Lições do Vasquinho

Este jornal publicou a semana passada uma sondagem ao apoio que os nossos principais políticos têm no País. As sondagens valem o que valem. Mas não deixa de ser instrutivo verificar que o número de pessoas que hoje acredita em qualquer deles é sempre menor e, às vezes muito menor, do que o número de pessoas que não acredita. Falo em acreditar porque, se tirarmos o dr. Cunhal, os políticos portugueses quase não se distinguem uns dos outros e todos manifestam um honroso desejo de nos servir e fazer bem. A crescente hostilidade que lhes dedicamos só pode ser devida à crescente incredulidade com que os ouvimos. Se de facto ainda os ouvimos, coisa que me parece duvidosa.

Ao fim de quinze anos de regime, o que dantes com certo exagero se chamava «a classe política» talvez se tenha transformado numa genuína «classe», separada do País e em que o País não deposita a mais vaga confiança. Se isto sucedeu, foi inteiramente merecido. Existe uma palavra inglesa que descreve com exactidão o ruído indistinto e sem sentido, que os nossos políticos nos dirigem quando pretendem comunicar connosco. Essa palavra é cant. Segundo o dicionário de Oxford, cant significa: o calão ou linguagem secreta ou peculiar de uma seita, de uma classe ou de uma disciplina; uma linguagem insincera ou hipócrita; um conjunto predeterminado de palavras repetido mecanicamente; um estereótipo em moda; uma fraseologia vácua e pretensiosa, em especial se implicar falsa bondade ou fé.

Vasco Pulido Valente, in O Independente, 29 de Setembro de 1989

8 thoughts on “Lições do Vasquinho”

  1. Sim, desta vez, VPV tem toda a razão, razão a um ponto que ele, provavelmente, nem realiza bem. E’ que o problema não é “dos politicos” esta abstração idiota e infantil que deveria disqualificar imediatamente qualquer pessoa aos olhos do publico esclarecido.

    O problema é mesmo o tal “cant”, aceitemos chamar-lhe assim embora eu não veja nenhuma razão, outra do que sacrificar ao pedantismo, de utilizar uma palavra inglesa quando existem tantas bem portuguesas, conhecidas por todos, mesmo por quem não tem dicionario, ou não adquiriu o habito de o consultar (hem Valupi?)…

    Mas, se pensarmos bem, quem são os mestres de cant entre nos. Quem habituou a nossa “opinião” imatura e ainda tão pouco habituada a manejar o sentido critico, a babar-se diante da logorreia irresponsavel de quem gosta de falar de cor, no meio do café, com ares de velho do Restelo, sabendo que a infima quantia de pessoas que irão ver se existe alguma coisa por detras das palavras esta condenada a ser insignificante ?

    Ora bem, o que eu percebo do texto é que VPV se rendeu a uma evidência : realizou de repente que so pode ferrar o dente nos politicos que ELE merece…

    Não vamos estragar a festa dizendo mal quando o diagnostico até esta certo.

    Mas para merecermos outros politicos, ha que saber como ir busca-los onde estão : na nossa exigência, mas também no nosso rigor e no nosso sentido da responsabilidade.

    Esta na hora de merecermos melhor do que os VPV que por ai pululam…

    Por exemplo, alguém sabe dizer-me se existe uma alternativa credivel ao orçamento proposto por Socrates, completamente contrario a todos os seus compromissos eleitorais. Uma alternativa talvez não completamente impecavel, mas pelo menos suficientemente séria para que possamos dizer a quem nos quer impôr politicas de redução : calma que os Portugueses se deixam completamente enganar. Deixaram de ser estupidos…

  2. joão viegas, quero só lembrar-te que ele escreveu isto em 1989, embora seja previsível que tenha essa opinião formada já desde 1898. Estou a citá-lo para realçar como este tipo de crítica é recorrente desde o século XV, e como é absolutamente inútil para a alteração seja do que for.

  3. OK, não tinha visto. Portanto a cavalgadura escreveu o texto antes mesmo de ter ido ao Parlamento fazer a triste figura que sabemos (lembram-se ?)… So mesmo ele !

    Concordamos. Infelizmente, também concordaremos com um facto : a absoluta inutilidade dessas mensagens não deve ocultar o que é mesmo preocupante, que é continuarmos a dar colo a esse tipo de vaticinações, o que mostra que não são so os VPV que são permanentes entre nos, mas o nosso deficiente sentido critico, que era suposto ter evoluido de 1898 a esta parte.

    Vamos acreditar que evoluiu um pouco.

    Mas não chega. Ainda olhamos para Medinas Carreiras mistrurarem à nossa frente evolução da taxa de crescimento com evolução da econmia, sem que ninguém pie, para sindicatos de magistrados que confundem alegremente comparação de rendimentos e comparação da evolução dos rendimentos, etc.

    Esta na altura de aprendermos que a unica forma de fazermos com que deixem de nos tomar por burros, e a mais eficaz, é mesmo deixarmos de ser burros…

  4. Negociar uma abstenção? Isso é um luxo que não devia ser permitido nem sem crise. Não presta, votam contra. Querem ver que isto ficava tudo escavacado e é melhor andarem a negociar, hoje para aquecer e amanhã para arrefecer? Depois todos se queixam que esta merda não anda. Ponham uns atilhos no país e atem-nos à enorme vontade de mudança que se cheira em todo o lado. Daqui por uns anos cá estaremos para ver se não restou só a zona económica exclusiva marítima e tudo o resto não passa de despojos arqueológicos afundados. Ao pé de nós o titanic não será sequer uma sardinha.

  5. Mas haveria alguma coisa melhor para sabermos qual seria o programa do governo e o orçamento do PSD do que uma crise política? Estamos todos doidos? Há que tempos me sinto varrido à espera que nos apareça a Celeste Cardona de colar de pérolas e saia de pregas a explicar-nos timtimportimtim quais os males da nossa justiça? Ou isso, ou como se utilizam as cadernetas da CGD nas caixas. E o Bagão Félix até fala com as flores. É lindo.

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