Todos os artigos de Valupi

A realidade vista da Lapa

Zeinal Bava escolheu Rui Pedro Soares e deu-lhe ordens lícitas e lógicas. Por sua vez, Zeinal Bava obedece a Granadeiro, o qual pôs a sua palavra de honra em cima da Comissão de Ética quanto à probidade de todo o processo relativo ao negócio falhado para a entrada da PT na Media Capital.

Ou seja, o Governo tem um plano para controlar a comunicação social. Se nunca o teve, nem tem, nem quer ter, que o prove. Mas que o prove com provas que o Sol e o Correio da Manhã aceitem, não é cá com explicações no Parlamento e a honra das pessoas.

Organizem-se

Será possível o casal Moniz garantir existirem provas na TVI relativas a um qualquer processo judicial, ou investigação policial, e o Ministério Público não tratar logo de os chamar para prestarem declarações e dar-se andamento à denúncia? Será que temos de telefonar para o pessoal de Aveiro, muito mais expedito e criativo nestas coisas de entalar o engenheiro? Terá de ser a coitada da Moura Guedes a abandonar a frenética actividade que a baixa lhe permite gozar e meter uma manhã de trabalho para lá ir sacar os esquecidos papéis? Ou ainda veremos o Pacheco invadir as instalações e virar aquilo tudo de pernas para o ar?

Ecce Homo

Fiz de conta que não percebi.

Moniz

*

O homem declarou-se assustado com o que leu no Sol a 5 de Fevereiro. E fez o que a sua consciência lhe comandou, posto que agora já tinha visto a luz: pediu a demissão de Sócrates. Como estava embalado, clamou para que alguém pusesse ordem neste país e explicou aos peixes que o problema não estava na crise económica, antes na crise de valores.

Ora, se há assunto que o homem domine é, precisamente, esse dos valores. Tanto, tão bem, que andou a negociá-los em vários tabuleiros, segundo se depreende do seu próprio trajecto e declarações. Pelo que pedir a cabeça de Sócrates na bandeja, a coice de Saraiva, ficou como um número circense onde já nem a pequenada presta atenção.

E lá foi o homem para a frente dos deputados. Ali onde pode trespassar o engenheiro com a lança da verdade. E que saiu? Uma das mais heróicas declarações de independência profissional, deontológica e política que registo na puta da minha vida. Às colossais pressões do Governo, dos ministros, dos patrões, dos accionistas, deste, daquele e daqueloutro, o homem apenas encolhia os ombros e não queria saber. Fez sempre o que lhe deu na gana. Porque a ele ninguém verga, nem trava, nem cala.

Temos homem. Ei-lo.

Consta

Consta que o Governo escondeu informação aos portugueses, e que o PS mentiu no seu programa eleitoral, porque não se falou da Grécia e dos CDS antes das Legislativas – ao contrário do que fez Ferreira Leite com tenacidade e audácia; a qual até receava falar ao telefone, ou mandar uma carta, com medo de ver as suas milagrosas soluções para a crise grega copiadas pelos mesmos bandidos que se empoleiravam nos muros do Palácio de Belém e tiravam polaróides sem pedir autorização.

A ser verdade, e a dupla PSD-BE em breve fará a investigação que se impõe, ainda mais urgente fica a necessidade de enxotar uma oposição tão má, tão bera, tão reles que deixa estas barbaridades acontecerem à frente dos seus ramelosos olhinhos.

Mas serei o único?

A dar graças por este dia de chuva imparável, à inglesa, como ela deve ser para não se confundir com os volúveis aguaceiros? Serei o único a dar graças por este Inverno que se esforça para cumprir o calendário, apesar do Al Gore? Serei o único a estar solidário com todos os compradores nos saldos, finalmente desfrutando de meteorologia que lhes valoriza a racionalidade da poupança?

Não acredito.

Big

Este maravilhoso exemplar feminino e californiano, aqui exibindo-se nuns deslumbrantes 58 anos ao lado dum avatar, é digno representante do melhor de Hollywood: não deixa que a realização atrapalhe uma boa história.

Antes do filme agora consagrado com os Óscares e o favor da crítica, tinham passado a Kathryn Bigelow um atestado de óbito na carreira por causa de um tremendo fracasso: K-19: The Widowmaker. É exactamente assim o sonho americano, o saber pôr os pés no chão. E andar.

Génio de Carvalhal

Continua a saga, chapa 3 (em versão 3+1). Liedson sempre a resolver (resolveu marcar 4). Saleiro a dar espectáculo (um espectáculo dentro do espectáculo). Ostracismo de Vuk a permitir o regresso às 3 substituições (que dão jeito, há que o admitir). E a equipa deixou de falar à comunicação social sem sequer explicar porquê, assim tornando oficial que o Costinha já pegou ao trabalho e trouxe umas fotocópias gamadas ao Pinto da Costa. És do Carvalhal, Carvalhal.

Entretanto, os meus amigos António P. e Rogério estarão resignados, convencidos de que a Páscoa não lhes vai trazer amêndoas.

Delenda Cavaco

Cavaco lançou a recandidatura. Apresenta-se como o Presidente que vive num humilde prédio de classe média. Tem sofrido muito neste Inverno porque a casa não tem aquecimento central, queixa-se. Também ficámos a saber que nada lhe dá mais gostinho do que a comida caseira, simples, portuguesa. Leituras da imprensa só as que os assessores seleccionam e marcam. Viu-se um exemplo: 3 parágrafos de um certo texto estavam assinalados a traço vertical, os restantes 10 já não valia a pena ler – e ainda há quem diabolize os assessores…

Os melhores momentos deste tempo de antena, se esquecermos todas as outras gargalhadas do princípio ao fim, centram-se em Sócrates. No primeiro deles, Cavaco quer passar a imagem de ser tão superior ao engenheiro que nem sequer dá atenção à sua entrevista a Miguel Sousa Tavares. O intento já era primário, a execução foi penosa. No segundo, Cavaco diz que sempre se deu às mil maravilhas com Sócrates e que o suposto conflito entre ambos não passa de má-língua. Um dia explicará o que se passa, falará do amor que se faz semanalmente numa certa sala do Palácio de Belém. Mas, por agora, tem de ficar caladinho enquanto o Primeiro-Ministro é queimado pelos amigos do Presidente. Porquê? Porque Cavaco não se mete na política, apenas a tolera às quintas-feiras.

Não era preciso este favor de Balsemão a Cavaco para descobrirmos como é necessária a derrota desta nefanda personagem. Representa um Portugal que se limita a usufruir dos privilégios, sem qualquer solução de interesse para a comunidade. Merecemos um Presidente de que nos possamos orgulhar, não uma figura que traiu o seu juramento.

O mal e a caramunha

Portugal está há quatro meses sem Governo. Os portugueses elegeram um novo Governo, mas o novo Governo demite-se da sua função. Dito de forma chã, o Governo demite-se, dia após dia, das suas responsabilidades, deixando atrás de si um país adiado.

Paulo Pinto de Albuquerque

*

O PSD aderiu às velhas tecnologias, agora usa cassetes de cartucho acreditando que elas disparam chumbo grosso. Repetem-se uns aos outros numa vaga acéfala que conquista novos máximos a cada novo canastrão que entra em cena – o estribilho actual é o de não haver Governo. Então, leia-se o artigo deste Albuquerque. Começa por dizer que não há Governo, papagueando vacuidades, e depois dedica o resto do artigo a maldizer actos governativos – originais uns, evoluções ou correcções outros – que comprovam o inverso do que diz na abertura do texto. Mais notável ainda, não se encontra uma só ideia no que escarrapacha, só adjectivação biliar. Se nos lembrarmos que o autor explora as escutas ilegais, e ilegalmente publicadas, para fazer ataques políticos que visam exclusivamente a destituição de Sócrates, temos o retrato acabado do vale tudo em que se tornou o PSD.

Que cambada. Escutam o Primeiro-Ministro, e sabe-se lá quem mais, e dizem-se escutados por aquele que estão a devassar. Recusam ser parte da solução governativa, formam coligações negativas, ameaçam derrubar o Governo quando bem entenderem, vão para o Parlamento Europeu denegrir e ofender Portugal, andam a pedir aos especuladores internacionais para agravarem as condições financeiras, chafurdam nas manobras e crimes de atentado contra o Estado de direito, levam para o Parlamento a escória da comunicação social na esperança de que emporcalhem mais e mais os governantes e as instituições. E fazem isto no meio de uma crise económica internacional que levou o desemprego para os 10%. Fazem isto com o silêncio cúmplice, ou berreiro aliado, do BE e do PCP, diga-se em abono da Política de Verdade.

Nunca nenhum Governo teve pela frente o desafio que este tem, tanto pelas condições internacionais como pelas nacionais. Obviamente, o primeiro e decisivo pilar da governação seria a aprovação do Orçamento – tarefa particularmente difícil numa situação minoritária e de irresponsabilidade da oposição. Sem ele, não haveria condições para continuar. E a evolução da conjuntura económica também faz do PEC um segundo momento quase tão importante como o primeiro. Como à volta do Executivo reina um combate sem quartel, onde magistrados e jornalistas são factores de alarme social e se comportam como golpistas, ainda haver Governo parece-se cada vez mais com um acto heróico.

O PSD não tem qualquer lealdade para com o País. O modo como tenta conquistar o Poder resume-se à lógica do quanto pior melhor. Fazem o mal e a caramunha. É serviço completo.

Ética e transparência

Não sei o que seja mais extraordinário: se o envolvimento do Presidente da República num negócio entre privados que não chegou a realizar-se, se o alheamento do Presidente da República do negócio entre magistrados e jornalistas destinado a linchar inimigos políticos.

Fenómenos do entroncamento

“… se a justiça ajudasse e se não houvesse alguns bandidos – ou na magistratura do Ministério Público ou na magistratura judicial –, que fazem fugas de informação sistematicamente (…). Não é possível viver com um sistema em que algumas pessoas na Procuradoria ou na magistratura judicial condicionam a vida nacional de uma maneira insidiosa sub-reptícia, clandestina e eu acho que, paga: Acho que há pessoas nas magistraturas a ganhar fortunas a vender informações em segredo de justiça…”

António Barreto por Rui Rangel

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Cidadãos que alegam terem referido o seu nome em restaurantes vão ao Parlamento, à pala disso e de mais nada, vender livros e mostrar aos deputados quem é que manda naquele espaço. Outros dizem que as violações ao segredo de Justiça estão a criar fortunas, o que é totalmente consentâneo com o seu uso: os jornais e revistas que as publicam fatiadas, e manipuladas, aumentam os seus lucros. Podemos estar perante uma indústria, pois. Curiosamente, a estes nem sequer um pedido de explicações é feito por algum jornalista i-gnóbil, quanto mais serem chamados à Assembleia da República, à TV ou à esquadra das Galinheiras para prestarem depoimentos.

Não se trata de um fenómeno do Entroncamento. É mesmo do entroncamento – resta só saber do quê e de quem.

Alices no País da Maravilha

Este é o ano de todas as Alices. Mas ninguém estava preparado para a entrada em cena da inspectora Alice. Diz quem sabe que ela é permeável a telefonemas. Fosga-se, coitada. As dores que tal maleita provoca. Isso na minha vizinha do 4º andar já seria tramado, numa investigadora da Judiciária é incapacitante. E assim se prova como a Comissão de Ética tem toda a razão de ser, pois sem ela nunca saberíamos que, afinal, os assessores do Primeiro-Ministro lá conseguiram abafar o Freeport ao telefonema. Diz quem sabe.

E diz mais. Garante existirem documentos na TVI que entalam o engenheiro. Estão para lá esquecidos numa gaveta, desde Setembro, e ninguém lhes pega. É chato. Porque esse tipo de provas gosta é de estar com as autoridades. Sentem-se bem ao pé de fardas e togas, são lá coisas. Eis o que proponho: denunciar à polícia essa situação de abandono e maus-tratos. Se a polícia não souber onde fica a TVI, que telefone para quem sabe e peça a morada.

Quê? Um rei? Diz quem sabe que o Rei também é permeável a telefonemas. Mas, neste caso, não é defeito; é feitio. Noblesse oblige.

O Parlamento está a especializar-se em espectáculos dados por ratos, araras, lagartas e tartarugas falsas. O melhor continua a ser o do chapeleiro taralhouco e sua camisa de dormir, mas este da rainha que não se fecha em copas também foi baril. E a maravilha promete continuar.