Disputatio – IV

As regras do debate estão a estabilizar numa desregulação tácita sensata, favorecendo a riqueza do momento e não o estéril cumprimento do abstracto. Este debate, entre um Louçã surpreendentemente perdulário e uma Ferreira Leite surpreendentemente ágil, lembrou-nos do mal que fazem profissionais da insídia como Pacheco Pereira e Paulo Rangel, os quais envenenam a discussão para a manter num permanente impasse. Com a dupla desta noite, e por influência involuntária de Ferreira Leite, a racionalidade democrática pôde respirar, aparecendo como bondosa e proveitosa a existência de diferenças políticas. Portugal precisa dessa educação, o aprender a respeitar o adversário e a querer-lhe bem por causa da sua diferença, não apesar dela.


Louçã revelou não ser um finalizador, antes um brinca na areia. Para quem ambiciona superar o PSD e depois conquistar uma maioria absolutista, foi para o debate com excesso de confiança, sem um plano. Por isso perdeu a soberana oportunidade de escavacar a senhora na temática do casamento, onde se lembrou de ir buscar um assunto que ambicionava captar o coração dos casais inférteis em vez de marcar as diferenças quanto ao conceito de família e sintonizar-se com as novas gerações. Mas, acima de tudo, a grande oportunidade perdida foi numa matéria que reunia dimensões políticas, económicas e ideológicas radicalmente contratastes para esquerda: o 25 de Abril e a conotação do actual PSD com os capitalistas e cultura de antanho. A ocasião surgiu imprevista e teria apanhado a Presidente do PSD num terreno no qual tudo o que dissesse se poderia virar contra si e contra os seus. Foi poupada.

Ferreira Leite esteve muito bem nessa sua peculiar forma de estar mal. Ela detém pouca informação e apenas aceita discutir alguns assuntos, e estes só de uma certa forma. Assim, limita-se a elaborar acerca do que estiver escrito no Programa do PSD e do que ela e só ela tenha dito. Fim da linha. Estas baias já chegavam para a desqualificar no campeonato da seriedade, mas a coisa agrava-se. É que nem destes tópicos existe conhecimento suficiente. As suas contradições arriscam-se a superar as suspeitas contra o Governo lançadas pela sua equipa, basta que alguém comece a puxar por ela. E nesta situação está uma funda característica da sua personalidade política: inimputabilidade. Qualquer bacorada se admite a Manuela Ferreira Leite, tudo pode ser dito e desdito. Há interpretes oficiais, a senhora tem o dom das línguas. E fica a interrogação: o vale tudo é para manter ou depois de 27 de Setembro a responsabilidade voltará ao PSD?

As declarações quanto ao caso TVI tiveram especial importância. Louçã refugiou-se na ambiguidade, como oportunista sem escrúpulos que é. Mas a Manela teve um momento à Manela. Primeiro, concordou com Louçã quando ele disse que o Governo de Santana tinha afastado Marcelo da TVI, o que já era suficiente para o PS mandar foguetes e os socias-democratas morderem os seus chapéus. Mas, como se fosse pouco, ainda lhe deu para branquear o que foi feito com Marcelo sob a desculpa de ser apenas um comentador, enquanto no caso da TVI estávamos perante um programa de informação, raciocínio que a sua cabecinha desasada libertou para gáudio e vídeo da assistência. Esta explicação é maravilhosa! Como é óbvio, a Manela não tinha a mínima noção das implicações éticas e políticas do que estava a dizer. Para ela, o que importava era deixar a calúnia contra Sócrates ― a qual até pode resultar de uma crença, a distorção cognitiva pode estar entranhada a um tal ponto que já não seja capaz de discernir os limites do que pode dizer publicamente contra alguém sem provas. Temos visto esta faceta em vários apoiantes, numa obscena assunção de vazio moral e incapacidade de percepção das regras básicas do respeito e do civismo. Neste sintoma se diagnostica como a crise em que vive o PSD não é apenas política e ideológica, começa por ser de dignidade. Porque se é verdade que o PSD interferiu para afastar Marcelo da TVI, então verdade também é que nunca ninguém assumiu qualquer responsabilidade por esse vergonhoso acto de censura. Aliás, os protagonistas continuam a andar por aí: um deles é o seu porta-voz e um outro é a sua escolha para a autarquia de Lisboa.

12 thoughts on “Disputatio – IV”

  1. Certeiro mais uma vez caro Val. A pergunta que agora se impõe ao PSD é: quem exerceu pressão fascista sobre a TVI e o Marcelo Rebelo de Sousa? É bom que o PSD, e toda a comunidade, faça essa depuração. Os culpados têm que ser encontrados (já foram) e devem sofrer a devida penalização.

  2. Não vi mas disseram-me que esteve perto da perfomance dos bonecos de «Os contemporâneos». SEndo assim esteve bem. A coisa está a ficar composta…

  3. inimputabilidade, é isso mesmo! E é disso que tem vivido o psd, agora maxime com a velha ferrugenta, porque ninguém gosta de escaqueirar uma avó e eles sabem-no.

    É impressionante se formos ver o desempenho efectivo da senhora nos seus tempos de governação, desde secretária de Estado das Finanças com o maior erro de previsão de sempre e o maior deficit acoplado, até ministra da Educação odiada pelos estudantes, e, uns anos depois, ministra de Estado e das Finanças que fez negócios perfeitamente escabrosos de que ninguém fala e que ainda por cima resultaram num deficit maior do que o herdado.

    A esquerda democrática é de brandos costumes e isso tem permitido à hidra sobreviver e crescer, com as múltiplas cabeças. No entanto também é verdade que a única maneira de vencer a hidra é elevando-a o ar, a pontos de este ficar rarefeito e então sufocar.

    As listas do psd são travejadas pela opus dei, se bem percebi. Cavaco e manela são duas faces da mesma moeda: salazarismo requentado e disfarçado – grandes negócios de famílias acobertadas pelo regime e suas instâncias.

  4. Val
    Gostei do reino da estupidez. Há muitos que são como o Tide – comunicação social – lava tudo – e o algodão não engana – certos comentadores do Aspirina B – por isso, brinde-nos com os seus pontos de vista. Água mole em pedra dura

  5. As listas do psd são travejadas pela opus dei, se bem percebi. Cavaco e manela são duas faces da mesma moeda: salazarismo requentado e disfarçado – grandes negócios de famílias acobertadas pelo regime e suas instâncias.

    gosto de ver tanta claridade e que se digam as cousas como são. Aquí na Galiza e em toda Espanha disso sabemos muito.

  6. oh reis, unha aperta para ti!

    sabes que por cá ‘unha aperta’ quer dizer que comprámos sapatos apertados?

    mas também foi no Aspirina que eu fiquei a saber que queria dizer um abraço, galego,

    quanto à claridade tomara eu poder andar calado, espero um dia o meu mundo ser aqui.

  7. obrigado pela tua aperta, eu não tenho a sorte de saber o que é um abraço galego, espero que seja coisa boa, tenho duvidas ao respeito. seja o que for, obrigado,
    Concordo e compreendo o de que tomara você andar calado,
    e sorte no “aquí”, olhei e gostei.

  8. estou a seguir um bocadinho a campanha para as eleçoes portuguesas, vi algun debates, e conhezendo os candidatos e ajudado pelos vosos relatorios e opinioes na aspirina, procurando informação ao respeito. Uma coisa que eu destaco, comparando com espanha e que em Portugal há mais debates, moitos mais, e variados, e que dentro da cultura democrática do pais o debater é normalidade. Em Espanha não é assim, a direita não gosta moito do debate, mas bem pouco, e só quando as coisas vão mal, arrisca no debate. Tambem os líderes portugueses semelham moito mais sereos e educados que os espanhois, realmente deijando as ideias aparte gosto de vê-los, e aproveito para dizer que o que mais me gosta debatindo e o Sócrates, acho que é um político moi presentavel. Será tambem porque é o que me fai mais facil a escoita do Porugués, notase que é do norte do país.
    Na Galiza o dos debates para as eleçoes últimas ja foi vergonha, ja que o lider da direita negouse a debater contra os outros dous que se apresentabam, e ganhou. Não há moita costume , e antes de facê-lo, danlhe umas quantas voltinhas nos jornais, mas parece que foram a guerra que a falar.

  9. um abraço é um aperta em português de cá, porque a gente aperta o outro com os braços, certo? Pelo menos o mais das vezes.

    tens aqui outro, divertido. E bem provocador.

    abraços

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