A direita proclama que o PS não pode aceitar o apoio dos partidos à sua esquerda para inviabilizar o governo da coligação PSD-CDS. A coligação que “ganhou” as eleições acha que o PS está a infringir uma “regra básica” da nossa democracia com 40 anos, segundo a qual governa o partido mais votado. Em torno deste tema tenho ouvido os maiores dislates de uma direita histérica e desesperada, desde as idiotices de Santana Lopes sobre a “Constituição não escrita” até às acusações de “golpe de Estado”. Hoje foi a vez de Rajoy (com o cuzinho muito apertadinho em Espanha) vir imiscuir-se nos assuntos internos portugueses com argumentos iguais aos que temos aqui ouvido da direita.
Ao longo de quatro décadas de democracia, a verdadeira regra foi o PCP não se unir à direita para inviabilizar a formação dos governos minoritários do PS – como o governo de Soares em 1976, os de Guterres em 1995 e 1999 e o segundo de Sócrates em 2009. (O que não quer dizer, é certo, que em outros momentos o PCP não tivesse ajudado a direita a derrubar governos socialistas, como fez em 1977 e em 2011.)
Logo nas primeiras eleições, em 1976, o PPD e o CDS obtiveram conjuntamente mais deputados (115) do que o PS triunfador das eleições (107), enquanto o PCP conquistava 40 mandatos. Ou seja, se o PCP se tivesse conluiado com a direita em 1976, o PS não teria então governado nem um dia. O primeiro governo de Mário Soares assentou, pois, numa “coligação” tácita do PS e do PCP, que impediu a direita de, com os seus 115 deputados, tomar imediatamente o poder após o fim da revolução. (O que não obstou, é certo, a que os comunistas em Dezembro de 1977 juntassem os seus votos aos da direita para derrubar o governo de Mário Soares.)
Durante este 40 anos, o PS pôde, pois, contar em vários momentos pós-eleitorais com uma “aliança” tácita do PCP para barrar o caminho à formação de governos alternativos da direita – e apenas para esse fim, diga-se. Ora a direita nunca teve essa hipótese, porque o PCP não lha deu. Sempre que o PS ganhou eleições com maiorias relativas, nunca o PCP se uniu à direita para inviabilizar a formação de governos minoritários socialistas. Rejeitaria, por seu lado, a direita tal apoio do PCP para inviabilizar governos socialistas? É para mim absolutamente certo que não rejeitaria! Se isso nunca aconteceu, foi porque o PCP nunca o quis – e exclusivamente por isso.
No fundo, é este tratamento “desigual” por parte do PCP (e agora também do Bloco) que a direita proclama como um atentado às tais regras democráticas, já que não pode governar contra uma esquerda em vias de se apresentar aliada e maioritária. Mas aquilo de que a coligação de direita agora se queixa, além de ser perfeitamente legítimo, não é novidade nenhuma. Desde 1976 que o PCP e, mais recentemente, o Bloco têm inviabilizado, no seu pleno direito, a formação de governos da direita. E ainda bem que o têm feito!
