Todos os artigos de Valupi

Só rir

Há pândegos, com Marcelo à cabeça e na cabeça, que dizem ter Passos sido o vencedor da fantástica odisseia da viabilização do Orçamento, começada no Pontal a 15 de Agosto, ou até antes. Temos, então, que venceu quem colocou condições impossíveis de cumprir, quem não apresentou alternativas de fundo, quem chantageou o Governo, quem alimentou a instabilidade política, quem deixou os bancos nacionais em pânico, quem alarmou a Europa, quem perdeu a face e quem não foi capaz de perceber (ou de aceitar) as inúmeras vantagens de uma abstenção sem condições.

Mais do que uma vitória de Pirro, estamos é perante a tonteira de um pirralho.

Nem só de Big Tasty vive o homem

Há dias, o nosso amigo Vega9000 sugeriu esta visita à cozinha do McDonald’s, leitura que se saboreia com proveito e gosto. Sou um dos que agradecem a existência da publicidade, pois, para além de me pagar as contas, é o meio que me informa das novidades na ementa desta casa de pasto sempre repleta de cavalgaduras; e quando aparecem, vou lá fazer um festim. Como foi o caso aquando do lançamento do Speciale, que prometia delícias à italiana. Contudo, revelou-se uma vigarice, pois a grosseria do molho de queijo anula por completo as subtilezas do parmesão (isto, admitindo que tem algum). Falhaste, Daniel Coudreaut, mas fica o mérito da tentativa.

O meu repasto favorito no McDonal’s é o Big Tasty, uma bomba calórica que dá para subir e descer a Serra da Estrela só para a desmoer, porém tem agora um moderno rival que ameaça o seu estatuto: Wrap Tomato & Cheese. O Wrap Ranch deixou de fazer sentido após o lançamento desta pequena maravilha, tendo apenas a utilidade de nos introduzir no conceito. Não adianto mais pormenores para não condicionar a experiência aos que a desconhecem (e também porque não há nada para dizer, é apenas comida debochada).

Cada ida ao McDonald’s, para mim, deve ter 3 meses de intervalo no mínimo, 12 no máximo, sendo ideal a periodicidade dos 6 meses. Slow food, afinal.

The silence of the lambs

A propósito da carta que Ana Paula Vitorino enviou aos deputados do PS, e independentemente da validade dos elementos que o Ministério Público de Aveiro tenha coligido para investigar Mário Lino por corrupção, vai ter muita graça registar a reacção de muitos que agora se calam, alguns gozando o prato, quando lhes tocar a eles, ou a alguém por quem tenham estima, as manobras dissolventes do Estado de direito que, na prática, se constituem como o principal esteio da oposição à direita.

Quanto aos que exploram a violação do segredo de justiça e as deturpações daí resultantes, o nosso agradecimento. Assim, ninguém se ilude a seu respeito.

Portugal à solta

O Brasil, internacionalmente pujante como nunca na sua História, elegeu uma mulher para o manter na prosperidade económica e desenvolvimento social. Por cá, temos gerontes caducos a concorrer à Presidência, tresandando a patriarquismo. E os partidos não são ambientes mais salubres no que respeita à presença de mulheres com autoridade política – coisa muito diferente da presença de mulheres junto da autoridade política.

Quem anda a tramar a afirmação política das portuguesas, os homens ou elas próprias?

Estupidamente simples

Sair do euro não se iria decidir por um Governo qualquer no auge de uma inaudita crise das políticas de financiamento da União Europeia no seu todo, nem que tivesse duas maiorias absolutas no Parlamento – sequer tal drástica decisão colheria favor dos eleitores, muito provavelmente. A rapidez das alterações no panorama dos mercados de financiamento cria problemas novos, onde a possibilidade de erro é elevadíssima e a necessidade de agir ainda maior. Logo, temos de alinhar com os países que nos têm enviado parte do seu dinheiro. Por azar, achamos que a receita não nos fará bem, mas ainda ninguém demonstrou qual é a alternativa.

Good food for good thought

Why is there so much bullshit? Of course it is impossible to be sure
that there is relatively more of it nowadays than at other times.
There is more communication of all kinds in our time than ever before,
but the proportion that is bullshit may not have increased. Without
assuming that the incidence of bullshit is actually greater now, I
will mention a few considerations that help to account for the fact
that it is currently so great.

Bullshit is unavoidable whenever circumstances require someone to talk
without knowing what he is talking about. Thus the production of
bullshit is stimulated whenever a person’s obligations or
opportunities to speak about some topic are more excessive than his
knowledge of the facts that are relevant to that topic. This
discrepancy is common in public life, where people are frequently
impelled — whether by their own propensities or by the demands of
others — to speak extensively about matters of which they are to some
degree ignorant. Closely related instances arise from the widespread
conviction that it is the responsibility of a citizen in a democracy
to have opinions about everything, or at least everything that
pertains to the conduct of his country’s affairs. The lack of any
significant connection between a person’s opinions and his
apprehension of reality will be even more severe, needless to say, for
someone who believes it his responsibility, as a conscientious moral
agent, to evaluate events and conditions in all parts of the world.

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Milagres de S. Caetano

Que as dificuldades económicas de Portugal, com décadas ou séculos de lastro estrutural e cultural, serão resolvidas pelo PSD em poucos anos interrompendo as obras públicas, acabando com serviços públicos e baixando os impostos das pequenas e médias empresas.

Que o PSD, ganhando as legislativas em Setembro, começaria logo a trabalhar para a crise grega de que só haveria conhecimento no mercado em Janeiro e consequências para Portugal em Maio.

Que os eleitores estão condenados a levar o PSD para o Governo nas próximas eleições mesmo sem conhecerem as suas propostas, como se o Poder lhes tivesse sido usurpado pelo PS e não existissem soluções alternativas para formar um Executivo sem sociais-democratas.

Que Sócrates, em simultâneo, tudo faz para se agarrar ao Poder e para fugir dele.

Lições do Vasquinho

Este jornal publicou a semana passada uma sondagem ao apoio que os nossos principais políticos têm no País. As sondagens valem o que valem. Mas não deixa de ser instrutivo verificar que o número de pessoas que hoje acredita em qualquer deles é sempre menor e, às vezes muito menor, do que o número de pessoas que não acredita. Falo em acreditar porque, se tirarmos o dr. Cunhal, os políticos portugueses quase não se distinguem uns dos outros e todos manifestam um honroso desejo de nos servir e fazer bem. A crescente hostilidade que lhes dedicamos só pode ser devida à crescente incredulidade com que os ouvimos. Se de facto ainda os ouvimos, coisa que me parece duvidosa.

Ao fim de quinze anos de regime, o que dantes com certo exagero se chamava «a classe política» talvez se tenha transformado numa genuína «classe», separada do País e em que o País não deposita a mais vaga confiança. Se isto sucedeu, foi inteiramente merecido. Existe uma palavra inglesa que descreve com exactidão o ruído indistinto e sem sentido, que os nossos políticos nos dirigem quando pretendem comunicar connosco. Essa palavra é cant. Segundo o dicionário de Oxford, cant significa: o calão ou linguagem secreta ou peculiar de uma seita, de uma classe ou de uma disciplina; uma linguagem insincera ou hipócrita; um conjunto predeterminado de palavras repetido mecanicamente; um estereótipo em moda; uma fraseologia vácua e pretensiosa, em especial se implicar falsa bondade ou fé.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 29 de Setembro de 1989

O barómetro e o termómetro

O Barómetro de Outubro da Marktest para o Diário Económico e TSF obteve os seus dados entre 19 e 24 de Outubro. Resultados: PSD sobe 4 pontos percentuais para os 42%, PS cai de 36% para 25%, Bloco de Esquerda com 10% (mais 3,3 pontos percentuais), CDU com 8,3% (mais 2,3 pontos) e CDS com 8,1% (mais 1,4 pontos).

Esta sondagem apanha dois acontecimentos cruciais no exacto momento em que influenciam a sociedade: primeiro, o anúncio das medidas do Orçamento; depois, o início das negociações entre PSD e Governo para a viabilização do mesmo. Por um lado, temos o choque sofrido pelos funcionários públicos, parte substancial do eleitorado socialista. Por outro, temos o alívio de ver o PSD comprometido com a governabilidade, colhendo o favor da classe média. Esta dinâmica explica a enorme, e imediata, erosão do PS no Barómetro. Estranhíssimo, paradoxal, seria que tal não se registasse.

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Discussões de primeira necessidade

Faz sentido: se o PSD vai negociar, é para obter uma qualquer vitória. E faz sentido: se o Governo pretende cumprir com os seus compromissos europeus, não pode admitir qualquer derrota. Negociar nestas condições, onde a austeridade já proposta penaliza sempre o Governo e o PS, só se justifica com um milagre no lado da receita. Catroga não o tinha na manga – talvez porque essa solução seja impossível, talvez porque o estado caótico da direcção do PSD tenha levado a novo desvario, agora para dar razão aos que pediram a abstenção sem negociação. [Luís Novaes Tito, meu colega de Companhia, fez um retrato muito melhor do que o meu]

António Costa, nesta Quadratura e ao minuto 39/40, defende um modelo que resolva o problema da governabilidade precária causada pela extrema dificuldade em obter alianças parlamentares à esquerda ou por eventuais vazios à direita. A solução é, simultaneamente, conservadora e ousada, e tão mais ousada quanto conservadora e vice-versa: garantir condições de viabilização de Governos minoritários através de um pacto de aprovação do Programa e Orçamento pelo maior partido da oposição, o que calhar em cada eleição. É uma sugestão que dá para alimentar discussões de primeira necessidade.

Fratricidas e lunáticos

A crise do Orçamento favoreceu Cavaco e a sua recandidatura. O fenómeno é inevitável e acabou com os laivos de esperança que Alegre pudesse ter de sequer chegar à 2ª volta. Acresce a pobreza estratégica da sua candidatura, incapaz de aproveitar o tempo disponível para construir um discurso sobre o qual apeteça ter opinião. Alegre é irrelevante, quando não é penoso. Os seus apoiantes também o sabem, por isso só têm um argumento a seu favor: ele não se chama Cavaco. Logo, quem não votar Alegre é cúmplice de Cavaco, insistem para assustar as crianças.

Sócrates repete com Alegre o mesmíssimo erro cometido com Soares em 2006, em ambas as situações levando o partido a apoiar candidatos presidenciais ostensivamente incapazes para a função. Mas trata-se de um erro que ele não podia evitar, embora o tenha de suportar – é a prova de que o PS é grande, muito grande, grande demais para um único homem. Muitos foram os que alinharam com o plano de Louçã para ter um cavalo de Tróia dentro do PS, alguém que minasse por dentro a autoridade de Sócrates. Alegre fê-lo exemplarmente de 2007 a 2009, altura em que conseguiu ter massa crítica interna para impor a sua candidatura ao PS. A desorientação actual do projecto é o corolário irónico do cinismo dos seus mentores.

A estouvada ambição de um poeta politicamente néscio, velha glória de trovas e ventos passados, incapaz de resistir à fantasia régia e recusando enfrentar os seus limites cognitivos, teve uma consequência terrível: impediu boas, óptimas, candidaturas à esquerda. A melhor de todas, para mim, seria a de Maria de Belém Roseira, mas a senhora jamais ousaria beliscar o sonâmbulo seu amigo e companheiro de jornada. O PS, evidentemente, tem muitos outros nomes que seriam capazes de congregar o centro e reduzir Cavaco à sua perversidade, incluindo independentes. Todos eles ficaram abafados pela nossa esquerda imbecil, a qual continua fratricida e lunática.