Sapere aude

O discurso político partidário, na sua necessidade e vacuidade, será aquilo que nós quisermos. Depende do eleitorado, das audiências ou do mercado; porque somos nós que o legitimamos, por actos e omissões. Se alguém se queixa da crispação e das falhas disto e daquilo neste e naqueles, será bronco, estará a engonhar ou a tirar algum prazer da lamúria. E não há qualquer segredo, valendo para a política como para o amor: se queres que alguém mude, começa por mudar primeiro.

Algo que já está em profunda transformação, embora ainda nos primeiros rolamentos do que virá a ser uma bola de neve, é o nosso conhecimento, e habitação, do século XX português. Nele se encontram reunidas e amalgamadas as matrizes do somos hoje. São as sucessivas decadências: da Monarquia, da I República, do Estado Novo, da Revolução, da Democracia, e ainda do Catolicismo, das Elites, do Povo e da Cultura. Estas decadências não são morais, embora tenham também fatal expressão moral, antes históricas e antropológicas. Resultam da procura de soluções novas para problemas novos, por isso se abandonam exosqueletos que impedem o movimento e o crescimento.

Três modestos exemplos que nos convidam, da forma mais acessível, a renovar o olhar e entrar em zonas tabu, umas, soterradas em preconceitos, outras:

100 anos de Património – 1ª parte – Para lá da larga perspectiva histórica acerca do nosso atraso social e político fornecida pelos especialistas convidados para esta emissão, tem particular interesse a referência à democratização no Estado Novo, algo que cruzado com a real descentralização do Poder pelas corporações e o envolvimento das mulheres em diferentes actividades cívicas, explica subterraneamente a longa duração do regime.

CULTURA POPULAR – Eduardo Pitta promove aqui Daniel Melo, investigador de história contemporânea. O seu trabalho introduz elementos de informação e reflexão que permitem escapar à feroz apropriação do Salazarismo pela retórica opressiva do PCP. Os políticos e intelectuais comunistas, mais os revolucionários de todas as tonalidades de vermelho, mesmo que muitos não o tenham planeado nem disso tendo consciência, colocaram uma pesada rocha na porta do túmulo do Fascismo e passaram a ser os proprietários dessas ossadas. Durante muito tempo conseguiram-no, com pesados custos sociais e económicos, pois continuaram a alimentar a mentalidade salazarista: os corporativismos agora sindicais, o delírio do orgulhosamente sós agora em versão anti-capitalismo, o boicote político à governação agora contra o PS e a democracia. Está bem na hora de os afastarmos para estudar esse espólio, pois.

Grande reportagem: Funcionários públicos. Fernanda Câncio mergulha numa pequena amostra de um corpo bem maior que não tem qualquer voz, seja à esquerda ou à direita: aqueles que escolhem, por vocação e intenção, realizar-se profissionalmente como funcionários públicos. É um olhar que tem imediatas vantagens para os próprios, que pela primeira vez são reconhecidos no seu ideal e prática, e para os utentes dos serviços, que poderão acordar para um outro tipo de exigência: a da valorização deste perfil genuinamente republicano de funcionário público. Esta temática liga-se directamente com a da herança do século XX português, pois a Função Pública é o vazadouro de todas as mutações políticas e económicas sofridas no mais longínquo passado e a sofrer no mais próximo futuro.

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