Para acabar de vez com o Acordo Ortográfico

[…] Se, por análise e meditação, eu me convencer de que devo usar de determinada ortografia – seja ela a agora oficial, ou não – é meu dever cultural escrever nela, pelo menos em livros, em que estou sub specie aeternitatis, liberto da hora e do lugar. Convicto da vantagem cultural dessa ortografia, passa a constituir meu dever social o fazer dela, não só a defesa e justificação, senão também a propaganda. Essa propaganda será, pelo menos, o escrever em essa ortografia. Muito maior será essa a probabilidade de no futuro ela se adoptar, e sê-lo-á na razão da valia que esse futuro me reconhecer – elemento esse, evidentemente, de que não posso ser juiz; embora, por mais modesto que se possa ser, alguma confiança tem alguém em seu mérito para fazer a tentativa de o fazer saber dos pósteros. Até do ponto de vista egoísta tenho tudo a ganhar, nada a perder: se errei e a minha obra dura, os futuros ma porão na ortografia deles, sem me levar a mal o haver escrito em outra; se acertei, eles me conferirão, além dos louros abstractos, de mantenedor da pureza gráfica da língua, uma espécie, salvo ser póstuma, de coroa ob cives servatos.

De aqui pois se conclui, de todos os modos e por todos os caminhos, que: o problema da ortografia é o da palavra escrita, nada tendo essencialmente que ver com a palavra falada, visto que esta nada tem com aquela; que sendo a palavra escrita um produto da cultura, ao contrário da falada, que o é do simples uso, hábito ou moda, e sendo a cultura um produto do indivíduo, cada indivíduo tem – salvo casos episódicos de força maior – o dever cultural de escrever na ortografia que achar melhor, visto que essa ortografia é a expressão de esse pensamento; que esse indivíduo tem o dever social de fazer a propaganda, com a força de pensamento que nele caiba, de tal ortografia.

Resulta também, como provei, que: a ortografia, sendo um fenómeno cultural, é puramente individual, não tendo o Estado coisa alguma com ela, ou de qual qualquer usa, salvo nos estabelecimentos oficiais ou escolares, onde tem a legítima ingerência; que nenhum mal social advém da adopção de tal critério, antes algum bem resulta, como de todos os conflitos doutrinários, estímulos do pensamento individual e portanto da cultura geral.

[…]

FERNANDO PESSOA, A Língua Portuguesa, Lisboa, Assírio & Alvim, 1997, pp. 28-30

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Para mais desta fruta mas em prosa de 2013: Plúvio e o seu serviço público

2 thoughts on “Para acabar de vez com o Acordo Ortográfico”

  1. excelente a ideia arquitectónica, de dentro para fora, de a escrita ter muito mais que ver, não com a construção, com o desenho que se afigura pensamento – individualidade -, da língua e, acrescento, da linguagem.

    mas a biopolítica não é aquilo que o AG diz, não – é o oposto e, por isso, o que está em falta.

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