração de Vexa – Vexa, era o Director. Uns dias antes da data que o recluso pedia para sair e o Director tinha de assinar para ser passada respectiva guia que o acompanhava, recebo uma chamada interna de uma funcionária da secção de reclusos a dizer que eu mencionava certas coisas e que o recluso não tinha punições se eu queria rever a minha posição. Respondi-lhe que o meu parecer estava escrito, legível e com a minha assinatura, era mencionado que deixava à consideração do Director. Esta chamada telefónica quase que podia apostar que estava a ser feita do gabinete do Director, este não assumia os seus actos e gostava de se dar bem com Deus e com o Diabo.
    Continua

  21. Continuação
    As cadeias são uma incógnita, quando vamos para o serviço não sabemos com o que se vai deparar. Um marceneiro, um serralheiro, um escriturário quando vão para o seu serviço sabem mais ou menos com o que vão deparar, lidam com seres mortos, nós lidamos com pessoas e que pessoas. Têm sentimentos, reacções, necessidades, dificuldades e a maioria são a rejeição da sociedade, por tudo isto havia dias que eram difíceis.
    Como já referi gosto de tirar o máximo proveito do computador, não estou habilitado para tal, mas ideias tinha bastantes. Havia e há, o guarda Isaac, nos Pavilhões Complementares, que é um barra em programas do Visual Básico e a fazer base de dados, ou seja folhas de cálculo. Fez uma respeitante aos reclusos, com esta base de dados poupa-se uma enormidade de tempo, quando o mesmo dá entrada e os seus dados são inseridos na ficha do recluso, automaticamente são transportados para várias folhas: controlo no refeitório, nas visitas, conto diário, alocação na ala, piso e cela, ocupação, lista de recluso por número e abecedário, folha de abertura da ala e de encerramento. Na base de dados dos guardas, preenche-se a ficha de guarda, depois de se distribuir os guardas por turnos e de se ter mencionado numa ficha mensal, chamada borrão, a partir daí, distribui por várias folhas, assim como se pode mencionar as trocas de serviço, férias, falta ao serviço e apresentação, um sem número de coisas. Vários responsáveis sabem que os Pavilhões Complementares funcionam com este tipo de base de dados, acontece que a casa mãe, que é o E. P. Paços de Ferreira, aí não se pratica. Há um ganho em tempo e com isto liberta mais quem está com este tipo de funções, para outros serviços, não sei porque não avançam com um tipo de bases de dados para todos os E. P., será por não ser um exclusivo dos senhores engenheiros da D.G.S.P. e não lhes interessar por não ser sua a patente, ou será por ser um simples guarda que teve esta brilhante ideia. Lembro-me de num curso de formação na Escola de Administração Penitenciária em Caxias, ter posto este problema a um formador, mas foi visto com um certo desprezo. Coisas de patentes. Os Directores que passaram pelo E. P. Paços de Ferreira, após a abertura do Pavilhões de Complementares, tem conhecimento desta base de dados, mas nunca se interessaram pela sua funcionalidade.
    Nos serviços prisionais encontrei de tudo, pessoas com bastantes capacidades, bons líderes, aqui faço um reparo ao que para mim mais me marcou como Director, foi o Dr. Fernando Santos, pela sua dinâmica, liderança, cumpridor com as leis, defensor dos seus funcionários, não percebo a perseguição que o S.N.C.G.P lhe moveu, em lugar de exigir que a D.G.S.P., em todos os E.P., exigisse tal procedimento e antes de o criticarem, que fossem para o terreno verificarem em lugar de se convencer no que dizem os seus delegados sindicais. Digo isto com mágoa e uma certa ironia, pela vida fora fui delegado sindical numa empresa privada, delegado da comissão de apoio no E. P. Paços de Ferreira, no mesmo E. P. delegado sindical, Dirigente da Direcção do Sindicato em dois mandatos e acabar a carreira, auto suspenso, pelo facto de encontrar a presidente do sindicato, quem não merecia ser sócio, só fomentou a intriga, a inveja e a maledicência entre os funcionários. Quando este senhor deixou de ser presidente encontrava-me a desempenhar serviço no E. P. Paços de Ferreira, dei conhecimento a um delegado sindical, a resposta que obtive foi: preencha uma ficha – que diferença, quando era delegado sindical preenchia as fichas e que alegria sentia em cativar mais um sócio – agora é o que se vê. Dos piores Directores que encontrei foram: Nelson Teixeira, Cadeia Apoio Guimarães e Hernâni Castro, E. P. Paços de Ferreira.
    Estou aposentado desde Julho de 2007, passei por vários E. Prisionais, em todos colhi coisas boas e coisas más, assimilei o que achei de mais útil, tenho na consciência que deixei poucos amigos mas, de uma coisa estou certo, os poucos que deixei são amigos verdadeiros, assim como sou um verdadeiro amigo desses.
    Fim
    Manuel Maria Ferreira Pacheco, Subchefe Principal da Guarda Prisional, na aposentação.

  22. Fiquei encantado com esta descrição. Penso não ser possivel fazer muito melhor. a reflexão é excelente e o seu grau de complexidade e coerência é notável.
    Parabéns

  23. Manuel Pacheco, guardei isto no meu email, não sei se sabes que este é o maior elogio que te posso fazer, guardo o menos possível de coisas, só as que acho imprescindíveis. Para ler mais tarde.

    Por falar em email ponho-te aí uma coisa que me chegou há dois dias, dantes seria impossível para mim fazê-lo, teria vergonha. Agora não.

    Através deste texto, gostaria de contemplar um pouco mais sobre o propósito dessa vida. Entender porque viemos à Terra, o que viemos buscar e fazer aqui.

    A Filosofia do Yoga ensina através de sábios contos, e quero contemplar um conto muito profundo com você:

    Narada, um grande sábio, que vivia ao lado do Senhor do Universo, disse uma vez para Ele:

    “Senhor, mostra-me Maya, a ilusão do mundo, que torna possível o impossível”.

    O Senhor lhe disse: “Mas, Narada, porque você quer conhecer Maya, a ilusão do mundo?”

    Narada insistiu: “Senhor, estou feliz aqui, mas quero conhecer as ilusões do mundo material”.

    O Senhor concordou e, alguns dias depois, saiu em viagem na companhia de Narada. Andaram bastante e depois de algum tempo Ele disse: “Narada, tenho sede; por favor, consegue-me um copo d’água em alguma parte”.

    E assim, Narada saiu em busca de água. Não a encontrando perto, andou até encontrar uma casa. Bateu na porta e uma encantadora jovem, cuja beleza o cativou, abriu a porta.

    Ela começou a lhe falar com doces palavras e lhe encantou. Eles se apaixonaram e se casaram. Com o passar do tempo, tiveram filhos e foram felizes.

    Algum tempo depois, com a morte do sogro, Narada assumiu os negócios da família. Tornou-se muito próspero, com muitas posses e usufruiu uma boa vida com sua esposa e filhos.

    Um dia, porém, manifestou-se uma epidemia na região e Narada decidiu abandonar o lugar e ir viver em outra parte. Assim, com a esposa e seus filhos saíram da casa.

    Mas uma grande tempestade aconteceu e ao atravessarem a ponte sobre um rio, uma forte correnteza arrastou os filhos, um após o outro, e depois também a esposa se afogou.

    Lutando para sobreviver, ele também foi arrastado e bateu com a cabeça em uma pedra e desmaiou. Quando voltou a si, Narada sentou-se à margem do rio e começou a chorar desconsoladamente.

    Ele não se conformava e lamentava muito, pois antes ele tinha tudo, amor, filhos, dinheiro, posição, prosperidade e de repente, perdeu tudo.

    Justamente nesse momento, ele ouviu uma voz: “Narada onde está meu copo de água? Há meia hora você saiu para trazê-lo e não voltou”.

    Ao ouvir a voz do Senhor e ao vê-Lo, Narada se lembrou do Senhor, de seu pedido de compreender Maya, a ilusão do mundo. Lembrou que tinha vindo na Terra apenas para pegar um copo de água para o Senhor e que, iludido pelas ilusões do mundo, se esqueceu do que tinha vindo fazer aqui.
    E, exclamou: “Senhor, agora compreendo tudo e me inclino diante de Ti e diante a Tua maravilhosa Maya”.

    Vamos, agora, contemplar juntos esse conto:

    Você entendeu qual é esse copo d’água que Narada veio buscar?

    Você percebeu, que mesmo sendo um sábio, ele se esqueceu do propósito de sua vinda na Terra, iludido pelas ilusões do mundo?

    Esse conto nos mostra como somos iludidos pelos prazeres dos sentidos, pelo poder de posse, pelo apego, pela ilusão de achar que só viemos ao mundo para desfrutar, para simplesmente comer, dormir, viajar, casar, ter filhos e uma vida de abundância e riqueza.

    Tudo isso faz parte da vida, e é importante sermos bem-sucedidos e felizes no amor, na família, na vida profissional, viajar e apreciar a beleza do mundo.

    Porém, não viemos ao planeta Terra, essa escola abençoada e, muitas vezes de difícil aprendizado, apenas para nascer e morrer, para passear e passar o tempo.
    Nossa vinda aqui tem um propósito muito maior: viemos buscar evolução espiritual, desenvolvimento de virtudes como paciência, bondade, compaixão, amor incondicional, altruísmo, força interna, coragem e alegria interior.

    Muitas pessoas são envolvidas pela vida mundana, pela futilidade, pelos afazeres do dia-a-dia, pelo conforto, pelo trabalho, pelo poder, pelas competições, e perdem o foco, perdem o sentido da vida. Elas se esquecem porque vieram nesse planeta.

    O mundo moderno, com o consumismo exagerado, aumenta os desejos e sentido de posse. Acham que só serão felizes possuindo tudo o que desejam, e não compreendem que a verdadeira felicidade é interna.

    Todos nós buscamos a felicidade e merecemos ser felizes, prósperos e felizes no amor. Precisamos, porém, entender que a verdadeira felicidade vem de um coração agradecido, de estarmos felizes com o que temos agora, com uma mente em paz.

    Cada um de nós veio nesse mundo para cumprir seu Dharma (dever), –
    Esse Dharma, o dever que está à nossa frente, que apenas nós podemos realizar, é o copo d’água que viemos buscar na Terra. É como uma nota musical que somente nós podemos ressoar nessa maravilhosa orquestra universal.

    Descubra você também qual o é o copo d’água que deve levar desse mundo. Qual é seu dever com o marido ou com a mulher, com os filhos, com os pais, parentes e amigos? Qual é sua função na sociedade, no trabalho? Como deve ser sua atitude de ser útil e ajudar ao meio ambiente? Como pode ajudar os mais necessitados, tanto materialmente como espiritualmente, com compreensão e paciência? Fique em paz! Namastê! Deus em mim saúda Deus em você!

    Emilce Shrividya Starling

  24. José Pereira
    Só hoje vim ao site de Coisas que podem acontecer e verifiquei o seu comentário. Agradeço, embora goste de ser um entre tantos. Muitas coisas podia referir mas a minha dotação é mínima e tenho dificuldades em melhor me expressar, de qualquer maneira obrigado.

  25. Z
    O que lhe posso dizer é somente obrigado. Quando comecei a mandar uns textos para o Aspirina B, foi com a intenção de passar tempo e aprender algo com pessoas mais instruídas, e pode ter a certeza, que dou o tempo por bem empregue, por conviver com pessoas como você. Espero, continuar a usufruir da vossa paciência. Mais uma vez obrigado.

  26. Bem, infelizmente ainda não me apercebera destes escritos do Manel (eu tb sou Manel), mas já uma vez fiz um comentário muito positivo sobre um texto dele, comentário esse elogiado até pelo Val (fiquei todo babado). Manel Pacheco, posso saber em que sítio fez a tropa em Angola e em que ano? E cá, antes de ir para Angola? Obrigado!

  27. Eh Manuel isso é que foi dar ao dedo.

    Se metesses mais umas coisas pelo meio quase podias publicar sobre a forma de memórias ;-)

  28. Manuel Pacheco, devo ser novato por aqui, porque fui lá a esse post e fiquei assombrado! Como é que eu não o tinha descoberto ainda?
    Tenho um amigo de infância, o Luís Florêncio, que se gaba de ter a maior colecção de livros sobre a guerra colonial e ele prestou serviço em Angola também, mas como oficial miliciano, não sei bem quando. Acho que anda a tentar publicar as suas memórias, sobre a guerra, igualmente!
    Obrigado pela informação, mas como eu fui militar (um oficial qualquer), era para ver se nos tínhamos encontrado em algum lado, mas não!
    Vou informar o meu amigo destes seus comentários (melhor, posts) nestes posts!
    Já sei, por outro lado, ao ler as suas memórias no referido post, que (eu) estive com o FCF e o MMata no RI das Caldas da Rainha, nas datas que eles referiram!
    Bem hajam a todos os meus ex-camaradas da tropa!
    Manuel C Torres

  29. A propósito, esqueci-me de referir uma curiosidade: nesses anos de 71/72, no RI das Caldas, eu e o Vasco Lourenço, depois da meia-noite, tudo em sossego, íamos para a sala de oficiais, de quando em vez, ouvir a voz do Manuel Alegre na Rádio Portugal Livre, mas não era a voz dele que nos interessava, claro, eram as notícias que não podiam ser ouvidas durante a ditadura. Falo no Vasco que era meu amigo, mas eu não tomei parte do 25A74, pois estava nessa data em Angola a prestar serviço. Fui depois delegado do MFA em Abrantes em 1975.
    É também de lembrar que no dia 16MAR74 se deu nas Caldas o golpe premonitor do 25ABR e foi seu cabecilha, outro meu amigo, o Gonçalves Novo, que acabou, embora por pouco tempo, nos calabouços do odioso regime de então!
    Saudações, amigas e socialistas, a todos!

  30. O nosso copo de água
    Em Maio de mil novecentos e noventa e cinco o meu pai foi internado no Hospital de S. João no Porto, fui visitá-lo e verifiquei que a sua saúde era débil. Nessa altura a minha irmã mais velha, morava no Porto e como tinha disponibilidade visitava-o diariamente. Um dia e para a aliviar combinei com ela que eu o ia visitar, tendo a minha irmã me dado umas dicas, porque o dia em que propus não era dia de visita – as visitas eram reguladas, devido ao seu estado. Ficou combinado que quando chegasse ao hospital dirigir-me à recepção e perguntar pela Dr.ª Fernanda Lisboa que trabalhava em Obstetrícia e que nesse dia de manhã saía de turno, mas que se prontificou esperar até à minha chegada.
    No dia vinte e oito de Maio desse ano por volta das sete horas e trinta minutos saí de casa na companhia da minha esposa com a finalidade de para ali me deslocar, sem deixar de passar por uma pastelaria, aqui na terra, com a finalidade de tomar o pequeno-almoço. Como gosto de chegar cedo para não fazer esperar as pessoas, caso da Dr.ª Fernanda Lisboa, eram sensivelmente nove horas quando cheguei ao hospital. Dirigi-me à recepção e pedi para ligar para Obstetrícia e avisar a Dr.ª Fernanda Lisboa que já ali me encontrava, obtendo como resposta, que a Dr.ª já tinha saído de turno e tinha ida embora. Solicitei à funcionária que devia de haver algum mal entendido que a Dr.ª, se prontificou de ali esperar até que eu chegasse para falar com ela. Voltou a ligar pelo telefone interno ou fez que ligou e disse-me que se confirmava o que me tinha dito, disse-lhe para voltar a tentar e que eu aguarda mais a minha esposa, na sala de espera por resposta. Passado sensivelmente meia hora voltei à recepção e obtive a mesma resposta e uma certa antipatia o que não liguei, pelo facto de saber que na função pública, de onde fui oriundo, abunda este tipo de gente. Resolvi desistir de visitar o meu pai, fazia-o num outro dia, sem contudo a minha esposa insistir para eu telefonar para a minha irmã a dar-lhe conta do sucedido. Nessa altura o telemóvel não era tão usual, tinha de telefonar no telefone público que existe no hospital e como não estava provido de moedas desisti. Também pensei que podia haver algum mal entendido entre a minha irmã e a Dr.ª, pelo que disse à minha esposa que ao outro dia nos deslocaríamos ali para o visitar, a minha irmã também me tinha dito que ele (meu pai) necessitava de falar comigo.
    Já fora do hospital, no espaço público, dirigi-me para a minha viatura, com a finalidade de regressar à minha terra, quando vejo passar em sentido contrário, uma viatura com o marido de uma minha sobrinha. Como pensei que a finalidade dele era ir visitar o meu pai, contornei o parque e fui estar com ele a dizer que não valia a pena tentar porque estava difícil a vista nesse dia. Quando chego junto da viatura verifico que a minha irmã a seguir a mim, também ali se encontrava e noto na sua fisionomia algo diferente, e digo-lhes que não vale a pena ir visitar porque nesse dia era difícil. A minha irmã diz-me se não sou sabedor de nada, ao que lhe respondo que não sei o que ela quer dizer com isso, para se explicar melhor. Obtenho como resposta que eram cerca das oito horas da manhã receberam uma chamada telefónica a dar conta que o meu pai tinha falecido às seis horas. Aí é que notei a modificação que via na minha irmã, ela estava trajava de preto (luto). Fomos os quatro para a recepção e o marido da minha sobrinha perguntou à recepcionista se confirmava-se o óbito de Maximino Ferreira Pacheco, o que veio a ser confirmado. Nesse momento a recepcionista virou-se para mim e disse-me que estava farta de andar à minha procura que a Dr.ª Fernanda Lisboa estava à minha espera. Não será preciso dizer o meu estado de alma, reservei-me ao máximo para não armar ali nenhum estrondo, olhei à minha função e posição profissional, e vi que a funcionária era deficiente física e se o meu pai me pudesse pedir, pedia-me para não fazer nada, para ter pena de pessoas assim. Fui ter com a Dr.ª Fernanda Lisboa, pediu-me desculpa pelo sucedido não deixando de me dar os pêsames, e nesse mesmo dia conseguimos trazer o corpo de meu pai, o que era difícil por ser num domingo.
    Este é um dos meus copos de água, Z.

  31. também tenho um copo de água análogo, Manuel. Não conto mas não é por preguiça, é a modos que por pudor. O meu pai era um querido amigo, acompanha-me espiritualmente, umas vezes mais presente outras menos, mas creio que ele não gostaria que eu falasse detalhadamente.

    Fazes anos no dia de meu irmão, aquário. Quando eu estive na tropa, já depois do 25, só uns meses, tinha um segundo nome igual ao teu primeiro. Mas isto são apenas coincidências, acho piada.

    Quem me dera estar em África, sem guerra. Dou-me muito bem com negros.

    É impressionante como escreves como uma fotografia. Eu seria incapaz, esqueço-me das datas todas e dos nomes, só consigo fazer fotos conceptuais.

  32. Z
    O facto de escrever com todos os pormenores, deve-se quando no serviço, era nomeado instrutor de um qualquer processo, tinha de ir ao mais pequeno detalhe para mais tarde não subsistir qualquer dúvida.

  33. O nosso copo de água 2
    Em Novembro de 2006, o meu filho teve uma crise de diabetes que o levou a ser internado no hospital do Vale do Sousa em Penafiel. Deu entrada nos cuidados intensivos com um diagnóstico bastante reservado. Esteve vários dias com a diabetes no maior índice o que o levou a uma observação rigorosa e sem visitas. Desloquei-me todos os dias ao hospital e o que consegui era a visita momentânea para a minha esposa ou para a companheira do meu filho, nunca fiz questão de ser eu a visitar, já me contentava com a visita da minha esposa ou da minha nora. Tinha a convicção que já estavam a ser benevolentes a mais e não gosto de abusar da bondade das pessoas. Como me dirigia todos os dias ao hospital o funcionário da recepção das urgências quando me via, dizia logo, o Victor Hugo ainda se encontra aqui, passou a noite bem, vou ver se lhe consigo uma pequena visita. Dizia-lhe se garantisse a entrada da minha esposa a ia chamar e já me dava por satisfeito. Era o que acontecia, mas refiro que isto não se passava só em relação a mim, mas às demais pessoas que ali tinha familiares. Por todo o sofrimento que passamos por ali termos os nossos familiares, restava-nos o consolo de depararmos assim com funcionários zelosos e compreensivos para este tipo de situação. Nunca soube o nome do funcionário, mas deixo aqui um elogio, por saber ser digno da função que ocupa e que nunca perca o sentido do dever cívico e público que tão bem sabe desempenhar. O meu filho tinha altos e baixos, ou seja, tão depressa ia para o quarto no bloco como dava novamente entrada nos cuidados intensivos. Um dia quando me dirigi às urgências o dito funcionário deu-me a notícia que o meu filho tinha ido para o bloco às cinco horas da manhã, não sabia o número do bloco e nem o quarto, mas para me dirigir à recepção das visitas que ali me informavam. Assim fiz e ali disseram-me que estava no bloco 9, no quarto nº. 926 que a visita era das onze às catorze horas, para uma pessoa, das catorze às vinte horas para duas pessoas, agradeci a informação.
    Às onze horas lá apareci acompanhado com a minha esposa e quando me dirigi para me identificar e levantar o cartão, disseram-me que não podia entrar que o meu filho estava a ter visita, perguntei se o visitante se chamava Ricardo, o que foi confirmado. O meu filho não tinha o telemóvel com ele, nos cuidados intensivos não permitiam o telemóvel, o que nos complicou para o contactar e não sabia o número do telemóvel do comprade dele, que era quem o visitava nesse momento. Nessa altura estava a levantar o cartão, um sujeito que ali ia diariamente visitar o pai que estava internado no mesmo bloco do meu filho. Pedi-lhe se me fazia o favor de ir ao quarto Nº. 926 e dizia à pessoa que estava a visitar o meu filho, se descia para a minha esposa fazer a visita. Neste tempo de espera fui com a minha esposa até à cafetaria do hospital, tomar um café e ler o jornal que tinha comprado. Passados uns vinte minutos, o sujeito a quem tinha feito o pedido, chegou junto de mim e disse-me que o internado no quarto 926, tinha falecido. Que quando chegou ao referido quarto e o viu vazio, perguntou a uma enfermeira e obteve como resposta que tinha morrido, se era meu familiar e se fosse, aproveitava para me dar os sentimentos, disse-lhe que era meu filho. A minha esposa começou a chorar, tentei conformá-la, também precisava de ser conformado, mas nestas situações temos de ter sangue frio. Desloquei-me à recepção para me inteirar do sucedido e disse à funcionária que me tinha atendido de manhã, que afinal o meu filho estava morto. Notei que a funcionária, com esta notícia ficou estupefacta e disse-me para ter calma, que alguma coisa não batia certo. Telefonou para o referido bloco e demoraram a atender o telefone, o que me levou a desconfiar, mas passados uns minutos, atenderam o telefone e foi dito à funcionária da recepção que o Victor Hugo, estava numa cama no corredor à espera que o quarto 926 fosse desinfectado, que nessa noite o doente que ali esteve internado tinha falecido e que o Victor Hugo estava a ter visita e à espera para ali dar entrada. Escusado será dizer a alegria que eu e a minha esposa sentimos.

  34. Vá lá, esta correu bem!

    sim, Manuel, já tinha percebido que esse grafar tinha jeito profissional,

    bem, as histórias difíceis acho que não são o copo de água em si, creio que é mais para lembrar-nos dele…

  35. Caso Rui Teixeira
    Ao ler a contestação de António Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), não deixei de verificar o quanto estes querem a independência da magistratura. A que independência se referem? A de eles porem e disporem. Querem que os deixe fazer o que bem entendem sem lhes pedir responsabilidades? Não querem quem os fiscalize, ou quem os fiscalize seja da área deles. Isto não é corporativismo? Claro que sim, quem não se sujeita ao veredicto de outros colegas é um prepotente não quer as regras democráticas. Um juiz que condena, sendo mais tarde no recurso detectado erro grosseiro, devia ser promovido? Entendo que não. Aqui há parcialidade? Não são juízes de instâncias superiores que decidem. São conotados com os partidos? Os juízes só são neutros quando se defendem uns aos outros, quando são propostos pelos partidos são uns vendidos. Viram-se juízes contra juízes, julgam-se detentores da verdade e não admitem o erro e se o admitem não querem ser molestados. Isso é que era bom! Quantos funcionários são lesados nas suas regalias por omissões. Dizem que não se podem comparar a funcionários públicos então comparam-se a quê? A seres intocáveis! Quando julgam, não condenam casos que deviam ser repensados, na mesma circunstância não há outros juízes com outras decisões, não estudaram todos nos mesmos livros? Claro que sim. Mas há aquele réu ou aquele caso que nos dá mais notoriedade e, é uma tábua de salvação para a nossa carreira. Dizem que errar é humano. Totalmente de acordo. Mas quando são outros a errar e vão ser julgados por eles, não os condenam? Um motorista tem um acidente se houver mortos, esse motorista não é condenado? Pode ser na pena mais leve mas é uma condenação e ele não teve intenção.
    Ao pôr em dúvida a não promoção do juiz Rui Teixeira, outra dúvida se levanta, a dos outros juízes. Em função do seu despacho se cometerem erro grosseiro, se foram promovidos tem de ser despromovidos. Estes, ou Rui Teixeira, cometem erro grosseiro e se assim for, alguém não está a desempenhar bem o seu serviço. Não me parece que haja erro do Conselho Superior da Magistratura, o juiz Rui Teixeira tinha outros mecanismos para aplicar a Paulo Pedroso, mas o que se constata é sede de protagonismo. Depois de revistos todos os procedimentos e caso não sejam assacados culpa, é promovido e compensado com a retroactividade, se assim não acontecer é que se pode queixar de haver parcialidade.
    Há dias foi levantado um assunto sobre a maneira como os deputados se apresentavam vestidos na Assembleia da República, alguns pareciam que iam ou vinham da praia, dando um mau exemplo, o juiz Rui Teixeira, parece mais um playboy, a não ser que ande para o disfarce. Pode haver alguém com ideias contrárias, respeito-as mas, não concordo que as mais altas individualidades andem assim trajadas, a cara deve de dizer com a careta
    Há tempos e quando se levantou a hipótese de um juiz de um tribunal do Porto ir chefiar a Polícia Judiciária da mesma cidade, houve um sem número de queixas contra a sua nomeação por alegados favorecimentos ao F. C. Porto. Caiu o Carmo e a Trindade, dizendo que nada disso era verdade, até lhe fizeram um jantar a homenagear a sua isenção e verticalidade e passados uns tempos não foi condenado? Neste caso o juiz António Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP), não veio comentar nada de nada. Coisas de corporativismo e olhem que sei do que falo porque me aconteceu o mesmo e sabe o que fiz, abandonei o sindicato, não estava para pactuar com coisas desse tipo e era um dos fundadores, tendo sido aliás dirigente nacional.
    Estamos numa época em que o que interessa é o corporativismo, não importa as nossas qualificações, o que é preciso é reindivindicar para tirar o máximo proveito. Mas só vejo isto na função pública, no privado calam-se que nem uns anjinhos, não é possível privatizar a justiça, embora certos sectores já o estejam a ser. Pagava para ver ou punha todos a trabalhar á peça, assim dava para ver o tal corporativismo.

  36. O Cilro
    Conheci-o a partir de Dezembro de 1980 no E. Prisional de Paços de Ferreira. Quando ali dei entrada como guarda prisional, já ele cumpria ali pena, salvo erro por furtos. Era bem constituído fisicamente, trabalhava na cantaria sendo um dos melhores artistas e um dos que beneficiava da confiança do seu mestre, de seu nome Campos. No aspecto laboral era aplicado, não faltava um dia ao trabalho, não era dos que constantemente se desenfiava do seu serviço, era um recluso trabalhador, daqueles que dava gosto ver trabalhar. Tinha a sua personalidade e não virava a cara a luta se soubesse que a razão estava do seu lado, mas sempre com cordialidade, respeito, aliás nesse tempo, eram poucos os que não respeitavam as regras da boa educação. Quando houvesse um recluso que fosse malcriado para com o pessoal de vigilância era logo repreendido pelos seus camaradas reclusos, quando às vezes não eram chamados a um certo sitio – fora da vista dos guardas e ali a repreensão era mais severa. O Cilro pela vida fora, julgo que tinha tantos de cadeia como de liberdade, foi um bom desportista, jogava na equipa de futebol de cinco e era um dos melhores da equipa de reclusos da cadeia, assim como de vez em quando era solicitado para arbitrar jogos e impunha a sua disciplina, não havendo ninguém que protestasse das suas decisões. Encontrei-o salvo erro por duas ou três vezes na cadeia, sempre com pena de prisão grande, mas com espírito de resignação e pronto a levar a sua condenação o melhor possível.
    Da última vez que deu entrada vinha em fase terminal de vida e foi alocado na Enfermaria do Estabelecimento Prisional. Era raro ter visitas, um dia um seu filho deslocou-se num dia de semana à cadeia com a finalidade de o visitar, fui incumbido de o acompanhar à Enfermaria – não se podia deslocar ao Parlatório – e quando ali cheguei e vi o seu estado, veio-me à memória o Cilro de outros tempos. Reconheceu-me, dizendo Sr. Subchefe Pacheco o que a vida nos reserva, por tudo que o tenha ofendido aceite as minhas desculpas. Aqui notei que ele pressentia o fim da sua vida, mas não me envergonho de dizer que tive de olhar para o lado para ele não presenciar uma lágrima que me corria pela face. Teve ao menos um consolo e o mérito reconhecido de ir morrer à sua residência, pelo motivo do Estabelecimento Prisional tudo fazer para que o Tribunal de Execução de Penas do Porto lhe facilitasse esta medida prevista na Lei.
    Estas situações devem ser tornadas públicas para que a sociedade civil delas tome conhecimento, para ver que os Serviços Prisionais Portugueses são dos mais humanos a nível mundial e não como às vezes referem os órgãos de comunicação social e os Direitos Humanos.

  37. Quando faz bem olha a quem
    Há uns anos e num sábado desloquei-me na minha viatura à cidade do Porto. Num certo lugar bastante movimentado, deixei-a estacionada durante uma hora. No regresso verifico que a mesma tinha sido assaltada, por arrombamento da fechadura e dali tinham -me roubado uma casaca, assim como a carteira com toda a documentação.
    Na altura não sabia como proceder, ali não existia nenhuma esquadra de polícia, para apresentar queixa assim como não sabia de uma dependência da Caixa Geral de Depósitos, para fazer a anulação dos cartões de crédito.
    Nessa altura ia a passar na rua um sujeito a quem reconheci, como guarda prisional que prestava serviço no E. P. Porto, (Custoias) a quem pedi ajuda, tendo sido desprezado pelo mesmo. Acresce referir que este mesmo guarda quando deu entrada no serviço (como tarefeiro) no E. P. Paços de Ferreira, na altura eu era delegado sindical e fazia serviço nocturno na portaria. Era um grupo de vários tarefeiros e a maioria do Porto e seus arredores. O serviço dos mesmos consistia em serviço diurno – para aprendizagem, não podiam fazer serviço com responsabilidades, só mais tarde é que veio a acontecer – pernoitavam na camarata da cadeia e como tinham necessidade de sair, estavam sujeitos a um horário de entrada.
    Prestávamos serviço na portaria quatro guardas numa escala de dois serviços e dois de folga, sendo o segundo com serviço nocturno. À uma hora encerrava-se esse serviço – quem quisesse dar entrada tinha de ser até esse horário ou entravam ao outro dia – como já tinha passado por essas situações, não me importava de lhes dar entrada a qualquer hora e era o único a proceder assim.
    Depois de receber essa desfeita, para mais esse guarda a que me refiro, viu-me com dificuldades e não me ajudou, aí verifiquei, o quanto é desagradável nestas profissões, verificarmos o quanto são destituídos de valores cívicos estas personagens. Entre a frustração de ser roubado e não ser ajudado, não sei qual foi a maior e deixou-me certas reservas quanto ao actor do roubo.
    Sei que uma árvore não faz a floresta mas, muitas vezes deparei-me com bastantes dúvidas, pelo facto de não saber onde começava uma coisa e acabava a outra.

  38. Quem não se sente não é filho de boa gente
    No dia quinze do corrente mês a RTP apresentou um programa no canal 1, em horário nobre, intitulado “um lugar para se viver” em referência ao concelho de Paços de Ferreira.
    Tive o cuidado de o ver com toda a atenção, gosto de ver e ouvir falar do concelho, principalmente pelas boas causas. Acontece que o que nos foi dado ver nada tem a ver com as boas normas cá praticadas, este é o meu ponto de vista.
    Quem se desloca ao concelho não é refém de uns quaisquer reclusos evadidos – não me lembro de tal acontecer e já houve várias evasões.
    Quando vai a uma entrevista de trabalho não se depara com o que nos foi dado observar, logo de rompante, é-se violado, parecia uma casa de massagens, vulgo prostituição chique. No concelho não faltam seres do sexo masculino para satisfazer os ímpetos de tais criaturas.
    Acresce que as casas de venda de material informático, não preenche o seu tempo com sites de pornografia, e não sei o motivo da Policia Judiciária ser chamada, a não ser que se queriam referir a sites de pornografia infantil.
    Na fábrica de móveis não sei se era o encarregado ou o patrão que se dirigiu ao candidato a empregado, mas tenho a dizer que um dos nossos lemas, é o saber bem receber, é ver o êxito com empresas e funcionários oriundos de outros concelhos, e não tratar assim um ser humano tenha qualidades ou não, achei um achincalhamento.
    Na minha modesta opinião quem devia fazer um reparo à Administração da RTP, deviam de ser as forças vivas do concelho, no entanto fico à espera da sua reacção.
    Acabo como comecei. Só não se sente quem não é filho de boa gente.
    Manuel Maria Ferreira Pacheco

  39. (mas paços de ferreira não é a capital do móvel)
    Sinhã
    Não sei se teve oportunidade de ver o dito programa “um lugar para se viver” se a teve, verificava que ali houve mau gosto. Não quero dizer que a intenção fosse essa, mas que devia de haver uma melhor selecção, lá isso devia. Em conversa com amigos, referi que talvez não esteja habilitado para compreender estes alcances, sei que quem escreve os guiões é mais dotado que eu.
    Acresce informar que sou de Freamunde, há uma rivalidade bastante acentuada, contudo vim aqui lamentar esta situação e na dita peça Freamunde não é referido nem mostrado, não vi nenhum habitante de Paços de Ferreira a lamentar tal situação.
    Coisas de gostos.

  40. O guarda
    De todos os intervenientes que fazem parte de um Estabelecimento Prisional, Director, funcionários civis e guardas prisionais, os mais mal vistos pela sociedade são estes últimos.
    Contudo acho que a culpa não é deles mas de quem está à frente da Direcção Geral dos Serviços Prisionais, não me refiro aos actuais mas a todos que por lá passaram, ao não dar conhecimento do que de mal e bem se pratica. Aqui não deixo de censurar o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional, por nos momentos de defesa tentarem de todo o modo ilibar os seus associados, não separando o trigo do joio.
    Nestes sítios todos são precisos, senão não havia razão para a sua utilização, entendo no entanto que todos deviam de ser um corpo só, trabalhar todos em prol da mesma causa, e deixar de haver rivalidades, elogios quando tudo corre bem, e passar as culpas quando corre mal. Sabemos que vários sectores são ou querem ser os meninos bonitos do sistema, havendo alturas em que se tem de dar um não em lugar de um sim tremido e fazendo crer que a culpa é sempre dos outros. Quantas vezes éramos apelidados de maus de não querer ver certos problemas, isto era dito pelos reclusos, nas conversas com funcionários de organismos como Educação e Ensino e Reinserção Social.
    No que me toca não gosto de fulanizar mas se não fossem os guardas prisionais não sei o que seria dos reclusos. Estão constantemente com eles, desde o abrir da cela ao seu encerramento, nas boas e más situações e, há situações bastantes melindrosas. Nos seus desabafos, quantas vezes nos estão a contar algo e temos que mostrar interesse, mostrar-lhes que não estão desprezados, que fazem parte deste mundo e que se espera deles a sua integração na sociedade. As várias celas que anotamos na folha de distribuição nocturna para ser vistoriadas, porque desconfiamos que os seus ocupantes andam com fracas ideias, outros que derivado ao seu estado psicológico, querem pôr termo à vida, um sem número de situações.
    Nunca tive a infelicidade de quando era guarda, ao abrir uma cela encontrar algum recluso enforcado, mas ouvi de guardas que é uma sensação que fica para toda a vida. Suportar reacções de outros acusando-nos de sermos os seus autores incluindo a sua família – estes que só se prestam a criticar a instituição, nunca os apoiando nos maus momentos, parece que a finalidade é receber algo em troca. Não fazem uma auto-critica da maneira como procederam com eles, abandonando-os quando mais precisavam dos pais. Quantos me disseram que nunca tiveram um carinho deles, não sabiam o que era um beijo paternal ou maternal, eram filhos da ocasião, viveram a vida sabem lá como. Outros que vinham desabafar da atitude de alguns guardas, tendo-lhes dito que deviam ter mais consideração por eles, do que por nós subchefes e chefes, que eram eles (guardas) que estavam sempre presentes nas boas e más horas.
    A vida dentro de uma cadeia é uma incógnita há dias que vamos contentes para casa após o cumprimento do serviço, outras frustrados pela nossa impotência, o serviço não correu como o planeado e por sentirmos uma certa injustiça. Também cá fora sentimos que tudo não é perfeito, a vida é feita por humanos e estes estão sujeitos aos erros. Se estes erros forem o garante de numa próxima vez não voltar a acontecer, já alguma coisa se ganhou.
    Também há os reclusos que estão sempre contra tudo, seja a alimentação, ou outra coisa qualquer, quantas vezes lhes fiz ver que quem dera a milhões de pessoas terem a alimentação que eles reclamavam, que a maioria das vezes quando chegava a casa não me importava de ter uma alimentação igual. A maioria que reclamava era a que infelizmente tudo lhes faltava, que em liberdade andavam pelos contentores do lixo à procura de algo, passado algum tempo estavam magros, que dava pena, e isto acontecia tanto cá como na Madeira – um dia estava num supermercado e um ex-recluso andava a pedir, quando me viu sentiu vergonha e disse-me que antes preferia pedir do que roubar. Disse-lhe, tantas vezes desprezou o comer que lhe era servido e agora quem lhe dera um prato dessa comida, respondeu-me quem me dera. Estas palavras eram ditas em pleno refeitório e ninguém contestava, sabiam que dizia a verdade. Se não fosse o sistema de saúde que existe nos Serviços Prisionais a maioria deles já não existia, principalmente os portadores do HIV e das Hepatites tanto A como B.
    As cadeias deviam de ter uma classificação, esta classificação feita por entidades competentes, só assim é que se podia melhorar e competir umas com as outras e julgo que ganhavam todos os seus intervenientes, havia um rumo e um objectivo a atingir. Assim anda-se à espera de melhores dias a tomar soluções em cima do joelho, uma grande parte ao deus dará. Nas que são bem dirigidas nota-se um bom ambiente, na maioria delas o ambiente é bem pior para não usar outro termo.
    Por tudo isto entendo que deviam de ser mais abertas à sociedade e comunicação social, com esta, a fazer intervenções isentas e não há procura de protagonismo. Hoje li no Jornal de Notícias, um artigo sobre cadeias no Brasil sem guardas a vigiar os presos, ou seja, presos a vigiarem-se uns aos outros. Por tudo o que o técnico expôs não acredito no seu sucesso, pelo que observei durante a minha actividade não me convenço na lealdade de uns para com os outros a não ser que os presos brasileiros sejam uns presos modelo.

  41. Agradecimento público a Maria de Lurdes Rodrigues.
    Nova legislatura novo governo, o que findou vai-nos deixar saudades. Mesmo os opositores vão-se lembrar desta legislatura, da maioria dos ministros entre eles, Maria de Lurdes Rodrigues, Ministra da Educação. No que me toca e porque sei do que falo, tenho netos a frequentar o ensino básico, sei o que as escolas vão perder. Digo escolas, porque são estas as verdadeiras interessadas a que haja um clima de acalmia, de boa aprendizagem, não estejam ao sabor dos interesses corporativos de meia dúzia de feudais, que só lhes interessa o seu bem-estar, as regalias sociais, quer estejam preparados ou não para leccionar. Não querem estar ao sabor de quem exija deles ensinamento, abnegação, espírito de sacrifício e ensino por ensino. Outros não querem responsabilidades, preferem que sejam todos e ninguém a mandar, assim dá-lhes mais espaço de manobra para fazer obstrução ao Ministério e à Ministra da Educação, não gostam de ensinar o que gostam é de serem malcriados, exemplo Charrua. Vai voltar novamente o destabilizador número um, Mário Nogueira, a reindivindicar por tudo e por nada a querer que todos sejam promovidos, tenham qualificações ou não, o que interessa é que subam na carreira, quanto mais ganham, mais descontam para o sindicato, assim ele, também recebe mais de comissão e ajudas de custo. Não interessa se os alunos aprendam ou não, se tiverem dificuldade que vão para explicações, é para isso que os professores abrem ateliês para esse efeito – faz-me lembrar os médicos que trabalham para o SNS, com os seus consultórios. Em nome dos meus netos quero deixar um muito obrigado à Ministra da Educação e dizer-lhe que deve ser das poucas pessoas que pode andar com a cabeça bem levantada, porque não deve nada a ninguém, pelo contrário, se há alguém que deve algo esse é o Pais, que deve muito a si. Há pessoas que a história um dia vem a recordar, julgo que não vou ter o prazer de ler isso, simplesmente por não ser do mundo dos vivos, pelo facto da história demorar a reconhecê-los. Ao menos os meus netos um dia se recordem que o avô, em nome deles escreveu este texto para ser publicado no Aspirina B, sobre o melhor Ministro (a) da Educação que existiu em Portugal, até ao ano de dois mil e nove.
    Manuel Maria Ferreira Pacheco

  42. Coisas da aldeia
    O dia está um pouco envergonhado, tanto faz chuva como logo deixa de chover. Se saímos de casa temos de ir para um café, se não for assim somos apanhados pela chuva miudinha que hoje nos persegue. Se não formos para estes lugares para onde podemos ir! Pouca sorte, esta de viver na aldeia – aliás a minha terra foi considerada cidade em Abril de 2001, mas devia de lhe ser acrescentado antes de cidade, o nesse, assim é que combinava bem – não há nada de nada. Quem vive nas cidades ainda pode se deslocar até um centro comercial, uma casa de cinema, uma biblioteca, assim dá para passar um bom bocado de tempo. Nós na aldeia é ir até um café ou tasca jogar uma sueca mas, passado um pouco já estamos fartos, os adversários não dão luta e bater em mortos não dá apetite. Por isso prefiro vir para casa e entreter-me na internet ao menos aqui, passo um bom bocado de tempo. O preço é sempre o mesmo tanto vale usar um minuto como o dia todo, antes de aderir á MEO ficava-me caro, agora vingo-me.
    Venho dar uma espreitadela ao Aspirina B mas os temas são dos que não me dizem respeito, estou fora dos assuntos e não gosto de falar do que não percebo. Gosto de dialogar embora diga umas asneiras mas é com estas que aprendo e melhoro os meus conhecimentos – das trevas nasce a luz. Entendo que desde que aderi a este blogue a minha cultura geral aumentou e de que maneira, tanto na parte de escrever (no teclado) como na maneira de dialogar com os outros. Por isso, entre o jogar à sueca e blogues, prefiro estes.
    Hoje a minha disposição está como o tempo, devíamos de estar apetrechados com um kit (comando) para mudarmos conforme o gosto, se quiséssemos sol, programávamos sol, se quiséssemos chuva, tínhamos chuva, assim é que era, sol na eira e chuva no naval ao mesmo tempo. Por isso um dia recuso-me a voltar a este mundo, só com a condição de programado com o tal kit.
    Mas como isso não é possível vou-me entretendo a ler as notícias que vários blogues me dão, o Jumento; Câmara corporativa; Câmara de Comuns; Jugular; e de vez em quando vou ao Arrastão e Blasfémias mas não gosto do tipo de notícias e da maioria dos comentários. Assim vou ficando por estes, gostava de intervir no Jugular mas quando vou para o fazer pedem-me o número da conta e desta maneira não estou disposto a intervir. Não se pode ter tudo, ao menos fico com as suas opiniões. No fundo e de certa maneira o se pagar para fazer um comentário, a certos comentadores até concordo, só para os aturar. Há alguns blogues aqui na minha terra mas não intervenho porque não quero ficar conhecido, para servir de chacota, gosto de ser um entre tantos e não entre tantos um e como não gosto de ser anónimo, é esse motivo porque não o faço, santos da casa não fazem milagres.
    Por tudo é melhor assim, enganamo-nos uns aos outros, ninguém nos conhece, não sabem se somos coxos, marrecas ou outra coisa qualquer, um dia se nos formos a despir é que vamos mostrar as nossas fraquezas mas, até lá folgam as costas.
    Um bom fim-de-semana para todos.

  43. O refugo
    Há muito, muito tempo, quando a fome percorria a maior parte da população Portuguesa, os lavradores faziam as suas colheitas e de propósito deixavam esquecidos, alguns cereais ou frutos, para mais tarde os ir a apanhar – naquela altura os campos ou quintas, era à terça, como chamavam, ou seja, por cada três partes recebia-se uma. Como a vida era difícil e o lavrador não ganhava para pagar o combinado, ainda tinha de ir trabalhar uns dias para outros senhorios, chamado trabalho de jornal – um dia de trabalho era uma jornada – para assim fazer face às várias dificuldades com que se debatiam, mau ano agrícola e intempéries. A esses cereais ou frutos eram chamados de refugo. Como em tudo na vida havia senhorios que se convenciam nos inquilinos, outros não, e sem se dar a perceber iam fazer uma ronda, encontravam o tal dito refugo e faziam com que o inquilino o devolvesse.
    É o que me faz lembrar este PSD, exige tanto e quando for dar uma volta pelo seus campos ou quintas, só vai encontrar refugo, tão mal foi a sua sementeira e colheita, devido aos maus anos ou às intempéries.
    Quem vento semeia tempestades colhe.

  44. Ir à caça e ser caçado
    Aconteceu a um colega meu que é caçador, um dia em que foi à caça, além do esforço dispendido, do gasto monetário, ainda teve a infelicidade de ser confundido com um coelho e levar um tiro de um outro caçador. Para além deste azar, ainda hoje com a mudança do tempo tem dores provocadas por alguns chumbos ali alojados. Quando isso acontece sinto pena. Isto de ir à caça e ser caçado deve ser das coisas mais desprestigiantes para um caçador.
    Sinto a mesma pena de Pacheco Pereira com a interpelação que hoje fez na Assembleia da República ao 1º. Ministro, depois da resposta que recebeu ainda se encostou para trás na cadeira, mas o que me leva a crer, era que se queria enfiar debaixo dela. Marcelo Rebelo de Sousa uma vez disse que o PSD é um saco de gatos, outra que é um gato de sacos, o que me leva a aconselhá-los que não desperdicem os sacos porque vão precisar deles todos para enfiá-los na cabeça, tais os disparates. Espero que ao Pacheco Pereira não aconteça o mesmo que ao meu amigo, que na mudança do tempo não tenha dores que o prive de voltar a falar, porque se assim for quem são os verdadeiros prejudicados somos nós, que não nos podemos divertir com as suas asneiras. Achei o debate interessante e José Sócrates como sempre bem preparado e com força para dar e vender.
    PS – Só não gostei da publicidade à Quadratura do Círculo feita pelo 1º. Ministro, ainda o vão acusar de andar a servir os interesses da SICN, como hoje fez o Pacheco Pereira com o computador Magalhães.

  45. A Chica
    Na aldeia Faz de Conta sem t, uma terriola como muitas que abundam neste Portugal, havia uma família constituída por marido, o João da Isaura, a mulher, a Emília Rainha – em várias terras de Portugal, as pessoas para serem conhecidas tem de se aplicar o apelido – e três filhas. A Francisca, mais conhecida por (Chica, parte principal desta história) era uma moçoila a quem a mãe natureza prendou quase de tudo, só na parte que comanda o corpo, deixou-lhe algumas deficiências – como o juízo e a inteligência. A Chica era uma moça que se prestava a certos favores, favores esses que não passavam de banais, em última circunstância e só nestes casos, em trabalho que só ocupasse as mãos. A mãe sempre a avisou que com seres do sexo oposto quanto menos confiança melhor, que eram todos uns oportunistas e que, à mínima coisa se pudessem saltavam em cima e que os três vinténs podiam ser perdidos. A Chica respondia, para a mãe não se afligir que tinha como meta, aguentar os três vinténs até ao casamento.
    Como a Emília Rainha não confiava na filha pediu à Guilhermina, Mina, para os amigos, que era uns anos mais nova que a Chica, para a controlar por que não queria sofrer mais desgostos, bastava-lhe o da Isabel, das três a mais velha, que não via há muito, tinha abalado para Lisboa, dizia que andava a servir nuns senhores, mas o que a levava a desconfiar que eram os senhores que se serviam dela. Quem a tinha avisado tinha sido a Rosa do Geraldo, que um seu filho que era carrejão numa fábrica de móveis e numa ida a Lisboa a tinha visto numa casa de alterne para os lados do Intendente. Quando ouviu esta notícia ficou toda contente, tanto o nome da casa de “alterne” e “Intendente” são nomes finos e nunca lhe passou pela cabeça ter parido uma filha para servir nobre gente. A Rosa do Geraldo perguntou-lhe se não sabia o que era uma casa de alterne. Ao que deu como resposta que não, mas devia de ser coisa chique. Diz-lhe a Rosa do Geraldo, olha que foi o que pensei e até disse para o meu filho, ainda bem, para ver se ela muda de rumo, já bastava o falatório que corria na aldeia quando ela se encontrava cá, desculpe a franqueza vizinha. Ó Rosa, afinal dás uma volta grande até parece as voltas que a minha Chica dava no carro do Tino, e não me diz nada da casa de alterne. Ó mulher vou te dizer mas tens de jurar pelos três vinténs da Mina, que dos da Chica já não acredito, que não diz a mais ninguém se não o meu filho nunca mais me fala, que a tua filha lhe pediu por quanto havia para não contar a ninguém, até se dispôs a pôr-se na posição horizontal para a paga. Não sei o que queria dizer com isso, sabes estas modernices, no nosso tempo queríamos lá saber dessas posições. Mas, voltando à vaca fria, uma casa de alterne é onde os homens vão à procura de mulheres para se satisfazer. Parece impossível para me dizeres isso não podias ir directa ao assunto e dizeres que isso são casas de putas. No que aquela desgraçada deu, eu bem avisei o meu João, mas ele quer lá saber o que lhe interessa é a tasca, os amigos e o vinho, em mim já não me toca vai numa porrada de meses.
    Como tinha sido combinado a Mina ficou de controlar a irmã para esta não andar com ideias malucas, nessa altura, apareceu um rapaz chamado Abel, com fama de mulherengo a rodear a Chica, era de uma terra próxima e vinha de motorizada. Disto deu conhecimento à mãe, ao que a mãe respondeu, ainda bem por que na motorizada não pode fazer asneiras como fazia no carro do Tino. Ó mãe diz a Mina, não esteja com tanta certeza, não vê o que aconteceu à Maria do Grêlo, quando namorava com o homem que tem, só soube que era manco de uma perna quando casou. Não disse se não fosse o que se tinha passado não casava com ele, não queria dar um desgosto ao pai, se não antes preferia ficar com o filho nos braços. Portanto mãe continuou a Mina, onde é que fizeram o serviço, não foi ela que se encostou à motorizada? De certeza que sim, para casar e não saber que era manco! Cala-te rapariga, dizia a mãe, pelo que vejo estás muito espevitada. Não diga que vai dizer à Chica para me controlar, isto é que era um serviço em dois, como se diz, com um tiro mata-se dois coelhos, mas não preciso e pode estar tranquila que a coisa ainda não me veio. Não digas disparates rapariga, dizia a mãe, andas a ver muita televisão e o programa da Sue, na Sic mulher, bem avisei o teu pai para não pôr o Meo, que só vinha trazer problemas, mas para ele o Benfica está acima de tudo, essa Sue é uma desbocada onde se viu uma mulher tão velha com essas conversas.
    Um domingo quando a mãe foi à missa, a Chica, julgando que a Mina ainda estava a dormir, esteve até às tantas a ver televisão, pôs-se a pé e mesmo em combinação dirigiu-se para a casa da lenha onde tinha marcado encontro com o Abel para um frente a frente, nesta altura era o usado, não havia as modernices de hoje. A Mina que estava de atalaia assistiu ao encontro e de imediato desatou a correr para a igreja para dar conta do que se passava à mãe. Chegada lá e como a igreja estava repleta não conseguia descortinar a mãe, em último recurso e como queria evitar a perda dos três vinténs da irmã, começou a chamar em voz alta: Ó mãe, mãe, como não era correspondida continuou a chamar. Foi advertida por uma beata com um chiu, ao que lhe respondeu, nem chui nem miu vá para a puta que a pariu. Mesmo assim não conseguia fazer-se ouvir e resolveu rematar com a seguinte frase: Ó mãe quer venha, quer não venha a Chica está a perder os três vinténs na casa da lenha.
    Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção.

  46. É uma boa história, Manuel, mas não há incongruências? Ou terei entendido mal? É que sem essas incongruências, a história seria perfeitamente verosímil.
    Estou a referir-me à Sic mulher, o que dá a entender que a diegese é contemporânea, mas logo de seguida me deparo com um “nesta altura era o usado, não havia as modernices de hoje.”, o que remete para um tempo mais remoto. A nível de coordenadas temporais fiquei baralhada :-)

  47. Escola da vida
    Há dias ao ler num blogue um texto de José António Saraiva, fiquei pasmado como ainda existem pessoas como ele. Dizem-se espertos, frequentadores das melhores universidades, assim como dos melhores alunos que as frequentaram. Olhando para o caso que nos relatou, observo que lhe faltou andar na que para mim é a melhor de todas, que é a escola da vida. A peripécia rola em volta do acidente que sofreu o seu Mercedes. Além do causador ter fugido ainda teve um trabalhão para o ir o levantar tal a trapalhada com a companhia de seguros. Depois a abordagem na bomba de gasolina com o suposto vendedor da Mercedes, é das histórias mais caricatas para mim, ou seja, da maior ingenuidade que um ser humano se deixa cair. Explico o meu ponto de vista. O carro é uma propriedade igual a uma casa, a um apartamento e o seu dono é responsável por tudo que tem dentro. Agora vir um sujeito que para mais não se lembra quem é, tratá-lo por tu e autorizar que introduza dentro do mesmo, embrulhos sem saber o que se encontra dentro deles, é de uma ingenuidade tremenda, podia ser droga, armas traficadas ou outra qualquer mercadoria ilícita. Se fosse surpreendido por uma operação Stop de qualquer força de autoridade como se defendia? Eu sei que o problema era dele e só dele.
    Quando trabalhava na Ilha da Madeira, quando vinha ao Continente ou ia, deparava por vezes ao fazer chek in no aeroporto, com pessoas que levavam peso a mais e para não ter de pagar o excesso, pediam a quem levava menos se podia ir no seu nome. Várias vezes fui solicitado e pus sempre como condição que a mala ou embrulhos fossem abertos na minha presença. Tenho a dizer que não acediam ao meu solicitado e assim nunca levei nada, não estava para arriscar, não conhecia a pessoa e se conhecesse tinha o mesmo procedimento, hoje mais que nunca, vê-se caras e não corações.
    De ingénuos anda o mundo cheio e faz-me lembrar um sujeito da minha terra, filho único de um casal bastante rico, que durante a sua infância sempre o protegeram, chegando ao ponto de o não deixar brincar com os filhos dos pobres, talvez com receio de nós, com o nosso vocabulário e com os nossos piolhos – nesse tempo era o usual, falava-se na base de palavrões e, não havia a higiene de hoje, tomava-se banho uma vez por semana e numa bacia de plástico. Como ia dizendo de tanto o proteger ainda hoje é um tonto, frequentou as melhores escolas privadas assim como universidades, hoje não faz uso do curso que tirou, coisas de não precisar. Não estava preparado para a vida, os pais queriam-no casar, não faltavam pretendentes, não pelo seu charme mas sim pela fortuna que vinha a herdar. Mas tinha como pretensão e como queria ser diferentes dos outros e derivado à sua maluqueira, pôs como condição aos pais que só casava com uma mulher que tivesse dois sexos, ou seja, duas vaginas. Como os pais sabiam que era impossível, resolveram combinar com uma rapariga das suas relações e por acaso formosa, para fazer esse papel. A rapariga disse que isso era impossível que talvez antes de dar o nó, ele queria ver se ela era possuidora desse fenómeno, ao que ela não sabia como proceder. Disseram-lhe que quando ele pedisse para ver, ela pôr como condição, espreitar pelo buraco da fechadura e assim mostrava sempre a mesma, com um pequeno arranjo. Outro penteado e de outra cor. Assim dito assim feito. Antes e para não serem confundidos puseram um nome a cada um, PP a um e ao outro JAS. No dia do casamento e na vinda para casa a noiva vinha muito triste ao que o noivo perguntou qual o motivo. Diz-lhe a noiva, quando te contar o que me aconteceu, vais pedir o divórcio, foi uma desgraça não sei como te contar. Pergunta ele. Qual desgraça? Sabes, disse ela, perdi o PP ao que ele respondeu, não faz mal, fode-se o JAS.
    Qualquer aproveitamento com algum personagem é pura especulação.

  48. Coisas que podem acontecer
    “Um juiz, um procurador, um agente de segurança, um jornalista que divulga escutas está a colaborador no projecto de destruição do Estado de Direito.”
    “Um político que utiliza argumentos obtidos por este meio não é digno de exercer actividade política. Um político sério não pode basear o seu discurso em conversas ouvidas em cafés ou autocarros. Não pode basear a luta política em boatos, em informações recolhidas de forma ilegal ou em segredo de justiça.”
    Sirvo-me destes dois parágrafos do artigo de opinião de Pedro Marques Lopes, do DN, de hoje, dia 15 de Novembro de 2009.
    Para alguma comparação gosto de exemplificar com dados ou assuntos reais, por que tenha passado, não os que possa ter ouvido, esses geralmente levam sempre uma pequena composição. Diz-se que o português por cada conto aumenta um ponto. Há vários anos prestava serviço numa cadeia qualquer com funções de subchefia, havendo outro, com a mesma categoria de subchefe, com a missão de a chefiar. Havia colaboração entre ambos, nunca dando a entender que era ele que punha ou dispunha. Também usava o mesmo método, era merecedor da minha estima. Um dia um guarda principal dirigiu-se a mim dizendo que alguém lhe tinha feito chegar às mãos um escrito, dando conta de uma certa passagem com esse subchefe, numa outra cadeia onde esteve a prestar serviço, coisas de saias, nesse momento era ele o Romeu. Não me deu a ler o conteúdo, se o desse não lia, dizendo-lhe que o devia destruir. Respondeu-me que o ia guardar e que um dia podia servir de prova para qualquer desentendimento com o dito subchefe disse-lhe que era atitude de cobarde, Se a intenção era matar dois coelhos com um tiro, comigo estava enganado, tinha por o hábito manter-me sempre na vertical e a planta dos meus pés suportava sempre essa posição. Que me encontrava avisado das informações que andou a tirar sobre a minha posição e conduta, que a casca da banana que disse que me ia pôr talvez fosse ele a escorregar nela – certas pessoas usam estes meios para sobreviver.
    Desta conversa dei conhecimento ao subchefe mostrando ele interesse que eu fosse sabedor do sucedido, fiz-lhe notar que não estava interessado o problema era dele e só dele. O guarda principal usava para comigo um comportamento correcto, aliás como sempre teve, nunca negando a casca da banana. Nos tempos que correm temos de nos precaver dos amigos e inimigos quando se sentem acossados, não olham a meios para atingir fins, se os fins forem servidos de bandeja, sem que para isso apresente competência ou currículo para tal missão.
    É o que prevejo para certas pessoas ligadas à política; à justiça, à comunicação social; à polícia; aos sindicatos e a outras organizações que tudo fazem para obter na secretaria o que não conseguiram em campo. Gente deste tipo sempre houve e haverá, pena os que discordam não se unam para os correr à vassourada.
    Quem vento semeou tempestade vai colher.

  49. Histórias do Padre Castro
    O Padre Castro media
    Uns três metros e noventa
    De barriga e já não via,
    Há anos, a ferramenta.

    Um dia estava a “mijar”
    E um rapazito atrevido,
    Pôs-se do lado a espreitar
    Aquele monstro esculpido.

    Mas ele olho perspicaz
    Foi perguntar ao rapaz:
    – Tu viste-me o “realejo”?!

    – Vi. – Pega então dez “paus”, pá
    E diz-me como ele está
    Que há muito que não o vejo.
    __

    Um verdadeiro tasquinho

    Era do Américo Caixa
    O pirosteco tasquino,
    Onde o sonho se emborracha
    Quando a saudade é de vinho.

    No mosqueiro do balcão
    Não faltava lá pitada,
    Desde frango a salpicão
    Iscas e sardinha assada.

    Mas se esbordava o tasquinho
    E ele estava lá sozinho,
    Enchia de pulmões.

    “Fiu, fiu” ó São, São, ó São
    Põe-me aqui o teu irmão
    Nem que seja p’los …
    __

    “O pecado da Natureza”

    Nem todo o momento é certo
    P´ra galinha se aninhar,
    Mas se o galo andar por perto
    Acaba por lhe saltar.

    Não há carne que resista,
    Quando muito assediada,
    Ao Toledo duma crista
    Se ela estiver encrespada.

    E não é nenhum pecado
    Deixarmo-nos ir no fado
    De um qualquer cantador.

    Pecado é ter um bombeiro
    Junto a nós a tempo inteiro
    E morrermos de calor!
    ___

    “Como eram… Marias”

    Marias da nossa terra,
    Criadas da burguesia,
    Flores nascidas na serra,
    Escravas do dia-a-dia.

    Com aromas de giestas
    Nos rostos acriançados,
    Galifões abusam destas
    P´ra passar uns bons bocados.

    E depois p´rás despedir
    De tudo se vão servir,
    Até de serem roubados.

    As moças abandonadas
    E ainda difamadas
    Seguem caminhos errados.

  50. “Já dei o que tinha a dar”

    Cresce-me o “pêlo na venta”,
    Dei tudo o que tinha a dar,
    Já não tenho ferramenta
    Nem ferros para afiar…

    Mas que ninguém se lamente
    Porque isso é tempo perdido,
    Não há fogo que sustente
    Um vergueiro erguido…

    Ai os meus ricos “tarecos”
    Que parecem dois matrecos,
    Feitos dum trapo barato.

    Já sem ter lustro, nem brio,
    P´ra fazerem só feitio,
    Antes lançá-los ao gato!
    De: Rodela

  51. “Acto de cobardia”

    Era ainda noite escura,
    Nas chamadas horas mortas,
    Ao longe se me afigura
    Homam com caixão às costas.

    Ao passar lhe perguntei:
    – Então amigo, que se passa?
    – Os direitos não paguei,
    Não há funerais de graça.

    Acompanhei o funeral,
    Chorei e senti alegria
    Sem padre… mas não faz mal!
    É um acto de cobardia!

    Senhor padre esta vingança,
    Sua doutrina não ensina,
    Era uma pobre criança
    Deus chamou à luz divina.

    “O suor do Camponês”

    Quando o camponês guardar
    O trigo já semeado,
    Quem colhe sem semear
    Vai ter trabalho dobrado.

    Se o terço do senhorio
    Fosse terço numa enxada,
    Nem se lembrava do frio
    Depois da terra lavrada.

    Na hora de repartir,
    Tanta gente a dividir
    O suor do camponês.

    Mas quando o sol mais atesta,
    Dormem à sombra p’la sesta,
    Não dividem desta vez!?

    De: Rodela

  52. A Dona Marina:
    Quando fui transferido da Cadeia de Guimarães para a Cadeia Feminina de Felgueiras no ano de 1992, de entre quarenta reclusas que ali cumpriam pena de prisão, encontrei uma, que me fez lembrar uma senhora que todos os fins-de-semana se deslocava à Cadeia de Paços de Ferreira, visitar o filho que ali cumpria pena de prisão. Um dia em conversa com essa reclusa disse-lhe que a conhecia de qualquer lugar, ao que me respondeu que também me conhecia de quando ia visitar o filho me encontrava sempre na Portaria da Cadeia a desempenhar o meu serviço. Aí verifiquei que era a senhora que todas as semanas ali chegava sempre bem-disposta e dizia que sentia muita consideração por nós, porque aturávamos de tudo, já não bastava os reclusos que ainda tínhamos que levar com os seus familiares. Dizia-lhe que eram os ossos do ofício que tínhamos de estar preparados para essas situações. Que sentia mais pena por elas (familiares dos reclusos) que sofriam mais que eles, tanto fisicamente, eram dolorosas as horas de espera na fila, e emocionalmente. Quanto à espera na fila era desesperante, quando não se agrediam, discussões era o pão-nosso de cada dia, principalmente com a raça cigana que não respeitava ninguém.
    Perguntei à dona Marina, era assim que se chamava, o motivo que a levou a cometer o homicídio. Era o crime porque cumpria pena de prisão. Disse-lhe que já não bastava o tempo que andou a correr para as Cadeias a visitar o filho ainda tinha que gramar esta pena por homicídio. Respondeu-me que tinha que suportar a cruz que lhe tinha sido destinada, ou antes as cruzes, porque a vida dela sempre foi um martírio. Além da infelicidade pelo filho passar quase a vida toda nas Cadeias ainda tinha que suportar o marido que era um alcoólico e lhe dava mau viver além das agressões físicas, que onde encontrou um pouco de paz foi desde que se encontra presa.
    O motivo que a levou a cometer o crime é que já não suportava levar tanta porrada e um dia encheu-se de coragem e matou-o á facada, para encobrir o crime queimou o corpo. Como não era visto um dia a Polícia Judiciária deslocou-se à sua residência, vivia numa casa com o terreno todo murado, vendia sucata, para saber da ausência do seu marido e aí disse-lhes que o tinha matado e queimado. A Policia Judiciária não se acreditava o que a levou (Judiciária) a fazer uma peritagem às cinzas o que se veio a confirmar.
    Era uma senhora que me fazia lembrar a minha mãe, sempre bem-disposta, com bons modos para com todos os funcionários da cadeia e estes sempre com muito carinho por ela. Beneficiava da flexibilidade da pena, saídas precárias prolongadas e quando chegou ao meio da pena foi-lhe concedida a liberdade condicional. A partir daí nunca mais soube da dona Marina, julgo que não tinha mais família. A Segurança Social em casos destes costuma dar uma melhor protecção, pelo que julgo que dona Marina foi para qualquer lar de caridade. Também em casos destes temos que nos mostrar distantes se não julgam que andamos com segundas intenções.
    Este texto era para ser escrito no dia em que se celebrou o dia da vítima. Não o fiz pelo motivo de dizerem que a vítima tinha sido o seu marido. Quanto a mim muitas das vezes o que leva ao desespero e a cometer estes actos é o facto do mau trato que estas pessoas são sujeitas e depois estão por tudo, ou morrem ou matam. Não sei se não teria a mesma reacção.

  53. António Alberto Ribeiro Taipa (Rodela),
    nasceu em Freamunde,
    a 24 de Março de 1946.
    Cedo ingressou no Mundo do trabalho.
    Orgulha-se da sua origem e não esconde
    as suas limitações académicas.
    Cedo começou, também, a sentir a sua
    vocação para a poesia.
    Assim em Julho de 1987 fez parte
    num trabalho de recolha de poesia de
    conterrâneos seus, com o título
    “Freamunde e o sentimento popular”;
    em Abril de 1988, edita o seu primeiro livro
    a solo, intitulado “Escola da vida”;
    em Abril de 1992, o livro “Labaredas”,
    que divide com outra poetisa de Freamunde;
    em Abril de 1997, novo livro, a que deu o
    nome de “Nacos de vida”;
    em Julho de 2001, é editado
    “Pedaços de Nós”,
    de parceria com um amigo,
    na parte das ilustrações.
    Colectâneas várias:
    Em 2001 “VI Festival de Poesia Baixo Miño,
    Tuy Espanha;
    “Encontrartes 2001”
    “Encontrartes 2002”
    “Encontrartes 2003”.
    Muitos são os amigos que desejam ver
    mais livros seus. Ele não deixará de lhes
    satisfazer essa vontade.

    A família dos Carecas: é uma família bastante numerosa se não a maior de Freamunde. Com uma pinga e por cá dá aquela palha, começavam a gaguejar e faziam uma discussão, diziam que batiam e matavam todos, quando no final choravam como crianças.

    A família dos Carecas”
    quase esfola tudo a eito
    quando bebe umas canecas…
    Mas é gente de respeito.

    Se lhes mexem com a terra,
    começam a gaguejar,
    mas chega a hora da guerra,
    choram em vez de matar.

    Músicos têm dos melhores;
    quanto a pesca e caçadores,
    nem vale a pena falar.

    Mas na arte de beber,
    só visto não é p´ra crer,
    não há outra a comparar.

  54. Recordar é viver:
    De Se Martinho “Catano” era conhecido este homem que trabalhava na agricultura e que geralmente são conhecidos por terem umas mãos duras e agrestes. A este, Deus bafejou-o com umas mãos milagrosas, quando as pessoas (desmanchavam) torciam os ossos a ele socorriam, bastava uns pequenos toques e saímos de lá curados. Era tudo de graça e como as pessoas sabiam que fumava cigarros “chamados, fortes) já iam precavidos para oferendar. Quando era rapaz tive a infelicidade de torcer um pé e tive a felicidade de a ele socorrer. Saí de lá quase a correr, tal era a capacidade deste endireita. Se fosse vivo andava na casa dos 120 anos. É a pessoas como estas que a minha terra agradece com um nome de uma rua, antes era o lugar de Freamunde de Cima.

    Se Martinho “Catano” se chamou
    este endireita-ossos cá da terra,
    nome que a vila dita ser de guerra
    e que nela p´ra sempre eternizou.

    Freamunde de Cima anda contente
    E verdade se diga com razão:
    na rua onde lhe bate o coração,
    canta o nome dum filho dessa gente.

    Quem destas redondezas ali passa,
    só com mais de cinquenta anos na carcaça,
    recorda aquelas mãos abençoadas,

    recompensadas com cigarros “fortes”,
    contrariando os timbres dos seus nortes
    por não quererem ser indelicadas.

    De: Rodela

  55. Recordar é viver:
    “A loja do Venturinha”
    Esta mercearia foi uma das rainhas no que toca a fiar. Quase todos os seus clientes iam fazer a despesa quinzenal e os seus gastos iam para o livro. Pagava-se a despesa anterior e levava-se outra para se pagar na quinzena seguinte. Os trabalhadores recebiam de quinze em quinze dias (chamada à quinzena). A minha mãe ali fazia a despesa familiar. É uma casa de confiança e séria. Ainda sobrevive mas, não se preparou para o tempo e as grandes superfícies deram cabo da maioria delas. Quem ali vai se não compra recebe sempre algo: a sabedoria e a amizade.

    A loja do Venturinha
    tem de tudo quanto há
    desde a piada fresquinha
    ao pacotinho de chá.

    Nem o livro dos fiados
    naquela loja acabou,
    os tempos foram mudados
    mas lá sempre se fiou.

    Quem lá comprar ou vender
    se não leva, vai trazer
    sempre mais sabedoria.

    Os clientes que lá vão,
    vão lá por esta razão
    não é só porque se fia.

    Os versos são de: Rodela

  56. Recordar é viver:
    Fernando Santos “Edurisa Filho” era natural do Porto e filho de um crítico de teatro. Veio para Freamunde, aqui se casou, e como actividade profissional era sócio gerente de uma fábrica de móveis do seu sogro. Como era filho de um crítico de teatro também tinha a sua veia teatral e aqui fundou o Grupo Teatral Freamundense. Ganhou vários prémios a nível nacional. A peça mais conhecida e mais amada é a opereta “Gandarela”, mas lembro-me do Sapo e a Doninha, Os Gladiadores, Amor de Perdição e as Pupilas do senhor Reitor entre tantas outras.
    “…e parece que foi ontem!…que troquei a cidade do Porto por esta orgulhosa terra da Chã de Ferreira, chamada Freamunde, que me acolheu com a simpatia e hospitalidade que são seu apanágio e a tornam magicamente atraente e à qual me dediquei como se nela tivesse sido gerado…”
    (Fernando Santos in “GTF 30 Anos”)
    Em cima ele refere simpatia e amizade, concordo, mas acho que Freamunde com a sua morte ainda não lhe prestou a verdadeira homenagem
    Vou ter a ousadia de publicar um texto, não sei de quem, mas faço-o porque entendo que Fernando Santos “Edurisa Filho” o merece – por isso as minhas desculpas para o autor do texto.
    “Que saudade!!!! Que nostalgia!!!”

    “Que saudade desse grande Homem, que ficará eternizado dentro da pequena nação Freamundense, o comandante das tropas que já não está entre nós…
    Que saudade desse grande Homem, que me ensinou tanta coisa na vida e sobre esta desde pequenino e que me dava aquele abraço e carinho fraterno, ao seu ao pequeno «Tó».
    Para si, eu não cresci e continuo o pequeno «Tó» de sempre.

    O Homem que nasceu no Porto e ficou com o sangue azul dos Freamundenses.
    O Homem que escreveu entre outras, a maior peripécia sobre Freamunde… A de «Edurisa Filho» e agora nossa «Gandarela» …
    Para si, um grande bem-haja e um muito obrigado em nome de Freamunde.
    Passado isto, continuei a minha busca e crente que depois de um grande líder há sempre um período de transição difícil, tão difícil como está a ser a minha pesquisa, fiz uma pesquisa histórica sobre o GTF e infelizmente pouco encontrei. De qualquer forma, a pouca informação disponível relata ao ano de fundação de 1963, já lá vão 43 anos, diz também que o GTF já recebeu vários prémios nacionais e representou internacionalmente Portugal, o Rectângulo Mágico e é uma bandeira da cultura desta terra em todo o país.
    Infelizmente há muito que GTF não percorre este país e pouco tem feito. Não aceitem as pessoas, isto como uma critica fácil ou voz de discórdia que não gosto de ser, mas apenas como um antigo e fiel colaborador desta instituição que se sente triste pelo estado debilitado em que encontra o GTF, como acredito, não todos, mas a grande maioria das centenas e centenas de pessoas que por lá já passaram e deixaram de forma dedicada, gratuita, simpática e orgulhosa o seu trabalho, se sentem.
    Em conversa com um amigo «meu e do GTF», que gosta e sente teatro de forma apaixonada e vivida, sei que o GTF tem actividades programadas e soube também das artimanhas, desavenças e dissabores pelas quais este grupo tem passado nos últimos tempos. Muitos como eu, temos pena que o GTF esteja a ser usado e manipulado para fins pouco dignos e cordiais, que me escuso a enunciar, pois muitos deles são do conhecimento geral e outros são episódios tão tristes, que não que fiquem relatados mas que fiquem na consciência de quem os praticou e pratica.
    Como tal, resta-me pedir a todos que gostam de teatro, a todos que gostam do GTF, aos seus directores e parceiros estratégicos para voltar a elevar o nome do GTF aos níveis que este já atingiu outrora e fazer valer a máxima de Fernando Santos de que vale a pena trocar tudo por Freamunde e valer a dedicação e o amor daquele grande Homem e de muitas mais pessoas, algumas das quais também já não se encontram entre nós, que se dedicaram, dedicam e dedicarão ao GTF.”
    “E por favor, venham as pancadas de Moulier…”

    “A minha homenagem”

    O Porto, Freamunde e Portugal
    Devem a este irmão, filho e cidadão,
    Pelos anos de amor e servidão,
    Uma parte do seu historial.

    Não lhe batam mais palmas, por favor,
    As palmas e palmadas que levou
    Por aquilo que já nos orgulhou
    Sentem-se nesta sala, p´lo calor.

    Obrigado por tudo, senhor Santos,
    Freamunde cobriu-o com seus mantos
    E correu Portugal, de ponta a ponta,

    Pela mão deste filho que adoptou
    Que nunca do seu pai se envergonhou
    Por ter que pagar a sua conta.

    De: Rodela

  57. Recordar é viver:

    “A raça dos Mirras”

    Eram seis irmãos e lembro-me de cinco representarem o Sport Clube de Freamunde. O Zeca – este durante anos jogador e treinador das camadas jovens, nesse tempo só havia a classe de juniores, mais tarde e só por dois anos ou três houve a de principiantes. Fiz parte desta última assim como na categoria de juniores e mais tarde nos seniores onde tive como treinador na época de 67/68 o Zeca. Nesse ano o primeiro classificado disputava uma poule e o campeão subia à 2ª divisão Nacional. O campeão foi o Boavista ainda me lembro dos acontecimentos entre estes e o Fafe. Os quatro restantes foram formar a 3ª divisão Nacional.
    O Alberto, O Jaime, o Luís e Baltasar, todos defesas (beck) como se dizia na altura. Eram filhos do guarda do campo de seu nome Joaquim (Mirra).

    Os Mirras, no futebol,
    da terra que os viu nascer,
    foram a água, sal e sol
    do motor que o faz morrer!

    O Zeca, o Luís e o Alberto
    mais o Jaime e o Baltasar
    deixavam sempre por perto
    quem os tentasse passar.

    Rara era a fortaleza
    que batia tal defesa
    muito menos a de Paços,

    que enquanto os Mirras duraram
    nunca eles se gabaram
    de lhes ter vergado os laços.

    Os versos são autoria de: Rodela

  58. Recordar é viver
    “A Se Rosa Pacheca”
    Sempre com a sua tendazita (Chapéu de sol ou chuva) a vender os seus tremoços. A mocidade de hoje não tem conhecimento destas figuras populares, que para sobreviverem, compravam os tremoços crus, punham-nos nos ribeiros a curtir dentro de sacos de serapilheira e depois coziam-nos. Íamos a esses locais rasgávamos os sacos para roubar alguns. Coisas de crianças e de quem não tinha dinheiro para os comprar. Quando tínhamos um tostão a nossa primeira acção era ir comprar os deliciosos tremoços. Tempos de miséria. Hoje quando se vai ao super mecardo, compra-se às sacas. E não temos as nossas queridas tremoceiras para os comprar ou roubar.

    Viva a Se Rosa Pacheca
    junto da sua tendinha,
    à porta do Venturinha,
    minha memória não seca.

    Foram milhares, os moços
    das escolas da Avenida,
    que à Jóia numa fugida
    lhe foram roubar tremoços.

    Hoje, esta santa mulher,
    tenha-a Deus onde quiser
    que eu na pobre mente minha

    hei-de vê-la a vida inteira,
    como Rosa tremoceira
    à porta de Venturinha.

    Os versos são autoria de: Rodela

  59. Recordar é viver
    “A sorte do Lira”
    O Lira era um sujeito dado ao seu copito. Trabalhava na construção civil, não tinha filhos e talvez para esquecer certas amarguras, socorria-se da bebida. Via-o sempre acompanhado da sua bicicleta a pedal a maioria das vezes com ela pela mão. Com os copitos não tinha equilíbrio em cima dela e a maioria das vezes era a bicicleta que o amparava. Mesmo assim, são estas pessoas típicas que fazem a história da minha terra. Não o fazemos pelo gozo de criticar mas, sim com o carinho que sentimos por estas pessoas.

    O Lira matava o bicho,
    inda mal se via o dia
    e acabava por capricho
    quando um outro já nascia.

    De manhã, o bagacito
    com o dito pão de milho
    à tarde era pão e vinho
    quartilho atrás de quartilho.

    E o Lira tinha razão:
    com bagaço, vinho e pão
    à mesa e à cabeceira

    Levou a vida, a brincar
    e a morte veio-o buscar
    levou uma bebedeira.

    Os versos são autoria de: Rodela

  60. Recordar é viver:
    “Arnaldo Guerra”
    Era um solteirão, fazia um pouco de tudo. Desde acarretar encomendas, deixadas pela Auto Viação Pacense, num lugar apropriado para depois serem entregues aos seus donos. Estas encomendas vinham do Porto. Foi graxa e deixava os sapatos dos clientes a parecer um espelho. Tinha por hábito responder com um assobio bocal, aos seus chamamentos. Gostava do seu copito e naquele tempo quem não gostava? Entre um copo e dois dedos de conversa se esquecia a má sorte, os maus resultados do Freamunde. Aqui faço uma introdução a este “pobre” homem, mas é destes que nos devemos recordar.

    Fiu, fiu, é o Arnaldo Guerra.
    Vão chegar as encomendas,
    Ainda o carro vem na Serra,
    Já ele espera pelas tendas.

    Como “graxa” é boa pessoa,
    Nunca lhe faltou carinhos,
    Pois tinha sempre uma “croa”
    Para oferecer uns “neguinhos”.

    Em qualquer tasca, se aberta,
    Ele lá está pela certa,
    Quem por certo não o viu?

    Sentado na sua caixa,
    Com a latita de graxa,
    Sempre contente, fiu, fiu…

    Versos autoria de: Rodela

  61. A feira dos Capões:
    “Em honra a Santa Luzia”
    Hoje dia 13 de Dezembro de 2009, como vem sendo habitual e desde a Monarquia que se celebra esta festa – feira – mais conhecida como feira dos capões. Como vem sendo habitual não faltaram romeiros e para mais por este ano o dia da celebração ser ao Domingo.
    Fui dar uma volta pela feira mas a confusão era tanta que resolvi vir para o aconchego da casa. Está-se melhor, não se anda aos encontrões. Era um mar de gente e de carros assim como de autocarros vindos de muita parte do País. Julgo que para a maioria dos negociantes o negócio correu bem. À noite voltei a dar uma volta pelo recinto e verifiquei a quantidade de plástico e caixas de sapatos vazias, assim como outras embalagens que ficaram estendidas pelo chão à espera dos serviços de limpeza. A vida dizem que está difícil, mas hoje foram movimentados milhares e milhares de Euros. É uma das feiras mais próxima do Natal e aqui aproveita-se para se fazerem as compras relacionadas com essa quadra: a compra dos capões; – alguns para ser oferecidos em paga de um favor (cunha) – do peru; o mel e as nozes para os formigos; a samarra e o sobretudo para o frio que se avizinha; os sapatos e as botas; os cobertores e edredões, etc., etc.
    Por várias vezes fiz referência a esta feira e nunca me canso de o fazer pelo facto de ser um ex-líbris da minha terra e por isso todos sentimos carinho e gostamos de receber bem os forasteiros que nos visitam. Ficam a conhecer um pouco da nossa história e bairrismo e deixam o comércio local mais rico. É com prazer e sentido de bem receber que a isso nos propomos. Se não compram pelo menos levam um pouco da nossa tradição e sabedoria, que é dada com todo o prazer.
    Que diferença em relação à metade do outro século. Nesse tempo nós rapazes de 10 anos para cima, o que procurávamos era acarretar uns pares de capões e com isso receber uma gorjeta. Pareciam galifões à espera de uma carrega, os mais pequenos fisicamente como eu, sujeitávamos ao que restava.
    Nesse dia os nossos pais aproveitavam para apreciar os preços do calçado e da roupa para ver o orçamento com que podiam contar e ver qual dos filhos o mais necessitado. Regra geral era sempre para o mais velho, o imediato ficava com o que não servia ao mais velho. Quando a compra não era feita no comércio da terra para ir para o livro de débitos.
    Ainda há quem compare estes tempos com os de outrora! Não tem explicações. Ou será que os que hoje fazem esse reparo são os que com a outra senhora nada lhes faltava.
    Não tenho saudades desse tempo, pelo contrário. Estou reconhecido ao 25 de Abril por tudo o que me proporcionou. Se ele tivesse sido uns 20 anos antes talvez hoje fosse um senhor doutor mas, não estou arrependido, por onde passei quase o era, porque sempre lutei para ser alguém. Ao contrário de muitos, gosto de ser um entre tantos e não entre tantos, um.

  62. Coisas da vida:
    Há dias ao assistir às notícias no telejornal da R.T.P., sobre o acidente na praia Maria Luísa, em Albufeira, deu para meditar como os portugueses gostam de assacar as culpas aos outros, nunca assumindo as suas responsabilidades. Há um acidente de viação, se o piso da estrada se encontra bom, dizemos devia estar mau, para não dar azo a grandes velocidades e com isto evitar acidentes, se está mau dizemos que foi derivado ao seu estado.
    Vem isto a propósito de há uns anos, ter umas cólicas renais e depois de consultar um médico de Urologia, no hospital da Trofa, depois de vários exames, fui aconselhado a ser internado e fazer umas sessões de litotrícia. Como não foi resolvido estive outra vez internado, fiz mais sessões, além das que fiz em ambulatório. Como não passava, constantemente tinha crises, o médico disse-me que tinha de fazer um exame que eu achava difícil e sempre me neguei.
    Em vez de fazer esse exame, mandou fazer um TAC e quando o fui mostrar notei nele uma fraca expressão facial. Perguntei, é cancro? Disse-me que as probabilidades para isso apontavam. Notei nele um sentimento de culpa. Disse-lhe, doutor se aqui há um culpado, esse culpado sou eu, fui sempre um mau doente e não quero que o doutor fique com esse sentimento. Notei que estas palavras lhe tocaram no fundo do seu íntimo.
    Disse-lhe que estava farto de gastar dinheiro, o hospital era particular, passou-me uma carta para a minha médica de família e passado pouco tempo tinha uma consulta de Urologia no Instituto Português de Oncologia no Porto. Nessa consulta fiz-me acompanhar dos exames médicos.
    O médico, Dr. Victor, disse-me que tudo provava ser um cancro, mas ia ter uma reunião com os seus colegas e depois chegavam a uma conclusão. Foram marcadas umas ressonâncias magnéticas e nova consulta.
    Como gosto de chegar cedo, antes prefiro esperar que chegar tarde, enquanto esperava pela consulta, noto alguém sentado numa cadeira de rodas a apontar na minha direcção. Como havia várias pessoas atrás de mim na sala de espera, julgava que os gestos não eram dirigidos a mim. Só há terceira vez é que notei que realmente eram para mim. Pela fisionomia, julguei que era um colega de ultramar, a quem chamávamos o “Landim”, quando me dirigia para ele a uns dois passos de distância vejo uma senhora, aí noto que era um casal da minha terra. Fiquei sem palavras. Usei umas desculpas mas sei que não me saí bem, estava tão desfigurado que não dava para o reconhecer. Nessa consulta ficou decidido que era cancro e que ia fazer vários exames e ser marcada a operação.
    Um dia, um colega meu disse-me que tinha um vizinho, também o conhecia mas só de vista, que estava desenganado que tinha um cancro nos pulmões. Num dia que fui fazer análises, fui tomar o pequeno-almoço ao café do IPO juntamente com a minha esposa, vejo esse indivíduo acompanhado com a esposa a beber uma garrafa de água e bem-disposto. Quando cheguei à terra disse a esse meu amigo o que tinha presenciado e que não devia de ser como diziam.
    Passados quinze dias fui ao funeral dos dois, do que não reconheci e deste. Morreram no mesmo dia.
    No IPO, somos tratados com um carinho que dá a impressão que realmente estamos em fase terminal de vida. Comigo aconteceu várias vezes, era na recepção, quando éramos chamados para a consulta, nas análises ao sangue, no raio X, em todo o lado. Antes da operação fui a várias consultas, com a médica anestesista, com a enfermeira que nos explicava como iam decorrer as coisas, um sem número.
    A minha filha tinha conhecimentos com certas pessoas que trabalhavam no IPO, de vez em quando recebia chamadas telefónicas e saía da minha beira, dando-me a entender que não queria que eu ouvisse as conversas. Se andava desconfiado de algo mau, pior ficava, absorvia tudo dentro de mim, não desabafava com ninguém. A minha esposa andava que não sei como explicar, parece que tínhamos receio de falar no assunto. Um dia não aguentou e começou a chorar em alto tom. Disse-lhe que com aquela atitude me punha ainda em maior sofrimento.
    Tive uma consulta com o médico cirurgião para ser marcada a operação. Nesta consulta a uma sexta-feira, disse ao médico que estava convocado para me apresentar na terça-feira seguinte no tribunal de Santa Cruz, na Ilha da Madeira e que tinha a viagem de avião em reserva e que tinha de decidir até ao final da tarde com a agência de viagens. O médico disse-me que era para na quinta-feira seguinte ter de fazer uns exames e depois ser operado, como dava pouco tempo para estar na Madeira, que ficava para a outra quinta-feira, assim gozava lá mais uns dias.
    Fiquei perplexo com a maneira do médico falar que lhe disse. Sr. Doutor este meu interesse é devido a que tenho um irmão na Madeira, assim matava saudades com ele e com amigos que lá deixei, mas primeiro está a minha saúde. Disse-me, faça uma boa viagem e goze bem.
    Se andava desconfiado ainda mais fiquei. Para mais e depois de ter pago a viagem recebo uma chamada telefónica do tribunal de Santa Cruz a dizer que o julgamento tinha sido adiado. Fui a casa, a minha esposa juntamente com a minha filha estavam a fazer as malas para levar, disse-lhes para as desfazer que não ia que o julgamento tinha sido adiado. Diz-me a minha esposa e a minha filha. Estavas a contar de ir e se fosse a ti ia na mesma, vais e matas saudades. Cada vez mais desconfiava.
    No dia 3 de Dezembro de 2007, de manhã, apresentei-me no IPO, para ser operado, fiz análises ao sangue, fui chamado a uma médica, para me preparar para a operação e às onze horas e trinta minutos, dei entrada no quarto. Estava lá um sujeito à espera de ter alta, o quarto é de duas camas, vieram as enfermeiras fazer as últimas formalidades como rapar os pêlos na zona que ia ser operado, disse-me que nessa noite não jantava.
    Ao outro dia pela volta oito horas, vieram-me buscar para a sala de operações, o companheiro de quarto desejou-me felicidades. Chegado a um local vejo várias camas também com doentes e pergunto se eram todos para serem operados. Disseram que sim e para não me preocupar que havia várias salas de operações. A minha curiosidade era devido a que já tinha sido operado na Ordem do Terço, no Porto e fiquei com a impressão que só havia uma sala de operações.
    Na sala de operações estava a médica anestesista acompanhada por várias enfermeiras a tentarem confortar-me, uma delas perguntou-me de onde era, disse-lhe que era de Freamunde. Disse-me que era de Carvalhosa, uma freguesia que faz fronteira com a minha e que tinha familiares na minha terra, que depois de me dizer quem eram, disse-lhe que os conhecia.
    Nestas alturas bem não queremos, mas há sempre uma lágrima mais atrevida que nos escapa dos olhos. Lembrava-me da minha esposa, dos meus filhos, da minha nora, do meu genro não, a minha filha estava divorciada, dos meus netos, Duarte e Diogo, primos entre ambos, dos meus irmãos e dos meus pais lembrava-me mas já tinham falecido.
    Acordei na sala de recobro. A minha esposa estava a visitar-me, tinha de ser pouco tempo, a seguir foi a minha filha, passado um bocado vejo-a estendida no chão, ia para chamar os enfermeiros já eles lá se encontravam, dizendo-me que tinha desmaiado, para não me preocupar já se encontrava bem. Gente boa, do melhor que aparece.
    Passado um dia levaram-me para o quarto. À tarde entrou outro doente acabado de ser operado, era boa companhia. Ao outro dia pus-me a pé para desfazer a barba, não conseguia tomar banho sozinho. Apareceram as funcionárias para fazer as camas e arrumar o quarto, uma perguntou-me se tinha tomado banho disse-lhe que não podia. Disse-me que ia buscar uma cadeira de rodas e que me ia dar banho.
    Na minha vida nunca precisei que pessoas estranhas me dessem banho, não me sentia bem, sentia vergonha. A funcionária notando esse meu embaraço, disse-me para estar tranquilo essa era a sua missão. Fiquei agradecido e veio-me à memória, no serviço que desempenhei, encontro-me aposentado, quando se pedia a certas guardas femininas para fazerem uma revista mais minuciosa, diziam que em certas partes não tocavam.
    Nunca fiz um agradecimento público aos funcionários do IPO, aproveito esta ocasião, para lhes agradecer, desde o mais simples ao mais alto cargo, que ali presta serviço e que nunca percam o sentido de profissionalismo, é destas pessoas que o País precisa.

    Manuel Maria Ferreira Pacheco, utente do IPO Nº. 161158480

  63. O Natal:
    Hoje com quase 61 anos vejo e comparo o Natal de agora e os de há 57 anos para cá, que é quando a nossa memória guarda parte das nossas recordações. Nesse tempo, não podíamos aspirar a grandes coisas, porque o País não estava preparado para isso. Faltava de tudo; desde os bens alimentícios, aos lanifícios, ao calçado, às bijutarias, quinquilharias, guloseimas, um sem fim de coisas. Mas, o banco de Portugal estava cheio de ouro. Contentávamos com pouca coisa, não éramos reivindicativos, parece que compreendíamos o nosso atraso em relação à maioria dos países.
    Há quem compare esses tempos e diga que tem saudades deles. Se passassem por essas necessidades como passei talvez não o desejassem.
    Hoje existe mais solidariedade, é ver as nossas crianças que frequentam os infantários, quando se aproxima o Natal, são agraciadas com presentes que no meu tempo faziam revolucionar o País. Não se produzia assim quinquilharia, o que nos reservava era uma bola de borracha – o que a recebia era considerado um felizardo. Uma boneca em pano, a imitar a Barbie – hoje uma mulher, que há 57 anos era uma criança, se recebesse tal prenda julgo que nesse momento desmaiava e nas aldeias era logo feito uma prece porque o fim do mundo estava a chegar. Acontecia como mais tarde com a chegada do homem à lua, eram preces e mais preces, novenas, reza de terços, enfim.
    Neste dia 21 de Dezembro, os meus netos já estão ansiosos por esse dia e tem uma lista de brinquedos que gostavam que o Pai Natal lhes oferecesse. Talvez tenham sorte. Como são bem comportados o Pai (avô) Natal, lhes vá fazer a vontade. Até nisto hoje é diferente, quando era menino, quem nos oferecia os presentes era o Menino Jesus.
    Mas quem não gosta de oferecer aos seus netos, neste dia, algo de bom – desde que aja posses – para eles se alegrarem. Das coisas mais injustas e que me ficou pela vida fora na memória, era a desigualdade que via nas prendas dos meus colegas. Os de mais posses eram coisas chiquíssimas. As minhas: pão com marmelada, uns bombons, uns pinhões e pouco mais.
    Por isso, fiz sempre os possíveis para que os meus filhos recebessem como prenda do Pai Natal, o que eles almejavam, assim como hoje o faço para os meus netos.
    O que desejo é que para todas as crianças do Mundo, principalmente as Portuguesas, tenham um bom Natal, que o Pai Natal lhes ofereça o que desejam.
    Dedico-lhes estes versos sobre o Natal, de autoria do meu amigo Rodela.

    “Natal”
    Já nasceu o Deus menino
    Que do mundo é salvador,
    Traz-nos justiça e carinho
    P´ra dividir com amor

    Às nossas pobres crianças
    Não lhe vamos mentir mais,
    Os brinquedos são poupanças
    Dos salários de seus pais

    P´rós filhos da gente rica
    Há sempre o melhor brinquedo,
    Nos braços dos pobres fica
    Esse possível segredo

    A família, é o Natal
    Se no lar houver amor,
    Não há brinquedo mais real
    Nem que tenha mais valor.

  64. A blogosfera:

    Quem a consulta e a lê com olhos de ler, consegue tirar algumas ilações e aproveitar o que de melhor nela vem. Pode-se não estar de acordo mas, entre o acordo e a malcriadez, vai uma grande distância. Há comentários que são de uma baixeza desconforme, geralmente escritos por pessoas sem princípios que, não tendo mais que dizer, limitam-se aos impropérios, a destilar o seu ódio em quem, ao contrário deles se limita a contribuir para um melhor relacionamento entre seres pensantes e dialogantes.

    É como se costuma dizer, entre um número de pessoas civilizadas, há um número maior que tudo faz para serem notados, quase sempre pelos piores motivos. Julgam que é chique. Como estamos em época em que se tem de se ser muito bom ou muito mau, senão não se colhe notícia. É o que certa gente só sabe fazer.

    Miguel Sousa Tavares (MST) num artigo do jornal Expresso diz: “Li no “i” online a longa entrevista de Mário Soares, a pretexto dos seus 85 anos. Longa e, como sempre, interessante, porque Soares teve uma vida fascinante e é um notável contador de histórias. Aos 85 anos, ele mantém, intactas, essa fabulosa alegria de viver, curiosidade e optimismo que só encontramos em raros homens do poder (estou a lembrar-me das memórias de juventude de Churchill, que ando agora a ler). Pense-se o que se pensar do percurso político e das ideias de Mário Soares, a grande verdade é que ele destoa no oceano de mediocridade envolvente. Soares é um dos maiores portugueses do seu tempo, o português mais admirado no estrangeiro (sim, gentes, mais do que o Cristiano Ronaldo), e, sobretudo, um homem com um pacto de vida jamais traído com a liberdade – coisa tão rara em terra onde a liberdade sempre foi tão pouco estimada”.

    Usar a blogosfera para a coberto da mesma insultar pessoas que, destas não tem um mínimo de conhecimento, é como fazer um assalto de cara tapada. Em tempos, havia os salteadores que de uma forma cortês faziam os assaltos e ficavam bem vistos pelos salteados.

    Ainda MST. “ Acabo de ler a entrevista e vejo os posts dos leitores a comentá-la: um chorrilho de insultos, de calúnias reaccionárias de sempre, um misto de ódio, inveja e desprezo à flor da pele que arrepiam de nojo. Que gente é esta? Que nação é esta que produz gente assim? Que, pela frente, calam, obedecem e curvam a espinha, e, por trás caluniam, insultam, inventam, e vomitam até à náusea essa tão antiga e fatal característica portuguesa: a inveja. Mais uma vez me convenço de que esse território do anonimato e da impunidade dos blogues e redes sociais foi inventado como uma luva para satisfazer a insaciável frustração desta gente. A inveja e a cobardia escorrem por ali como o mel em terra prometida. Pois que morram de indigestão de tanto prazer solitário”!

    Assim como havia, para quem se sentisse ofendido a marcação de um duelo que, quer um ou outro – ofensor e ofendido – não se regateavam a tal confronto. Outros tempos outras maneiras de ser.

    Hoje a dignidade e o carácter andam pela rua da amargura. Não se respeitam os verdadeiros alicerces dessa mesma dignidade e carácter e é um ver se te avias. Quanto mais malcriado for, mais sobe na consideração das suas hostes. Aqui o provérbio está como a cereja em cima do bolo. Chama-lhe minha filha, antes que te chame a ti. Mas mãe, ela não o é. Não interessa. O que interessa é chamar-lhe primeiro e que as pessoas fiquem a saber.

    Uso a blogosfera para estreitar laços de amizade e pelo prazer de escrever. Nunca para entrar em insultos, sou de origem educada, sempre faço para que os meus descendentes assim o sejam. No dia em que soubesse que os meus filhos ou os meus netos tivessem comportamento igual, era das maiores desilusões que podia receber.

    Mais uma vez repito a frase de MST. “A inveja e a cobardia escorrem por ali como o mel em terra prometida”.

  65. Manuel,

    As tuas histórias não são só tuas, são também as das misérias e grandezas humanas,algumas delas com marca muito portuguesa… Parabéns por teres estas memórias para partilhar connosco. Vou continuar a ler (aos bocadinhos).

    E viva as castanholas de Freamunde!

  66. Edie:

    Desde já obrigada. Escrevi as minhas memórias para tentar a quem as lê e pertence aos serviços tentar corrigir alguns defeitos que com isso todos beneficiam. Também para a opinião pública ter um pouco de conhecimento do que se passa nos Serviços Prisionais, de mal e de bem.

    Para deixar algo escrito para os meus filhos e netos.

    Se um dia tiver paciência e tempo disponível vá a “vinte linhas 390” aonde pode ler a minha vida militar em Angola.

    Mais uma vez obrigada.

  67. O Natal:

    É sinónimo de alegria como a palavra indica é, a celebrar algo que vem ao Mundo. Neste caso é para celebrar o nascimento de Jesus. Das festas cristãs é, a que tenho mais carinho e que celebro com maior gosto. Na véspera anda-se num corrupio a tratar das últimas prendas é o que geralmente acontece com os Portugueses.

    Este ano comigo devia acontecer o mesmo. Não acontece. Em lugar de as ir comprar já me preveni.

    Nesta véspera de Natal, tenho como missão e dever de ir acompanhar até à sua última morada um amigo, pelas onze horas. Para mim tornou-se quase um familiar. Companheiro diário nas nossas idas até ao Centro Comercial, Ferrara Plaza, nos dias de chuva e ao Parque da Cidade de Freamunde, nos dias de sol, dar um passeio a pé ou, jogar às cartas (à sueca).

    Nos momentos mais difíceis da minha vida, foi um dos amigos que me visitou no Instituto Português de Oncologia do Porto. Depois na minha convalescença em casa era visita assídua.

    Era mais velho que eu, uns bons anos. Nutria por ele um carinho especial. A última vez que estive com ele foi no último sábado, lá fomos os dois até ao nosso Centro Comercial. Chovia nesse dia. Andamos pelo hiper-mercado Continente, gostava de apreciar o bacalhau e dizia-se entendedor. Explicava-me todos os pormenores de como o devia escolher. Que em sua casa só entrava o que era mesmo bom, mais a mais nesta altura de Natal.

    Nos vinhos a sua preferência era o Alvarinho. Dizia-se apreciador e assim como o bacalhau, o vinho tinha de ser do que gostava e do melhor. Tinha feito todas as compras para festejar com a família na véspera de Natal.

    No domingo como sempre vou dar um passeio com a minha esposa e não me encontrei com ele.

    Na segunda-feira como estava de chuva, após o almoço, como sempre, nos dias de chuva ia buscá-lo a casa – não tinha carta de condução – para darmos o nosso referido passeio e apreciarmos as pessoas a fazerem as compras para o Natal. É o que faz estarmos aposentados e ser desta forma que matamos o tempo.

    Quando me anuncio no intercomunicador, como era usual, a esposa diz-me a chorar. “Eram cerca das onze horas e trinta minutos, a ambulância dos Bombeiros Voluntários de Freamunde, o transportou na companhia da sua filha mais velha e do seu filho varão, para o Hospital do Vale do Sousa, em Penafiel e que ia bastante mal”. Fiquei sem palavras. Disse que à tardinha passava por lá para saber mais notícias. Assim fiz. Continuava no hospital e em estado reservado.

    Ao outro dia, novamente à tardinha desloquei-me à sua residência para saber das melhoras e encontro a sua esposa sentada numa cadeira, na cozinha, a chorar e aí apercebi-me que ele tinha falecido. Não contava com aquilo, foi um choque para mim. Tinha sido operado ao coração há cerca de um ano, andava bem, nada fazendo prever tal desenlace.

    A esposa continuava a chorar e desabafava como acontece nestas situações. “Que ele me considerava como um irmão”. “Que lhe tinha dito que as melhores tronchudas (couve galega, em certas terras do País) que ele cultiva no seu quintal, eram para mim”.

    Que fiquei de as ir buscar na véspera de Natal, para servir juntamente com as batatas e bacalhau, no cozido de Natal, como usamos aqui no distrito do Porto.

    Na manhã da véspera de Natal, em lugar de ir buscar as tronchudas fui acompanhar o seu corpo até à sua última residência.

    Com isto veio-me à lembrança as compras que ele tinha feito. O carinho que teve com as escolhas e o gosto em ter os melhores produtos para os seus. Mas o que não sabia era que não ia usufruir deles, assim como os seus familiares, nesta véspera de Natal. Para os seus outras vésperas de Natal há-de surgir, para si espero que para onde vá tenha tudo do melhor. Não por ser quase um irmão para mim. É porque realmente merece.

    Eu sei que Deus é justo, proclamo essa fé mas, nestas quadras estas situações não deviam acontecer. Assim como não devíamo-nos de afeiçoar a certas pessoas, para depois não sofrermos.

    Mas a vida é assim.

    Aqui deixo a dedicatória que usei no bouquet que lhe ofertei:

    Os amigos por vezes representam mais que alguns familiares. Nos meus momentos difíceis esteve sempre comigo. No seu não pude estar. As minhas desculpas.

    Fica sempre na minha recordação.

    Manuel Maria Ferreira Pacheco

  68. O Zéquinha e as suas promessas:
    Há cerca de oito anos morreu atropelado num acidente de viação, um meu conterrâneo com cerca de quarenta anos, feito à boa lei como se costuma dizer. O Zéquinha, como o tratávamos, gostava de beber o seu copito e como se alimentava pouco, era o bastante para o seu estado normal estar um pouco embriagado.
    Quando havia um comício para as Autarquias locais, fosse de que partido fosse gostava de mandar umas bocas, sempre com respeito e findo esse comício, o Zéquinha subia para o palanque e dizia se um dia algum partido o quisesse como seu candidato, as primeiras medidas a tomar era trazer a linha de comboio até à minha terra assim como um rio. É evidente que os assistiam ao comício batia palmas, aprovavam as suas medidas e o candidato a candidato a presidente da junta, ficava contente com os aplausos. Fazíamos isto no maior respeito e carinho pelo Zéquinha, até porque todos nós o ajudávamos, suportávamos a sua despesa sempre que se juntava a nós tanto no café ou em qualquer outro local.
    Como disse em cima morreu acerca de oito anos e a minha terra passados uns dois anos da sua morte, começou a desfrutar de um rio, como se pode ver numa imagem das várias que envio. O comboio esperamos por ele, mas sempre na esperança que o Zequinha esteja onde estiver cumpra a sua promessa.
    É como se costuma dizer, Deus quer, o homem sonha e a obra nasce.

    http://www.slide.com/r/5yrm125X7D8QvDR4lAjUM3UUhsRBclPR?previous_view=TICKER&previous_action=TICKER_ITEM_CLICK&ciid=648518346695794212

  69. Mas que história esta, Manuel.
    Então o rio vai a Freamunde e um mero comboio não?
    Mais uma vez, muita poesia, desta vez com a história do zequinha, que pelos vistos, lá sabia o que dizia :)

    Um abraço

  70. Edie:
    O rio foi mais fácil porque a sua nascente é produto nosso. Só foi preciso fazer as margens porque água há bastante. Como disse uma é da nascente e a outra é da chuva que para ali é guiada.
    Quanto à linha e ao comboio torna-se mais difícil porque dependemos de outros. Mas que nos dava gozo isso dava. Por um lado ficávamos com mais alternativas aos transportes que por aqui são uma miséria e por outro a profecia do Zéquinha era cumprida.
    Também aceite os meus cumprimentos e estes versos de Rodela:

    “Freamunde em festa”

    Já toca em Freamunde o sino a festa…
    É pecado esquecer o Quim Loreira,
    os foguetes, os bombos, a palmeira
    e o mel que ao folião refresca a testa!

    Cantemos os heróis deste caminho,
    orgulho deste céu azul e branco,
    reinado do capão e do tamanco,
    inspirados nuns bons copos de vinho.

    Não há gente como esta, nem na Lua!
    Sobe o foguete e vem tudo p’ rá rua
    comer, cantar, beber, rir e dançar…

    E só quando estiver lisa a carteira,
    é que a gente procura a travesseira,
    certos de ninguém nos vai roubar.

  71. Também fiquei curiosa, Manuel Pacheco. Construiram as margens até chegar a outro rio? Como é que se chama este novo rio?

  72. Manuel,

    diga lá ao Rodela que por instantes lá estive em festa em Freamunde. Belo dia de inverno com frio e sol, hein?

  73. Guida:
    A nascente do rio Ferreira é na Jóia. A Jóia fica localizada no lugar com o mesmo nome, na cidade de Freamunde. É um sítio onde antigamente as tremoceiras punham os tremoços a curtir, ou seja, punham os tremoços nuns sacos de serapilheira na água. Estava localizada num terreno particular e a sua água corria para outros terrenos também particulares por um pequeno rego de água (riacho) e muito além na fronteira de Freamunde e Ferreira é que ia formar o chamado rio Ferreira, que mais adiante se juntava com outros ribeiros ou rios, indo desaguar ao rio Sousa. Dizem os entendidos que o rio Ferreira nasce em S. Pedro da Raimonda, freguesia do concelho de Paços de Ferreira.
    A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Freamunde resolveram criar um parque de lazer, nessa altura aperceberam-se do manancial que a era Jóia, negociaram com os donos dos terrenos, julgo que ainda falta negociar um, e meteram mão à obra e assim foi criado o rio do parque. Acontece que o chamado rio Ferreira, com o alargamento das margens a partir da Jóia, a água começou a faltar tendo a junta de Freguesia de Freamunde recebido reclamações da Junta de Freguesia de Ferreira e de um grupo que se intitulava amigos do rio Ferreira.
    Acontece que desde S. Pedro da Raimonda até à Jóia não existe nenhum rego de água (riacho) o que nos leva a julgar que não nasça em S. Pedro da Raimomda, mas sim na Jóia, que de uma forma ou de outra o que está sediado no parque de lazer é nosso, chame-se como se chamar.
    O clube de Caça e Pesca de Freamunde noutros rios pescaram peixes e ali os depositaram para se reproduzirem. Ali pratica-se a pesca para associados mas, tendo como lema que é só para desporto, cada peixe pescado tem de ser devolvido ao rio. Há placares a indicar isso e tenho presenciado que os pescadores cumprem à risca o determinado e todos os dias não faltam pescadores. Isto é que é desporto!
    Também ali foram criados uns patos, hoje são bastantes, de dia andam pelo rio e à tardinha o responsável pelo parque chama-os para os seus galinheiros para lhes dar de comer e irem descansarem (um cubículo criado para esse efeito). È um espectáculo ver quando o responsável pelo parque começa a assobiar por eles e se deslocam para os ditos galinheiros.
    Vai a acompanhar uns slides para verificar como é o parque e o seu rio, clique em cima deles para os maximizar. Espero que tenha contribuído para a sua curiosidade.
    Um abraço

    http://www.jf-freamunde.insertpage.pt/albuns/display/11

  74. Boa sorte Palancas:
    Hoje vai jogar a minha segunda Selecção de futebol. A primeira é a de Portugal, a segunda, a de Angola. Espero que ganhe para se qualificar para as restantes provas. Cumpri ali dois anos de serviço militar e como deixei lá dois dos melhores anos da minha vida, desde daí que a sinto como a minha segunda Pátria.
    Ainda me lembro dos bons e maus momentos passados em Balacende. Das moelas e do frango de churrasco que comia no Caxito. Do cheiro a maresia quando passava pelo Cuacuaco, da fazenda Tentativa com as suas canas-de-açúcar. Dos bairros Fazenda, Bairro Operário, S. Paulo e Popular em que vivi os dezasseis dias, em casa de um casal amigo, até ao meu embarque. A vila Alice atrás do cinema Império, também estive aí oito dias, esse casal antes morou ali. Era bonita com as suas árvores e o cheiro agradável a flores. A marginal onde umas vezes por outras ali me sentava nos bancos de pedra a fazer contas à vida e a pensar na minha família. Na Avenida dos Combatentes quando ia com o Abílio (Rangel) na sua lambreta até um snack-bar, beber umas imperiais e como aperitivo ofereciam-nos um pires com feijoada à moda do Porto. Bebíamos uns poucos e assim ficávamos jantados.
    De passar pelo estádio da Cidadela – na altura salvo erro, para servir de estádio do futebol clube de Luanda – nessa altura andavam-no a construir. Do estádio dos Coqueiros, ali assisti a um jogo de futebol com o Atlético quando estava na 1ª Divisão Nacional.
    Oxalá que hoje o estádio 11 de Novembro seja palco de um bom jogo e que os Palancas vençam.
    Como vêem sou um pouco saudoso mas quem não o é. Só quem for desprovido do sentimento, amor, é que não tem este meu defeito.
    Por tudo isto desejo boa sorte ao Manuel José que é a mesma coisa que a desejar a Angola. O futebol traz-nos estas recordações e como se costuma dizer, recordar é viver, as vezes que as recordamos.
    “Guerra injusta”
    É hora da despedida
    O barco abandona o cais,
    Num adeus de mão erguida
    Quantos para nunca mais.

    Neste palco de terror
    Lisboa era cenário,
    Corações cheios de dor
    Nesses anos de calvário.

    Tantas famílias de luto
    Jovens atemorizados,
    As moças rezam em grupo
    P’ la sorte dos namorados.

    Os soldados não têm culpa
    Perdão irmão africano,
    Pela luta tão injusta
    Que travamos lado a lado.

    Versos autoria de: Rodela

  75. O MEU PRIMEIRO NATAL EM FREAMUNDE

    Uma das coisas que mais me impressionou quando, há quase quarenta anos, troquei o Porto por Freamunde foi a noite de consoada, a véspera de Natal.
    Ocorreu-me esta recordação pela proximidade desta tradicional festividade, em que todos prometemos a nós próprios sermos melhores no futuro, dedicarmo-nos mais ao nosso próximo, prestarmos outra atenção à miséria que nos rodeia, acabarmos com rixas e polémicas mesquinhas que, em comparação com a imensidade do Universo e com a brevidade da Vida, são miseravelmente insignificantes. E como este é o último “Fredemundus” antes do Natal, decidi recordar outros Natais e não hostilizar ninguém com os habituais reparos, nem responder a quem me tem hospitalizado: – hoje é “péssanga”, como se diz nos jogos infantis. A minha resposta aos meus (inimigos,não!) detractores, é o meu mais sincero desejo que tenham um Natal Feliz e possam, como eu, reflectir um pouco sobre a caricata inutilidade das nossas dissenções, o ridículo de alguns dos nossos argumentos, por vezes verdadeiras armas para nós próprios apontadas…Não: – hoje não respondo a ninguém! Hoje é Natal e eu desejo, de todo o coração, a maior felicidade e alegria a todos, mesmo sabendo que muitos – e tantos eles são… – não conseguirão alcançar o quanto aqui lhes desejo…Tempo haverá ainda para nos aborrecermos e para nos afastarmos estupidamente nesta sala de espera da Morte que é a Vida…Hoje não! Feliz Natal para todos! Feliz Natal para o operário e para o seu patrão! Feliz Natal para as crianças que nos ajudam com a sua beleza a suportar a Vida! Feliz Natal para os que têm letras a vencer! Feliz Natal para quem vai aumentar a sua fortuna neste ano prestes a findar! Feliz Natal para aquele canceroso sem esperança! Feliz Natal para o militar, que o vai passar de sentinela! Feliz Natal para o gatuno que me furtou o porta-notas! Feliz Natal para o polícia que me multou o carro mal estacionado! Feliz Natal para aquela simpática menina do quiosque que sempre me atende com um sorriso! Feliz Natal para os que estão na cadeia justamente! Feliz Natal para os que padecem de injustiças! Feli Natal para os irmãos Cavaco, os Victores e todos os infelizes assassinos, presos ou à solta! Feliz Natal para Otelo Saraiva de Carvalho e para os juízes que o julgaram! Feliz Natal para os que fizeram o 25 de Abril e nele acreditaram! Feliz Natal para os que se esforçam por o fazer esquecer! Feliz Natal para aquele pobre que dorme numa soleira de porta ou num banco de jardim! Feliz Natal para os que têm fome e para os que têm de recorrer aos sais de fruta Eno! Feliz Natal para quantos me lerem e para os que nem sequer sabem que eu tenho a impertinência de o fazer! Feliz Natal para mim e para os meus e para ti e todos os teus! E até, se possível para quem ia a acompanhar aquele funeral que passou ontem por mim! E, já agora, Feliz Natal para o que ia de pés para a frente e que deixou de poder desejar Feliz Natal aos outros!…
    O primeiro Natal que passei em Freamunde foi um assombro para mim. Até então, sempre tivera a noite de Natal como a mais aborrecida de quantas o ano tinha. Era a noite em que não valia a pena sair de casa, em que tinha de quebrar o hábito de comer o jantar à pressa, de atirar breves “Boas-Noites!” aos meus velhos e saltar para a rua à procura dos amigos com quem me entreteria até às tantas…Nessa noite a cidade do Porto era um autêntico deserto: tudo fechado – cafés, clubes, cinemas, teatros e, mesmo as igrejas, poucas celebravam a “missa do galo” à meia-noite. Nas ruas, nem viv’ alma!. Raros os automóveis naquela época e um ou outro eléctrico vazio que passava fazia-o com grande alarido de ferros e carris que, face ao silêncio pouco usual do ambiente, me parecia redobrado, avassalador, catastrófico…, estendendo-se no tempo à medida que o bruto se afastava, rua fora…Um ou outro solitário, que regressava de possível consoada em casa de um amigo, com quem fora partilhar a sua solidão, fazia-o furtivamente, rosto escondido na gola do sobretudo levantada, marcando a sua passagem com um ritmado “tic-tac” de tacões no passeio cimentado, apressado e esquivo, como que fugindo à solidão que o envolvia…
    Era assim o Natal no meu Porto dessa época!…Para um boémio como eu, habituado à vida nocturna, não havia nada a fazer senão recolher tristemente a “penantes” ou nem sequer se atrever a sair à rua…E para a filosofia da minha mocidade de então, era, simplesmente, um dia a menos na Vida: os anos só tinham 364 dias, visto que as noites eram, para mim, o que então contava…
    Em Freamunde era totalmente o contrário: toda a gente, após a ceia da consoada, vinha para a rua. Os cafés regorgitavam de gente. As famílias visitavam-se. Nos clubes havia alegria, confraternização, jogos, música…E à meia-noite, a “missa do galo” era como uma festa, com foguetes e tudo, a que não se podia faltar…Um espanto!…Inacreditável!…Um deslumbramento!…Tinha acertado com a terra que, ainda para mais, também me oferecia nas outras noites fortes motivos para estar satisfeito…Que diferença do Natal da minha mocidade!…E que longe tudo já está…! Como recordo aquela noite de Natal em que, ainda muito criança, jurei que havia de surpreender o Pai Natal a colocar os tradicionais brinquedos no meu sapatinho…
    Juntos, minha irmã e eu, decidimos não pregar olho e ficamos de sentinela à espera da sua chegada…Mas o “João Pestana” era mais forte e, aos poucos, com os grãoszinhos de areia que trazia no saco às costas, lançava-os nos nossos olhos arregalados e lá nos foi obrigando a cerrar as pálpebras. De súbito, um ruído para os lados da cozinha, fez-me, penosamente, entreabri-las…Era meu pai que, já na cama, lembrava-se dos brinquedos e se levantara para os ir colocar nos nossos sapatinhos…Minha irmã já dormia profundamente quando ele passou pelo nosso enconderijo e pelos meus olhos toldados pelo sono e estupidamente abertos…
    Mas, no dia seguinte, não me contive e confessei-o a minha santa mãe:
    Ontem vi o Pai Natal chegar!…
    Viste?! – duvidou ela.
    Vi! Vinha em ceroulas! Se calhar já se ia deitar!…
    Feliz Natal para vós, crianças que sonhais!…Feliz Natal para vós, Pai Natal em ceroulas!…

    Fernando Santos – Coisas Minhas

  76. Padre Barnabé:
    Ainda me recordo do dia 03/08/1958, a primeira missa do padre Barnabé de Oliveira. Andava na catequese e a minha catequista era a menina Irene (Ireninha, como era conhecida, mais tarde enfermeira no hospital de S. António no Porto) irmã do futuro padre Barnabé.
    Antes uns meses tínhamos sido convidados pela Ireninha, para fazermos parte do coro, que ia cantar a missa, era a primeira do seu irmão – chamada missa nova. Éramos várias crianças não me lembro do nome delas, já se passaram quase cinquenta e dois anos.
    Eu como não tinha voz para cantar (desafinava tudo) fui seleccionado para acompanhar o padre Barnabé desde a sua casa (Lugar da Feira) com uma cesta toda almofadada juntamente com várias crianças, – sou a que vai à frente do Padre Barnabé – com uma opa branca – segue uma fotografia que mostra o nosso acompanhamento que era cerca de quinhentos metros da sua residência à igreja matriz. Era criança mas já sentia alegria por poder dar o meu contributo e era bem tratado pela família Oliveira, era uma família abastada.
    Com o passar dos anos a fé foi-me abandonando não deixando de ser cristão e de vez em quando ir assistir a uma missa. Mas quase que tenho a certeza que se ela fosse celebrada pelo padre Barnabé, eu continuaria a assistir a todas elas.
    Sempre ouvi dizer em conversas com pessoas da rua da Sé no Porto que era um padre que dava a camisa a um pobre se esse pobre precisasse dela. Pregava e julgo que ainda prega – a idade já é um pouco avançada – sempre a palavra de Deus. Há pouco tempo foi-lhe atribuída uma casa para residir pelo senhor Bispo do Porto. As irmãs por vezes zangam-se com ele porque tudo o que elas lhe mandam distribui pelos mais necessitados. Padres destes há poucos.

    http://freamundense.blogspot.com/search?updated-max=2008-08-07T22:44:00+01:00&max-results=7

  77. Divagando:
    Quando se preparava Manuel Alegre e Francisco Louçã para um comício eleitoral para a Presidência da República, avistam um de apoio a Cavaco Silva. Assim que Manuel Alegre os viu, disse para Louçã, seu fiel amigo e conselheiro; – a campanha vai encaminhando os nossos intentos melhor que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Louçã, onde se descobrem uns míseros desaforados apoiantes de Cavaco, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a presunção de que eles só falam a verdade, com estes argumentos começaremos a cativar os indecisos; que esta é a boa campanha, e bom serviço prestado à Nação, que tira tal argumentos da campanha de Cavaco que é fomentada na mentira, nas intentonas, nas escutas e um sem fim.
    Qual campanha? – Disse Louçã. Aquilo que ali vês é Fernando Lima, Manuela Ferreira Leite e mais alguns acólitos. Nada de nos meter medo. Não me digas que te estás a imaginar num D. Quixote e onde vês pessoas julgas moinhos de vento. Quem nos dera que assim fosse, esses eram fáceis de combater. Agora detractores da verdade, comunicação social e assessores! Mas deixa-os comigo, que sou mais divisionista que eles todos e vou pôr a minha astúcia ao sabor da tua campanha. Não fosse eu conhecido pelo cónego Anacleto, e sabes que em divisionismo dou cartas. Não tens ouvido as minhas intervenções na Assembleia da República? Desmorono tudo, eles ao cair parecem baralhos de cartas. Quando me vires a teu lado a discursar e não ficar pedra sobre pedra é que me vais dar o real valor e o quanto lucras em me teres como aliado. Só te peço um favor, quando fores presidente da República, tens de colaborar com o BE. Quero um dia ser 1º. Ministro. Não é pedir muito, qualquer um o pode ser. Não vês Santana Lopes, até foi agraciado com uma medalha.
    Essas palavras Xico são um bálsamo para mim que, tu bem sabes, ou não fosse eu um poeta.
    Eu, “que ninguém me cala” quero unir o PS, não o Sócrates, esse que deu cabo da minha candidatura à Presidência da República de 2006, vai ter que me gramar. Não sabe do que sou capaz. É como se costuma dizer: a vingança serve-se fria.
    Manuel Alegre não sabe o que Sócrates lhe reserva. Sócrates não é dos que se fica e talvez prefira Cavaco a Alegre. Por alguma coisa chamam-lhe o animal político. Esperemos pelos próximos capítulos.

    “Não riam de mim”

    Quero viver no meu canto
    Deixem-me sonhar assim.
    Não acordem meu espanto
    Mas podem rir-se de mim.

    Eu aceito que me alertem,
    É pobre a minha cultura,
    Por favor não me despertem
    Só para fazer censura.

    Tenho a minha linguagem
    Talvez um pouco selvagem
    Mas é mesmo assim que eu falo,

    Pois se gosto de escrever
    Não tenho nada a esconder,
    Nem me importo o quanto valho.

    Versos autoria de: Rodela

  78. Para a minha mulher:
    Este texto é dedicado, à rapariga que conheci; à minha primeira namorada; à mulher; à minha noiva; à minha esposa; à mãe dos meus filhos; à avó dos meus netos e à minha companheira diária, nestes 35 anos que se há-de cumprir em 03/05/2010.
    Ainda me recordo do dia em que disse ao seu irmão que precisava de ter um encontro com ela – era o usual para começar um namoro. Sempre fui uma pessoa tímida, depois dessa timidez, desbobino, mas em caso de namoros era como disse bastante tímido. Sou de uma geração em que se separava os sexos, por força desta imposição, quando se via um rapaz no meio das raparigas era logo apelidado de menina e vice-versa, e por isso o não à vontade de uma maioria de rapazes para com o sexo oposto. Não era como hoje que são as raparigas que se metem com eles e que lhes pedem namoro. Outros tempos outros usos.
    Tinha uns 18 anos e ela 14, começamos a namorar mas era mais as vezes que nos encontrávamos zangados. Muitas vezes me disse se fosse assim e se um dia casássemos, íamos passar a vida de costas voltadas. Dizia que não. Que amor zangado amor dobrado. Que quem desdenha quer comprar. O que é certo depois destes contratempos e passados dois anos de vir do ultramar (Angola) de prestar o serviço militar e como disse em cima no dia 3/05/1975, lá contraímos matrimónio.
    Fomos passar a nossa lua-de-mel para casa da minha irmã mais velha, Amélia, que nos cedeu o seu apartamento na rua Álvares Cabral no Porto. Quem nos transportou ao Porto foi o Ângelo, já o conhecia, mas ficamos mais amigos quando nos encontramos em Quicabo, norte de Angola, e por esse motivo foi meu convidado de casamento juntamente com a sua esposa, no seu Austin Mini Clubman, vermelho, naquela época era uma máquina.
    Ao outro dia tinha-me acabado os cigarros, tive de vir à rua para os comprar, a minha esposa não queria sair, talvez cansada, o certo é que era domingo e os quiosques que ali conhecia estavam fechados. Demorei mais que o normal o que levou a minha esposa a preocupar-se, como só tínhamos uma chave do apartamento, levei-a comigo, o que originou a que ali ficasse fechada, em caso de me ter acontecido algo não sabia como se desenrascar. Não me lembro se no apartamento existia telefone. Se existisse também não podia ligar para nenhum familiar, porque o telefone era coisa rara, só se telefonasse para a polícia.
    Na terça-feira dia 6 de Maio, as saudades que a minha esposa tinha da família e da terra fez com que viéssemos passar esse dia e noite a casa, habitava numa arrendava ao patrão da minha esposa. Estava na minha terra o circo Cardinal, para passar um pouco de tempo resolvemos ir assistir à sua exibição, quem actuava no intervalo era o Marco Paulo, ainda me lembro das suas calças apertadas e de botas de cano, estava em princípio de carreira. Hoje aparece sempre de fato e gravata, ao contrário desse tempo. Ao que a fama obriga para melhorarmos a nossa imagem.
    Assim andamos entre trabalhar e passear um pouco, nesse tempo não tinha automóvel, nem sonhava com ele, era coisa de quem tinha posses e as nossas era a força do nosso trabalho. Com o 25 de Abril e as conquistas dos trabalhadores começou-se a gozar férias e a minha irmã voltou-me a oferecer o apartamento para passar ali uns dias.
    A minha mãe derivado à sua doença foi aconselhada a frequentar a praia, todos os dias ia numa excursão à praia de Vila do Conde. Como estávamos no Porto, resolvemos fazer-lhe um surpresa e num dia lá fomos de comboio da estação da Trindade até à Póvoa de Varzim.
    Dirigimo-nos a pé, à beira-mar, para Vila do Conde mas não sabíamos qual a praia que frequentava. Corremos a praia de Vila do Conde, Azurara, Vila Chá e Árvore. Nesse dia fizemos mais de 50 quilómetros – só andamos cerca de 2 quilómetros de táxi e de comboio numa distância de 5 – a pé. Ao meio dia a fome começou a apertar e em Árvore, Vila do Conde, nessa altura, não estava tão desenvolvida como hoje.
    Só havia um restaurante. Quando ali entramos e vimos o seu aspecto a minha esposa disse logo. Vai-nos sair bastante caro. Mas entre ter dinheiro e fome, optei por não ganhar amor ao dinheiro e assim fomos servidos com todas as etiquetas. Acabado o repasso a minha esposa disse-me. Até aqui tudo bem, agora bem o pior. Quando o empregado nos deu o ticket da despesa do almoço, fiquei surpreendido, o que me levou a dar uma boa gorjeta ao empregado. É como se diz nem tudo o que reluz, é oiro. Só por volta das 18 horas é que demos com a praia em que estava a minha mãe. Sabe bem quando estes passeios de comboio e a pé são um acaso se fosse planeado não resistíamos tanto.
    O tempo ia passando, no princípio andamos a evitar ter filhos, quando o planeamos não havia maneira de a minha esposa o alcançar. Chorava, não sabia a maneira de a confortar, além de lhe dizer que por isso não vinha o fim do mundo.
    Resolvi tirar a carta de condução e comprar um carro. Pedi um empréstimo de dinheiro a um amigo. Antes uns meses, emprestei uma certa quantia aos meus sogros e não os queria pedir o que me levou a ter de pagar juros e não recebia nenhum pelo que tinha emprestado. Se fosse hoje não o emprestava. Comprei um carro marca Subaru 1200 e passados dias passei nos exames de carta de condução. Este investimento deveu-se a que: como a minha esposa não engravidava, era a maneira de dar uns passeios com ela para se distrair.
    Passado um tempo viemos morar para uma casa dos meus sogros a pagar 1000 escudos por mês e esse empréstimo foi abatido na renda da casa. Fiz isso por causa da minha esposa. Hoje maldigo a minha atitude, como fui tão camelo, passados anos só me fez mal, provocando-me, maltratando-me ao ponto de ter de cortar relações com eles, filhos, noras e tudo. Só se aproveitaram de mim e da minha bondade, ao ponto de pedir a minha transferência para a ilha da Madeira, para não fazer asneiras. Tenho como lema que um pai deve ser um elo de ligação entre a família e não provocar a desunião entre irmãos.
    Um dia chego a casa e a minha esposa diz-me toda sorridente. – O período não me veio, de certeza estou grávida. Senti alegria. Realmente quando não se tem um filho uma pessoa farta-se de ver sempre a mesma cara e uma criança traz alegria e outra maneira de encarar a vida. Por isso quando vejo um casal sem filhos, aqui na minha terra há alguns, fico com pena, estive quase na mesma situação.
    Chegou o dia 25 de Abril de1977, a minha esposa estava com dores, chamei a minha mãe para nos aconselhar o que devíamos fazer, disse-me que era melhor levá-la para a maternidade de Paços de Ferreira. Assim fiz. Após ser consultada foi-nos dito que ainda estava um pouco atrasado o parto mas era melhor ficar ali internada. A minha esposa não queria, as condições eram péssimas, hoje ainda se reclama com as maternidades existentes deviam era de ver aquela, mais tarde fechou. Ao outro dia de manhã ali me desloquei mas ainda não tinha nascido. À tarde desloquei-me para ali outra vez e quando estava a tirar o bilhete para a entrada, pagava-se uma certa quantia, julgo 2$50, vem uma freira chamar a empregada que passava bilhetes para ir ajudar ao parto da minha esposa. Com a deslocação dela, fiquei eu ali a passar os bilhetes. Devemos estar aptos para o que der e vier. Passado um pouco de tempo vem a empregada com o bebé no colo e disse-me. – Que rica menina aqui tem! Fiquei desiludido, contava com um rapaz, nessa altura não se fazia ecografias para se saber o sexo. A minha esposa também sentiu a minha desilusão, sabia que eu ambicionava um rapaz.
    Não gosto de ser como a coruja mas, que a minha filha era bonita esse facto não vou esconder. A vida continuava, passados uns meses foi-lhe feito o baptizado, tinha sido registada e o seu nome ficou de Sónia Marisa. Ainda hoje é uma rapariga bonita. Deu-me um neto, o Duarte, para mim é como um filho, a mãe encontra-se divorciada e por isso o considero como um filho, não quero que lhe falte nada.
    No dia 2/11/1981, nasce na maternidade de Lousada, a de Paços de Ferreira tinha fechado, o Victor Hugo, aqui sim fiquei contente, já tinha uma filha, agora um filho vinha preencher a casa. Só que este teve uma infelicidade, aos 20 anos foi-lhe detectada a diabetes. Encontrava-me na Madeira mais a minha esposa, prestava ali serviço, recebo uma chamada telefónica do meu ex-genro a dizer-me que ele estava internado no hospital de S. João e que lhe tinha sido detectado a diabetes. A minha esposa tinha viagem marcada para uns dias depois, começou logo a chorar, fui ao aeroporto de S. Catarina, em S. Cruz, para lhe antecipar a viagem, o que consegui e a minha esposa embarcou para prestar assistência ao meu filho. Esteve lá uns dias para se habituar a injectar e só depois disso é que teve alta. Aqui virei-me contra Cristo, não havia direito de um rapaz na flor da idade ter tal tormento. Porque não a mim que já tinha vivido parte da minha vida? Mas não é como a gente quer. Todos temos a nossa cruz, a dele é um pouco pesada.
    Passados uns anos juntou-se com uma rapariga, a minha esposa queria que ele se casasse pela igreja eu nunca me opus. O que interessava era a felicidades deles. Mais tarde com o divórcio da nossa filha já não via tanto mal no casamento pelo civil. Deu-nos um neto, o Diogo, também passou a ser para mim como um filho. Derivado a que tanto a minha filha, o meu filho e a minha nora trabalham eu ou a minha esposa lá os vamos levar e buscar à escola. O Duarte frequenta a 2ª classe o Diogo anda no infantário.
    Por tudo isto sinto-me realizado e bendigo o dia em que conheci a minha esposa. Ela ter-me dado os dois filhos e o me ter aturado este tempo todo e o que há-de vir. É desta coisas que gosto de dar a conhecer e o valor que a minha esposa me merece. Não sabe que publiquei este texto aqui no Aspirina B, se soubesse dizia-me para o não fazer. Mas gosto de lhe fazer uma surpresa e lembrar parte da nossa vida a dois. E podem ter a certeza que não sou um pinga-amor.

  79. O meu aniversário:
    O dia 28 de Janeiro para mim é um dia especial. Não porque celebre o meu aniversário, mas sim por ter passado mais um ano. Diziam os meus pais que nasci cerca das 22 horas e pesava 3 quilos, num dia frio e de chuva, no lugar da Gandarela. Até nisto se era pobre, hoje é só ruas a lembrar alguns “filhos da mãe”. Devia de ser como na cidade de Espinho, que são números que dão às ruas e não nomes. Mas também se ia ter problemas. Quem é que ia aceitar morar na rua 11 ou 69?
    A parteira era uma mulher habilidosa, que se prestava a estes favores e a desenrascar as dores das parturientes, a pôr no mundo quem nada sabia dele, se soubesse era capaz de se renunciar a vir a ele. Mesmo assim agradeço a boa hora da senhora Alzira (Farrapeira) tirar as dores à minha mãe (já falecida) e a mim pôr-me a chorar sem me dar uma palmada no cu. Já nessa altura era um protestante só que o fazia com o único argumento que os bebés têm: que é o choro.
    Não havia maternidades e recusas de se ir nascer a Espanha. Logo que chegasse a hora, muitas vezes, estavam a lavar nos lavadouros e vinham a toda a pressa para os ter em casa. Outros tempos e outras mulheres. Era o que ouvi dizer da boca de várias mulheres incluindo a minha mãe. O que precisavam era de uma boa hora. Nesse tempo, havia crianças ficaram órfãos à nascença.
    Ao outro dia o meu pai foi-me registar, não era como agora que se faz o registo, no registo civil ou na própria maternidade. Quem fez o registo e escreveu pela primeira vez o meu nome, foi o Senhor Valente. O meu pai deslocou-se à sua residência, tinha a profissão de professor, prestava-se a esta ocupação para ganhar mais uns patacos, tinha vários filhos e todos a estudar. Mais tarde foi o meu primeiro professor.
    Nasci numa sexta-feira e fui baptizado no domingo, 6 de Fevereiro. Nesse tempo os baptizados eram feitos passado poucos dias do nascimento, nessa altura morriam muitas crianças e assim já tínhamos recebido os sacramentos (julgo que é assim que se diz) para irmos para o céu em caso de morte.
    Aos 3 anos de idade fui morar para S. Mamede de Negrelos no concelho de S. Tirso. Como o ordenado de meu pai era pequeno, aqui na minha terra os patrões pagavam ordenados baixos, resolveu ir trabalhar para outra firma para melhorar o seu pecúlio. No princípio a família, a minha mãe, a minha irmã mais velha, eu e a que me sucede, ficamos a viver em Freamunde.
    Para o meu pai a localidade da fábrica era distante, não havia transportes, não sabia andar de bicicleta a pedal – nesse tempo era um artigo de luxo – morreu com 74 anos sem saber andar na dita, ia e vinha todos os dias a pé. Como era muito cansativo resolveu que fossemos para ali morar.
    Ali passei dois anos, lembro-me das brincadeiras com os meus primos – a minha tia, quarta na descendência, eram cinco mulheres incluindo a minha mãe, casou e foi para ali morar, o seu marido era dali.
    Já nesse tempo era muito irrequieto, aventurava-me nas mais estúpidas brincadeiras e dado a fazer asneiras. Um dia estava a jogar à bola mais outras crianças, a bola foi parar debaixo do burro, do moleiro, que descarregava sacos de farinha numa mercearia. Aventurei-me a ir buscá-la e levei um coice do burro que não queiram saber. Estive entre a vida e a morte mas graças à minha testa, ainda tenho uma cicatriz, é onde os homens têm a pele mais dura – se não fosse assim a muitos desabrochava algo – lá resisti e hoje dá-me para recordar as minhas aventuras e desventuras.
    Outra vez a brincar com um grupo de crianças, junto a um lavadouro, um deles empurrou-me e estive a morrer afogado, se ali não estivessem umas mulheres a lavar roupa, a esta hora não estava aqui a contar esta estória.
    Quando tinha 5 anos viemos novamente morar para Freamunde, para o lugar da Bouça, até casar. Neste lugar moravam umas poucas de famílias e havia algumas crianças da minha idade e a minha recepção não podia ser da pior maneira.
    Era Junho, por altura das cascatas, havia uma, e sem querer dei logo cabo dela – era um Eduardo Mãos de Tesoura ao contrário. As outras crianças não gostaram da minha intervenção e queriam-me bater, mas livrei-me, corria bem e meti-me dentro de casa. Nesse dia não saí e sempre a espreitar pelo vidro da porta a ver a manifestação das outras crianças. Ao outro dia já ninguém se lembrava e comecei a ser bem visto por todos.
    Aos 7 anos comecei a frequentar as aulas e como referi em cima o meu professor foi o senhor Valente. Mas que valente era. Quando algum aluno fazia asneiras, era malcriado ou por outros motivos era chamado ao seu gabinete, ali era de tal maneira avisado que tão cedo não se lembrava de ter igual comportamento. Aos seus alunos não era preciso chamar ao gabinete, levávamos logo ali na sala de aula.
    Era o director da escola e como tal gostava de impor a disciplina. Tive sorte e mérito, nos 3 anos em que fui seu aluno nunca me bateu. A maioria dos alunos meus colegas experimentaram por várias vezes a palmatória e contaram os 5 orifícios que ela tinha.
    Uma coisa posso afirmar, ninguém se aleijou e dos 30 e tal alunos, 2 já não estão connosco, todos demos homens e em conversas uns com os outros recordamos o senhor professor Valente e o valor que teve na nossa educação. Pena hoje não ser assim. Os meus netos lucravam com isso.
    No dia 11 de Julho de 1960, segunda-feira de festas em honra ao Mártir S. Sebastião – “festas da vila”, hoje cidade, não sei porque carga de água – fiz o último exame e passados 7 dias, dia 18, deixei de ser menino, enveredei pelo mundo do trabalho até Julho de 2007, altura em que fui aposentado. E a minha signa era esta:
    Quem nasceu na Gandarela / Por força tem de chorar / O destino que lhe espera / É morrer a trabalhar.
    Hoje, faz bem recordar esse tempo e os meus colegas de escola. Quando nos encontramos falamos pelo que passamos, o que sofremos, o rumo que o País levou depois do 25 de Abril. Hoje não é possível comparar esse tempo. Faltava tudo. Os que morreram nas décadas 70/90, se tivessem o condão de ressuscitar voltavam a morrer nesse momento, com o susto, que levavam sobre o desenvolvimento do País.
    Mando os parabéns a todos que neste dia fazem anos, em especial, ao Henrique Costa, meu colega de brincadeiras, pelos seus 63 e ao irmão do &. Também à juíza Cândida Almeida, que celebra neste dia, os mesmos 61.

    “Nos meus sessenta e um anos”

    São sete horas da manhã!…
    O dia já se levanta!…
    E mais um ano cá canta,
    se eu à noite estiver cá.

    O sol raiou de alegria
    como a querer-me dizer:
    Cem anos há-de fazer
    quem faz anos neste dia…

    Mas eu renego essa ideia,
    e faço uma cara feia
    a quem mos quer desejar.

    Porque não é meu amigo,
    quem me deseja o castigo
    de tantos anos durar…

    Os versos são da autoria de: Rodela

  80. O meu obrigado:
    Na minha meninice estava sempre ansioso pelo dia 28 de Janeiro, a minha mãe, como era habitual, dava uma malga de café com um trigo de quatro cantos (conhecido aqui no meio como trigo de ovelhinha) partido aos bocados, para fazer de “sopas” no dia de anos dos seus filhos e podem crer que para a época era uma boa prenda. No dia dos meus anos sentia-me um felizardo, não deixando de dividir com a minha mais irmã velha, Amélia e a que me sucede, a Fátima. Já nesse tempo tinha o sentido da partilha e ao fazê-lo sabia que quando fossem elas as aniversariantes também faziam o mesmo. Tempos difíceis mas de partilha e o que era para um, dava para mais, desde que se soubesse repartir.
    Hoje tudo é diferente, há mais possibilidades e os preços mais económicos. Por isso não admira que quando se faz anos os familiares ofereçam alguma lembrança, o que nos faz regozijar com as oferendas. Fico contente. Mas mais contente fico quando recebo frases e vídeos a demonstrar carinho de pessoas que não conheço, unicamente existe um elo de ligação, através do Aspirina B e de esta coisa espantosa que é a internet.
    Por isso a todos envio um obrigado e podem ter a certeza que vou fazer tudo para que, para o ano estejamos cá todos a trocar votos de felicidade e quando forem vocês, se o publicitarem, cá estarei para lhes desejar o que de melhor há no Mundo. Gosto de partilhar com pessoas que para mim são especiais e acreditem que vocês o são.

  81. O motim na cadeia de S. Paulo, em Luanda:
    Hoje dia quatro de Fevereiro faz quarenta e nove anos que houve a rebelião em Angola. No dia cinco na freguesia de Sousela, no lugar de Santa Águeda, celebra-se a festa em sua honra. De manhã, os meus pais, eu e dois irmãos, quando para ali nos deslocávamos para cumprir uma promessa, fomos informados que tinha morrido um nosso conterrâneo, de nome Nuno Augusto de Sousa Mendes, que ali desempenhava as funções de polícia. Lamentamos a morte mas como se tinha de cumprir a promessa para ali fomos a pé, até porque a romaria era num monte e nesse tempo os transportes para ali eram escassos, estávamos no ano de mil novecentos e sessenta e um.
    Em meados desse ano foi realizado o cortejo fúnebre e nunca na minha vida vi tantos militares. Nessa altura não sabia que era o meio de fomentar a psicologia na população Portuguesa – qualquer mancebo como eu que assistisse a esse acto, sabia que se morresse ao defender a Pátria, tinha igual honras. O que não veio a acontecer. Este e outros relacionados com o quatro de Fevereiro ainda tiveram, os restantes, alguns vieram para a sua terra para serem enterrados, outros ficaram por lá. De Freamunde além do polícia, Nuno, morreram mais dois, no conjunto de Angola, Moçambique e Guiné. Por ano, encontravam-se nestes territórios mais de cento e cinquenta soldados.
    Antes uns meses Salazar dizia a célebre frase: para Angola já e em força. Começaram de Freamunde a ir os primeiros soldados debaixo das lágrimas das suas mães – os pais tem a mania que são fortes, mas quando estão sozinhos também as brotam. Quando os primeiros regressavam era uma festa, havia fogo-de-artifício, bailarico e comes e bebes para os convidados. Fui à chegada de algum vizinho, admirava-lhe a coragem e valentia, além de reparar como vinham modificados, mais morenos, mais temperamentais, aqui sabia que era derivado às situações pelo que passaram.
    O que nunca previra é que me acontecesse o mesmo. No dia em que despedi da minha mãe, não resisti às suas lágrimas. O meu pai como disse acima gostava de se mostrar forte, na despedida entre mim e ele na estação de caminhos-de-ferro de Campanhã, ainda se segurou. Quando me encontrava dentro do comboio reparei que algo corria pela sua face, de certeza uma lágrima. Armava-se em forte mas o seu coração parecia uma cebola.
    Por tudo o que lá passei, bons e maus momentos, não me envergonho do meu passado, mas concordo com a resolução dada por força do vinte de Abril. Também na minha modesta opinião, não via resolução para se pôr fim a tal situação. Já aqui referi que a guerrilha só servia para meia dúzia de famílias portuguesas e para promoções dos oficiais.
    Escrevi há dias uns versos do meu amigo Rodela e dado o dia que está a ser celebrado em Angola, tive oportunidade de ver na televisão Angolana, TPA, as comemorações, vou repetir esses versos.

    “Guerra injusta”

    É hora da despedida
    O barco abandona o cais,
    Num adeus de mão erguida
    Quantos para nunca mais.

    Neste palco de terror
    Lisboa era cenário,
    Corações cheios de dor
    Nestes anos de calvário.

    Tantas famílias de luto
    Jovens atemorizados,
    As moças rezam em grupo
    P’la sorte dos namorados.

    Os soldados não têm culpa
    Perdão irmão africano,
    Pela luta tão injusta
    Que travamos lado a lado.

  82. Levantados do entulho:
    O que tenho visto via televisão, sobre a catástrofe na ilha da Madeira, deixa-me reflectir o que a Natureza nos reserva. Umas vezes deliciados com o de bom que nos presenteia, outras, como a forma que nos castiga, por lhe roubarmos o que é dela.
    Quem conhece a ilha da Madeira e vê o caos em que está transformada, sente dor e pena. Ver a avenida do Mar, a rotunda Sá Carneiro, o Shopping Marina, o Dolce Vita, Anadia – onde dezenas e dezenas de vezes estacionei a minha viatura no parque subterrâneo do piso 01 e 02 – o mercado dos Lavradores, a rua 31 de Janeiro, a Fernão Ornelas – onde muitas vezes fui com a minha esposa à Feira dos Tecidos, comprar fio de algodão e tecidos para a confecção de calças e saias. No Anadia almocei dias e dias no Prego no Prato, pertencente a um sujeito de Câmara de Lobos, tinha uns funcionários que eram uma maravilha de relações públicas. No mesmo Anadia comprei uma máquina de costura, na Singer, para a minha esposa se entreter nos dias que ia passar à Madeira. Ainda ali quando ia comprar o jornal de Notícias e o empregado do quiosque me dizia sempre: leve esta sociedade do euro-milhões que ela vai ser premiada. Não quer levar uma revista. Eram e julgam que vão continuar a ser uma simpatia de funcionários, quando passar esta tormenta.
    Na Marina, onde várias vezes fui jantar ao Santinho, ainda me lembro da sopa de tomate, foi ali que a comi pela primeira vez. Junto havia um restaurante que servia pizas. Foi das melhores que comi. Por vezes evitava de ali passar pelo motivo de ter um funcionário a cativar os clientes e era raro uma pessoa dizer-lhe que não. Foi dos funcionários, dos que conheci, que melhor sabia cativar clientes. Se não entrássemos para comer algo, contava-nos uma história a deixar-nos bem-dispostos e com vontade da próxima vez ir ali comer algo. A Madeira é rica neste tipo de tratamento.
    No mercado de Lavradores gostava de lá ir com a minha esposa comprar peixe, hortaliça e fruta. A minha esposa delirava com o mercado do peixe, gostava de ver a cortar o atum em bife. No Continente nunca tinha presenciado tal coisa, – sou de um meio em que não há mercado de peixe.
    O que gostava de passar junto ao jardim Municipal e saborear o cheiro a flores. De ir tomar um café ao Café do teatro Baltasar Dias. Passava parte do tempo no bar esplanada o Verdinho, na Avenida do Mar, quando me sentava o empregado já sabia o meu gosto e era logo servido. No Vargrant (barco dos Beatles) ia com a minha esposa comer um gelado e ouvíamos música ao vivo.
    As vezes que fui ao Estreito e Câmara de Lobos à espetada e poncha. À Ribeira Brava tomar um café à esplanada que existe no centro da Vila. À praia de Ponta do Sol, a S. Vicente, onde tenho os meus amigos Gois, Ana, marido e filhos, sei que se encontram todos bem.
    A todos e são muitos, mas quero deixar uma palavra de ânimo pelo infortúnio com que foram apanhados. Sei que se vão levantar o mais rápido possível e que daqui a uns dias vão todos comemorar a festa das flores. Parece que vejo na praça do Município as flores todas ali e expostas e nas cabeças dos petizes.
    Também espero que desta calamidade se tire uma conclusão e que as mortes nos sirva de lição, para nos unir e deixarmos de rivalidades – Madeirenses e Continentais – porque no fundo todos precisamos uns dos outros.
    A todos as minhas condolências e se for possível um dia irei aí dar um abraço aos vários amigos que ali deixei e por uma questão de respeito não os quero enumerar. Um bem-haja.

  83. O meu ponto de vista:
    Gosto dos ditos populares e uso-os várias vezes para comparar outros ditos, como: lobo com pele de cordeiro, atrás de mim virá, quem melhor fazerá.
    Vem isto a propósito do nome que concederam à Comissão Parlamentar de Ética que está a ouvir os protagonistas do Face Oculta.
    Quando ouço deputados, como João Oliveira, João Semedo e outros, fico sinceramente triste com as frases e dúvidas, que galanteiam a certos convidados para ali prestar declarações. João Oliveira pôs em causa e disse que não acreditava na seriedade de Rui Pedro Soares. Quando lhe foi demonstrado o repúdio, disse que Rui Pedro Soares, se encontrava ali para responder e não fazer perguntas ou retorquir.
    Triste indivíduo que julga que por ser deputado está imbuído de qualquer coisa que o torna diferente do seu dia-a-dia. Faz-me lembrar algumas personalidades a quem se atribui algo – caso agente da autoridade – e julga que só ele é o dono dessa autoridade. Indivíduos que deviam ser o exemplo do garante da democracia e usam todos os baixos argumentos à falta desses (argumentos). Podiam deixar decorrer as considerações, confrontá-las com outros convidados e só depois dizer que a pessoa em causa não foi verdadeira.
    Depois vejo o senhor deputado João Semedo que só aparece a certos interrogatórios, não comparecendo, como o que agora vejo e ouço ao António José Saraiva e é uma deputada que o interroga. Julgo saber a não comparência do dito deputado. É para ficar como um ser imparcial mas, gostava que fosse ele a fazer as perguntas. Que raio de Comissão de Ética é esta? Nos julgamentos mudam-se os juízes conforme as testemunhas?
    Relato um acontecimento de há mais de cinquenta anos.
    Um domingo, quando convidado me deslocava com o dono de uma carrinha caixa aberta de aluguer, para Nine no concelho de Famalicão, para a largada de pombos-correios “Columbofilia”, em Lamelas no concelho de S. Tirso, à nossa frente seguia um automóvel – mais tarde soubemos que eram do Porto e iam ver o jogo de futebol entre Vitória de Guimarães x F. C. Porto. Em direcção contrária vinha uma carroça e de momento resolveu fazer inversão de marcha, provocando um acidente com o dito automóvel. Chamada a brigada de trânsito, esta ali compareceu com dois agentes, cada um na sua moto, esta deu razão ao dono da carroça. Não sei como se regia esse tipo de lei, estava na ditadura.
    Como o dono da carroça foi ferido e transportado para o hospital de S. Tirso, um dos agentes da autoridade, foi ao hospital saber o estado e tirar conclusões sobre o acidente. No regresso e já perto do acidente seguia à sua frente um motociclista e quando viu um agente da brigada de trânsito à sua frente resolveu fazer inversão marcha – talvez estava ilegal. O agente que vinha do hospital não teve nenhum meio de evitar o acidente, tendo os dois de serem transportados para o dito hospital.
    Escusado será dizer que a partir daquele momento para quem foi a culpa.
    O que sugiro ao senhor deputado João Oliveira para esperar pela inversão de marcha que a qualquer momento pode surgir.

    Acabo com esta frase de Camilo Castelo Branco:

    A calúnia é como o carvão: quando não queima, suja.

  84. A face da justiça:
    “O poder judicial está empenhado em derrubar o primeiro-ministro”. As palavras são de Marinho e Pinto e foram ditas na sequência de uma audição parlamentar onde o bastonário dos advogados já afirmara que o poder judicial tem uma agenda política “mais ou menos oculta”.
    O poder judicial nega e até intitula o Marinho Pinto de falta de crédito. Há formas de combater estas afirmações com processos em tribunal. Os nossos juízes acreditam mais em cartas anónimas. Essas são credíveis. Agora um bastonário não passa de um reles delator ao serviço do governo. O presidente do SMMP, João Palma e o presidente da ASJP, António Martins estão ao serviço da Pátria e só da Pátria. Estou em crer que até a vida davam para a defender. Se assim é para que precisam de um sindicato? Um sindicato não é para defender os interesses dos associados? Se assim não fosse não havia razão para sua existência. Ou julgam que o povo é burro e não sabe para que são os sindicatos. Formem-se numa ordem como os advogados. Depois os portugueses acreditam na vossa imparcialidade e bondade. Até lá façam um exame de consciência e vejam onde está o trigo e o joio. Enquanto não o fizerem não queiram que os portugueses se acreditem na vossa treta.
    Mas, não é só Marinho Pinto: “Garcia Pereira falou, há dias, em “corrupção na Justiça” mas, aparentemente, ninguém ouviu. Também disse que a maioria dos cidadãos já não confia na Justiça, mas fez-se silêncio em volta”.
    Será por ser do MRPP e não ligam a este tipo de gente. Não é Garcia Pereira um dos mais conceituados advogados portugueses?
    “Há dias, era Cândida Almeida quem sugeria que os magistrados fossem sujeitos a escutas para se saber quem viola o segredo de Justiça. Declarações das mais altas instâncias reduziram-na a quase nada”.
    Quando nos toca a nós sermos inspeccionados é uma chatice. Os juízes que até foram ungidos de todos os males vão agora submeter-me a tal disparidade. Assim é que é democracia. Corruptos são todos os outros. Os juízes que não foram escolhidos, nem votados, desempenham o serviço sem dar contas a ninguém, esses é que merecem toda a credibilidade. Membros do governo, quem está contra as decisões juízes, esses é que são de baixa índole.
    Também ainda não vi censurarem António Barreto e foram ditas coisas graves. “Não é possível viver com um sistema em que algumas pessoas na Procuradoria ou na magistratura judicial condicionam a vida nacional de uma maneira insidiosa, sub-reptícia, clandestina e eu acho que paga. Acho que há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça. Não há outra explicação. […] E a nossa vida há meses que está condicionada por estes processos. É um estado de degradação da vida judicial e parece que não há solução”.
    Gostava que contradissessem estas declarações nos locais próprios. Se o não fizerem os portugueses vão acreditar em quem? Dizem que são muitas acusações a José Sócrates. E aos juízes? Vou esperar sentadinho pelo desenrolar destes acontecimentos e que os juízes em lugar de sindicatos formem uma ordem. Aí vou acreditar que estão ao serviço da Justiça.

  85. À Mulher:
    Amanhã celebra-se o dia da mulher. Não quero deixar passar em branco este dia e desde já dedico a todas as mulheres do Mundo, em especial às que aqui no Aspirina B, dão o seu contributo com as suas opiniões e textos. A algumas não o posso dedicar pessoalmente ou por escrito, por não se encontrarem entre nós. Nestas incluo a minha mãe e a Marília (Careca) para mim, segunda mãe. À minha esposa, minha filha, minhas irmãs, todas as guardas prisionais que comigo trabalharam e restantes amigas, aqui vai um sentido obrigado pelo modo como me trataram e paciência para me aturar, “acreditem que é preciso ter paciência”.
    Ainda me recordo dos carinhos e conselhos que recebia da minha mãe. Assim como da escova de escovar roupa, com que todos os dias me presenteava no rabo. Merecia-as e talvez ainda fossem poucas. Assim como me recordo dos afagos e das lágrimas que brotava por não nos poder dar mais, a vida não permitia. Das minhas irmãs a amizade que nos une.
    Sou favorável que esta data se devia comemorar todos os dias. Não compreendo como há mulheres que sofrem no seu dia-a-dia brutalidades. A todos esses seres fortes que lhes aplicam essas brutalidades gostava que houvesse um castigo divino. Há coisas que não podemos viver sem elas: o oxigénio e a mulher. Sei do que falo. Quando estive a prestar serviço na Madeira a minha mulher não me pôde acompanhar e se já sabia a falta que faz uma mulher aí senti-a mais – além da companhia, os afazeres, as conversas, as partilhas. Quantas vezes saía de casa por me encontrar sozinho. Dava uma volta pelo Funchal e voltava para casa. Sabia que vinha para a solidão. Se não fosse a televisão ou a rádio para me distrair não sabia como passar as noites.
    Por isso estou grato por ter como companhia para o bem e para o mal a minha mulher. Não gosto do termo “minha mulher” mas, aqui uso-o por se estar a celebrar o seu dia.
    Dedico estes versos do Rodela a todas as mulheres e relembro esta humilde.
    Viva a Se Rosa Pacheca
    junto da sua tendinha,
    à porta do Venturinha,
    minha memória não seca.

    Foram milhares, os moços
    Das escolas da Avenida,
    Que à jóia numa fugida
    Lhe foram roubar tremoços.

    Hoje, esta santa mulher,
    Tenha-a Deus onde quiser
    que eu na pobre mente minha

    hei-de vê-la a vida inteira,
    como Rosa tremoceira
    à porta do Venturinha.

  86. Dia do pai:
    Também o sou e hoje os meus filhos, Sónia e Hugo, ofereceram-me um livro “Uma longa viagem com José Saramago” de João Céu e Silva. Fiquei contente não só pelo livro mas, pela lembrança. É bom que os nossos filhos se lembrem de nós. Lembro-me do meu pai mas não lhe posso oferecer um livro, no lugar onde se encontra não devem faltar livros, anjos e muitas almas.
    Mas aqui quero deixar recordações passadas entre mim e ele:
    Quando encontrava o meu pai na tasca a beber um copito de vinho convencia-o a vir embora comigo. No trajecto até casa e sempre que acendia um cigarro, para acertar com o fósforo era um dia de juízo, às vezes só se apercebia quando lhe queimava os dedos.
    Brincava com ele nunca se aborrecia, era um parceirão, nesses dias oferecia-me tudo, só era pena ter tão pouco. Cada passo, cada conversa, quando reparava cada vez estávamos mais longe de casa, por cada passo para a frente dava dois para a retaguarda, o que me levou a propor-lhe, que nos virássemos em sentido contrário e assim alcançávamos a casa mais depressa.
    A minha mãe vinha abrir a porta, nesse tempo cada porta só tinha uma chave, e dizia, não ganhas juízo Maximino, mas sempre com um carinho extremo, hoje é raro se ver entre casais. Ajudava-o a despir-se e ele lá dormia a noite toda sem incomodar ninguém. Era um casal que se dava bem.
    Quando o meu pai faleceu notei que com ele ia metade da vida de minha mãe, que não chegou a dois anos e ela também partia para a vida eterna.
    Não me importava que hoje acontecesse o mesmo tal a saudade que tenho dele. Todos os dias me lembro dele mas neste a nostalgia é maior. Onde quer que esteja mas, só entendo que seja no Céu, para inferno bastou a sua passagem pela terra que a maioria da sua vida foi passada com dificuldades, quando vivia com mais conforto foi chamado para a vida eterna. Que S. Pedro e Deus olhe bem por si.

  87. Comissão de Inquérito:
    Tenho-me deliciado com o que vejo e ouço no canal Parlamento sobre a comissão de inquérito. Vejo um presidente a não se impor para manter respeito. Há dualidades de critérios. Ainda ontem na audição ao jornalista Carlos Enes, quando se referiu ao almoço entre ele, dois deputados do PS e um assessor do 1º. Ministro, ele, Carlos Enes, não podia divulgar os nomes dos mesmos, derivado ao sigilo profissional. Com a insistência do grupo parlamentar do PS para que os nomeasse negou-se a tal efeito. Os outros grupos parlamentares alegaram que o PS estava a criar um incidente parlamentar para o qual o jornalista estava protegido. O PS disse que ia recorrer para o Tribunal da Relação para que o mesmo fosse levantado. Outra vez os mesmos grupos parlamentares a manifestarem-se. Nisto são unânimes. Nunca vi coligações tão coligadas. Desculpem o pleonasmo.
    Hoje na audição a Paulo Penedos o mesmo invocou o sigilo, o derivado pela sua profissão e pelo que o tribunal de Aveiro lhe ordenou. Aqui caiu o Carmo e a Trindade. Foi ameaçado pelos deputados João Oliveira, Pacheco Pereira, Agostinho Branquinho e outros que tinha de responder ao que lhe era perguntado porque estava ali para esse efeito. Que pesos e medidas!
    Muito educado foi Paulo Penedos. Se, se passasse comigo, antes preferia ser detido do que responder a perguntas provocatórias e ditas com sarcasmo e ódio. Dá pena ver deputados como João Oliveira, Pacheco Pereira e Agostinho Branquinho naquela comissão inquérito. Por motivos da minha vida profissional assisti a vários julgamentos e nunca vi nenhum juiz, advogado de acusação ou defesa usar tanto ódio nas perguntas e era em julgamento com pessoas detidas por mau comportamento social: homicídios, roubos, burla, pedofilia, infanticídio, um sem número de crimes.
    Sei como vai acabar esta comissão de inquérito. Uns vão-se gabar que ficou provado que o 1º. Ministro sabia da compra da TVI, outros a dizer que não se provou nada, ou que a mesma não vai chegar ao fim por má educação, falta de liderança ou outra coisa qualquer.
    Se fosse num tribunal civil nada disto se passava. A missão dos juízes é defender o direito o dos deputados é defender o ponto de vista do seu partido para daí obter mais votos. Como é que depois querem que quem os ouve acredite na sua imparcialidade e que estão ali para que se obtenha a verdade. Que verdade? A deles.

  88. Dia-da-Mãe:
    Todos os dias deviam de ser Dia-da-Mãe. Lembrarmos das dificuldades que passaram para fazer de nós homens e mulheres. As canseiras porque em certos momentos da vida, esta era adversa e só sabe dar valor quem por esses momentos passou. Quantas vezes em lugar de um afago vinha uma bofetada. A culpa não era de quem a dava mas, sim de quem tudo fazia para que esses momentos fossem realizados. A ignorância e a má vivência que a outra “Senhora” tudo fazia para prevalecer eram o mais propício. Só dá mal vivência e ignorância as ditaduras.
    Ainda me lembro da escova de escovar roupa que a minha mãe usava para me repreender. Dizia ela que ao dar-me uma bofetada no traseiro fazia tanto doer a ela como a mim. Assim com a escova eu sentia mais. Sabia que na maioria das vezes eu tinha razão mas, que me batia para eu aprender a escolher os companheiros de brincadeira. Era uma pessoa urbana e não gostava de discutir com os vizinhos. Por isso antes preferia castigar os seus. Como eu a compreendo agora. Nessa altura ficava ofendido física e moralmente.
    Como hoje gostava de lhe dar um beijo em celebração do Dia-da-Mãe. Não pode ser e ao ver os meus filhos a darem um beijo na sua mãe este transporta para a lembrança da minha. Não podemos ter tudo o que queremos. Ao menos fica a consolação da sua recordação e da escova de escovar roupa.

  89. Podes dar um beijo à tua mãe sim, Manuel, é de outra maneira, imaterial, mas acho que chega lá na mesma. Dás um beijo numa trave de madeira.

    a madeira é ternura estriada

  90. C. CAÇ. 3341:
    De há uns tempos a esta parte que os que incorporaram esta Companhia de Caçadores que serviu no Ultramar – Balacende, norte de Angola – se vêm reunindo anualmente para confraternizar e sabermos novidades de cada um de nós.
    Fazíamos parte do Batalhão de Caçadores 3838 que foi distribuído por Quicabo, CCS – Companhia de Comando e Serviço – e Companhia de Caçadores 3340 – Companhia de Apoio à CCS – Companhia 3341, da qual fazia parte – sediada em Balacende – e 3342 – sediada na Fazenda, Maria Fernanda.
    Em 1975 através do ex-Furriel, Oliveira, começou-se a fazer convívios anuais entre todas as Companhias do Batalhão. Ainda me lembro do primeiro convívio no restaurante Galope, no Porto, perto do antigo Cavalaria nº. 6. Nessa altura fomos uns quantos e continuou-se a fazer outros convívios em localidades diferentes, ora no Norte, Centro e Sul do País. O Comandante do Batalhão, Tenente-coronel, Columbano Líbano Monteiro, a partir de uma certa data passou a ser frequentador assíduo. Da minha Companhia íamos quase sempre uns dois ou três, tendo-se chegado a sermos criticados pela falta de adesão. Aqui reparei que havia uma certa rivalidade e os grupos eram reunidos em mesas conforme as Companhias a que pertenceram. Não gostei desta forma e deixei de também de comparecer embora todos os anos receba convite através do ex-Furriel, Oliveira. Sinto que merecia a comparência, a minha e de outros companheiros é uma pessoa maravilhosa mas, derivado a outros divisionistas deixei de comparecer.
    Mais tarde através do soldado Radiotelefonista, Alves, fomos convidados individualmente a participar num convívio anualmente – sendo o primeiro, julgo eu, na Buraca em Lisboa – da Companhia 3341 mas, não posso precisar a data.
    Em boa hora o fez. Comecei a ir a esses convívios não podendo ser um frequentador assíduo derivado aos meus afazeres profissionais mas, aos que podia fazia por fazer parte. Todos decorriam bem, embora saiba distinguir uns melhores que outros, mas aqui ressalvo o trabalho e carinho posto por todos os seus organizadores – ainda não fiz parte da organização mas se Deus me der vida e saúde vou tentar organizar o do ano de 2012, o de 2011 já tem organizador.
    Embora reconheça que tem havido umas divergências quanto à nossa separação em relação às restantes Companhias – caso ex-Alferes, Soares – mas como uma andorinha não faz a primavera, também não é um ou dois elementos que nos vai fazer mudar de opinião. Sou a favor que nos reunamos todos os anos só a nossa Companhia do que a reunião com as restantes. Como referi em cima é mais salutar a nossa reunião pelo facto de nos conhecermos todos, todos vivemos quase os mesmos problemas e angustias e não com quem não nos diz nada, simplesmente fizemos parte do mesmo batalhão mas cada Companhia viveu isolada – só a 3340 é que conviveu com CCS – éramos vistos como rivais.
    Nos vários convívios que estive presente, fez-nos bem conviver, saber novas da nossa vida, ver esposas, filhos e filhas, noras e netos, com que alguns nos têm presenteado. No que me toca e derivado aos afazeres da minha esposa ela não me tem acompanhado e pelo motivo de ela ser de opinião que a festa só a mim diz respeito. Mesmo assim, não deixo de admirar os que se fazem acompanhar pelos respectivos familiares. Dizem todos que sabe bem o passeio que é um sábado diferente de todos os sábados do calendário e alguns que são de mais longe aproveitam para passar o fim-de-semana diferente dos normais.
    No sábado dia 22 de Maio mais uma vez nos reunimos desta vez em Amarante com o seguinte programa: visita guiada ao Museu Amadeu Sousa Cardoso, seguido de um almoço na Quinta das Laranjeiras, que decorreu de uma forma distinta e com o repasto bem servido, desde as entradas, ao almoço propriamente dito assim como na parte da doçaria.
    Compareceram bastantes camaradas. Enumerá-los todos torna-se fastidioso e tenho pena de me esquecer de alguém. É evidente que falei com quase todos e vou falar de alguns com quem tenho mais intimidade. Do ex-Alferes, Monarca, sempre solícito como era seu timbre no tempo em que convivemos em Balacende. Era e ainda é de um trato fora do normal. Só de pessoas com uma formação e uma vida social fora do comum é que se dão a esta maneira de ser. Sente uma alegria nos convívios e quase aposto que já desespera pelo próximo. Desloca-se de Setúbal sua terra natal e vem com uma pujança física que não dá a entender o desgaste da viagem.
    O ex-soldado radiotelefonista Alves, mentor destes convívios sempre jovem e cordial. Também não admira porque é mais novo do que nós 2 anos, por isso o apelidávamos de “voluntário”.
    O Fortunato, ex-soldado radiotelegrafista, sempre com uma disposição admirável e sempre com o seu riso. Aqui faço um reparo especial e vou tomar a ousadia de falar da sua doença. Espero que não me leve a mal. Por o ver com tão boa disposição e a me revelar, aqui deixo a minha admiração e dizer-lhe que em relação a ele sou um mimelo. Em comparação com ele – a falta do meu rim e a operação que há pouco fiz à bexiga não é nada. Força Fortunato e desejo o nosso encontro para o ano em Vila Nova de Gaia.
    O ex-soldado atirador “Tufa” sempre com o seu cigarro na boca e com uma bomba para a asma no bolso e outra em casa. Diz que está proibido de fumar há muitos anos e que todos os médicos diziam que se não o fizesse podia morrer mas que continua cá e sempre com o seu cigarro na boca. Quem lhe dá boleia é o ex-Furriel, Machado, sempre com boa disposição e há anos que não falta a um convívio.
    O ex-soldado condutor auto-rodas, Jaime, acompanhado com a sua esposa e neto, sempre a falar-me da nossa vivência em Balacende, das nossas aventuras e desventuras e do seu querido Salgueiros. Imagino o seu desgosto com a descida e mais tarde com a desistência.
    O ex-soldado condutor auto-roda, Vitorino na companhia da sua esposa sempre sorridente e me disse que quem bebe uns copos exalta alegria ao contrário dos que bebem água estão sempre carrancudos. Percebi a indirecta e recebi-a com estima.
    Os ex-soldados atiradores “Setúbal” e Carneiro, sempre a falar em alto tom mas é à maneira deles.
    O ex-Furriel, Sousa, já não o via há 35 anos. Em 1975 esteve a substituir o chefe dos Correios de Freamunde, durante as suas férias e um dia por casualidade o encontrei. Estivemos a recordar certas pessoas e passagens daquele mês em que esteve em Freamunde, assim como a sua esposa, enfermeira no hospital de S. João. Como sabe bem recordar esses tempos.
    O ex-soldado, Morais, “o Lisboa” sempre com a sua irreverência e critico do que acha que está mal.
    Dos ex-soldados, Bessa, Cunha, “Espingardinhas” que vai realizar o próximo convívio, o Raimundo e todos os outros que ali estiveram presentes e que do nome agora não me lembro mas, os recordo com carinho e que para o ano estejamos todos presentes, assim como os que não puderam estar este ano.
    De ano para ano as nossa probalidade de vida é cada vez menor, por isso faço um pedido para que todos os anos estejamos presentes. No que me diz respeito vou fazer os possíveis e impossíveis para que isso aconteça.
    Vou terminar com um elogio para o ex-soldado atirador, Rodrigues, pela maneira como realizou este convívio e ficar-lhe obrigado.
    A todos um bem-haja, tudo de bom e muitos convívios. É sinal que temos força de viver e estamos unidos como nos 23 meses que passamos em Balacende. Força e viva a Companhia de Caçadores 3341.

    “Guerra injusta”

    É hora da despedida
    O barco abandona o cais,
    Num adeus de mão erguida
    Quantos para nunca mais.

    Neste palco de terror
    Lisboa era cenário,
    Corações cheios de dor
    Nestes anos de calvário.

    Tantas famílias de luto
    Jovens atemorizados,
    As moças rezam em grupo
    P’la sorte dos namorados.

    Os soldados não têm culpa
    Perdão irmão africano,
    Pela luta tão injusta
    Que travamos lado a lado.

  91. A Banda de Freamunde foi fundada em 1822, tendo sempre até hoje uma actividade ininterrupta.

    Tem como actividade principal o ensino e promoção da cultura musical.

    Da sua Escola têm saído grandes músicos que actualmente integram os quadros das Bandas da G.N.R., P.S.P., R.I.P, Força Aérea, Marinha, ex-Orquestra do Teatro Nacional de S. Carlos, Orquestra Sinfónica Portuguesa, professores nas Escolas Profissionais e Artísticas de Viana de Castelo e das Caldas da Saúde, etc..

    Da ,sua vasta actividade, destaca-se o facto de ter .actuado por todo o pais e de ter efectuado quatro digressões ao estrangeiro, uma a Espanha e três a França, a convite das comunidades portuguesas e respectivos consulados.

    Participou em vários concurso, tendo sido destinguida com diversos prémios nomeadamente uma “Batuta encastuada a Ouro” e uma “Medalha de Ouro”.

    Em 1979, alterou-se a designação de Banda Marcial de Freamunde, para Associação Musical de Freamunde, alteração que se impunha pela polivalência que a Instituição atingiu principalmente no aspecto da formação.

    Em Maio de 1992, a Associação Musical de Freamunde viu reconhecido o seu trabalho em prol da cultura musical, com a prestigiosa distinção “Pessoa Colectiva de Utilidade Pública”, atribuída pela Presidência do Conselho de Ministros.

    Em 6 de Novembro de 1995, recebeu da Câmara Municipal de Paços de Ferreira a “Medalha de Ouro de Altruísmo e Mérito”, como reconhecimento do seu papel insubstituível no campo da música e da formação musical.

    Contactos
    Outeiro –
    Freamunde
    4590FREAMUNDE
    Porto
    Portugal
    Telefone: 255 879256
    Envio o vídeo do Gandarela tocado pela Associação Musical de Freamunde.
    http://www.youtube.com/watch?v=cbHUqBef6W8&feature=related

  92. Introdução:
    Vamos entrar na época das festas populares e de uma maneira geral nas dos padroeiras/os da maioria das localidades portuguesas, aqui descrevo as que para mim são das mais importantes que se realizam no País. É evidente que quem as vive durante 365 dias – comissões de festas – tem um maior conhecimento e as festas sebastianas ou da vila tem um sabor especial. Não me estou a tornar num pai coruja mas, no que realmente sinto e de quem esteve por dentro delas no ano de 1988.
    No segundo fim-de-semana de Julho são celebradas em Freamunde as festas em honra ao Mártir S. Sebastião e conhecidas por festas da Vila como refiro em cima. Com a passagem de Freamunde a cidade perdeu-se o uso de dizer as festas da Vila, como conservador pelos bons usos e costumes vou assim recordando-as.
    Estou a fazer este intróito, com a finalidade de escrever uns textos sobre as comissões de festas, – reporto-me às de 1988, nelas participei como festeiro e de assim ter um certo conhecimento – que todos os anos as levam a efeito. É um ano de trabalho e canseiras mas vale a pena porque elevamos o nome de Freamunde, se não for a nível Nacional pelo menos a Regional. Gosto de realçar e dar conhecimento destes sentimentos populares e sabe bem falar do que de bom se produz nesta terra. Freamunde merece.
    Os vídeos que acompanham foram reproduzidos de uma cassete referente à festa da Vila de 1988. Segue outros tocados pela Associação Musical de Freamunde, – Gandarela, opereta do Grupo Teatral Freamundense – hino das Sebastianas, sessão de fogo, corrida da vaca de fogo, entre outros. Tomei a liberdade de os usar o que desde já peço desculpas.
    Como não os possuo com alguma qualidade e como gosto de dar conhecimento do bom que fazemos é esse o motivo porque os reproduzo. O do concerto dos Xutos & Pontapés está em fracas condições de visibilidade. Consegui arranjá-lo e reproduzo-o pelo concerto em si e pelas canções, (“ A minha Alegre casinha” e de “Bragança a Lisboa”). Vinte e dois anos são muito tempo e filmado por um amador com pouca experiência à altura. Hoje parece um profissional.
    Foi um êxito o concerto. Estimaram uma assistência de mais de seis mil pessoas. Nós, comissão, perdemos a conta dada a afluência e o esgotar dos bilhetes. Não estávamos preparados para um concerto assim. Ainda bem. Por isso não prevíamos tal enchente.
    As tecnologias da época não se comparam com as de hoje pelo que há deficiências na imagem, cor e som. A ânsia de falar e de dar conhecimento é maior, é esse o motivo que me leva a escrever uns textos sobre as festas da Vila.
    Espero que gostem. Desde já o meu obrigado.
    Manuel Pacheco

  93. A comissão das festas Sebastianas:
    É um conjunto de indivíduos que são seleccionados todos os anos para a realização das festas em honra ao Mártir S. Sebastião. Estas são celebradas no segundo fim-de-semana do mês de Julho, como já referi. Desde que tenho conhecimento lembro-me das festas nesses anos.
    Por volta de mil novecentos e cinquenta e cinco, com seis anos de idade, os meus pais levava-nos a assistir a mim e às minhas irmãs Amélia e Fátima à procissão e marchas alegóricas.
    Assistia com a admiração própria da idade. Que bonitas e com tantos foliões. Admirava-me de tanta luz, da cor das lâmpadas nos arcos, estes, com o seu papel de gazeta de cores variadas. Eram esses os materiais usados.
    Em mil novecentos e sessenta e um, na segunda-feira de festas, dia do desfilar da marcha alegórica por volta das vinte horas fomos presenteados pela mãe natureza de um dilúvio que estragou a sua saída que estava marcada para as vinte e três horas e trinta minutos. Tratou-se de resguardar o material que ia ser exibido para não ser consumido por esse dilúvio. Para pena de todos os freamundenses um dos seus ex-líbris (marcha alegórica) não podia ser vista. Todos nos sentimos tristes pelos danos causados. O negócio que os comerciantes deixaram de fazer e por esse motivo não contribuíam monetariamente após a realização das festas. É uso depois das festas, os festeiros fazerem um peditório pelo comércio local, barracas de diversão e de comes e bebes e estes retribuírem conforme os ganhos. Se não o puderam ganhar muito menos o podiam dar. Também não se podia exibir o trabalho de alguns meses que sempre gostamos de o partilhar com quem nos visita e habitantes de Freamunde.
    Os freamundenses não são pessoas de se deixar abater por um qualquer dilúvio e há que arranjar uma solução.
    A terça-feira nasceu com sol e bastante calor. O senhor Anselmo Marques (falecido há uns anos) industrial de panificação e um dos impulsionadores das festas Sebastianas, – houve uns anos que não se realizaram, divergências com o bispo do Porto, não queria que houvesse festa nocturna, era contra a festa profana, só queria a cristã – pôs a sua frota automóvel e motoristas a percorrer os concelhos limítrofes a anunciar através de uma aparelhagem sonora a saída da marcha para a mesma hora da de segunda-feira.
    O mote tinha sido lançado.
    Esperava-se se, se era correspondido porque uma festa sem foliões não é festa. Para mais nesse tempo não era como é hoje. Não havia férias anuais. Os freamundenses e os que laboravam em Freamunde e não eram poucos – nessa altura Freamunde era das terras com mais indústria e comércio – na segunda e terça-feira não trabalhavam. Estes dois dias eram compensados com umas horas extras depois do horário laboral.
    Chegou a noite. Os naturais de Freamunde iam comparecendo com receio de ser um fiasco mas, à medida que as horas se iam passando já não se podia dar uma volta. Os forasteiros compareceram como de uma segunda-feira de festas se tratasse. Foi das melhores noitadas até àquela data que assisti. Ao outro dia – quarta-feira – era dia de trabalho não se podia perder um dia, notava-se logo a falta que fazia. Os patrões também tiveram uma certa benevolência, sabiam que os seus empregados não podiam render o que era normal – fui trabalhar e sei da minha luta com o sono. Quando se toca a bairrismo todos nós estamos solidários. Há divergências com instituições locais mas, – sendo ela justas – quando toca a defendê-las, somos todos por um e um por todos.
    Mais tarde com a invenção do plástico tudo se revolucionou para melhor: resistência à chuva, ao fogo e ao próprio manuseamento. A luz eléctrica nessa altura era rara, em minha casa e na maioria dos habitantes de Freamunde, ter luz eléctrica era um luxo e não uma necessidade. Por isso admirava as várias cores das lâmpadas.
    Continua:

  94. Continuação:
    A procissão era uma beleza! Como gostava de ver os andores e os anjinhos, sentia inveja de não fazer parte dela. Nessa altura eram escolhidos e como era filho de gente humilde ninguém se lembrava de gente como eu.
    Antes da procissão havia o concerto das bandas filarmónicas e já nessa altura a de Freamunde era das melhores do País – a fazer fé nos ditos dos seus admiradores. Lembro-me de ver o Toninho Nogueira, falecido há bastantes anos, regente da banda, com o manuseamento dos seu braços e batuta a dar o compasso e com a sua face corada, não sei se devido à responsabilidade.
    Quando o Toninho Nogueira / fazia o rosto corar, / nenhuma banda p’la beira / batia a nossa a tocar! Este filho cá da gente, / nesta sua banda amada / foi de aluno a regente, / sempre de cara lavada. Ainda hoje a chorar / a gente ouve perguntar / onde a banda se desloca / pelo Toninho Nogueira / e há quem jure, ali pela beira! / Está no que a banda toca.
    A marcha alegórica era e é de uma beleza impar, o carinho com que era e é elaborada. Parece que revejo o senhor Leopoldo Saraiva, – há muitos anos falecido. Depois veio a família Correia, (Mocas) o Fernando levado na flor da idade, fez parte da minha comissão de festas, que nos presenteavam com a confecção de carros de crítica local e nacional (corsos). Como disse, era tudo à base de cartão e papel de gazeta. Tinham umas mãos de ouro. Em tudo que tocavam nascia maravilhas. Pareciam o Rei Midas. Foram impulsionadores de muitos eventos realizados em Freamunde.
    Incorporava a marcha alegórica várias figuras, umas criticas, outras de alusão à vila mas, aqui recordo o grupo cómico de Figueiró, freguesia que faz fronteira com Freamunde, comandado pelo senhor Luís Monteiro. Era uma delícia as suas brincadeiras! Recordo um ano em que vieram com uma sátira sobre a volta a Portugal em bicicleta, estas sem pneus, só com os aros, faziam um barulho ensurdecedor e provocava bastantes quedas não dando descanso ao médico e massagista que com mercúrio, água destilada e adesivo não davam vazão a tudo. Outro ano com uma tourada e mais tarde com uma banda de música em que os instrumentos eram de cana de foguete, uma extremidade tapada com gazeta para dar som, com alguns orifícios, panelas, testos, etc. Estavam bem ensaiados e deram um festival de bem tocar as modas da época. O senhor Luís Monteiro em tudo que se metia tirava o máximo proveito e tudo era do agrado de quem assistia. Pena hoje não haver mais Luís Monteiros. Eram críticas das quais ainda hoje recordo.
    Antes do percurso da marcha uma grande parte do povo sentava-se nos passeios para guardar lugar, alguns adormeciam. Para os tentarem manter acordados havia pessoas – Quim, (Bica) Adelino, (da Claudina) já falecidos, e outros que munidos com uma bisnaga cheia de água lhes deitava pela cara abaixo. Tudo feito com o máximo respeito e daqui nasceu o chamado “mel”. Para avisar os mais sonolentos usava-se a frase: “Aí vem mel”. Assim todos se mantinham acordados para não serem molhados e alvo de crítica. Hoje, fazem-no com recipientes de maiores dimensões o que por vezes se torna desagradável e arma algumas confusões. Quando é entre um grupo de amigos – isso é entre eles e gostos não se discutem – torna-se giro para quem assiste. Quem quer ser lobo veste-lhe a pele. E, é como se diz: cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso.
    Quando se ia correr as vacas de fogo a mim dava-me uma dor de barriga que só pensava na minha casa. Os meus pais levavam-nos para um sítio mais protegido mas mesmo assim a dor de barriga continuava.
    Nesse tempo as diversões eram poucas, hoje há grupos de rock e outros divertimentos. Ansiávamos que o Quim Loureira, também falecido há anos, subisse ao coreto da música e dali nos deliciar com as suas brincadeiras, anedotas e sermões.
    Orgulhe-se a Gandarela, / orgulhe-se a terra inteira: / a sua filha mais bela / deu à luz o Quim Loureira. Pela mão dos sardinheiros, / sob sorrisos e abraços, / junto à fonte dos Moleiros, / deu os seus primeiros passos. E depois subiu à Feira / perdeu-se pela palmeira, / do fundo do coração. E pela festa da vila / é por aqui que ele asila, / p’ra lhe fazer um sermão.
    Continua:

  95. Continuação:
    Antes uns dias a catraiada vinha para o centro da vila ver chegar as barracas de diversão (carrosséis, carrinhos de choque, cestinhas, aviões e o ratinho da sorte) que serviam durante as festas, de diversão, para quem tinha dinheiro para isso. Nós miúdos, nesses dias aproximávamos mais de alguns familiares a ver se nos ofereciam algum dinheiro para esse fim. Alguns davam, mas as necessidades eram tantas.
    Punha-me na borda da pista dos carrinhos de choque e quando era avisado pela aparelhagem sonora que findava essa corrida, dependurava-me no suporte dos mesmos, para uma pequena boleia. Que alegria, que satisfação!
    Já adulto comprava as fichas e deliciava com as voltas. Nesse tempo era só num sentido a corrida, com a prática e a combinação com outros amigos para dar uma trombada na parte lateral de trás e com o guinar do volante nesse sentido, arranjávamos maneira de inverter a marcha – dava-nos gozo mostrar a nossa perícia – mas provocava chatices e trabalho aos empregados dos mesmos.
    Um dia numa excursão a Fátima e com paragem e pernoita em Nazaré, na Nazaré de Cima, havia uma pista de carrinhos de choque. Nessa excursão a maioria dos excursionistas eram jovens e quando a viram para ali foram para se divertir e usar as mesmas brincadeiras que usávamos nas festas da Vila. A certa altura ouve-se esta exclamação de um empregado para outro! Estamos bastante longe senão quase afirmava que são pessoas de Freamunde. E não se enganara. Éramos rebeldes mas educados.
    O carrossel nesse tempo andava sempre super lotado – hoje derivado às várias barracas de diversão – dá-me pena ver o que outrora para mim era um ex-líbris estar tão abandonado. Ali podia andar ao mesmo tempo o jovem, o adulto, o namorado, a namorada, o marido, a esposa, os filhos e os anciães. Pena do seus cavalos, girafas e leões, tudo em madeira, estarem tão deteriorados e sem tinta. Nós miúdos que ficávamos a partir dessas barracas de diversão a saber como eram esses animais. Não existia a televisão muito menos o canal National Geographic. Para nós – miúdos daquela altura – que estávamos longe de Lisboa era o nosso jardim zoológico.
    O ratinho da sorte que estava dentro de uma gaiola no centro da pista, esta rodava em volta e depois de se vender todos os bilhetes era aberta uma porta para ele se deslocar para uma das casinhas existentes. Tantas como a venda dos bilhetes. Ele no meio da pista olhava em todas as direcções e lá se dirigia para uma, casualmente. Os jogadores solicitavam a do número do seu bilhete mas ele ia para a que lhe desse na gana. Ao que ganhava sabia-lhe bem o prémio, aos outros restavam-lhes voltar a jogar.
    O pouco dinheiro que tinha não dava para essas diversões. Contentava-me com a compra de um chupa-chupa ou algodão doce, para satisfazer a lambarice e dar um ar a dia de festa. Festas em que uma criança nesse tempo não pudesse comprar essas guloseimas não deviam de ser consideradas como festas. Como gosto de recordar esses tempos.
    Admirava e admiro quem aceita fazer parte das comissões de festas. O trabalho que têm durante um ano para em quatro dias se consumir tudo – hoje são oito. Das comissões das festas Sebastianas a maioria da população masculina de Freamunde – a feminina é preservada – já fez parte e sempre com um bairrismo que é elogiado por quem nos visita nesses dias. Freamunde é assim. Alegria na Festa e festa na Alegria. Tudo o que cria gosta de preservar e se possível melhorar. Quando vejo ou assisto a uma festa – seja em que localidade for – dou sempre valor a quem as realiza. Compreendo as canseiras, os aborrecimentos, a responsabilidade e o trabalho que implicam.
    Continua:

  96. Continuação:
    No dia doze de Julho de mil novecentos e oitenta e sete, domingo de festas, na missa celebrada em honra do Mártir S. Sebastião, como é hábito, é lido o nome dos festeiros que vão fazer parte da comissão para as realizar no ano seguinte. O meu nome figurava entre os vinte e um que tinham de dar continuidade a tal evento no ano de mil novecentos e oitenta e oito. Sabia que a responsabilidade era muita, era um ano que tínhamos de dedicar para esse fim. Estive para não aceitar mas, como filho de Freamunde tinha por missão aceitar tal tarefa.
    Dia catorze, fomos convidados pela comissão que findava para um jantar e a entrega do testemunho. Nessa noite foi-nos ofertada por essa mesma comissão, – era a praxe, a partir de um certo ano ficou decidido aumentar um tostão por ano – a quantia de trinta e oito tostões, para uma festa que tinha tido um gasto de cinco mil contos. A partir daí começou-se logo a criar um sentimento de receio, tais os encargos.
    Na primeira reunião foi distribuída a comissão com os seus pelouros. O presidente, o tesoureiro e o secretário. A mim tocou-me a tarefa de secretário. Os outros ficaram com outras funções. Nessa primeira reunião alguns elementos ficaram de ir a Barcelos, a umas olarias, para encomendar uns “palhaços em barro” a dar um ar de festa, “a mascote”, com a finalidade de serem vendidos para angariarmos algum dinheiro, para um fundo de maneio de certos eventos que nos propúnhamos realizar.
    Os contactos foram-se fazendo, assim como pedidos de orçamentos. Numa reunião ficou decidido que aumentaríamos em quase tudo: procissão, iluminação, cortejo alegórico, grupos de samba que o incorporam, ranchos folclóricos, grupos de zés pereiras, bombos, fogo-de-artifício, em relação às festas de mil novecentos e oitenta e sete. De cinco mil contos, passamos o orçamento para sete mil e quinhentos. Era muito dinheiro. Todos os festeiros eram uns tesos. Tínhamos como aval a nossa força de trabalho e o nome das festas Sebastianas. Era muito e como se diz: Deus quer o homem sonha e a obra nasce. Era o que ansiávamos.
    O senhor Santos, iluminador, começou-nos a sondar. Como era a primeira vez que se propunha a iluminar tal festa – estava habituado a festas menos afamados – fez-nos um preço de quinhentos contos e a palavra que não nos arrependíamos pela sua escolha. Este preço era inferior ao que a comissão que rendemos pagou ao iluminador contratado por eles.
    Continua:

  97. Continuação:
    No dia quinze de Agosto, deslocamo-nos a Figueiró, uma freguesia do concelho de Paços de Ferreira para assistirmos ao concerto das bandas musicais de Freamunde e a de Revelhe de Fafe, na festa da Senhora de Todo o Mundo, com o intuito de a contratarmos uma vez que a outra é sempre a de Freamunde. Não nos deram a certeza, uma vez que nesse dia em Fafe, também celebram uma festa e quase sempre são convidados. Por esse motivo não se podiam comprometer, davam-nos uma resposta mais tarde. Não podíamos esperar tanto tempo e nestes negócios tempo é dinheiro.
    Continuávamo-nos a reunir todas as semanas para expormos certos problemas e caso surgisse dar continuidade a qualquer evento que aparecesse. Planeou-se os grupos para o peditório que percorria a vila. Houve grupos com dois elementos, outros com três, era o caso do meu, que derivado às minhas funções, tinha fins-de-semana em que estava de serviço e estes peditórios regra geral eram feitos aos domingos e pelo menos por dois elementos.
    Nestes peditórios tivemos chefes de família (casas) que nos podiam dar mais, outros a quem dissemos que era muito da parte deles, o que nos respondiam que não era nada comparado com o nosso trabalho. A média por família era de quinhentos escudos, mas muitos nem isso davam, não falando nos que não nos abriam a porta e outros que passássemos na proximidade das festas, dando-nos a entender, que não era naquele momento ou outro qualquer. Estávamos preparados para estas recepções. Não eram estas contradições que nos faziam desistir. Para fazer uma comparação, hoje, cada casa dá sessenta euros, fazem-se três peditórios a vinte euros cada.
    Pela passagem de Ano, de parceria com uma pequena discoteca que há muito encerrou, disponibilizamo-nos a fazer um evento com os lucros a meias. Pelo Carnaval, um desfile de (Corsos), além de dois torneios de futebol de salão, um de inverno, no pavilhão gimnodesportivo da escola C S de Freamunde, o outro na escola primária de Santa Cruz, ao ar livre, o que nos deu bastantes chatices e pouco rendimento. Tudo o que pudesse vir era bem-vindo. É como se costuma dizer: grão a grão enche a galinha o papo.
    Andamos pelos principais lugares da vila a falar com pessoas, do sexo feminino, para a realização de cortejos de oferendas. Dava muito trabalho. Mas todos tínhamos a consciência que sem eles não alcançávamos a meta a que nos tínhamos proposto.
    Numa reunião semanal, o presidente deu-nos conhecimento que foi abordado por um empresário de espectáculos, para contratarmos os Xutos & Pontapés, para um concerto rock no dia de Páscoa, como vinha sendo habitual – menos oneroso – com outras comissões. Sabíamos que o investimento era grande. Éramos todos amadores para um tipo de concerto como era o dos Xutos, para mais nesse ano eles andavam na mó de cima, com “a minha alegre casinha”. Pus bastantes reservas. Fomos a votos, ganhou os que optaram pelos Xutos & Pontapés. A partir daí era meter mãos à obra. Falou-se com a direcção do Sport Clube de Freamunde para a cedência das suas instalações desportivas para ali ser realizado o concerto. Nos anos anteriores com espectáculos de menores dimensões estes eram realizados no recinto da Praça e esta era fácil de vedar.
    Nesse ano estava em voga as rádios locais, em todo o lado havia uma e Freamunde não fugia a essa regra – hoje não existe – os encargos eram grandes, faltavam patrocinadores e talentos. Propusemo-nos a percorrer todas as que existiam pelas redondezas a fazer publicidade para que o concerto fosse um êxito. Êxito para os Xutos. Para nós o seu êxito vinha-nos ajudar ao orçamento e nas ajudas daí inerentes.
    Continua:

  98. Continuação:
    No dia dois de Abril de mil novecentos e oitenta e oito, o Sport Clube de Freamunde jogava com o Fafe no campo do Carvalhal. Após o jogo tínhamos que vedar todo o perímetro que comportava o campo – hoje é um conjunto de blocos habitacionais. Um mamarracho. Para pena nossa, pelo facto de ser uma recordação e o berço do Sport Clube Freamunde. Além de se vedar ainda tínhamos que montar o palanque onde iam actuar os Xutos. Não é como agora que há empresas que montam e desmontam esses palanques mediante o seu aluguer. Era a nossa força física e mental para resolver estas situações e tínhamos que pôr mãos à obra porque o dia três era o dia seguinte e, muito havia para fazer e para nosso azar nesse dia estava a chuviscar.
    Aqui em Freamunde a Páscoa é celebrada em quase todas as casas com a ida do compasso – um grupo de leigos e um seminarista, com uma cruz, de porta em porta, dá-la a beijar. Acontece que nesse dia para nós a Páscoa era outra, havia muito a fazer e tínhamos de receber um camião com a aparelhagem para ser montada pelos técnicos que acompanhavam os Xutos.
    Quando fomos receber o dito camião deparamos com outra dificuldade. Dada a altura do camião, com a carga, para entrar nas portas de acesso ao campo não se conseguia, estas, eram mais baixas. Entre, ter de o descarregar – ficava um pouco distante – e tentarmos afundar o solo, optou-se pelo seu afundamento o que nos deu bastante trabalho e como já referi tudo saía do nosso esforço físico para evitar despesas.
    O técnico de som depois de vistoriar o palanque disse que a sua dimensão não tinha as medidas e pôs certas reservas na realização do espectáculo. Avisamo-lo que não lhes pagávamos nada e ainda lhes pedíamos uma indemnização por despesas causadas. Assim, como a publicidade que tínhamos feito nas rádios locais e comunicação social, a usávamos, como contra publicidade a denegrir a sua imagem pelo incumprimento do dito concerto. Pela via do diálogo lá se conseguiu chegar a um acordo. A partir desse acordo o que se queria era a chegada da noite e rezar para não chover.
    Chegada a hora todos tínhamos tarefas a desempenhar. A mim, – a pedido meu – fui para a bilheteira do lado norte, dado que não era simpatizante dos Xutos, pelo motivo de nestes espectáculos se movimentar droga e como cumpria um serviço profissional, Serviços Prisionais, guarda prisional, não estava para pactuar com isso. Mesmo assim quando chegava alguma pessoa à bilheteira a pedir bilhetes e usavam o calão: “ó meu passa para cá um bilhete por meia leca”. Meia leca eram quinhentos escudos. Não gostava deste vocabulário, mas por amor às festas Sebastianas lá ia aguentando.
    Vendia bilhetes a um ritmo nunca por mim imaginado, ao ponto de se esgotarem e termos de inventar outro tipo de bilhetes. O dinheiro em meu poder era muito, comecei a temer um assalto à bilheteira. Pedi ao comandante da G.N.R. que ali estavam para manter a ordem, para pôr nas imediações da bilheteira um agente, além de ter comigo a pistola que me estava distribuída pelo Estado, derivado às minhas funções. Tudo decorreu bem, quando fomos fazer contas só a minha bilheteira tinha vendido bilhetes que perfazia a quantia de dois mil contos, a do lado Sul um pouco menos, fora os bilhetes que anteriormente tínhamos vendido.
    Os Xutos e Pontapés deram um concerto que ainda hoje é recordado. Os cafés nas proximidades do concerto esgotaram tudo, tanto nos comes e bebes, como nas bebidas de garrafa e de lata. Não sobrou nada, além da fome e sede que muitos passaram. Para nós foram excepcionais a não ser aquele desentendimento entre o técnico de som. Durante muito tempo não se falava de outra coisa aqui pelas redondezas, a não ser do concerto dos Xutos & Pontapés. Mais tarde foram contratados por outra agremiação daqui de Freamunde mas, não tiveram o êxito e os ganhos de bilheteira como nós. A agremiação do Mártir S. Sebastião é forte e faz movimentar a população de Freamunde para esses e outros eventos.
    Continua:

  99. Continuação:
    Nestes intervalos ainda fazíamos como já referi os leilões, a que nos dispúnhamos a ir às matas das proximidades roubar eucaliptos para vendermos como lenha para fogões, tudo o que pudesse vir era bom e os eucaliptos estavam em matas mal limpas o que podiam provocar incêndios. Precisávamos de dinheiro e uma sem um eucalipto continuava a ser mata.
    Por essa altura andava por Freamunde, o Zé Trincheira, antigo toureiro, que percorria várias terras a oferecer as suas garraiadas. Noutras festas em honra ao Mártir S. Sebastião tinha feito algumas garraiadas com muito sucesso e a nós propôs que realizássemos uma tourada.
    Quando foi discutido em reunião de comissão, alguns festeiros, eu incluído, ficamos alarmados com tal evento. Já tínhamos sido realizadores de concertos de rock, demonstramos bastante amadorismo mas lá nos desenrascamos, agora só faltava sermos agentes tauromáquicos. Mas como não há duas sem três, resolvemos aceitar o desafio, sempre com o intuito de ganhar algum dinheiro, porque necessitávamos bastante dele e o mês de Julho estava à porta.
    Tivemos de pedir a cedência de um terreno que não estava a ser cultivado. Era uma espécie de baldio, com um matagal bastante elevado. Arranjou-se uma máquina, caterpillar, para tirar o silvado, nivelá-lo e pôr-lhe uma camada de saibro. Posto isto, tínhamo-nos de deslocar a Carrazeda de Ansiães, no distrito de Bragança, para trazermos as bancadas e o redondel, foi onde o Zé Trincheira fez a última garraiada, para ser montado para a dita tourada.
    Pediu-se à Câmara Municipal de Paços de Ferreira a cedência de uns camiões e respectivos motoristas e com a colaboração do camião do Libório «Velha» já falecido, para ali nos deslocamos com a finalidade de carregarmos as ditas bancadas e o redondel. Sabia que Carrazeda de Ansiães ficava longe, mas tanto não, para mais estava um dia de calor insuportável, o local era num monte, sem alguma casa pela beira.
    As bancadas e o redondel encontravam-se montados o que nos dava mais trabalho pois tínhamos de os desmontar e carregar para os camiões. Findo o carregamento, fizemos a viagem de regresso mas a carga não era uniforme o que nos causou uma paragem por parte da brigada de trânsito. Com a nossa choradeira e talvez com a protecção do Mártir S. Sebastião, a brigada de trânsito lá nos deixou partir mas, recomendou-nos prudência e pouca velocidade. Chegados a Freamunde tratou-se da descarga e ao outro dia o início da sua montagem o que nos levou bastante tempo, todos tínhamos o nosso emprego e este trabalho era pós laboral.
    Continua:

  100. Continuação:
    Chegou o dia da tourada. Antes tínhamos vendido alguns bilhetes. O ambiente à volta do recinto era bom, agora o que ansiávamos era uma boa adesão, um bom espectáculo, assim como não chovesse porque o dia nasceu com o sol um pouco tímido.
    Fui para a bilheteira como no concerto dos Xutos. Não gosto de touradas, não sou contra a sua realização, disso depende postos de trabalho e a subsistência do touro. Se as não houvesse os criadores de touros não os criavam com tanta abundância, unicamente os que eram para abate e consumo. Na bilheteira ia-se vendendo bilhetes, não ao ritmo que desejávamos mas, a “praça de touros” estava composta. Ouvia-se o entusiasmo do público. Não somos um povo habituado a touradas ao vivo – foi a primeira organizada em Freamunde. Não havia o hábito dos “olé”.
    Os músicos da Banda Musical de Freamunde a quem tínhamos pedido a colaboração davam os toques próprios das touradas. O público continuava exuberante e demonstrava que estava a ser do seu agrado o espectáculo, mesmo sem o grito dos olé, olé. Pelo que ouvia estava a ser um êxito. Os toureiros como o grupo de forcados estavam contentes com a recepção e o entusiasmo do público. O Zé Trincheira radiava de alegria. Parecia que estava nos seus tempos de glória e nas grandes arenas.
    Acabada a tourada fomos fazer contas e pagar os honorários. Não ganhamos o que prevíamos mas, como tenho dito, grão a grão enche a galinha o papo. Além de termos contribuído para um evento nunca realizado em Freamunde e para a passagem de uma tarde única e espectacular. O trabalho que tivemos na montagem da “praça de touros”, agora o que restava era a sua desmontagem. Para tudo, quando há vontade, ideias e força física, aqui em Freamunde é o que mais existe – é ver durante o ano os eventos que se fazem pelas várias instituições culturais – não há nada que nos demova.
    Continua:

  101. Continuação:
    Chegou a semana que mais ansiávamos. Antes uma, o iluminador Santos, deu início à montagem dos arcos que suportam a iluminação e estávamos a gostar do que víamos. Se assim continuasse as festas no que respeita à iluminação ia ser um sucesso mas, só depois de ver toda a iluminação acesa é que podíamos dar a nossa opinião.
    Tínhamos que montar o redondel e bancadas onde se ia desenrolar a garraiada, dava muito que fazer, para mais, nessa semana e como vem sendo normal, chuviscava, mas programas são programas e não podíamos defraudar quem apostou em nós e tanto nos ajudaram.
    Na sexta-feira, dia oito, deu-se início ao que para nós eram as festas Sebastianas. Dores de barriga não nos faltavam. Sobre a iluminação tínhamos ouvido uns comentários, – na quinta-feira tinha-se feito uma experiência e as vozes dos críticos eram favoráveis – estes quase sempre feitos por quem menos contribui ou não contribui mesmo.
    À noite havia um programa de fado amador no recinto da praça, – hoje não existe – ao ar livre, deu-se lugar a um bufete com o serviço de caldo verde, sardinha assada, fêveras e bebidas, confeccionadas na antiga cantina escolar.
    A serventia era feita pelos festeiros mediante uma escala de serviço e a confecção pela já habitual Cecília Loureira – já falecida. Era uma azáfama. Não tínhamos o traquejo dos serventes de restaurantes mas, era-nos perdoado esse amadorismo, no que respeita a etiquetas. Na parte da confecção tínhamos uma grande profissional.
    A noite foi longa. A fadiga era constante mas ainda estávamos no princípio e mais uma vez tínhamos de fazer das tripas coração, porque no sábado às oito horas, tínhamos que percorrer os lugares da vila – hoje ruas e cidade – com os grupos de Zé-pereiras para acabar o peditório dos que se atrasaram e se possível angariar mais uns patacos dos que já nos tinham ofertado e dar uma rufada e deitar um foguete a todos os mordomos – crianças nascidas no ano anterior. Outro grupo ficou incumbido de visitar pessoas de outras freguesias do concelho – freamundenses a residir nelas e não só – para contribuir com algo. Estas visitas findavam pela volta das vinte horas e dava-se lugar à recepção dos ranchos folclóricos que nesse dia davam um um espectáculo mediante a entrada paga e com o já referido bufete em funcionamento.
    “De sexta a segunda, sem parar para dormir ou descansar, Freamunde vibra ao som dos bombos e das caixas, num rufar contínuo e bárbaro de quem festeja tudo de uma vez. A solidariedade é total, todos falam com todos, grupos de percussionistas cruzam-se sem alterar o ritmo que tocam, batem com cada vez mais força impressionando com a resistência das peles e o vigor dos braços que as atinge através de um redondo macete.
    Há lojas que durante estes dias alugam bombos e caixas para os foliões poderem fazer o máximo de barulho”.
    Continua:

  102. Continuação:
    No domingo de manhã é celebrada missa com sermão em honra ao mártir S. Sebastião. São incumbidos alguns festeiros para assistir à sua celebração, a dar o ar da festa cristã. Às quinze horas deram entrada as bandas de música, Freamunde e Famalicão, de seguida o seu “concerto” o que chega a ser hilariante porque aqui se toma partido por uma e outra – parece as claques de futebol, em menor dimensão e mais civilizadas. Pelas dezoito horas dá-se por findo o concerto para as bandas tomarem parte na procissão que tem o seu início às dezanove horas e com um circuito pelas artérias da vila “hoje, cidade” de pelo menos dois quilómetros. Vem muita gente das redondezas de Freamunde e fica maravilhada com tão portentosa procissão. Vale a pena assistir.
    O apogeu atinge-se na noite de Domingo para Segunda-feira. Nessa noite o concerto das bandas filarmónicas é um espectáculo único de se ver – não por ser natural de Freamunde que faço este reparo – é pelo facto de sermos uma terra hospitaleira e aqui dedico uns versos, do Rodela, à loja do Venturinha, que condiz com o ser dos freamundenses:
    A loja do Venturinha / tem de tudo quanto há / desde a piada fresquinha / ao pacotinho de chã. Nem o livro dos fiados / naquela loja acabou, / os tempos foram mudados / mas lá sempre se fiou. Quem lá comprar ou vender / se não leva, vai trazer / sempre mais sabedoria. Os clientes que lá vão, / vão por alguma razão / não é só porque se fia.
    É o que acontece com os forasteiros. Aliás, nesses dias parecem ser freamundenses, gozam e foliam como deles se tratassem. Cerca da uma hora da manhã dá-se o encerramento do concerto musical protagonizado pelas bandas, sem no entanto, a de Freamunde, tocar a Gandarela e cantada por todos os freamundenses que sabem a sua letra de cor.
    Gandarela, Gandarela / Vais mostrar a quem te vir / Que a tua marcha singela, / Sendo simples, é a mais bela / Que na festa há-de sair!… / O teu povo sofre e chora, / Passas a vida a trabalhar / Mas quando é chegada a hora / Mandas a tristeza embora / E vens p’ ra rua cantar.
    Estribilho
    Eis a Gandarela / Olhai p’ra ela / Se quereis aprender / Como num momento, / O sofrimento / Se muda em prazer!… / Lá vai jovial / Não tem rival / P’ra cá da Serra da Agrela! / Ninguém a confunde / E até Freamunde / Não era nada sem ela!… / Gandarela, Gandarela! / De ti muito mal se diz, / Mas a verdade revela / Que mais vale uma chinela / Que um sapato de verniz!.. / Deixa lá falar quem fala / Que a inveja é o que os faz falar! / Não é isso que te rala, / Pois a ti ninguém te cala / Se tens que desabafar…
    É como refiro em cima. É digno de se ver.
    Continua:

  103. Continuação:
    Na segunda-feira ultimam-se os preparativos sem antes se dar início à garraiada. É, solto dentro do recinto um touro de pequena estatura para divertimento dos mais audazes e protegidos pelo redondel, ali se digladiarem. Aqui existem umas árvores “Tílias” que serve de protecção aos “toureiros” sem contudo, alguns a fugir do touro – para não levar uma marrada – vão contra elas, o que não sei se seria melhor a marrada. No final foi oferecido um prémio monetário aos destemidos que fizerem as pegas.
    Acabada a garraiada tem que se dar início à recepção dos grupos de Zé-pereiras, bombos, ranchos, grupos de samba, a deslocação dos carros alegóricos, para onde se vai dar início a marcha alegórica.
    “De segunda para terça-feira, logo de manhã, é uma azáfama com os últimos preparativos para a marcha alegórica. Sempre para cima de dez carros alegóricos, uns com criticas à autarquia, outros a acontecimentos municipais e nacionais, passando também pelo desporto. Dezenas de grupos de samba, contratados em Ovar, local de samba no norte do País. Grupos esses incorporados por jovens, que dão um brilhantismo às marchas e que deliciam os espectadores que também colaboram, dançando. Os grupos de bombos, coitados, de tanto intercederem ao pedido dos foliões, do seu corpo só brota suor e das suas mãos algum sangue. Vêm quase de graça, não há dinheiro que pague tanto cansaço e paciência, mas sem eles as marchas não eram o que são”.
    Cada festeiro tinha a sua escala de serviço. A mim tocou-me dois grupos de samba – que me acompanharam para os balneários do Sport Clube de Freamunde, para ali se ultimarem. A outros, grupos de Zé-pereiras, bombos e ranchos. A marcha tinha a sua saída para as vinte e três horas e trinta minutos. Antes tinha início uma sessão de fogo-de-artifício.
    Nestes inventos de grandes proporções nunca se é pontual. Há sempre qualquer coisa que falha. Deu-se início. No itinerário por onde passava a marcha alegóricaeram milhares e milhares de foliões. Seguia na frente e fiquei impressionado com esta situação. Os grupos de gigantones e cabeçudos lá iam rompendo com grande custo e com a ajuda da Guarda Nacional Republicana que para este efeito é requisitada. A marcha alegórica tem um percurso de cerca de dois quilómetros e demora umas três horas a sua passagem.
    Continua:

  104. Continuação
    “O som atravessa as pedras das paredes tal como os festejos atravessam gerações, algumas coisas mudam, as chulas já não reinam entre os grupos mais jovens, substituíram-na por ritmos quase brasileiros, mais redondos e mais urbanos. Os mais velhos, fiéis às chulas antigas passam por eles rindo e misturando tudo, numa poliritmía confusa e improvisada”.
    “A tradição mantém-se uma feliz mistura entre os hábitos antigos e as tendências actuais, renovando-se, revisitando-se. Das ruas cobertas de bombos há ainda as vacas da fogo que consistem em fogueteiros cobertos de fogo-de-artifício, com uma máscara de vaca, que rebentam junto ao chão vários tipos de explosivos. Às pessoas que rodeiam as vacas, resta-lhes esconder-se, fugir e abrigarem-se dos projécteis que disparam em todas as direcções”.
    “Já de manhã há o hábito de tomar banho numa grande fonte no meio da cidade e dessa fonte se retiram baldes de água que servem para arrefecer os ânimos mais efusivos que o álcool ampliou dias a fio”.
    Acabada a marcha era hora de dar início a outra garraiada. Na da tarde e derivado ao êxito, comprometemo-nos a realizar mais uma depois das marchas. A afluência era tanta, o álcool ainda mais que a força de segurança não deixou a sua realização. Deu-se início ao fogo preso. Notávamos na cara dos forasteiros alegria. Na dos freamundenses um certo orgulho, por serem freamundenses, e nós festeiros, um obrigado, porque sem eles as festas não eram o que são.
    Na terça-feira fizemos a recepção aos novos festeiros com a oferta de um jantar e o aumento de um tostão, o que quer dizer que ofertamos trinta e nove. Findo este, foi lançado fogo-de-artifício .
    Este ano de domingo para segunda-feira depois do concerto nocturno das bandas, há um concerto rock em que são intervenientes os Xutos & Pontapés. Faço este reparo pelo motivo de que quando fui festeiro, os Xutos darem um, só que nesse tempo era como fonte de receita e que bem necessitávamos, hoje é para distracção dos foliões e pelo motivo do meu filho fazer parte da comissão de festas.
    Usamos o lema que as festas seguintes são sempre as melhores. Como disse somos bairristas mas damos os louros sempre aos próximos. Não há individualidades a destacar. É o todo que merece e para isso é que existe uma comissão de festas. Se fosse para individualizar dava-se o nome de Juiz da Festa como em muitas terras. Até nisto somos únicos.
    Deixo um convite aos que duvidarem para se tiverem oportunidade virem assistir a tal evento. São bem recebidos como é nosso apanágio.
    As Festas são em honra de S. Sebastião, protector da fome, peste e guerra.
    Fim:

  105. A primeira missa ou missa nova:
    Há tempos escrevi um texto sobre a primeira missa do Padre Barnabé, ao fazer a hiperligação não me correu bem, pelo que volto ao assunto, embora sendo repetitivo.
    Ainda me recordo do dia 17/08/1958, a primeira missa do padre Barnabé de Oliveira. Andava na catequese e a minha catequista era a menina Irene (Ireninha, como era conhecida, mais tarde enfermeira no hospital de S. António no Porto) irmã do futuro padre Barnabé.
    Antes uns meses tínhamos sido convidados pela Ireninha, para fazermos parte do coro para cantar a missa, era a primeira do seu irmão – chamada missa nova. Éramos várias crianças não me lembro do nome delas, já se passaram quase cinquenta e dois anos.
    Eu como não tinha voz para cantar (desafinava tudo) fui seleccionado para acompanhar o padre Barnabé desde a sua casa (Lugar da Feira) com uma cesta toda almofadada juntamente com várias crianças, – sou a que vai à frente do padre Barnabé – com uma opa branca – segue uma fotografia que mostra o nosso acompanhamento que era cerca de quinhentos metros da sua residência à igreja matriz. Era criança mas já sentia alegria por poder dar o meu contributo e era bem tratado pela família Oliveira, era uma família abastada.
    Com o passar dos anos a fé foi-me abandonando não deixando de ser cristão e de vez em quando ir assistir a uma missa. Mas quase que tenho a certeza que se ela fosse celebrada pelo padre Barnabé, eu continuaria a assistir a todas elas.
    Sempre ouvi dizer em conversas com pessoas da rua da Sé, no Porto, que era um padre que dava a camisa a um pobre se esse pobre precisasse dela. Pregava e julgo que ainda prega – a idade já é um pouco avançada – sempre a palavra de Deus. Há pouco tempo foi-lhe atribuída uma casa, para residir, pelo senhor Bispo do Porto. As irmãs por vezes zangam-se com ele porque tudo o que elas lhe mandavam as distribuía pelos mais necessitados.
    Padres destes há poucos.

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