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Rameira de Alfama

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Esta foto está na hipnótica Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, que já tive ocasião de louvar há quase dois anos. Não tem outra informação para além da referência a Alfama.

Quem foi esta mulher? Doméstica, varina, operária, santa? Não interessa para nada sabê-lo. A pergunta é outra: que vemos nesta imagem? Uma rameira. Melhor: a rameira modelo de todas as rameiras possíveis. A rameira cantada pelo Marceneiro. A rameira que terá abraçado Camões nas tabernas quinhentistas de Ocidente e Oriente. A rameira adolescente, ou púbere, no tempo em que a adolescência ainda não tinha sido inventada.

As rameiras não são putas. São fados.

Sapere aude

O discurso político partidário, na sua necessidade e vacuidade, será aquilo que nós quisermos. Depende do eleitorado, das audiências ou do mercado; porque somos nós que o legitimamos, por actos e omissões. Se alguém se queixa da crispação e das falhas disto e daquilo neste e naqueles, será bronco, estará a engonhar ou a tirar algum prazer da lamúria. E não há qualquer segredo, valendo para a política como para o amor: se queres que alguém mude, começa por mudar primeiro.

Algo que já está em profunda transformação, embora ainda nos primeiros rolamentos do que virá a ser uma bola de neve, é o nosso conhecimento, e habitação, do século XX português. Nele se encontram reunidas e amalgamadas as matrizes do somos hoje. São as sucessivas decadências: da Monarquia, da I República, do Estado Novo, da Revolução, da Democracia, e ainda do Catolicismo, das Elites, do Povo e da Cultura. Estas decadências não são morais, embora tenham também fatal expressão moral, antes históricas e antropológicas. Resultam da procura de soluções novas para problemas novos, por isso se abandonam exosqueletos que impedem o movimento e o crescimento.

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Regra très simples

Marcelo justificou o polémico anúncio oficioso da recandidatura de Cavaco misturando os pés pelas mãos. Por um lado, pintou-o de furo jornalístico, no que fica como a mais extraordinária manifestação de desprezo pela inteligência da audiência desde 1817, ano da descoberta do selénio. Por outro, deixou uma explicação, à prova de estúpidos, para o insólito que protagonizou: a sua manobra faria parte da pressão sobre Passos para que o Orçamento fosse aprovado o mais rapidamente possível, resolvendo o assunto a tempo de Cavaco colher todos os louros pelo acordo.

A ser verdade, fica a questão de saber em que café discreto da Av. de Roma terá reunido com a sua fonte. Para encontrar esse local temos de começar por reunir os elementos que Marcelo, nesta última homilia, disponibiliza como factos indiscutíveis:

– Que a fonte era fidedigna.
– Que Marcelo põe e dispõe do Júlio Magalhães, estando à-vontade para lhe passar informações que depois vai comentar como se fossem notícias da TVI, embora tenha desta vez optado por não incomodar o jornalista, o que gerou o pseudo-problema.
– Que anda nisto há 40 anos, tendo começado antes do 25 de Abril.

Agora, só temos de multiplicar a fonte fidedigna pela invenção de notícias e dividir por 40. Resultado? O encontro teve lugar na pastelaria Dâmaso.

La dolce vita

Sempre fui grande amigo dos salgados, não dos doces. E sou fanático do picante, da pimenta, dos pimentos, do alho, da cebola, do alho, dos pimentos, da pimenta e do picante. Está claro? Tanto que só recentemente comecei a ingerir chocolates em níveis mínimos para não ser afastado do convívio com o sexo feminino. Não me lembro de ter saudades de gelados ou de me desviar 15 centímetros do meu caminho para ir na sua direcção. Jamais tocava em compotas, geleias, marmelada, inimigas da integridade palatal. Uma bola de Berlim com creme parecia-me uma ofensa à moral pública, um duchesse autêntica pornografia.

Pois bem, things change. Hoje como bolos e doces, os mais grotescos. Como numa missão exploradora, não regressando à enorme maioria deles. Como só para poder dizer que já comi. Trata-se de um don-juanismo pasteleiro, mais gnose do que pulsão. Nessa senda fui parar à compota de limão no capitel deste poste, estacionada na secção gourmet do Continente. Depois de semana e meia em pousio na despensa, passou directamente para as papilas gustativas ao ritmo de uma colherada a cada 4,7 segundos. Ter feito uma pausa de 2 minutos a meio do frasco não irá afectar a auto-estima do fabricante, estou em crer. E depois do êxtase místico fundador, sabia-me profeta de uma nova religião: Zira Cadaval. Seguiram-se novas revelações, cada vez mais altas e luminosas.

A história desta marca é também um exemplo de empreendedorismo forçado. Em Portugal, este espírito ainda é uma excepção, infelizmente.

Aposto que sabes a resposta

O debate político, em todas as democracias desde a primeira, não pode abdicar da espuma dos dias, das parvoíces enfunadas, dos desvarios emocionais, das futilidades da vaidade, da retórica pronta-a-cuspir, das hipocrisias metodológicas – nem das invejas, dos medos, das raivas, das inseguranças, das ignorâncias, das ilusões, das soberbas, da maldade. A luta pelo Poder implica a luta pela riqueza social e material, pelo estatuto, o ideal, a honra, a realização individual e, em variados casos e de variadas formas, a dignidade ou a mera sobrevivência. É a história do mundo, repetindo-se com inevitabilidade igual em todas as épocas e lugares. E a comunicação social, apesar das suas características libertárias, depende de excepções (sempre imprevistas) para correr o risco de ser adubadora e catalisadora de um acrescento de inteligência cívica, escapando ao sensacionalismo e à miopia intelectual. Basta ver que não há um único órgão de comunicação social privado que seja um bastião de independência jornalística; sem favores, simpatias e cumplicidades políticas. Talvez o Público de Vicente Jorge Silva tenha sido isso, ou nisso tenha acreditado como horizonte. Talvez a TSF, numa vocação de serviço público onde a modéstia do meio refreia as tentações, seja o que temos de mais próximo, actualmente. Existem vozes que criaram marcas independentes na política-espectáculo – como Vasco Pulido Valente ou Miguel Sousa Tavares, por exemplo – não existem corpos de profissionais constituídos e chefiados para cultivar a independência como regra e ideal na prática do jornalismo de investigação e reflexão.

Também se pode meter na gaveta esta conversa, admitindo que a esterilidade política e social é impossível e, ainda por cima, nefasta. Cada agente político, até ao átomo do sistema em que consiste o cidadão, está condenado à parcialidade, à distorção, ao erro e, portanto, à injustiça. Emitir uma opinião é apenas dar conta dos limites da informação e do entendimento próprios. A complexidade circundante fica anulada no fragmento com que se abre caminho, defende a propriedade ou alcança a ração. A comunicação social, portanto, não poderia escapar ao molde dos que a produzem, o material humano é o mesmo.

Sendo assim, e assim é, que processos lógicos e objectivos levam às escolhas e recusas dos eleitores? Que leva a que o PCP, o partido que se propõe dar trabalho, aumento de salários e pensões a toda a gente, não ganhe eleições, sequer seja posto numa posição de ser parceiro governativo? Que leva a que o BE, o partido que se propõe roubar os bancos para dar o dinheiro aos pobres, não ganhe eleições, sequer leve a que se façam manifestações de apoio ao saque prometido? Que leva a que o PSD, o partido que se propõe baixar impostos e encher as pequenas e médias empresas de regalias, não ganhe eleições, sequer se destaque nas sondagens? Que leva a que o CDS, o partido que se propõe colocar um polícia em cada esquina para acabar com a ladroagem ao mesmo tempo que salva a lavoura e os feirantes, não ganhe eleições, sequer seja levado a sério pelos adultos? E, claro, que leva a que o PS, o partido que se propõe governar sejam quais forem as condições nacionais e internacionais, continue o preferido dos eleitores, e isto apesar das mais violentas campanhas difamatórias e caluniosas contra um primeiro-ministro de que há memória em Portugal e das pesadas medidas de austeridade?

Só rir

João Magalhães recuperou as intervenções de Agostinho Branquinho aquando da farsa parlamentar na Comissão de Ética, no âmbito da “Liberdade de Expressão” – a tal causa que reuniu trinta patarecos à hora de almoço numa ruela da Capital, entre monárquicos absolutistas e revolucionários anarco-consumistas. O vídeo é hilariante à luz da entrada na Ongoing, 7 meses depois, deste cabecilha da pérfida e chungosa manipulação política feita na altura pelo PSD.

Não vejo problema algum com a sua decisão de carácter profissional. E creio que é um rentável fruto da aturada e minuciosa investigação que o deputado fez na Assembleia da República, resultando na evidência de estar face a uma empresa que honra quem por lá trabalha ou com ela faça negócios.

Não há uma segunda oportunidade para salvar à primeira

Portas devia estar a preparar-se para viabilizar o Orçamento caso a estupidez de Passos e equipa levasse à irracionalidade consumada, surgindo como o salvador de última hora. Assim, aparecerá a dizer que o PSD é cúmplice dos socialistas e da austeridade. Mas o importante não está nesta congénita hipocrisia, antes numa outra ponderação: se o CDS não serve nem para aproveitar uma tão escancarada oportunidade de marcar a diferença à direita, bastando-lhe ter avançado para a aprovação do Orçamento assim que ficou claro ser Passos completamente incompetente para liderar a oposição, então não serve para nada de nadinha de nada.

Outra questão é a do interesse nacional, o qual pede o acordo com o PSD, preferencialmente. Donde, para Governo e PS, acordo com o CDS só no desespero final.

Com os comunas é sempre a somar

Renato Teixeira, na defesa da honra da sua bancada, teve uma simpatia para com o Aspirina B, fornecendo bons elementos de reflexão e muitas verdades. Ele sustenta a análise nesse colectivizante número: há mais autores e ex-autores do 5 Dias do que telemóveis vendidos em Portugal (Continente e Ilhas).

Obviamente, o seu argumento é inatacável. E até proponho que mudem de nome: 365 Dias

Em busca do restaurante perfeito

É reconfortante constatar que a comunidade científica, apesar do enorme atraso, lá vai conseguindo acompanhar o passo das minhas investigações:

A noisy restaurant can distract you from your dinner conversation. But all that clatter may also drown out the taste of your food, making it more bland. That’s according to a study in the journal Food Quality and Preference. [A.T. Woods et al., “Effect of background noise on food perception“]

Fonte

Na veia

O Jugular celebrou dois anos de vida a 17 de Outubro. E vale a pena pôr em risco a tensão arterial da Palmira, exclamando — Bendita a hora em que saíram do 5 Dias! Por um lado, ganhou-se um blogue de referência nas áreas da cidadania e da esquerda democrática, paradigmático das vantagens intelectuais e políticas desta forma de comunicação. Por outro, levou à deriva do 5 Dias para o radicalismo agit-prop e a exaltação fundamentalista da esquerda imbecil; o que acaba por ser bem mais divertido – e instrutivo – do que o projecto originário baseado em caganças elitistas.

E ainda uma outra nota, de carácter genérico: as redes sociais são como um transporte público, cada um sentado no seu lugar perto dos seus amigos, mas um blogue é como uma casa, com mais ou menos janelas, mais ou menos portas abertas. Não é preciso explicar a diferença.

O corporativismo está bem e recomenda-se

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) requereu acesso aos documentos que autorizaram e atestam os montantes gastos pelos membros dos gabinetes dos 16 ministérios e dos secretários de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e do adjunto do primeiro-ministro.

Fonte

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Se bem entendo esta notícia, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses vai fazer uma auditoria a todos os ministérios em ordem a apanhar falcatruas e desmazelos com as contas públicas, ao cêntimo. Isto para castigar o Governo por ter incluído os juízes no esforço da austeridade.

Creio que é uma situação inédita na história do Ocidente, e até estou a meter a Assíria nesse grupo, cujo desfecho vai ser de arrebimbomalho.

José Mestre

Quando trabalhei no Chiado, via-o muitas vezes. Sempre sentado no mesmo sítio, sempre uma visão brutal, insuportável. E repetia para mim as perguntas comuns a milhares de outros que se confrontavam com a horrenda deformação: Que está aqui a fazer? Quem o poderá ajudar?

Afinal, estava ali – quer disso tivesse esperança ou não – para que aparecesse quem o podia salvar.