O barómetro e o termómetro

O Barómetro de Outubro da Marktest para o Diário Económico e TSF obteve os seus dados entre 19 e 24 de Outubro. Resultados: PSD sobe 4 pontos percentuais para os 42%, PS cai de 36% para 25%, Bloco de Esquerda com 10% (mais 3,3 pontos percentuais), CDU com 8,3% (mais 2,3 pontos) e CDS com 8,1% (mais 1,4 pontos).

Esta sondagem apanha dois acontecimentos cruciais no exacto momento em que influenciam a sociedade: primeiro, o anúncio das medidas do Orçamento; depois, o início das negociações entre PSD e Governo para a viabilização do mesmo. Por um lado, temos o choque sofrido pelos funcionários públicos, parte substancial do eleitorado socialista. Por outro, temos o alívio de ver o PSD comprometido com a governabilidade, colhendo o favor da classe média. Esta dinâmica explica a enorme, e imediata, erosão do PS no Barómetro. Estranhíssimo, paradoxal, seria que tal não se registasse.

O factor mais interessante para a antecipação de cenários é aquele que permite associar a subida do PSD à sua colaboração percebida com o Governo. Já existiam dados publicados acerca da vontade nacional para a aprovação do Orçamento, esta sondagem vem confirmar aquilo que é uma evidência fora da Lapa: o eleitorado quer estadistas, dispensa tribunos – particularmente, os imaturos ou raivosos. A comunidade, na sua inteligência colectiva, entende que há ameaças externas que pedem coesão do Poder. Por isso aplaudiu o acordo para o PEC II, vendo como anticlímax, e elemento perturbador, o pedido de desculpas de Passos na ocasião e todas as manobras desastradas seguintes dos sociais-democratas. Estes números apenas expressam os anseios do eleitorado, nada dizem do valor do PSD e de Passos. Na verdade, Passos e PSD não valem nada por nada possuírem de valor – não têm ideias, equipa ou credibilidade, nem se espera que venham a ter.

A incapacidade da oposição em geral, e do PSD em especial, para ir ao encontro do eleitorado tem múltiplas causas, pois sim, sendo matéria de lana caprina nas temáticas da psicossociologia e disciplinas congéneres. Os agentes políticos são muito mais passivos do que a encenação do seu poder representa, acabando por repetir fórmulas, códigos e estratégias que já não têm eficácia. A pressão dos pares, e a ganância para os ganhos de curto prazo, boicota-lhes o poder intelectual e a salubridade moral. Acabam trémulos, vacilantes, febris. Se querem tratar-se, precisam de dar atenção ao termómetro bem antes de se emocionarem com o barómetro.

13 thoughts on “O barómetro e o termómetro”

  1. as sondagens da marktest registam flutuações enormes para terem alguma credibilidade. os jornaleiros lisboetas exultam com estas sondagens mas são uns esquecidinhos: pouco antes do último verão a mesma markest dava 48% ao ppd e vinte e pouco ao ps. passado pouco o psd desceu mais de 10%. esperemos por outras sondagens e o alegre que leve com o descontentamento (era bem feito, não era?).

  2. Com a pressa de «abocanhar» o poder, o PSD ainda acaba vitima da sua gula. Acredito, porém, que é desta que vem aí um «presidente, um governo e uma maioria» conforme desejo de Sá Carneiro. Apenas uma pequena nuance: se Passos Coelho lá chegar será o vice x vice do PR/PM Cavaco Silva. Vai ser um espectáculo degradante e os lacaios do PCP e do BE, bem cedo, desde há cinco anos, diligenciaram a passadeira vermelha.

  3. Devia ser retirado à dotação que o PSD aufere no ano corrente o montante equivalente à subida dos juros da dívida que é da sua responsabilidade. O tabu de uma semana, traduzido em euros, provocaria um abalozinho na São Caetano.

  4. É verdade Penélope. E mais abalozinho existiria se se descobrisse quem anda a ganhar dinheiro com o prolongar do tabu… sim porque alguém anda, e é claramente amigo do PSD.

  5. Para estes resultados ajuda bastante o facto de o PSD se limitar a ser vago e não indicar onde se deveria cortar na despesa, deixando essa parte para o Governo. Mas no caso de se ir para eleições é provável que tenham de nos fazer esse especial favor. A menos que pensem que os portugueses acreditam que com eles a meta do défice desaparece, ou que têm a obrigação de lhes passar um cheque em branco, que é coisa que não se cansam de repetir que não podem passar ao Governo.

  6. Guida, totalmente de acordo. Em contexto eleitoral, vão ter de se definir. Mas, entretanto, para haver mesmo eleições em Maio, só chumbando o orçamento! Caso se abstenham, não estou a ver que crise política podem criar em 2011 que deite o governo abaixo. É que, com uma moção de censura, precisarão dos votos do PC e do Bloco. Talvez seja por isso que hesitam neste momento, marimbando-se imperialmente para a catástrofe anunciada…

  7. E já agora meninas, em cenário de eleições preferem que o Coelho fale verdade ou que iluda/minta? Nas ultimas eleições tivemos o resultado, quem falou a verdade perdeu, quem iludiu ganhou. E essa ilusão está-nos a sair do bolso

  8. O Passos não tem de definir grande coisa, caso haja eleições, porque nesse cenário, tudo o que tiver a definir será insuficiente para evitar que venha o FMI definir o que é preciso fazer. E isso seria bom para Passos: o problema não é culpa dele, mas de Sócrates, e a solução também não seria culpa dele, mas do FMI. O melhor cenário para Passos é o nosso pior cenário.

  9. Adolfo Dias, em matéria de ilusionismo Sócrates ainda tem muito a aprender com Passos. Aliás, se o Orçamento fosse obra sua, Passos não faria ilusionismo mas sim magia.
    E quanto a essa verdade apregoada por quem perdeu as eleições em que se previam sérias dificuldades para a economia do País, foi o que apregoaram desde sempre, é natural que tenham acertado. Mas durante a campanha deviam ter entrado em pormenores, é que não me lembro de ter ouvido falar na Grécia, nas agências de rating, etc. Esperemos que a bola de cristal dos novos detentores da verdade seja mais sofisticada.

  10. Tenham calma, ainda há umas horas chovia torrencialmente e agora o céu já aclarou e o sol começa a aparecer. Tenham calma, ainda há muito pano para mangas. Os que gostam de coelho ainda vão ter que esperar, e não é certo que ele lhes venha alguma vez ser servido.

  11. Ainda há outro dado do Barómetro não referido aqui, Val. Uma questão sobre a crença dos inquiridos quanto à possibilidade de uma melhor alternativa à do governo…52% responderam que não existe. Esquizofrenia pré-eleitoral?

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