Não se deve contrariar os malucos

O conflito entre o Ministério da Educação e os sindicatos dos professores tinha um único ponto de força para o Governo: a legalidade. Tirando esse último reduto, os sindicatos poderiam impor o que quisessem, pois tinham obtido a vitória completa no dia 27 de Setembro. Mário Nogueira disse-o à boca cheia desde 2008, assumindo que a luta dos professores seria instrumental para retirar autoridade parlamentar à reforma em curso. Sem maioria para o partido reformista, Nogueira ficava senhor da nova maioria irreformável, esse pardieiro de reaccionários que une o PCP ao CDS, o PSD ao BE.

Como decorre do acordo de princípios assinado, fica consagrado que, por princípio, a quase totalidade – ou mesmo a totalidade – dos professores vai ascender ao topo da carreira. Isso significa que a figura das quotas para as classificações de Bom é apenas um recurso destinado a tornear as normas da Função Pública. Como é óbvio, caso um professor fique mais de 3 ou 4 anos à espera, depois de obtida a classificação, virá logo para uma televisão denunciar a injustiça que se abate sobre o seu legítimo direito a progredir na carreira, ele que é um excelente professor Bom. Agora, multiplique-se por não sei quantos mil a situação, e volte-se a este acordo de princípios para antecipar o inevitável: toda a minha gente avança a alta velocidade para a remuneração máxima.

Acima de tudo, os professores não queriam ser avaliados. O pânico causado por essa possibilidade, fenómeno cujas causas psicológicas e psicossociológicas não oferece qualquer segredo, foi usado como principal arma pelos sindicatos. O discurso emocionalmente manipulador, que fazia da reforma um ataque contra os abnegados e perfeitos professores, encontrou no medo da exposição um terreno narcísico que se amplificou até ao paroxismo delirante exibido nas manifestações e na violência das representações acerca de Maria de Lurdes Rodrigues e Sócrates. Esta reacção colectiva foi natural, decorria da própria lógica da reforma: requalificar o ensino através da introdução de novos objectivos para os profissionais. Contudo, se até em empresas de 15 pessoas pode ser muito difícil, ou impossível, mudar a cultura da organização, quando se tenta fazê-lo num sistema com 150 mil profissionais protegidos por sindicatos onde vigora a má-fé, e ainda por todos os partidos da oposição, nem com vários milagres da Ministra Sinistra se conseguiria mudar fosse o que fosse.

Só quem nunca foi professor é que se permite ser ignaro o suficiente para ter engolido a tanga de que Maria de Lurdes Rodrigues errou na atitude ou no modelo de avaliação. Completamente ao contrário, ela tentou resolver um problema altamente complexo e melindroso: avaliar um professor. No mundo ideal, o professor seria avaliado por observadores ao longo de um ano inteiro. Esses observadores não anunciariam a sua presença, apareceriam sem avisar. Melhor ainda: observariam as aulas sem que o professor soubesse que tal observação estava a ocorrer. Só desta forma, e ao longo de um ano completo, seria possível avaliar as competências do professor. Como lidou com o Programa? Como lidou com a turma ou turmas? Como resolveu conflitos? Como ajudou os alunos mais fracos? Como ajudou os melhores alunos? Como lidou com os encarregados de educação? Como se envolveu com as actividades da escola? Como lidou com os colegas? Como resolveu a avaliação dos alunos? Em vez destas questões que listo ao correr da pena, vamos ter um papel de auto-avaliação, a que se junta o relatório de um colega de grupo que irá assistir a duas aulas. E ’tá feito, dá cá um Muito Bom.

Quando fiz o estágio de professor, meados de 90, tive aulas assistidas, pouquíssimas. Uma das graças desse tipo de aulas consiste na cumplicidade com as turmas, as quais, havendo boa relação, tentam ajudar o professor. Há uma teatralização onde os alunos alinham de acordo com a expectativa do que deve ser uma aula exemplar. Eles querem que o seu professor faça boa figura, por isso representam o papel de alunos estupidamente bem comportados, atentos, participativos. Ora, é este artifício que irá ser observado por um colega de agrupamento, o qual irá combinar com o estimado colega a melhor forma da coisa sair sem espinhas; por exemplo, escolhendo a melhor turma, ou duas melhores, para se cumprir o calendário a contento de todos os farsantes.

Os professores ganharam em toda a linha. O que se segue é apenas o acertar dos pormenores. Contudo, o Governo não perdeu, pois a sua missão é governar sejam quais forem as circunstâncias adversas. Não sendo viável reformar o Ensino onde mais importa, Isabel Alçada fez o que tinha a fazer: chegou ao acordo possível. As 14 horas foram passadas à procura de um texto que deixaria no ar um simulacro de concordância com a regular progressão na carreira da Função Pública, ao mesmo tempo deixando claro que o Estado aceitava tratar os professores como funcionários com direitos especiais. Era este o desejo do PCP, do BE, do PSD, do CDS e até do Presidente da República. E, como diz a sabedoria popular, chega uma altura em que não se deve contrariar os malucos.

62 thoughts on “Não se deve contrariar os malucos”

  1. Valupi,
    Se, a certa altura, não vale contrariar os malucos porque são malucos iremediáveis, também não vale tomar-nos a todos por malucos porque somos malucos que sabemos que somos, não?

  2. Pois eu acho que se deve contrariar os malucos, a começar pelo maluco que escreveu este texto: um texto que reflecte os traumas de um «menino bem» (que nunca estudou no ensino público) com os professores do ensino público (que foram dos poucos que enfrentaram as mentiras e a manipulação do Pinto de Sousa). Um maluco está convencido que por ter feito um estágio (onde assimilou muita treta eduquesa) sabe como deve funcionar esse mesmo ensino público. A sua «douta experiência» é, portanto, aquela experiência que adquiriu a estudar no ambiente dos colégios para «meninos bem», por um lado, e que adquiriu a aprender pedagogês, por outro. Ora, desta mistura só pode saír asneira e um completo alheamento da realidade!
    E a maior asneira é pensar-se que se pode avaliar o ensino e os professores segundo uma lógica empresarial e de acordo com parâmetros próprios para se medir o número de peças fabricadas ou vendidas. Porque é esse tipo de avaliação que se quer impôr aos professores, que em vez de ensinarem e transmitirem conhecimentos passam a trabalhar para as estatísticas. Toda a gente sabe que um bom professor é aquele com quem se aprendeu e que foi capaz de criar entusiasmo pelo aprender, mas de acordo com essa avaliação um «bom» professor passa a ser aquele com que se passou de ano e com quem se teve boas notas: o prof que é «porreiro, pá» e que se empenha em mostrar que produziu muita papelada (e que deve ter sido o caso do maluco, pela descrição que fez das aulas teatrais que deu no seu estágio). Só que nem o aprender implica necessariamente que se tire boas notas, nem as boas notas implicam necessariamente que se aprendeu. No primeiro caso, devido às diferentes capacidades dos alunos e ao seu próprio estudo a aplicação; e no segundo caso devido à inflação deliberada das notas e ao facilitismo. A única forma de saber quais foram as reais aprendizagens dos alunos seria submetê-los a exames, mas isto foi algo o que o Pinto de Sousa tratou logo de eliminar.
    Portanto, o «menino bem» defende a avaliação da ex-secretária de estado das finanças, porque vive fora da realidade, e porque «pensa-a» como todos os eduqueses e burocratas de gabinete, mais preocupados em apresentar números manipulados do que em melhorar o ensino. Num contexto em que não há exames, em que os alunos podem faltar quantas vezes quiserem, e em que os programas têm cada vez menos conteúdos e estão cada vez mais infantilizados, eu diria que é impossivel alguém ser um bom professor, pois num ambiente desses está à vista que a finalidade da escola não é o ensino ou a aprendizagem. Mas a verdade é que o governo do Pinto de Sousa nunca esteve, nem está, preocupado com isso. O seu objectivo é apenas um: reduzir a despesa com educação pela via do bloqueamento da carreira dos profs, e pela via da diminuição da exigência no ensino. Através da degradação do ensino público, o que o tipo pretende é, em última instância, criar as bases para privatização da escolas, como já foi sugerido pelo seu «camarada» Daniel Bessa. Um «bom» professor, portanto, será, de acordo com a doutrina socretina, aquele professor que melhor contribua para a degradação do ensino. «Bom» professor será então aquele tipo que não cumpre o seu dever, mas que cumpre as ordens dadas pelos burocratizadores da escola.

  3. Aliás esta corrupção e degradação do que deve ser o ensino e a escola também já chegou ao ensino superior: o Pinto de Sousa fez um acordo com os reitores em que é determinado que as Universidades passam a receber mais dinheiro se em contrapartida tiverem mais alunos e mais diplomados. É a lógica sócretina das novas oportunidades e da respectiva manipulação das estatisticas e dos resultados aplicada agora ao ensino superior…

  4. Não tarda muito, e os mesmos partidos da oposição que sempre estiveram ao lado dos professores vão denunciar esta não-reforma da avaliação e carreira docente, apontando como responsável único quem governa. Val (e,) uma aposta?

  5. as avaliações fazem todo o sentido. mas só fazem sentido se forem realizadas para uma melhoria contínua. melhoria contínua vê-se na obrigação de cumprimento de critérios

    (abaixo o ensino de professores de sebentas com nódoas de chouriço e macacos colados). :-)

  6. não conheço o ambiente das escolas do ensino secundário, mas sei que antes do conflito começar havia notícias que publicavam estudos que diziam que em Portugal os pais confiavam nos professores – eram mesmo os agentes do ‘sistema’ em quem tinham maior confiança, comparado com outros sectores.

    acho um erro ter-se diabolizado os professores a não ser que a intenção seja essa mesmo.

    Quanto à avaliação, inevitável, qual é o modelo proposto pelos sindicatos?

    Provavelmente está-se a caminhar ao contrário do que devia ser feito, com estes meios digitais é inevitável que as aulas passem a utilizá-los cada vez mais amiúde o que implicaria turmas de 15 ou 20 no máximo, e etc. É mau dar emprego a professores?

    diabolizando os professores não se ganha eleições presidenciais, além do mais.

  7. Eu votei PS nas duas últimas eleições e perderam o meu voto na próximas por terem cedido á casta.
    Percebo o processo que os levou aqui…mas os “outros” que pagam e vivem com a casta de 150 mil tambem mereciam respeito.

    Dito isto, culpo Sócrates e os seus governos de terem tido uma oportunidade única de reformar o ensino e de a terem desperdiçado para os próximos 15 anos. Enquanto algum politico se lembrar disto, não se “mete” com os professores. E esta foi a maior vitória deste gangue.

    O que devia ter feito o governo, desde o inicio?
    Ser inflexivel no funadmental: Apenas os bons professores progridem na carreira e são recompensados. de facto, a única coisa que interessava era a existência de “quotas” na progressão.
    Existindo isto, o governo daria aos professores e seus sindicatos a liberdade para estabelecerem o método de avaliação e de ordenação que quisessem.

    Teriam esvaziado todas as fitas do “deixem-nos ser professores” e das burocracias e o diabo a sete e deixava o patusco nogueira a explicar, apenas, porque é que a sua casta deve ser diferente de todos os outros portugueses e todos os outros funcionários públicos.
    Por cada arremedo do patusco, o governo apenas teria de apresentar mais um exemplo de outros profissionais que vivem e compreendem o que é uma carreira…os profs universitários, os médicos, os policias, os juizes, os procuradores, etc…e todos os trabalhadores do privado.

    Era simples e eles meteram os pés, com tanta força, tanta força que agora vamos ter de viver com isto durante mais de uma década.

    Este falhanço não é perdoável.

    miguel

  8. Acrescento que se tivessem feito a coisa como deve ser, tambem não tinhamos de ler longos comentários como o do “ds” ai em cima.

    É um exemplo tipico da verborreia que tem abundado com pseudo interesse na escola, no ensino e nos alunos.
    Todos os que não sigam o patusco nogueira são ignorantes e pouco qualificados para falar sobre ensino.

    Eu aceito. Não percebo nada de ensino. Mas percebo de organizações e em todas há profissionais melhores do que outros e devemos compensar os melhores e “descompensar” os maus. Só isto. Digam-me os iluminados do ensino como se fraz a distinção e eu fico satisfeito.

    Naturalmente que os maus profissionais são contra e aplicaram uma boa parte do seu (abundante) tempo livre a combater este simples principio…

    miguel

  9. Observadores a avaliarem os professores sem que estes soubessem? Durante o ano inteiro? Cruzes, credo! Ainda se chegava à conclusão do óbvio (pelo menos para quem já foi aluno), que há excelentes e maus professores e que até há alguns que deveriam ser amavelmente convidados a abandonar a profissão, tal é a sua qualidade.
    É rídiculo que se acuse o Governo anterior de só estar preocupado com cortes na despesa com a Educação, como diz o ds ali em cima (o ds, sortudo, só teve excelentes professores, os maus são fruto da imaginação dos socretinos), é que mesmo que fossemos um país rico era profundamente injusto serem todos premiados da mesma forma, chegarem todos ao topo da carreira.
    Mas não estou a ver de que forma o Governo actual poderia resolver de outra forma, com toda a oposição do lado dos sindicatos, e com o Mário Nogueira a ameaçar levar a coisa para o Parlamento. Agora, se temos de pedir contas é à oposição e não ao Governo que levou o braço de ferro até onde pôde.

  10. Não, guida, não tive só excelentes professores, mas como ficou explícito no que eu escrevi, sei que esses excelentes professores passariam a maus no sistema de avaliação sócretino, e que os maus passariam a ser bons nesse mesmo sistema. Porque um bom professor é, como eu disse, aquele com que se aprende e que transmite aos alunos a vontade de aprender, o que é incompativel com um sistema que permite que os alunos faltem às aulas, que permite que eles não estudem que passam na mesma, e cujos programas são cada vez mais básicos e infantilizados. Portanto, antes de se criar qualquer sistema de avaliação convinha valorizar o ensino e o estudo- e a valorização do ensino também não acontece com a degradação das carreiras, como a Inglaterra mostra, pois hoje tem falta de professores devido a uma reforma neoliberal semelhante. O Pinto de Sousa ao fazer o contrário só mostra, portanto, como a sua preocupação é mesmo só a despesa.

    PS: Guarda matinal, no caso do maluco em causa tenho impressão que ele é impossível de tratar. Mas continua a guardá-lo que fazes bem. Os cães servem para isso. E tem atenção com o «miguel» também, porque ele é daqueles que lê coisas que não gosta de ler…

  11. miguel disse “Eu aceito. Não percebo nada de ensino.”

    Já tínhamos percebido.

    Que esta falange de apoiantes da reforma está cheia de ressabiados que não percebem a ponta do que estão a falar já fazíamos uma ideia. Eu sou estudante, portanto tratei de me informar antes para evitar fazer figuras tristes. Que avençados paus mandados escrevam estes posts, ainda se desculpa, são pagos para isso ou simplesmente não tem a destreza intelectual da autonomia de princípios. Que um “entendido em organizações” venha falar no mesmo tom, já denota acefalia, porque qualquer pessoa minimamente informada sabe que esta reforma resumia-se à intenção, o conteúdo era uma aberração. E enquanto a intenção chega e sobra para os paus mandados e para aqueles crónicamente amargurados por não serem funcionários públicos, era óbvio que a classe ia responder e defender um mínimo de decência na apreciação do seu trabalho. E isto naturalmente faz-vos confusão. Mas há pomadas e supositórios para isso.

  12. Valupi, tanta ladainha para que?

    Rematas com : “chega uma altura em que não se deve contrariar os malucos”, tens toda a razão, mas a rapaziada do governo pode ser tudo mas não malucos, tratam da vida.

    Quais princípios? És então um santo, uma vitima? São malucos toma e vai brincar para outro lado. Tem dó. Tudo colado com “cuspo”, o eles fazem e o que escreves. Dá dó.

    Boas festas, o que fazes é quase um crime para em quem em ti acredita.
    Que ainda é o meu caso.

  13. E’ triste ter de concordar contigo Valupi, mas não ha como não.

    Triste para o ensino publico, logo triste também para o pais. E triste também para os professores, sobretudo para os bons professores do ensino publico, que ficam a saber que vão continuar a ter, como unica alternativa à avaliação do seu trabalho com base nos (maus) resultados que o sistema de ensino publico vai continuar a alcançar na realidade, a avaliação feita durante o juizo final que, tendo em conta o seu ministério, peca por tardia.

    Triste, finalmente, para a esquerda portuguesa, que se vê hoje a braços com a imbecil, mas triunfante, confusão entre proletariado e professorado. Não foi para instaurar a ditadura do professorado que se fez o 25 de Abril. Essa ditadura ja existia antes, sendo apenas que era exercida por um menor numero de pessoas. E é o que vai voltar acontecer, por razões que se prendem com algo com que muitos pseudo-professores so têm relações episodicas : a realidade. Com efeito, o que se vai seguir é a continuação da degradação do ensino publico, com a inevitavel supremacia dos professores que NAO ensinam no publico, ou que dele conseguiram escapar…

    Mas o que interessa, para os nossos Che Guevaras de palmatoria em riste, é que a realidade vai continuar a poder dissolver-se quotidianamente na culpa dos outros : da falta de verbas, dos sordidos burocratas (constituidos em grande parte por professores que conseguiram escapar à obrigação de dar aulas), do Grande Capital, etc. Direito adquirido a ter um preto em quem bater em vez de procurar mudar a realidade para melhor…

    Por muito que isto me revolte, e venha pôr em causa os principios de esquerda mais solidamente enraizados na minha concepção das coisas, ficou (mais uma vez ?) provado que, enquanto confiarmos nos Portugueses para tomar em mãos o seu destino, vamos continuar a ter um pais que decide, todos os dias, “morrer, mas devagar”.

    Triste…

  14. Isto está paradote.
    Só dois ou três patrulheiros da opinião…

    Nota-se bem que a maioria já tem o que queria. Continua com a vidinha e nos intervalos vai aturar os “selvagens”.

    miguel

  15. Bem eu não sou nem um “menino de bem” nem um menino de mal, estou muito longe de entender os porquês da avaliação dos professores, apenas me custa muito é ver uns tão bem pagos, com tantos privilégios e tão apoiados e outros tão mal pagos sem privilégios e sem qualquer apoio. Tanto que eu gostava de ver mais operários no meio dos meninos que pululam por estes sítios.

  16. ds, mas se como diz o único objectivo é cortar na despesa, que ganharia o Governo em inverter as coisas, os maus passarem a ser bons e vice-versa? Olhe que é preciso pontaria. Se o problema era o modelo de avaliação, porque é que quando a actual ministra decidiu acabar com o antigo modelo e propor um novo, os sindicatos radicalizaram a conversa passando a dizer que sem todos os professores chegarem ao topo da carreira não haveria possibilidade de acordo? Ou seja, sem chegarem todos ao topo da carreira, podiam chover modelos de avaliação que nenhum serviria.

  17. Edie, achas mesmo que a demissão era solução? Caía o Carmo e a Trindade se o Governo tivesse optado por essa via. Então é que o Nogueira chegava a PM…:)

    Entretanto, o que o país percebe é que o que se passou agora com os professores vai repetir-se com toda e qualquer reforma que o Governo se proponha fazer. As reformas já são difíceis com maiorias absolutas, como se viu na legislatura anterior, com um governo minoritário, e com a actual oposição, são praticamente impossíveis. Até porque reformas bem sucedidas representam sucesso para os governos. Ora, qual é o partido da oposição que pensa mais no País do que em impedir o sucesso das medidas do Governo? Não estou a ver. O socretismo está a afectar-me a visão. :)

  18. guida,

    talvez caísse o carmo e a trindade…assim, vão caindo todas as reformas e cairá o governo, de forma inglória, porque não foi eleito para desfazer o que estava feito. Eu sei que a “maioria parlamentar” não deixa muito mais espaço de manobra do que isto.

    Mas não me parece que isto seja vida :)

    Enfim, talvez esteja, por agora, um pouquito pessimista. Pelo menos sempre podemos dizer que temos um caso de estudo em Portugal: uma classe profissional em que todos chegam ao topo de carreira, porque todos são bons. É a classe profissional mais competente, não só em Portugal, como no mundo. Que bom!

  19. Quando falamos em avaliação de professores, há ainda um outro aspecto, na minha opinião de grande relevância, e que não deve ser marginalizado.

    Um ensino publico de qualidade retira alunos das escolas privadas que por aí proliferam e que funcionam em regime de “condomínio privado”. O crescimento deste negócio só foi possível graças à aparente (ou real) degradação do ensino publico.

    O que me parece extraordinário é que manobras politicas de certos sindicatos se sobreponham ao real interesse social. Todos concordam, da esquerda à direita, que o futuro do país, da nossa sociedade, das pessoas e seu bem estar, está no processo de ensino, mas parece que todos querem que o ensino de qualidade seja feito apenas nos condomínios privados dos colégios que cobram propinas mensais de 600€ 130€ para alimentação. Acontece que nestes colégios não se educam pessoas para o futuro. Criam-se “meninos” que à força de “chicote” têm de conseguir boas médias para que a escola fique bem classificada. Digo-vos que conheço bem a situação.

    A reforma da educação não interessava aos partidos de esquerda porque atingia interesses instalados no grupo dos professores que quer continuar o regabofe, nem interessava à direita parola que quer continuar em alta com os seus centros de formação.

    Mais uma vez ficou provado que não é do interesse do país, da sociedade e das pessoas que os partidos políticos se ocupam. São interesses específicos que os move e orienta, infelizmente!

  20. Espero para saber mais sobre o assunto, mas tudo leva a crer que Sócrates tivesse aqui uma oportunidade para de uma vez por todas, pegar no Monstro, chegar ao palácio de Belém e deixá-lo debaixo do pinheiro manso. Se ele começasse a berrar, apontava-lhe o eucalipto como quem diz; “Olha, quem te pariu que te abane!”

  21. Para o Valupi e todos em geral, o mérito de cada escola e de cada prof. era rapidamente observado com um simples exercício.

    Há cidades com várias escolas num raio de poucos Km e no mesmo nível de ensino. Cheque/aluno com liberdade de escolha de prof/escola.
    Exames nacionais todos os anos, as preferências de alunos e pais (o mercado) rapidamente se organizava. Com o justo prémio pelo mérito. Criar o mercado das competências com simplicidade.

    Poucos se lembram, mas o grande e legitimo objectivo do governo Sócrates de há quatro anos era o de criar o Director escolar, caiu, porque era voltar ao fascismo, a partir dai eu já não tinha dúvidas dos progressos de qualquer tipo de avaliação.

    Em complemento de conversa, sabem ou deviam saber, que o prémio da Maria de Lurdes Rodrigues, corresponde ao tamanho da tontaria que lhe foi encomendada, de ser rija e firme nas convicções e nos princípios, etc.

    Diz-me agora se valeu ou não a pena para ela, dar as “alegrias” que deu ao país e a sua Ex.ª o senhor primeiro-ministro, ou talvez “presidente do conselho” (para quem souber a diferença).

    Vai ganhar de vencimento 4X MAIS (sem exame de admissão) e trabalhar 4X MENOS (é só inveja social) . É esta a realidade do ensino “MLR”.

    Patetas são os que não vêm um comboio na frente dos olhos.

  22. A guida não andou atenta aos protestos dos professores. Não houve qualquer radicalização do discurso dos sindicatos, porque o ponto central da contestação sempre foi o ECD. Quanto à pontaria do governo, concordo que a tem, não por qualquer acaso ou sorte (como a guida diz), mas sim porque o objectivo de tal avaliação é, para além da redução da despesa, um outro relacionado com esse, e que eu já referi: obrigar os professores a «produzir» resultados, dentro daquela mesma «lógica» que obriga os polícias a passarem x multas por mês e os médicos a atenderem ou operarem x pessoas por mês. Tudo em nome da «optimização dos recursos» e por isso da redução das despesas (como nos lembra a cassete neoliberal), mesmo que isso não expresse qualquer ganho real na qualidade dos serviços (contribuindo antes para a sua degradação e falsificação).

    ——

    Os AJDiogos aqui do sítio são um exemplo daqueles tipos que andam mais preocupados com os protestos dos outros do que com a situação dos mais desfavorecidos, ainda que digam o contrário. São um exemplo daqueles tipos a quem o Pinto de Sousa com o seu discurso de diabolização dos profs fez facilmente a cabeça. Se o tipo estivesse realmente preocupado com a situação dos desempregados, de quem tem baixos salários, etc, não atacaria os «profs milionários» mas exigiria explicações ao Pinto de Sousa que aprovou um código laboral que promove a precariedade e que aprovou cortes no direito ao subsídio de desemprego. Mas os idiotas úteis são mesmo assim: úteis a quem lhes sabe fazer a cabeça…

  23. ds,
    Um bom professor é aquele que, mesmo sem marcar faltas e é obrigatório, os alunos vão todos e a todas as suas aulas mesmo quando elas são às 8,00h da manhã. E mais, além dos alunos daquela hora ainda vão os alunos da hora seguinte e na sala estão tantos sentados como de pé, sempre atentos ao professor.
    São assim os bons professores mesmo. E por cima disto, um colega dizia à saída da aula: ” A um professor assim devia pagar-se o que ele quizesse só para ensinar”. Porque também traballava numa grande empresa pública onde não fez grande carreira.

  24. O Adolfo só pode estar a falar de um professor do ensino superior, não é verdade? É que as crianças de 12 ou 14 anos e mesmo os adolescentes de 16 anos, levantam-se às horas que os seus pais determinam. È precisamente por serem menores que são outros quem determina os seus horários e obrigações. Portanto, e como eu disse, no sistema escolar do secundário a não marcação de faltas não funciona, como pode funcionar no ensino superior (e mesmo neste há aulas com faltas), em que o aluno adulto é o único responsável pelas suas decisões. Nesta medida, volto a reafirmar: num sistema de ensino em que é permitido que os alunos faltem e passem sem estudar é impossivel ser-se bom professor.
    Mas o que você afirma no último parágrafo vem ao encontro daquilo que eu disse a propósito da carreira de professor: como é óbvio, uma carreira de professores que impede a progressão e que premeia os burocratas, conduz inevitavelmente a que grande parte dos potenciais bons professores abandonem o ensino, ou que procurem outra coisa (como foi o caso desse professor). Foi o que se passou na Inglaterra, já o disse, e será o que vai acontecer em Portugal a médio prazo, graças às reformas sócretinas.

  25. Graças ao ds, ficamos a saber que exigir resultados é reger-se pela cartilha neo-liberal…

    Infelizmente é isto que anda na cabeça de muitas pessoas que se reclamam da esquerda. E depois, queixam-se de que os tais neo-liberais ganhem mais adeptos ! Ora tenho muita pena mas este tipo de ideias feitas, para além de serem profundamente erradas, mostram também que a nossa esquerda vive a reboque de uma classe de pessoas, entre as quais alguns professores, que são o puro produto dos nossos 48 anos anos de fascismo.

    Tanto quanto sei, exigir resultados no serviço publico é exigir mais igualdade efectiva, real, concreta, mensuravel. E sobretudo, é exigir que o nosso principal instrumento de redistribuição, que é o Estado, funcione mesmo, com eficiência e resultados. O que, por sua vez, é a unica forma de impedir que regresse o antigo regime, o da ditadura de uma casta de funcionarios-regedores, escolhidos a dedo em razão da sua aptidão para manter os labregos quietos e prontos servir uma pequena corja de capitalistas que brincavam à industria. Nesse antigo regime, redistribuição mesmo, e educação a sério, so se fosse a cargo da igreja, e mesmo assim de uma igreja sob vigilância constante. Tudo o resto era comunismo.

    Ha uma esquerda que pensa que o 25 de Abril se fez para acabar com este triste regime. Eu identifico-me com ela.

    Aparentemente, surge agora outra “esquerda”, uma “esquerda” que acha que não é bem assim e que onde se lê que a Revolução visava criar uma sociedade sem classes, devia ler-se uma apostilha tacita : sem classes, mas com doutores e criados. Doutores por direito divino, santificados para todo o sempre pelo canudo e condenados ao estatuto de estrelas impecaveis no ceu inacessivel dos labregos que os servem.

    Triste deveras…

  26. Acho que expressão marxista de “uma sociedade sem classes” foi mal compreendida pelos professores, talvez leiam Saramago a mais.:)

  27. o Ds tem tomates para andar aqui sózinho e escreve bem, portanto não posso deixá-lo sózinho,

    Ds, tens razão pá: o problema quase todo é despesa pública, daí eu ter-te convocado para uma batalha: o BCE tem que comprar e anular fatias da dívida pública dos Estados-membro em partes proporcionais às tantas. O Mediterrâneo está sufocado: Grécia, Itália, Espanha, Portugal, e eu já tenho os raios laser a aquecer,

    O Badiou no Number and numbers analisa bem como os dispositivos de planificação da economia socialista foram transferidos para o capitalismo: objectivos, metas, escalas, controlo. Efeitos perversos, né?

    Quanto à avaliação, como diz o Ramalho ali em cima, exames nacionais talvez de dois em dois anos objectivava os resultados dos professores.

  28. O João Viegas é que lê do que eu afirmei apenas aquilo que mais lhe convém… E o que eu afirmei foi que está instalada em todos os sectores de actividade ou profissões uma «lógica» empresarial e de produção em que o importante é a «produção» (leia-se manipulação) de resultados, sem que isso expresse qualquer ganho na melhoria dos serviços e na sua qualidade. Isto para além de ser uma «lógica» que não é adequada a determinadas àreas (como é o caso da saúde ou da educação).
    Aliás, o João Viegas já se deve ter esquecido da razão da crise internacional: uma crise cuja raíz esteve, precisamente, na exigência de «resultados» semestrais capazes de fazerem subir (artificialmente) as cotações das acções nas bolsas. Por outras palavras, a razão da cride internacional deveu-se à «publicidade enganosa» e à aldrabice dos resultados. E, sim, isto é um produto da cassete e do discurso neoliberais (a tal cassete que fala da «optimização de recursos» quando fala de pessoas e do seu trabalho, olhando para estes como meras mercadorias, como disse o outro). Só não vê isso quem não se apercebe da assimilação que a dita «esquerda» moderna fez desse discurso, e que não se apercebe por isso que isso é nenhuma esquerda mas apenas uma farsa. Essa «esquerda» onde o joão viegas se revê é a «esquerda» que tem vindo a destruir as conquistas sociais do século XX, e que para isso se serve desse discurso que opôe «doutores e criados» ou privilegiados e não privilegiados, que o joão viegas faz questão de repetir…

  29. DS,

    So uma pergunta (porque mais do que saber quem tem razão, interessa que os assuntos sejam discutidos com rigor) : você acha mesmo que a educação tem cumprido, em Portugal, a sua função de redistribuição, contribuindo de facto para que os Portugueses sejam menos desiguais em frente do mercado de trabalho e, mais geralmente, das oportunidades que se lhes oferecem para viver bem e dignamente ?

    E’ que se achar que sim, gostava que me dissesse como chegou a esta conclusão, e porque é que a sua analise diverge da dos sindicatos nesse ponto.

    E se achar que não, gostava que me dissesse como pensa que se pode corrigir a situação, que é uma fonte de importantes desigualdades, mais chocantes ainda tratando-se de uma administração que devia reger-se pelo imperativo inverso.

    E se me disser que basta dar mais dinheiro (como se o orçamento da educação não fosse ja o mais imporrtante da administração central), gostava que me explicasse por que carga de agua, a não ser por graça da varinha magica do Badiou, investir mais numa fonte que gera quotidianamente desigualdade havia de ser um meio racional de atingir mais igualdade…

  30. ds, tem toda a razão. A grande preocupação sempre foi o ECD. Nem se percebe por que raio se perdeu tanto tempo a discutir e a protestar contra os modelos de avaliação, que tinham todos os defeitos e mais alguns, antes e depois de terem sido simplificados pela anterior ministra. Tanto protesto levou muita gente a acusar os professores de que não queriam ser avaliados, acusação altamente ofensiva e despropositada. Claro que os professores queriam ser avaliados, desde que isso não os impedisse de atingir o topo da carreira, mas esse facto foi a modos que ocultado. Devo ter andado desatenta, pois não me lembro de nessa altura ouvir o Sr. Mário Nogueira exigir o topo da carreira para todos os professores, só o ouvi agora depois da actual ministra ter anunciado o fim do modelo que existia. Aposto que agora qualquer modelo de avaliação serve.

    O ds preocupa-se, e bem, com os resultados dos alunos, mas eu não vejo de que forma a não premiação dos melhores professores pode ajudar a melhorá-los. Mais um defeito meu. Quanto a passarem todos os alunos mesmo sem o merecerem, não sei a que escolas se refere, nas que conheço há alunos que ficam retidos, como agora se diz. E a questão das faltas penso que também melhorou bastante com as aulas de substituição, por exemplo, já para não dizer que, ao contrário do que se passava no meu tempo, os alunos nem sequer podem sair das escolas sem ser com autorizaçao expressa dos pais, sendo controlados nas entradas e saídas por cartões electrónicos. Enfim, não está fácil para os baldas.

  31. A educação tem feito o possível, porque (e isto já o disse), quando os programas são cada vez mais facilitistas, quando os alunos passam de ano mesmo não sabendo nem estudando, quando se substitui o ensino nocturno que existia pela fraude das novas oportunidades e dos canudos em três meses, é impossivel melhorar as qualificações dos portugueses. Ora, isto não se deve aos professores (a não ser de forma indirecta, porque não se opuseram a essa gradual degradação do ensino), mas sim a quem impõe e determina a tal «lógica» dos resultados aldrabados.
    Por outro lado, não se pode abstrair a educação de tudo o resto, nomeadamente das condições económicas e sociais das próprias famílias. Aliás, basta ver os rankings das escolas para se perceber que há uma relação entre as duas coisas. O mais relevante não é os primeiros lugares serem ocupados por escolas privadas, mas sim o facto de Portugal estar dividido em dois: o litoral mais rico tem melhores resultados escolares, e o interior mais pobre tem piores resultados. Isto só para dizer que não é apenas escola que vai mudar o panorama das coisas. Apontar o dedo à escola e aos professores é a demagogia fácil de que se servem os aldrabões como o Pinto de Sousa.
    A situação corrige-se invertendo esta «lógica» e começando a valorizar devidamente o ensino e o estudo, como eu também já disse. Só depois se pode avaliar em condições os professores e o seu trabalho. Agora, uma coisa está vista: não é com o Pinto de Sousa que isso vai acontecer, já que a sua única preocupação é cortar nas despesas, o que passa (como se vê) por baixar a exigência no ensino e por manipular os resultados escolares.

  32. Ouvi ontem o representante do PCP, num debate na RTPN sobre este assunto, dizer que vale muito a pena a “luta” e que isto das quotas para ascender nas carreiras é mau e não é só para os professores, passa-se a mesma injustiça nas carreiras dos restantes funcionários públicos. Portanto, já sabem se querem ascender livremente ao topo vão ter com o PCP. Deve ser maravilhoso poder dar este tipo de apoio aos trabalhadores, mais ainda porque nunca ninguém se irá lembrar de pedir contas pelo défice ou pela sustentabilidade da Segurança Social e essas chatices que só se pedem a partidos que estejam no Poder, o que não é nem nunca será o caso do PCP.

  33. Guida, você anda mesmo desatenta: em tudo! A avaliação que foi imposta estava directamente relacionada com o ECD, e nessa medida alterar uma coisa implicaria sempre alterar a outra, a começar pela treta dos professores titulares.
    Quanto aos alunos deixarem de chumbar (de ficarem «retidos», como a guida lembra bem em «pedagogês») lembro-lhe que a ex-secretária das finanças disse que era preciso acabar com as reprovações, justificando isso com a DESPESA que tal representa para as contas do Estado. E disse tal coisa quando toda a gente sabe (só os ingénuos é que não o sabem) que dentro das escolas há pressão para facilitar ao máximo a passagem dos alunos, e daí que surjam aqueles casos caricatos de alunos com 5 e 6 negativas que acabam por passar com duas. E está a confundir faltas dos professores com as dos alunos, porque no que a estes diz respeito, a guida já se esqueceu (por andar desatenta) da polémica que provocou o estatuto do aluno, que permitia que os alunos fossem «recuperáveis» e que as suas faltas fossem eliminadas, desde que fizessem um teste (fácil, claro) no fim do ano.

  34. &, não sei que análise é essa, mas a verdade é que essa conversa das metas ou objectivos sempre fez parte da essência do discurso tecnocrata e neoliberal, principalmente quando o que está em causa é a microeconomia.
    Quanto aos exames, também já disse que penso ser a forma mais objectiva de verificar as reais aprendizagens dos alunos e de verificar o contributo dos professores para isso (ainda que o seu trabalho e o que é um bom professor não se possa verificar apenas nessas notas). E é a mais objectiva porque é a menos propícia à manipulação ou aldrabice. Aliás, não foi por acaso que o Pinto de Sousa acabou com uma série de exames, e que a dificuldade daqueles que não foram eliminados foi reduzida (o que mostra que mesmo em exames os resultados podem ser aldrabados).

  35. DS,

    Resumindo a sua resposta :

    1. O ensino não cumpre, mas não é culpa dos professores, antes dos burocratas (o que é logico e so pode dever-se ao facto de eles serem avaliados, contrariamente aos professores).

    2. So faz sentido avaliar os professores depois de conseguirmos melhorar o ensino.

    Concordo. Digo mais : sera que fara mesmo sentido avaliar os professores apos conseguirmos a melhoria do ensino ? Isso não sera apenas buocracia inutil (uma vez que, por hipotese, o ensino tera passado a ser bom e a cumprir os objectivos) ?

    Deviamos também colocar um artigo novo algures na Constituição para estabelecer que “Os professores são bons pelo simples facto de serem professores. Como tal, merecem não so salarios elevados, mas também a nossa consideração. Um cidadão não professor tem obrigação de descobrir-se quando fala com um cidadão professor, e de trata-lo por Senhor Doutor, salvo autorização prévia do interessado em sentido contrario”.

    O lugar indicado parece-me ser a seguir ao artigo sobre o principio de igualdade…

  36. Pois, ds, eu estou desatenta e o ds é muito selectivo na memória, só se lembra do que lhe convém. Não conheço casos de alunos com 5 e 6 negativas a passarem. E devo lembrá-lo que não é só por facilitismo que o número de chumbos diminuiu. O ds talvez não saiba, mas, ao contrário do que se passava há uns anos, os alunos com mais dificuldades, logo desde o primeiro ano, têm acompanhamento por parte de professores que não fazem outra coisa. Falo do que conheço e conheço uma turma de 7º ano com 17 alunos em que metade das aulas de matemática são dadas com dois professores na sala, fora as aulas de acompanhamento ao estudo. Se compararmos com o que acontecia no passado, isto é um luxo. É natural que este trabalho dê frutos, mas mesmo assim há alunos que não conseguem atingir os objectivos e, lá está, ficam retidos.

  37. Um mau resumo da minha resposta, joão viegas… Faço-lhe um desafio: vá ver os manuais das diversas disciplinas e compare-os com os do seu tempo, e veja lá se não encontra diferenças para pior. Compare o tempo em que se reprovava a uma disciplina sempre que se tinha um nove, com o tempo actual em que em disciplinas bianuais ou trianuais não se chumba com oito valores, pois é a média final da disciplina nos diversos anos o que determina a aprovação ou não. Assim, quem no 10º ano tem, por exemplo, 8 a matemática não reprova, tendo é que ter depois um 11 no ano seguinte. Agora, eu pergunto: como é que alguém sobe de um 8 (que já foi inflacionado, claro) para um 11, quando a matéria se torna mais complexa e quando não adquiriu as bases para fazer uma disciplina com precedência? A resposta fácil é dizer que se não subisse a culpa era do professor… Eh pá, é por isso mesmo que depois os resultados são aldrabados, e o facilitismo vai gradualmente aumentando, pois funciona como uma bola de neve.

  38. OK, DS, percebo melhor o seu ponto de vista,

    O que você defende, no fundo, é que se volte ao tempo em que os manuais escolares eram sérios, onde havia rigor e disciplina e so passavam os melhores (e também o Salazar e o Caetano, mas esses podem ter sido acidentes de percurso).

    Resta acrescentar que, nesse tempo aureo, havia também muito menos professores, o que é logico, pois os alunos iam sendo abandonados à medida que avançavam em idade, e podiam dedicar-se à pesca…

    Devia ter sido mais claro porque, no fundo, esta sua visão é inteiramente compativel com os imperativos orçamentais que você diz serem “neo-liberais”. Senão vejamos : menos alunos = menos professores. Desta forma, até conseguiamos baixar o orçamento do Estado, mesmo que aumentando ligeiramente o vencimento dos professores, que poderia afastar-se ainda mais do rendimento médio.

    Eu estava mais preocupado com outros “resultados” os da educação e da qualificação dos Portugueses, de todos os Portugueses (mesmo aqueles que são menos iguais do que os outros e que, por isso, não serão nunca Doutores). Donde a minha cisma com a avaliação de professores. Mas percebo agora que esta preocupação é propria de burocratas.

    Afinal isto é tudo acerca de avaliar manuais. Ora avaliar manuais, esta na cara… Não vale a pena preencher papeis para isso.

  39. Bem, numa coisa temos todos de concordar. O que se tem passado nas escolas publicas é um autentico regabofe, onde basicamente uns fazem o que querem e os outros têm de amochar (os outros são os professores que iniciam a actividade).

    Não estando por dentro da actividade em causa, apetece-me dizer que a degradação do ensino publico tem sido real. Contudo, outras áreas da nossa sociedade sofrem o mesmo problema estrutural (veja-se o mundo empresarial, por exemplo, e a qualidade sofrível da gestão que é praticada até mesmo em empresas ditas sólidas).

    Voltando novamente ao ensino, todos nós nos recordamos que do 25 de Abril para cá, esta área tão sensível da nossa sociedade foi sendo transformada ou em arma politica, ou em escape de sobrevivência para quem tirava cursos superiores e não tinha outra forma de entrar na administração publica. Quantos de nós conhecemos a frase: “se este curso não der para mais nada, posso dar aulas”

    Pois é. São anos de desconstrução estratégica em matéria de ensino que conduziram à situação. Quem se aproveitou desta situação foram os privados, que recebem grossos subsídios e cobram propinas loucas.

    Se não houvesse mais factores, pelo menos num a anterior ministra teve mérito. E esse foi o de ralançar o tema da qualidade de ensino. Talvez agora o tema se torne imparavel.

  40. Não há aqui uma incongruência? Enquanto se defende que a avaliação dos professores deve servir para a melhoria contínua (o que está bem) e não para a exclusão de uma carreira igualitariamente fulgurante, diz-se que a avaliação dos alunos deve servir exactamente o oposto – ser um suporte para uma enorme prova de eliminatórias.

    Mas os alunos merecem menos do que os professores? Querem lá ver que estamos perante uma casta de brâmanes?

  41. Não é preciso recuar a esse tempo, joão viegas… Mas eu percebo que, dessa forma, se torne mais fácil legitimar o facilitismo (escondendo-o), em vez de o reconhecer como uma realidade que é preciso combater. Mas se você ler melhor o que eu disse perceberia que o que eu defendo não é a exclusão dos «piores», pois isso é a lógica do sistema privado (que por isso mesmo aparece nos primeiros lugares dos rankings). O que eu defendo é que quem frequenta o ensino público tem direito a um ensino de qualidade, e tendo esse direito tem o dever de o tornar possivel, e de que o tornem possível. Ora, não é com programas facilitistas nem com passagens de ano artificiais que esse direito é materializado.

  42. Sim, Edie. Tens razão!

    Não faz muito sentido que quem faz da sua profissão uma constante avaliação de conhecimentos, não esteja disponivel para ser avaliado.

  43. DS,

    So falta explicar como se alcança o tal ensino de qualidade sem uma avaliação que procure ajustar os meios (e nomeadamente os professores) à necessidade de melhorar os resultados alcançados, exigência que não me parece ser “neo-liberal”…

    A não ser que você considere a priori que os professores não podem melhorar em nada, ja que atingiram definitivamente a excelência com o ingresso na função publica, de forma que, a mudar alguma coisa, tera necessariamente de ser o resto : os burocratas, a conjuntura internacional, os alunos cabulas, etc.

    Eu sou profissional liberal e confesso que me cansa um pouco a mensagem que você (e não so) transmite.

    Ja imaginou o que seria um médico (por exemplo) queixar-se dizendo : “isto não ha condições, as pessoas estão sempre doentes, são de uma fragilidade assustadora, alias basta ver que acabam todas por morrer mais dia menos dia…”

  44. «Já imaginou o que seria um médico (por exemplo) queixar-se dizendo : “isto não há condições, as pessoas estão sempre doentes, são de uma fragilidade assustadora, aliás basta ver que acabam todas por morrer mais dia menos dia…”»
    Mas imagino perfeitamente um médico a dizer «Como é possível que me peçam para tratar as pessoas se não tenho uma aspirina ou um estetoscópio sequer, se o barraco que dá pelo nome de hospital tem o telhado cheio de buracos e chove nele mais do que na rua, não é limpo há anos e, ainda por cima, moro a mais de cem quilómetros daqui e para progredir na carreira ainda me exigem que observe 50 doentes por cada meio dia e receite medicamentos a todos independentemente de estarem doentes ou não? Como podem esperar que me cale e não proteste quando o Ministro da Saúde diz que temos a mais alta taxa de mortalidade hospitalar do Mundo e a culpa é dos médicos?»

  45. Cara Catarina G,

    Eu até percebo o que quer dizer mas, peço desculpa, assim não vamos la.

    Salvo erro, o orçamento da educação é o primeiro na administração central. Salvo erro também, em Portugal, os professores têm um rendimento superior à média dos vencimentos dos seus colegas nos paises da OCDE. Não sei até que ponto os prédios e outros meios materiais colocados ao serviço da educação são piores do que noutros paises, mas custa-me acreditar que a situação possa ser comparada à de um hospital sem material médico ou sem medicamentos. Ha livros e os programas não são, que eu saiba, assim tão fora do comum que se afastem decisivamente daquilo que existe noutros paises, onde também são elaborados por processos largamente burocraticos.

    Portanto, a não ser que partamos do principio que os Portugueses têm uma invlugar propensão para permanecerem eternamente analfabetas e estupidos (ha argumentos nesse sentido, como dizia o Valupi no outro dia, mas enfim…), parece-me um pouco leviano defender que os maus resultados obtidos, nomeadamente em programas de comparação internacionais, não têm nada a ver com a qualidade do trabalho dos professores e que a “culpa” é apenas dos outros. Não ha burocratas nos outros paises ? Não ha pedagogia nos outros paises ? Ou sera que la fora, o “eduquês” é apenas feito por profisionais inquestionaveis, enquanto ca é um monopolio dos mediocres ? Alias, se são mediocres, que sistema é que os produziu ?

    Mas a propria mania de falar em termos de “culpa” é sintomatica e mostra que, quando ainda não começamos a tentar resolver o problema, ja estamos à procura do preto em quem bater para aliviar. Se houvesse avaliação objectiva, e a doer, ou seja uma avaliação que tivesse alguma coisa a ver com a sanção da realidade, talvez deixassemos de nos preocupar com as culpas, e passassemos a tratar dos remédios, que é a maneira “de esquerda” de resolver problemas.

    Mas, infelizmente, o que se vê é exactamente o contrario. Prefere-se continuar com simulacros de avaliação, que excluem à partida que se possam apontar erros, tomar medidas concretas, etc., e visam apenas garantir que os professores possam continuar a fazer cocegas anualmente uns aos outros, convencidos de que esta tudo bem, menos talvez a sua “progressão na carreira”.

    Não li tudo o que se escreveu por ai mas, que eu visse, não me pareceu que ninguém tivesse duvidas acerca do direito, muito legitimo, dos professores protestarem. O problema é antes com o conteudo do protesto, ou seja com o facto perfeitamente incrivel – mais ainda tratando-se de avaliação, que devia ser uma das suas primeiras competências como alguém aqui referiu muito justamente – de os professores serem os primeiros a gritar que o sistema esta mal, e simultaneamente os primeiros a obrar para que tudo permaneça na mesma.

    Deve ser um novo tipo de comunismo : empenho em demonstrar que as caricaturas acerca dos funcionarios que andam nas cabeças dos nossos Joões Mirandas, afinal estão inteiramente certas.

    Triste esquerda…

  46. Acompanho-o do principio ao fim João Viegas.Contudo, a reforma da educação será inevitavelmente retomada quando houver uma melhor conjuntura politica.Entretanto nem tudo se perdeu, inscreveu-se algo de importante, a avaliação, que será cada vez mais vinculativa à progressão gradual na carreira docente.
    O que este processo revelou foi a total e despudorada irresponsabilidade politica nem tanto de toda a oposição (já que em alguns isso é crónico) mas principalmente do eixo PSD/Cavaco por mero calculismo politico-eleitoral. Grande parte do PSD concorda com as reformas a implementar não estão é dispostos a pagar o custo politico inerente em tempo de eleições. A cobardia habitual.
    O problema é que a partir daqui e durante os próximos anos vai ser muito dificil reformar seja o que for, a pressão já começa a ser exercida em directo do palacio de belem no sentido de não se avançarem com as obras públicas, as corporações da justiça já se começam a mexer e a hera irá a pouco e pouco invadindo a cidade.

  47. Ó “camarada” ds vai mas é pedir o Paulo Portas em casamento, bem juntinhos vão até ás Caraíbas passar umas doces férias. quando voltares talvez estejas melhor.

  48. ds,
    Toda a sua argumentação está focada numa situação das possibilidades imaginárias, num sistema utópico que só funciona no pensamento ou palavra escrita, nunca na realidade da vida em sociedade. Diz: “Apontar o dedo à escola e aos professores é a demagogia fácil de que se servem os aldarbões como o Pinto de Sousa”. Depois continua: “A situação corrige-se invertento esta ‘lógica’ e começando a valorizar o ensino e o estudo, como eu também já disse”.
    E quando o ds “aponta” para as suas doutas posições como tem a certeza que não são demagógicas? A todas as teorias filosóficas, e muito mais as sistémicas, a realidade enviou-as para o caixote do lixo da história: história da filosofia. A não ser que o seu Badiou seja mesmo um trancendental omnisciente, o que ninguem, lido em história do conhecimento, acredita nem o ds certamente.
    Quanto a inverter a lógica e valorizar o ensino e o estudo eu penso que nunca a escola deixou de valorizar isso mesmo, na medida em que nunca deixou de dar notas aos alunos. Dar notas é valorizar os alunos, é precisamente, ou devia der, estabelecer uma escala de valores entre alunos que os distingue pela capacidade intelectual. Não há que ter medo de que os alunos “maus” do ensino obrigatório cheguem ao “topo da carreira” com notas baixas: é melhor do que serem lançados á marginalidade além de que é um estímulo a uma possível recuperação futura. Sei de alguns “maus” alunos liceais que se revelaram depois excelentes universitários e bons valores nas empresas, e o contrário: o gosto pelo saber pode despertar em qualquer altura difícil e não quando está à disposição.
    E quando a escola não fizer bem o seu trabalho de diferenciar pela capacidade e faculdades de saber e inteligência, não se preocupe que a luta na vida real no mercado de trabalho vais estabelecer escalas por mérito, à força.
    Também o ds, apesar do imaterial palavreado, caso estivesse no lugar de Sócrates ou outro PM ou ministra Alçada, ou fazia a política educacional condicionada à sociedade existente ou a sociedade existente apontava-lhe o olho da rua. Ou o ds impunha o seu “ensino”, mas então a democracia ia a passos largos para a ditadura e o “seu ensino” imposto caminhava para o seu “diktad” filosófico à Pitágoras indiscutível: Ele disse.

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