Todos os artigos de Valupi

Revolution through evolution

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How to Ace an Interview: Feel Powerful
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Tomatoes, Peppers, Strawberries Now Grow Well in Greenland’s Arctic Valleys
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Mindfulness Improves Reading Ability, Working Memory, and Task-Focus
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Mindfulness from Meditation Associated With Lower Stress Hormone
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Music Benefits Both Mental And Physical Health

Para acabar de vez com o Acordo Ortográfico

[…] Se, por análise e meditação, eu me convencer de que devo usar de determinada ortografia – seja ela a agora oficial, ou não – é meu dever cultural escrever nela, pelo menos em livros, em que estou sub specie aeternitatis, liberto da hora e do lugar. Convicto da vantagem cultural dessa ortografia, passa a constituir meu dever social o fazer dela, não só a defesa e justificação, senão também a propaganda. Essa propaganda será, pelo menos, o escrever em essa ortografia. Muito maior será essa a probabilidade de no futuro ela se adoptar, e sê-lo-á na razão da valia que esse futuro me reconhecer – elemento esse, evidentemente, de que não posso ser juiz; embora, por mais modesto que se possa ser, alguma confiança tem alguém em seu mérito para fazer a tentativa de o fazer saber dos pósteros. Até do ponto de vista egoísta tenho tudo a ganhar, nada a perder: se errei e a minha obra dura, os futuros ma porão na ortografia deles, sem me levar a mal o haver escrito em outra; se acertei, eles me conferirão, além dos louros abstractos, de mantenedor da pureza gráfica da língua, uma espécie, salvo ser póstuma, de coroa ob cives servatos.

De aqui pois se conclui, de todos os modos e por todos os caminhos, que: o problema da ortografia é o da palavra escrita, nada tendo essencialmente que ver com a palavra falada, visto que esta nada tem com aquela; que sendo a palavra escrita um produto da cultura, ao contrário da falada, que o é do simples uso, hábito ou moda, e sendo a cultura um produto do indivíduo, cada indivíduo tem – salvo casos episódicos de força maior – o dever cultural de escrever na ortografia que achar melhor, visto que essa ortografia é a expressão de esse pensamento; que esse indivíduo tem o dever social de fazer a propaganda, com a força de pensamento que nele caiba, de tal ortografia.

Resulta também, como provei, que: a ortografia, sendo um fenómeno cultural, é puramente individual, não tendo o Estado coisa alguma com ela, ou de qual qualquer usa, salvo nos estabelecimentos oficiais ou escolares, onde tem a legítima ingerência; que nenhum mal social advém da adopção de tal critério, antes algum bem resulta, como de todos os conflitos doutrinários, estímulos do pensamento individual e portanto da cultura geral.

[…]

FERNANDO PESSOA, A Língua Portuguesa, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, pp. 28-30

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Para mais desta fruta mas em prosa de 2013: Plúvio e o seu serviço público

Um passado de traição nunca perde actualidade

Almas puras e verdadeiras acusam Sócrates de não ter conseguido forçar a Alemanha, a Comissão Europeia, o BCE e o FMI a acabarem com as políticas de austeridade desmiolada na Europa após a queda da Grécia. Talvez estas almas acreditem piamente que Sócrates seria capaz de o fazer, e que só não o terá feito por contumaz mau feitio. Às tantas, estas almas poderão mesmo conceber que Sócrates devia ter pegado no seu Executivo minoritário e ter levado Portugal a sair da Zona Euro por decreto algures no Verão de 2010 durante um fim-de-semana. Ou talvez estejam a sugerir que caso fossem essas almas a mandar no Governo português até aos primeiros três meses de 2011 tudo o que era problema de financiamento do Estado estaria há muito resolvido e hoje passaríamos os dias a rir da maluqueira da Merkel.

Consta que Sócrates também errou ao aceitar governar em minoria depois das eleições de 2009. O próprio o confessou, o que normalmente bastaria para o aceitarmos sem reservas não fosse estarmos a lidar com o rei dos mentirosos. Eis então o que ele devia ter feito. Era assim. Espera. Só mais um bocadinho. Portanto. Sócrates ia ter com o Presidente da República, o tal que tinha acabado de patrocinar uma tentativa de perversão das eleições legislativas contra, precisamente, o tal Sócrates. E dizia-lhe. Presidente. É impensável ir para o Governo sozinho. Há que envolver outras forças políticas. O PSD estará em eleições internas dentro de meses pelo que neste momento não há ninguém nesse partido capaz de selar uma aliança governativa. O CDS exige a minha cabeça para começar a conversar. E o BE e o PCP têm a rua em polvorosa contra mim e o modelo de sociedade que propõem é impossível de respeitar, quanto mais de satisfazer. Presidente. Nestas condições, venho rogar a Vossa Excelência que promova uma solução governativa entre o PS e a deputada Heloísa Apolónia. Caso não chegue para garantir a estabilidade parlamentar, então o melhor é fecharmos a Assembleia da República e o Senhor Presidente poderá começar a enviar as suas ordens ao Governo pelo Facebook.

O PEC IV iria chegar? Isso é como perguntar se a vida chega para evitar a morte. Não só não iria chegar por razões inerentes à complexidade dos problemas económicos e à volatilidade do clima financeiro como PSD, CDS, BE e PCP continuariam a boicotar de todas as formas possíveis a actividade do Governo. Mas o PEC IV foi um daqueles momentos na História em que alguns tentaram proteger os portugueses e em que outros os abandonaram. Não admira que tantos queiram agora enterrar fundo no esquecimento o seu passado de traição.

Esther na escola

‘a estrada de auschwitz foi construída pelo ódio, mas o seu pavimento foi a indiferença’, diz esther, citando ian kershaw. tomo a liberdade de acrescentar a estupidez. porque o ódio é acima de tudo estupidez. e porque a indiferença é acima de tudo estupidez. e porque só a estupidez permite que alguém escreva um texto destes, e o publique, sem perceber que está a exemplificar exactamente aquilo que supostamente pretendia combater.

f.

 

*

O infame texto de Esther Mucznik – Hitler na escola – leva-nos para mais um daqueles momentos em que o grotesco à nossa frente nos obriga a pôr como primeira hipótese explicativa a possibilidade de a autora estar doente, ou a passar mal por efeito de trauma recente, ou sob a influência de substâncias químicas capazes de provocarem estados de consciência alterada. Mas a causa mais provável talvez seja mesmo esta que a Fernanda aponta: a estupidez.

A favor, vou citar um excerto particularmente estúpido no abjecto escrito:

O ex-chefe do Governo de Portugal que durante seis anos nos conduziu de vitória em vitória até à situação actual, que fugiu para França e das responsabilidades que nunca reconheceu, e cujo único comentário que exprimiu a propósito do Memorando – que ele próprio assinou – foi que as dívidas não são para pagar, esse homem não merece um espaço de autopromoção numa televisão que é paga com o dinheiro dos contribuintes.

Repare-se que não há neste jorro de fel uma única ideia que se aproveite. Isto é prosa de jota laranja e de taxista. Isto, deixa-me cá ver se arranjo um comparativo ainda mais insultuoso, podia muito bem ter sido assinado pelo José Manuel Fernandes ou pelo João Miguel Tavares. O que me prende em espanto a atenção, contudo, é o preciosismo de se ter ido buscar uma declaração de Sócrates a respeito das dívidas não serem para pagar – que no original reza assim: “As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se.” Pelos vistos, Esther Mucznik, alguém que viveu em Israel e em Paris onde estudou, respectivamente, Língua e Cultura Hebraicas e Sociologia na Sorbonne, que é membro da direcção da Comunidade Israelita de Lisboa e sua vice-presidente desde 2000, que é fundadora da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos e membro dos seus corpos dirigentes, que é redactora da Revista de Estudos Judaicos, que é coordenadora da Comissão Instaladora do Museu Judaico e membro da coordenação do Itinerário Europeu do Património Judaico, sendo ainda co-fundadora da Associação Universos, Associação para o Diálogo Inter-Religioso e do Fórum Abraâmico de Portugal, acha que as dívidas dos Estados são para pagar sob pena de esses Estados passarem por caloteiros.

Estamos perante a metáfora do Estado como família. Consiste esta operação cognitiva em estabelecer uma analogia entre o que se passa na esfera doméstica e o que se deverá passar na esfera estatal e governativa. Adentro nessa lógica, o modo como uma família gere os seus rendimentos e despesas institui-se como matriz do que deverá ser a boa prática na gestão de um Estado: se uma família gasta mais do que ganha, ficará endividada e isso é algo da sua inteira e exclusiva (ir)responsabilidade – portanto, tal-qualmente, um Estado com dívidas é algo a evitar a todo o custo caso este pretenda sair à rua com a cara destapada e não ser alvo dos olhares reprovadores da gente séria, a tal gente que aparenta não ter dívidas nem dúvidas. Esta fórmula tem a beleza da simplicidade, por isso cativa demagogos e broncos por igual. Mas é uma expressão da estupidez, por um lado, e um estratagema ideológico, por outro.

Numa curiosa coincidência temporal, a Shyznogud publicou uma ligação para a obra completa de Jean-Jacques Rousseau – À distância de um clic – onde os valentes poderão apreciar um texto escrito no ano do Terramoto de Lisboa: DISCOURS SUR L’ECONOMIE POLITIQUE. Neste artigo, Rousseau casca em Jean Bodin a propósito de se conceber o Estado como uma família. Bodin tinha recorrido a essa analogia para justificar uma soberania absoluta e indivisível para o rei, o qual figuraria como um pai cujas decisões imitariam a natural ordenação do poder numa casa de família. Rousseau contrapõe que um pai procura adquirir património para o distribuir pelos membros da sua família. Se um rei se reger por estas inclinações e paixões naturais, então não estará a respeitar o interesse público. Bem ao contrário, o rei deve é servir a “vontade geral”.

Um soberano que se dedique a respeitar o bem comum é uma entidade que está sempre em dívida para com a comunidade. Simetricamente, um Estado que emita moeda está no mesmo passo a criar dívida. Só que essa dívida – entenda-se, essa moeda – é exactamente o que vai permitir a produção de riqueza através da sua circulação pela sociedade e pelo Estado. Exactamente como acontece com uma soberania que se cumpre no serviço aos cidadãos, sendo o garante dos seus direitos e liberdades.

Dito isto, não espero que Esther Mucznik deixe de odiar Sócrates. Os mistérios não se desvendam, sofrem-se. Apenas lhe desejo que a sua estupidez não seja tão grande que passe o resto da sua vida na ignorância de algumas noções básicas de economia e de política.

Judite de Sousa acusa Sócrates de ter olhado para ela

A Judite, uma jornalista que não consegue esconder a sua agenda política, queixa-se de Sócrates por este não se ter sujeitado sem resistir às suas tentativas de manipulação. Mas a subjectividade retórica do “olhar feroz” dá bem conta do terreno psicanalítico donde fala e onde se passeia, qual Lady Godiva montada num burrico assustado.

“Sócrates tinha uma estratégia enquanto entrevistado. Fala por cima da pergunta, ignora-a para levar os temas para onde quer”, lembra Judite Sousa. E se o jornalista insiste, “há faísca”.

José Sócrates é um entrevistado “agressivo, duro, muito duro. Tem um olhar intimidatório, o que é muito relevante na televisão. Tem um olhar feroz”, descreve Judite Sousa.

A atual diretora adjunta de informação da TVI, deparou-se muitas vezes com o olhar do antigo Primeiro Ministro quando moderou, estava ainda na RTP, o espaço de comentário entre Sócrates e Pedro Santana Lopes. Continuou a enfrentar em diversas entrevistas o seu “olhar feroz” quando já era Sócrates Primeiro Ministro.

Judite Sousa diz que José Sócrates “tem um olhar feroz”

Os verdadeiros socráticos

Sócrates, o anticristo do laranjal

Quando falamos da reacção da direita portuguesa a Sócrates temos de começar por manter aprioristicamente presentes estes três factos:

– A direita portuguesa deixa-se representar ideológica e moralmente pelo Correio da Manhã.

– A direita portuguesa não se perturba quando um Presidente da República é cúmplice, se é que não foi mentor, de uma conspiração para perverter dois actos eleitorais. E não se perturba porque esse Presidente da República foi eleito pela direita portuguesa, o que permite concluir que a direita portuguesa apenas lamenta que esse Presidente da República não tenha alcançado pleno sucesso.

– A direita portuguesa educou, instruiu e preparou o casal Passos-Relvas para fazer exactamente aquilo que esse casal fez e faz.

A partir destas evidências é mais fácil de entender a grave perturbação que Sócrates provoca na já gravemente perturbada direita portuguesa. Nunca antes tinham encontrado um adversário que lhes tivesse tão pouco respeito, precisamente por conhecer de ginjeira a direita portuguesa. E foi necessário que o mundo se afundasse na maior crise económica dos últimos 80 anos, a que se seguiu de imediato a maior crise da Zona Euro, para que a direita portuguesa tivesse finalmente um programa político de interesse para o povoléu: diabolizar Sócrates.

Convenhamos que não se trata de uma originalidade, pois é algo que se faz desde que há humanos a disputar através do uso da palavra o poder num grupo, algures no neolítico. Mas resulta. Caluniar o adversário, macular o seu nome, assassinar-lhe o carácter é um ímpeto cujas raízes são biológicas, nasce do instinto de sobrevivência e é um exacto substituto da agressão física. O que se pretende é a morte simbólica do adversário através da sua ostracização. Foi neste quadro antropológico que Sócrates se tornou o alvo de campanhas de ódio que não têm paralelo na democracia em Portugal.

Que diria a direita portuguesa se Sócrates fosse um dos seus? Diria que as perseguições de que é vítima ficam na História como a prova provada da sua importância, da sua coragem, da sua excepcional capacidade de liderança que estaria a incomodar os maiores interesses instalados. Aliás, a direita portuguesa o que mais adoraria era poder contratar Sócrates, como se viu aquando das últimas eleições para o PSD. Vários militantes soltaram esse desejo, dizendo que o partido devia abandonar de vez o serôdio cavaquismo de Ferreira Leite, e sua réplica nos baronetes Paulo Rangel e Aguiar-Branco, e entregar-se à juventude desempoeirada de Passos Coelho, o Sócrates do laranjal. Azarinho, ó pás, essa laranja estava demasiado podre.

Mas Sócrates não pertence à direita portuguesa. Circunstância que nos permite observar – mutatis mutandis – um fenómeno de alienação colectiva congénere das grandes perseguições históricas da Inquisição, das Bruxas de Salém, do Ku Klux Klan, do Macartismo. Trata-se de um processo de deturpação cognitiva a uma escala colectiva. No caso de Sócrates, o plano passou por retirar do debate político o contexto internacional que influenciava a situação nacional de modo a hipertrofiar até ao absurdo a responsabilidade do Governo socialista na evolução das contas públicas. Em simultâneo, lançaram-se campanhas negras e planos de espionagem ao mais alto nível, envolvendo magistrados e polícias, de modo a capturar material para continuar a alimentar as campanhas negras e, com sorte, reunir documentos capazes de levar Sócrates a tribunal fosse lá pelo que fosse e desse no que desse. Daqui resulta que existe um número indeterminado de indivíduos, que se calhar até atinge a fasquia dos milhões, a terem como certo que Sócrates roubou uma quantidade estapafúrdia de dinheiro, que esse dinheiro foi colocado em offshores, que é desse saque que ele vive luxuosamente em Paris e que as autoridades nada fazem para o apanhar apesar de toda a gente saber o que aconteceu porque… ele é o Sócrates – quer dizer, porque ele tem poderes sobrenaturais, ele não é humano, ele é um monstro.

A direita portuguesa, a direita do Correio da Manhã, mas também a direita do Pacheco Pereira que andou a jurar que Sócrates tinha um gabinete onde se utilizavam técnicas dos serviços secretos para assim controlar não se sabe bem o quê ou quem que ele essa parte já não explicou por manifesta falta de tempo, e a direita da Manela que chegou a verbalizar o seu pavor caso Sócrates derrotado em Junho de 2011 continuasse como deputado, e a direita do Cavaco que não descansou até o derrubar e depois ainda o continuou a maldizer, e a direita dos direitolas dirigentes e arraia-miúda que escrevem, gritam e cantam mil vezes ao dia o estribilho “Sócrates levou-nos à bancarrota”, toda esta gente seríssima e competentíssima vive fascinada, obcecada e desvairada com Sócrates. Sãos eles os verdadeiros socráticos, coitaditos.