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Passos, o Choné Psicopata
Passos acha que o Tribunal Constitucional não é o órgão mais competente para fiscalizar a Constituição. Quem o deveria fazer era o próprio Passos e mais uma mão-cheia de constitucionalistas que ele conhece. Daí denunciar o erro que esse Tribunal terá feito, o erro de ter cumprido a Constituição – porque, lá está, é ao Tribunal Constitucional, e só ao Tribunal Constitucional, que compete validar a constitucionalidade das leis, coisa que muito aborrece o laranjal.
Passos estava embalado. E declarou que o Tribunal Constitucional tem um programa de Governo: aumentar impostos. O nosso salvador, contudo, vai salvar-nos da maldade do Tribunal Constitucional. Nada de impostos, temos é de pedir desculpa à Troika pelas nossas falhas constitucionais e incendiar o Estado Social até só restarem cinzas para distribuir pelos famélicos.
Passos terminou invocando a legitimidade eleitoral e a Constituição para se considerar mandatado para continuar a violar as promessas eleitorais e a Constituição. Felizmente, a literatura científica a respeito da psicopatia é abundante.
Como dizia Unamuno
Falar do que aconteceu em Março de 2011 não é falar do passado. Na dimensão histórica, esse período pertence à contemporaneidade. E na dimensão política, o que aí se passou explica parte fundamental do presente e condiciona parte essencial do futuro. Pela mesma lógica, falar de 2011 implica falar de 2009. Nesse ano, um Governo foi deixado em extrema debilidade para ser boicotado todos os dias e todas as horas por interesse antipatriótico do PSD, CDS, BE, PCP e Presidente da República. De finais de 2009 a 2011, a crise económica mundial profunda começada em 2008 veio a agravar-se de forma drástica e caótica para Portugal com a erupção da crise das dívidas soberanas. Pois nem uma situação de inescapável, prolongada e imprevisível emergência nacional levou as forças políticas a abdicarem dos seus calculismos oportunistas e sectários e a terem um gesto de magnanimidade em ordem a proteger os portugueses.
Passos e Portas queriam governar com o FMI. Fizeram campanha para a capitulação do País aos mercados, chegando ao ponto de recusar o acordo que o Governo socialista tinha obtido na Europa para evitar/adiar o resgate. Aceitaram governar com o Memorando, dito conter as soluções que o próprio PSD proporia mesmo sem Troika a aterrar na Portela. E ainda receberam da população uma inércia, ou indiferença, ou complacência, ou cumplicidade, ou um pouco de cada, que permitiram desrespeitar de forma radical as promessas eleitorais e deturpar de forma insana o acordo inicial com os credores. O povo comeu e calou, nem sequer reagindo aos insultos raivosos com que os trafulhas foram colorindo a sua colossal incompetência. Foi preciso chegar-se à proposta da TSU, em Setembro de 2012, para a comunidade finalmente abandonar a letargia.
A grande lição do modo passivo como os portugueses reagiram ao facto de terem sido tratados como gado para abate é esta: teria sido possível em 2011, e ainda mais algures em 2010, ter celebrado um acordo entre as forças políticas para constituir um Governo dedicado ao combate contra uma Europa que estava disposta a oprimir os países mais atingidos pela pertença à moeda única. As elites portuguesas não o permitiram, preferindo entregar a gestão da maior crise nacional após o 25 de Novembro nas mãos do casal Passos-Relvas. As elites portuguesas, a começar em Alcácer-Quibir, tiveram sempre uma fatal atracção para o suicídio.
Exactissimamente
Não sejas piegas, Passos
“Não vou antecipar nenhuma resposta do TC, aguardarei a decisão que vier no acórdão. A única coisa que posso dizer é que vivemos tempos históricos e não nos devemos distrair”, disse Passos Coelho. E logo depois acrescentou: “Todos nós temos responsabilidades na forma como lidamos com isso: tem o Governo, que não se pode distrair com aspectos menores, as instituições democráticas todas, o Parlamento, que tem de ter responsabilidade, o TC, que também tem de ter responsabilidade nas decisões que vier a tomar e no impacto que elas possam vir a ter no país.”
Força nisso. Avança para a responsabilização do Tribunal Constitucional pelo facto de teres apresentado dois Orçamentos seguidos que violam a Constituição. Do alto destes três anos em que tens mentido e escavacado o País como se não houvesse amanhã, tenta lá atiçar o povo contra os juízes para ver se pega.
Vamos, sem medos, Passos. Isto não passa de mais uma etapa da selecção natural. Abandona decidido a tua zona de conforto e acaba com o regabofe que a Constituição está a provocar no teu projecto de empobrecimento à séria. Vá, bute, rápido. Toca a meter na ordem o Estado de direito, esse vício dos democratas.
Da simplicidade da procura do conhecimento permanente
Talvez algum dia se escreva um romance sobre estes tempos em que um grupo de desmiolados aldrabões, e de aldrabões desmiolados, subiu ao poder através de uma golpada que afundou Portugal e depois ainda conseguiu transformar a maior crise económica das nossas vidas numa tragédia social e numa comédia política.
Cavaco merece uma estátua que registe o seu exemplo
Como o Miguel muito bem aponta, Cavaco recusou pronunciar-se a respeito das declarações de Sócrates que o visavam dizendo:
Há uma coisa que um Presidente da República nunca faz: é comentar comentadores.
Ora, há outra coisa que Presidente da República algum havia feito antes de Cavaco. Essa de atacar um ex-primeiro-ministro. A propósito de uma situação de suposto protocolo e onde a ligação ao contexto de responsabilidade presidencial é omitido e branqueado. Por fim, fazendo esse ataque solenemente, oficialmente e por escrito.
Mas o que mais importa neste episódio é o facto incontornável e inegável: Sócrates falou de Cavaco numa entrevista, a primeira depois de ter cessado funções governativas. Sócrates falou como um ex-primeiro-ministro que foi alvo de uma difamação inaudita por parte de um Presidente da República ainda em funções.
A hipocrisia, sonsice, pulhice e cristalina imoralidade de Cavaco deviam ser preservadas para as futuras gerações nelas se puderem arresinar na forma de uma estátua a colocar por sorteio numa qualquer lixeira. Contem comigo para comparticipar nos custos da obra.
A direita e o seu folclore
Assistir à degradação, estupidez e violência da direita portuguesa – a qual domina por completo as principais instituições políticas, os principais meios de comunicação social, os principais grupos económicos e os principais gabinetes de advogados – chega a ser um espectáculo admirável. Tanta gente junta, com tanto poder, saída das melhores escolas, rodeada do maior conforto, usufruindo da maior segurança, detendo todos os meios políticos para decidirem e realizarem, e o resultado é o empobrecimento, a miséria e o desespero de uma população inteira.
A história da direita portuguesa, tirando certos casos individuais, é uma tragédia de um provincianismo soberbo e bacoco. Não foi por acaso que ser presidente da assembleia geral da Associação de Folclore da Região de Turismo dos Templários valeu a Miguel Relvas a valorização do seu currículo pela Universidade Lusófona.
Nada que não soubéssemos desde 5 de Junho de 2011
Exactissimamente
Com quatro palavrinhas apenas
Quatro palavras chegaram para Relvas mostrar o estado a que chegámos e como foi possível aqui termos chegado:
Saio por vontade própria.
Parece que em Portugal nem sequer a oposição tem algum interesse em responsabilizar o primeiro-ministro por ter mantido a confiança política neste traste apesar das ofensas soezes, dos perjúrios e das chantagens.
É bem possível que este país já tenha acabado mas ainda ninguém teve pachorra para nos telefonar a avisar.
Manuel Acácio, toma cuidado…
Os jornalistas têm um superpoder: variadas pessoas, aparentando estar na posse das faculdades mentais respectivas, sujeitam-se voluntariamente às suas perguntas. É uma situação onde o jornalista é sempre a parte forte, mesmo quando não obtenha qualquer resposta a uma dada interrogação. Essa força começa logo pela escolha das questões, as quais obrigam o entrevistado a deixar-se atingir pelos seus pressupostos e eventuais associações, e continua através da exploração das declarações obtidas num contexto onde o sujeito interpelado corre sempre o risco de se expor demasiado ou equivocamente.
Dir-se-ia que esta prática contribuiria para o conhecimento e fiscalização dos agentes institucionais e fácticos que constituem e moldam a sociedade, assim fazendo da imprensa um verdadeiro 4º poder. Porém, em Portugal é raro encontrar jornalistas que se cumpram neste ideal, sendo muito mais frequente contemplar o pífio espectáculo onde os jornalistas são cobardes e estúpidos ou se concebem como rivais e juízes dos políticos, usando de uma soberba e acrimónia que nasce de vaidades desvairadas, perseguição agendada e ausência de respeito deontológico.
O Manuel Acácio, no Fórum TSF, tem sido eficazmente acutilante nos seus diálogos com os convidados, gerando situações caricatas onde a retórica de fachada se desmonta e cai no chão com estrondo. No primeiro exemplo, Arménio Carlos é levado a admitir que, afinal, pois é, enfim, não pretende contribuir para o aumento do salário mínimo. A culpa estará numa tal caixa de Pandora que poderia ficar aberta, e isso era um sarilho do camandro. Deve ser uma caixa de grande importância, talvez aquela onde guarda as jóias da família. Certo, certinho, é que ele entra cheio de confiança no pugilismo sindical e sai com o rabinho entre as pernas apenas porque foi confrontado com a evidência do seu indestrutível sectarismo. Oiça-se: Arménio Carlos e a mitologia grega
O segundo exemplo é como uma caixa de Petri dos tratantes que afundaram Portugal. Nuno Encarnação, de resto uma figura simpática e que aparenta ser civilizada, acumula com ser deputado do PSD o ter de falar em público. Isso leva-o para territórios desconhecidos onde rapidamente se perde e entra num estado de tamanha desorientação que o seu cérebro desliga-se e o aparelho vocal começa a funcionar em piloto-automático. Os interessados em testemunhar o fenómeno irão encontrar este conjunto de nós cegos:
– O Governo está apenas a cumprir o Memorando, o qual é responsabilidade do PS e não do PSD <-> O Memorando obriga a fazer reformas e a conter despesas, o que o PSD considera ser exactamente a solução indicada para os problemas nacionais
– O Memorando foi mal gizado pelo PS <-> O PSD a cada três meses pode corrigir com a Troika qualquer falha do Memorando
– Abebe Selassie critica o Governo <-> o Governo critica o PS
– Estamos como estamos, cada vez piores e a falhar as metas acordadas, por causa do que o PS fez no passado <-> Este Governo já não se rege pelo Memorando original porque anda a resolver os problemas todos no presente e para o futuro
Oiça-se: Nuno Encarnação e a lógica
Manuel Acácio, toma cuidado. Qualquer dia deixas de ter fregueses deste calibre.
A propósito desse estupendo socrático, o Alberto Gonçalves
Voando sobre um ninho de cucos
Antes de responder às perguntas das bancadas da oposição, a ex-ministra das Finanças fez um discurso severo contra o Governo e o ministro das finanças, dizendo que “o Governo tem actuado do lado da procura, restringindo-a com cortes nos salários e aumento dos impostos. É exactamente o contrário do que tem de ser feito. É preciso actuar do lado da oferta.”
Nunca um partido mentiu tanto e tão debochadamente
“Queremos também dizer que o caminho do PSD não é igual ao do Governo, e que passa por reduzir eficientemente a despesa pública, e ainda que há um limite para exigir sacrifícios aos portugueses”. Paula Teixeira da Cruz fez questão de dizer que “o PSD não viabilizará medidas injustas e imorais”, pois o nosso caminho é outro: cortar nas despesas do Estado e promover o crescimento económico em condições de igualdade. Não escondemos que o caminho é muito difícil. O que não pode continuar a acontecer é o Governo exigir sacrifícios consecutivos aos portugueses, sem nenhum objectivo que não seja continuar a engordar a máquina do Estado” enquanto, ao mesmo tempo, pede aos mercados financeiros quantias imensas e paga juros como nunca se pagaram e que são, no mínimo, ruinosos – acrescentou a vice-presidente do PSD.
Questionada se as novas medidas anunciadas pelo Governo estão ou não em linha com o que defende o PSD, Paula Teixeira da Cruz respondeu: “Não, não estão”. “O nosso caminho é pela redução da despesa, não é pelo aumento da receita, porque isso leva-nos à recessão em que já estamos e é evidente que há um limite para a legitimidade de exigir sacrifícios aos portugueses”, afirmou.
“Ao contrário do mito que se instalou na sociedade portuguesa, Portugal não tem mais funcionários públicos do que a média europeia. Nós estamos perfeitamente dentro da média europeia. O problema são as clientelas, sob esse pretexto, que vêm prejudicando a Administração Pública, o próprio Estado e todos e cada um de nós”, considerou.
O problema de se ter razão antes do tempo
Não se pode continuar com o discurso do falso sucesso e permanentemente continuar a querer pedir sacrifícios aos portugueses, particularmente aos mais desfavorecidos. É altura de cada um assumir as suas responsabilidades. O Governo tem de ser capaz, de uma vez por todas, de assumir as responsabilidades.
Passos, o salvador de Portugal
Não dizemos uma coisa num dia e outra coisa no outro. Não é pelo facto de o Governo agora aparecer, com algum desespero, a comunicar ao país que, afinal, a crise pode ter consequências imprevisíveis e gravíssimas para Portugal que o PSD agora deverá tomar as dores que o governo não tomou quando devia ter pensado nisso previamente”.
“Chegados a este ponto, aquilo que deve preocupar os portugueses e a comunidade internacional não é saber se vamos fazer um alimentar de divergências com o governo, é saber como é que o país pode sair desta situação, em que um governo não procede em termos leais com o país nem com as instituições e depois confronta o país com o precipício de uma crise se aquilo que ele próprio apresentou não for aprovado. Não é assim que tratamos Portugal e não aceitamos tratar assim Portugal”, defendeu.
“Portanto, eu espero que, por mais dificuldades que tenhamos de enfrentar, e o país vai enfrentar dificuldades, está a enfrentar dificuldades, nós teremos de as vencer, não para salvar o Governo, mas para salvar Portugal.
Vais deixar?
O dia em que celebramos 37 anos após a Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, ter aprovado e decretado a seguinte Constituição da República Portuguesa é a ocasião ideal para voltarmos a falar daquele que, na minha humilde e nada modesta substância de cidadão, me aparece como o maior escândalo do regime e da comunidade que somos: a Inventona de Belém.
Factos:
– A 5 semanas das eleições legislativas de 2009, o Público noticia com estrondo máximo que a “Presidência suspeita de estar a ser vigiada pelo Governo” e que Rui Paulo de Figueiredo, ao tempo adjunto jurídico do Gabinete do primeiro-ministro, já em 2008 tinha tentado espiar membros da Presidência num evento na Madeira.
– Nem o Presidente da República, nem ninguém da Presidência, desmentiu as notícias nas semanas seguintes. Nem nos meses seguintes. Nem nos anos seguintes.
– Ferreira Leite, em acções de campanha eleitoral, cavalgou nas suspeitas e até as alargou: “Não temos segurança praticamente em nada e até já se começa a duvidar da segurança da correspondência. Isso é algo de que não nos lembramos de algum dia ter visto no país. Considero péssimo do ponto de vista da democracia e é muito pouco salutar para um país que se quer desenvolver.” e ainda “Não quero saber se há escutas ou não há. A verdade é que as pessoas sentem que há.”
– Quando, a 1 semana das eleições, o DN publica um email atribuído a Luciano Alvarez, jornalista do Público, no qual se declara ter sido Fernando Lima, agindo em nome de Cavaco Silva, a fonte das suspeitas, o Presidente da República continua a alimentar e adensar a conspiração dizendo “Depois das eleições não deixarei de tentar obter mais informações sobre questões de segurança. O Presidente da República deve preocupar-se com questões de segurança.”
– O Correio da Manhã, no dia seguinte à revelação do DN, publica uma notícia onde se diz que os serviços secretos militares teriam ido a Belém tentar descobrir aparelhos de escuta. Esta notícia não foi desmentida pela Presidência da República, apenas pelo Estado-Maior General das Forças Armadas, a que se juntou uma reacção da PSP a manifestar a sua estranheza por se aventar essa possibilidade.
– Pacheco Pereira apareceu com um ar estouvado a dizer que o caso se devia a uma campanha do PS contra Cavaco, o qual “certamente esclarecerá tudo o que se passou e não tenho dúvida nenhuma que o que tem a dizer é certamente grave e é por isso que disse que não falaria antes das eleições. Penso que até havia vantagem em os portugueses saberem antes.” e mais berrou que Cavaco iria também expor o plano de Sócrates contra a TVI da Moura Guedes e o Público do Zé Manel.
– Depois das eleições, a 29 de Setembro, Cavaco Silva fez uma declaração sem direito a perguntas onde apresentou a sua versão dos acontecimentos a respeito do caso. Esta intervenção foi unanimemente considerada como o mais degradante acto oficial de um Presidente da República em democracia, tamanha a indigência mental do conteúdo exposto e dada a aviltante fuga à responsabilização pelo sucedido.
– A 23 de Janeiro de 2011, Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República depois de uma campanha eleitoral onde nenhum candidato o confrontou com o caso.
Exactissimamente
Sócrates pro bono
O 25 de Abril de 1974 apanha Sócrates com 16 anos. De imediato se dedica à política, dimensão cívica e intelectual onde o seu pai já marcava presença como interessado e a que se dedicaria como participante de relevo na Covilhã. Um ano e meio depois de se ter inscrito na JSD, Sócrates abandona a militância e o PSD. Tinha 18 anos e só voltaria à vida partidária em 1981, entrando para a JS e passando desde aí a lutar pelo PS.
O que há de estranho nesta recordação que tem a idade da democracia portuguesa? Isto: sendo o seu pai o fundador do PSD na Covilhã, Sócrates ainda adolescente mostra absoluta independência do laço familiar. Vindo mais tarde a ser o político português mais caluniado da História (se não for, agradeço a correcção com factos, faxavor), o que vemos logo na génese do seu percurso partidário é a completa ausência de calculismo oportunista e nepotista, abdicando da vantagem que o poder paterno por inerência faria derramar sobre a potencialidade política do jovem Sócrates. O que vemos, portanto, é uma manifestação de carácter, no sentido mais nobre do termo. Compare-se, para se atestar da raridade deste episódio, com o que constitui a normalidade das familiaridades políticas em Portugal, e mesmo além-fronteiras.
Salto para o Governo de Guterres. Estamos na segunda metade dos anos 90 e Sócrates destaca-se dos companheiros no Executivo pela qualidade e capacidade de decisão e ainda pelo carisma já incontornável. Terá 7 anos consecutivos de experiência governativa, sempre em crescendo de reconhecimento do seu talento e mantendo uma proximidade privilegiada com Guterres. De 2002 a 2004 ele foi, naturalmente, um concorrente à liderança do PS. Representava o melhor da geração nascida para a política após a Revolução, o sangue na guelra com provas dadas. Mas não se lhe reconhecia nenhum projecto de sociedade ou discurso teórico que congregasse o entusiasmo dos socialistas. E assim teria continuado caso António Vitorino tivesse avançado para o lugar deixado vago por Ferro Rodrigues. Quando vence as eleições socialistas em 2004, o País viu com naturalidade a derrota do passado romântico de Alegre e do presente dinástico de João Soares e a vitória da nova social-democracia feita por uma figura que permitia a associação com o universo simbólico de Tony Blair. Mas, quando vence as eleições legislativas em 2005, o País não faz a menor ideia do que vai acontecer na governação. Também por causa do trauma da fuga de Barroso e da decadência de Santana, a auto-estima nacional estava em farrapos e até a vitória do PS com maioria absoluta esteve a léguas do entusiasmo e da festa que encheu as ruas aquando da primeira vitória de Guterres.
6 anos de exercício do poder como primeiro-ministro não criaram “socráticos”. Este termo serve apenas como apodo para gasto paranóide e maníaco por essa mole de pulhas, fanáticos e broncos que constitui o grosso da direita partidária, da direita publicista e da direita atarantada. Os poucos que têm defendido Sócrates ao longo do tempo – alguém que aberrantemente até o seu partido não quis defender e que chegou ao inacreditável ponto de também o atacar – acrescentam a essa prática intransigente uma exuberante liberdade intelectual e moral. A evidência desta peculiaridade deu-a o seu regresso à política activa, onde alguns ditos socráticos notáveis foram céleres a reprovar a iniciativa por variadas e sensatas razões. De facto, e mais uma vez, ninguém sabe o que esperar de Sócrates. E porquê? Porque Sócrates é uma personalidade que ousa recusar o caminho mais fácil caso o preço a pagar seja a diminuição da sua autonomia de decisão. Este poder pessoal tanto pode ser usado para o bem como para o mal e chama-se capacidade de liderança. Algo que em Portugal não se ensina nas famílias, não se ensina nas escolas e não se ensina nos partidos. Mas que passará a ser exibido na televisão pública para benefício do público.
