Voto bom, voto mau?

Golpe de Estado, PREC, fraude, coligação negativa, etc. são alguns dos epítetos com que a direita vem designando a possibilidade de formação de um governo do PS com os partidos à sua esquerda ou com o apoio deles. Só o pânico, o desespero e a histeria fazem com que a direita encare assim a possibilidade legítima de uma maioria parlamentar que representa mais de 2.700.000 votos se traduzir numa qualquer solução de governo apoiada por essa maioria. Para a direita, o milhão de votos que o Bloco de Esquerda e o PCP recolheram é lixo. Está-lhe no sangue: para a direita actual como para a ditadura salazarista, voto que não seja nela não é voto. Chamava-se antigamente a isso “democracia orgânica” ou, mais exactamente, fascismo.

É preciso ter muita lata, depois de ter saltado para o poder em 2011 com uma convergência de votos com a extrema-esquerda no parlamento (PEC IV), para a direita vir agora acusar os outros daquilo que ela fez – e que fará sempre que puder e a extrema-esquerda deixar.

E é também preciso ter muita latósia para esperar agora governar à pala do PS, depois de tudo ter feito para derrubar o governo socialista e enlamear o seu primeiro ministro.

A direita tem dito e repetido que ganhou as eleições. É falso. A coligação de direita teve mais votos do que qualquer um dos restantes partidos, mas estes ficaram em maioria no parlamento. Uma coligação tanto se pode fazer antes como depois das eleições. Essa possibilidade está agora aberta.

Um governo de direita com uma maioria parlamentar de esquerda é uma fantasia absurda. É um sonho húmido de salazaristas requentados.

Não tenho quaisquer ilusões acerca da urbanidade e coerência política do Bloco de Esquerda ou do PCP. Este último já participou, convergente com a direita, no derrube de vários governos do PS, começando logo com o I Governo Constitucional, em 1977. O Bloco juntou recentemente os seus votos aos da direita e do PCP para chumbar o PEC IV em 2011. Nem o Bloco nem o PCP apoiaram nunca um governo minoritário do PS, e até votaram contra Orçamentos de governos minoritários socialistas.

Dito isto, porém, o PS nunca poderia deixar de fazer o que António Costa está agora a fazer, isto é, a apalpar o terreno tanto à sua direita como à sua esquerda, para que cada um diga o que pensa e assuma inteiramente as suas responsabilidades por aquilo que se vai passar posteriormente. Tudo feito às claras, preto no branco e diante de um país atento. No fim, o PS decidirá o que, do seu ponto de vista, é mais viável e mais favorável para o país: ou um qualquer compromisso com a coligação de direita, ou um qualquer entendimento governativo com a restante esquerda, ou nem uma coisa nem outra. A situação é nova, há que fazer este reset para poder prosseguir.

O que não se pode dizer, como certa gente por aí diz agora, é que seria a priori mais fácil e mais “natural” o PS entender-se de alguma maneira com a coligação de direita do que com a restante esquerda. Essa gente esquece-se que já houve um Bloco Central (1983-1985) – aliás num tempo em que o PCP se recusava terminantemente a apoiar os governos minoritários de Soares. Pois foi o PSD que derrubou esse governo em 1985 – sem que o PCP, aliás, contribuísse então para um governo de esquerda (tinha o número de deputados para isso). Na sua ânsia de governar sozinho, o PSD deu sem qualquer pejo o golpe fatal no Bloco Central. Ou seja, a única vez que existiu um acordo de governo entre o PSD e o PS, não durou, foi um fiasco e os socialistas saíram burlados. Foi, de resto, a antecâmara do triunfo do salvador de Boliqueime.

Também não tenho ilusões acerca do renascimento de qualquer espírito abrilino. Abril foi transviado pelo PREC e desaguou no gonçalvismo, na “Aliança Povo-MFA” e no sequestro da Assembleia Constituinte. Como diria Medeiros Ferreira, o PS tal como o conhecemos tem no seu património genético a resistência ao PREC.

A única maneira de o PS negociar um compromisso com a direita é deixar aberta uma real possibilidade de acordo com os partidos à sua esquerda. A direita só entende essa linguagem. E vice-versa: a única maneira de o PS negociar um acordo com o Bloco e com o PCP é deixar aberta a alternativa de um compromisso qualquer com a direita. A extrema-esquerda também só entende essa linguagem. Mas o PS precisa de deixar também aberta uma terceira possibilidade: não acordar nada com ninguém e proceder com inteira liberdade numa oposição autónoma ao governo de direita.

Não há votos bons nem votos maus, só há votos. Uma democracia é isso: a nivelação de todos pelo voto. Uma pessoa, um voto – e depois governa a maioria.

52 thoughts on “Voto bom, voto mau?”

  1. “A direita tem dito e repetido que ganhou as eleições. É falso. ”

    Sugeria corrigir todas as análises relativas a actos eleitorais desde 1975 em que, erradamente, se atribuiu a vitória eleitoral a um partido ou coligação que, sendo o que teve mais votos, não atingiu a maioria absoluta. A bem da verdade.
    Qualquer dia temos de pedir uma comissão imparcial da ONU para escrutinar as eleições e determinar o vencedor. Estamos a entrar no reino do surrealismo.

  2. A questão é simples, deve governar que o conseguir fazer.
    E no quadro actual, acho muito complicado o PSD/CDS poderem (conseguirem) governar…

  3. Muito bem Teodoro !
    É tal e qual !

    E já se antevia isto. A Direita foi avisada mas a arrogância do poder absoluto nestes 4 anos impediu-os, e ainda os impede, de ver a trave no olho.

    Como já vi escrito em outro blog o problema neste momento reside no Bloco de Esquerda. São eles que podem ser tentados a roer a corda. O PCP nunca o fará depois do Jerónimo ter dito o que disse em público.
    Mas por outro lado o Bloco de Esquerda está entalado nas suas próprias declarações vitoriosas da noite eleitoral. Para um governo de esquerda “nunca faltará o Bloco” ! Ora agora chegou a hora da verdade.
    Este adiamento da reunião deve ser para colocar dificuldades negociais ao PS mas espero que o PS já esteja preparado para isso. Aliás, por isso é que deu o primeiro passo rumo ao PCP e não ao BE.
    E enquanto isso vai-se cozendo a Coligação e o Presidente em lume brando, até assarem …

  4. anonimo das 17:56 :

    Entendo a tua sensação de surreal, porque estavas piamente convencido que a direita tinha ganho as eleições e ia agora governar minoritariamente… à pala do PS.
    O que aconteceu foi que uma COLIGAÇÃO de partidos teve mais votos do que qualquer um dos restantes PARTIDOS, mas isso não é suficiente para “ganhar eleições”, porque os restantes partidos, que se podem perfeitamente COLIGAR DEPOIS DAS ELEIÇÕES, estão agora a encarar a possibilidade de formarem um governo com apoio MAIORITÁRIO no parlamento.

    Quando é que viste isto desde 1975? Conta lá…

  5. «para a direita actual como para a ditadura salazarista, voto que não seja nela não é voto. Chamava-se antigamente a isso “democracia orgânica” ou, mais exactamente, fascismo.»

    Pois…nada disso se verifica nos PARTIDOS, designadamente na ESQUERDA. Aqui então quem não partilhar dos dislates dos XUXAS e COMUNAS é, de imediato, fascista. Que hilário, um hilário!

  6. Eu ESPERO bem que esta ESQUERDA limitada, de vistas curtas, faça o que anda a dizer – NADA …o assunto fica resolvido.

    BURRA – cala-te. Tu és um empecilho à real democracia. Nos primórdios desta, havia restriçõe – só levantava o braço quem o pODIA fazer…Uma «coisa» como tu, nem andava na rua….

  7. Lol…dantes eram os partidos de per se que ganhavam as eleições. Agora vêm estes COMUNAS alegar que foi a Esquerda que ganhou. Mas a esquerda COLIGOU – SE para se dizer que esta GANHOU como ESQUERDA? Caramba, nem estes esquerdistas se entendem, pois todos querem PODER, MANDAR!
    Estudem! Falso é o que vocês alardeiam – de resto, bem plasmado na CRP! Caramba, tal é a vontade destes tipos quererem poleiro que passam por cima da Constituição. Quem GANHOU as eleições foi a COLIGAÇÃO de dois partidos bem identificados…duh!

  8. “… passam por cima da Constituição. Quem GANHOU as eleições foi a COLIGAÇÃO de dois partidos bem identificados…”

    por acaso um desses partidos votou contra a constituição

  9. Digamos que a dupla Pedro/Paulo teve uma vitória de caca, que não lhes vai servir para nada.
    Só governam se os outros deixarem.
    Por aquilo que andaram a fazer durante ou últimos 4 anos, não me parece que consigam continuar a governar, isto apesar dos esforços do Sr. Silva de Boliqueime…

  10. O Bloco disse para um governo de esquerda…..veremos se o PS quer fazer parte desse governo, e isso depende do PROGRAMA, não há governo de esquerda sem um programa de esquerda, e o programa que o PS apresentou ao eleitorado tem muito pouco de esquerda. Mas mais importante é saber se os deputados do PS vão inviabilizar um governo de direita.

  11. Coitado do Costa, o homem não acredita, não aceita que perdeu as eleições. Esse trauma tem explicação na psicologia. Os ratos que o circundam só dizem que sim. No entanto no grupo o Assis e o Vital já vieram dizer que o Rei Costa vai nu.

  12. a direita está desesperada.só peço, que o ps não mexa uma palha para colaborar com aqueles bandalhos.antonio costa, não pode trair a vontade do seu eleitorado.para não os derrubar no imediato com a colaboraçao do pcp e bloco, o fascista disfarçado de democrata (passos coelho) terá que repor muita coisa que tirou,e alterar legislação que agravou. (laboral e outras)

  13. Burro cegueta

    Estou agora mesmo a ver na Sic notícias um caramelo direitolas da Cu-Ligação (igualzinho a ti) espernear, a espumar, a convulsivar ,,, completamente fora de si !!!
    Até o tótó do Carlos Zorrinho lhe está a ser capaz de ensinar as regras da democracia parlamentar. Mas o animal está cego. Eles estão todos cegos como tu, burro cegueta.
    Ides levar na tromba todos os dias até aprenderes !
    Eu faço esta sugestão: a Cu-Ligação que forme governo e que vá para o Parlamento fazer passar as suas leis para governar que é para a gente se rir à fartazana !
    Olha por exemplo a devolução da SOBRETAXA. A Cu-Ligação não quer devolver mas vai de lá o PS e mete a lei à votação. A CDU e o BE também aprovam. PUMBA ! Toma lá governo devolve a Sobretaxa! Ai não cabe no “vosso” orçamento ? problema vosso !

  14. Ignatz

    Os 15 Segurelhos não se atreverão a sair da linha, até porque se o fizerem serão expulsos do PS.
    Logo que haja eleições antecipadas são completamente corridos da política, a menos que a Cu-Ligação de direita esteja disposta a dar-lhes os lugares de alguns boys dos deles, mas desconfio que não haverá tachos para tantos.

  15. primaveraverão

    Eu disse-o no dia 5 de Outubro …Ehehehehheh !
    Disse que o PS só não mandaria no pântano politico senão tivesse arte, uma vez que estava colocado ao centro e era o fiel da balança.
    Só não previ que os camaradas Jerónimos tivessem a tirada de génio da vida deles ! foi de génio !
    E agora apraz-me dizer que quem está na carroça tem de andar.
    E não creio que o Bloco vá querer ficar apeado. A Catarina deve estar a tomar as lições do mestre Louçã e é capaz de colocar alguns engulhos de última hora, mas se saltar fora é como se desse um tiro na cabeça.

  16. podem ser expulsos do ps e achas que estão preocupados com isso? todos sabem que não serão reeleitos em novas listas com esta direcção. durante os próximos 4 anos os mandatos são deles e se votarem pafúnciamente viabilizam a direita, depois vê-se. para já, têm autorização para brincar às presidênciais com a lola penteados.

  17. Ignatz

    É tudo verdade menos os 4 anos de mandatos.
    Se isso acontecesse o próprio PS arranjaria maneira de deitar o seu próprio governo abaixo para provocar eleições antecipadas e extirpar essa gente.
    Mas Ignatz tu não conheces o jogo do poder, criatura ? o Costa arranjará tachos para os calar.

  18. Agora na Sic Notícias …

    Paulo Rangel ainda não caiu completamente em si mas confessa que hoje ficou um “bocado preocupado” com esta atitude do PS não ter levado propostas para a reunião com a Coligação !!!
    Pasme-se !!! o Rangel acha que o PS é que tinha de ir lá com a lista das exigências para “colaborar” e eles magnânimos diriam “ok, sim, talvez” !!!
    Eheheheheh ! até agora achavam que era bluff …agora estão a começar a ficar preocupados …

    Como um certo comentador disse à bocado … eles (coligação) e o Cavaco foram “ultrapassados pela esquerda” !

  19. ò jasmim, vamos a um suponhamos. cavaco dá posse a governo minoritário dos pafúncios que garantem apoio de 15 magnânimos imbecis do ps, como é que o costa manda abaixo o seu próprio governo dos outros? a solução para a viabilidade está no controlo do sentido de voto no parlamento e quem garantir apoio parlamentar governa. se o ps consegue 85+18+19 = 122 governa, mas se houver 6 que roam a corda já não funcemina.

  20. Ignatz, as tuas contas estão certas?
    PÀF 1O4+15=119
    PS 85-15+BE 19+CDU17=106

    Há ainda 1 do PAN
    e faltam os 4 da emigração

  21. Ó Ignatz

    O Costa mandaria abaixo um governo que ele próprio liderasse quando muito bem entendesse.
    Colocaria uma moção de confiança no Parlamento. Se tivesse cozinhado o estrugido com o BE e a CDU a Coligação de Direita tinha que votar a favor para não deixar cair o Governo do PS em altura inconveniente para si própria. Poder podia mas ficava-lhe muito mal.

    Quanto aos 15 Seguristas, sabes que na hora de contar as coisas nunca são o que parecem ser … o poder muda o sentido de voto, para um lado ou para o outro …

  22. Valupi, não gosto de corrigir ninguém, seja por questão de não querer perder tempo, seja por não querer ser acusado de pretenciosismo.
    A Constitução de 1933, no artigo 5.º dizia que, o Estado Português é uma república unitária e corporativa .

    Democracia orgânica
    A democracia orgânica é um tipo de organização política e administrativa em que o exercício dos direitos individuais é realizado através das corporações tradicionais como as famílias, das territoriais como os municípios, das económicas como os sindicatos, das culturais como as universidades, das morais como as paróquias ou das políticas como os partidos. A democracia orgânica constitui a realização política do modelo económico do corporativismo.

    Isto é, um estado corporativo encontra a sua concretização na chamada ” democracia orgânica ” .

    Questão lateral é a da representação política.
    Em Portugal estava estabelecido o partido único, originalmente designado por União Nacional, estando todos os restantes partidos políticos proíbidos .
    Dizia-se que todos poderiam participar no partido único, desde que não pusessem em causa certos pré- requisitos ou princípios inalienáveis .
    Claro que vigorava o princípio ” quem não é por nós é contra nós “‘ e, eventuais eleições, mais ou menos toleradas e na práticam sempre mal toleradas e sempre muito condicionadas, não tinham qualquer relevância em termos de representação parlamentar, na então chamada Assembleia Nacional . Dito de outro modo, a oposição, fosse qual fosse o número de votos que recolhesse, não elegia deputados.
    Nesse sentido, poder-se-à dizer que votos contra, na realidade, não contavam .
    Mas agora é diferente . Votos das mais variadas proveniências, elegem para o Parlamento, representantes dos mais diversos sectores .
    Não pode, por isso, dizer-se que a situação actual, tem paralelismo com a vigente em anos anteriores a 1974 .
    A questão mais grave que se coloca, porém, é a sobrevivência do chamado corporativismo, ou dos resquícios do dito, que de tal modo se encontrava e encontra ainda enraizado na sociedade portuguesa, que constitui um entrave a uma democracia moderna, diferente, plena e autêntica .
    E não só, um entrave também, a qualquer reforma do Estado, que ouse atingir os privilégios e mordomias de certas corporações e interesses instalados .

  23. Júlio, desculpe-me que há pouco tratei-o por Valupi .

    A regra universal, com efeito, é, one man one vote .

    Mas depois como sabe, são introduzidos ” factores de correcção ” .

    Assim, por exemplo, na prática, e na hora da verdade, quantos votos valerão, por exemplo, o voto de um, digamos, Belmiro de Azevedo ?

    Não tenha dúvidas que, vale mais que um voto meu ou seu .

    Conhece, por exemplo, o José Lello, do PS ?
    Não tenha dúvidas que o Valentim Loureiro, do mundo do futebol, terá acesso, seja pessoal seja telefónico, ao dito cujo, muito mais facilitado que qualquer um de nós, não obstante tenhamos votado nele, e, por hipótese remota, tenhamos o contacto telefónico.

    O falecido Manuel António Pina dizia que numa democracia que cumprisse os serviços mínimos, os votos de dois banqueiros, deveriam equivaler a dois votos de dois quaisquer cidadãos eleitores banais .

    Mas não é assim, como sabe .

    A questão é controversa .
    O voto de um cidadão que se celebrizou a nível nacional por aparecer nas mais diversas circunstâncias por detrás de um repórter televisivo olhando fixamente a câmara, refiro-me ao conhecido ” emplastro ” valerá o mesmo que um voto de um reputado professor catedrático universitário ?
    E o voto de um futebolista, digamos, o Simão Sabrosa, valerá tanto como o voto dum médico reputadissimo, o neuro cirurgião Lobo Antunes ?

    Eu acho que isto é pertinente .
    E no meu entender, esta questão ainda não foi revista e regulada em texto de lei, apenas pelo facto de não haver meio de estabelecer e quantificar, atentas as diferenças e condicionantes acima expostas, quantos votos valem os votos de uns e de outros .
    Apenas só por isso, mais nada.
    Mas não havendo regra escrita, na hora da verdade, não tenha qualquer dúvida de que os votos de uns, pesam mais que os votos de outros .
    Esta é a realidade .

  24. Há uma coisa importantíssima em que não interessa, nem é possível, por agora insistir, mas não pode ser esquecida sob pretexto algum a partir do momento em que o nevoeiro artificial que a envolve se dissipe (e tarde ou cedo vai ter de se dissipar): é o simples facto de o PS se ter visto na contingência de disputar uma eleição nacional de enorme importância com um ex-primeiro-ministro preso e sob o efeito de uma frenética campanha de propaganda suja, tornada possível por uma cumplicidade activa, indesmentível, criminosa e impune entre elementos do sistema judicial e a comunicação social mais abjecta.

    Dê o mundo as voltas que der, isto não pode ser esquecido e tem de constar de todos os balanços finais das eleições parlamentares de 2015.

  25. Meireles, a questão Sócrates preso, terá tido o seu peso, – que não conseguimos quantificar, – assim como a questão da avaliação de Sócrates, como ex governante, não terá sido deixado de ser sopesada, e Sócrates simbolizava a ex governação socialista. O modo como o eleitorado vai reagir a factos desta natureza é imprevisível, não esqueçamos o acidente de Camarate, que ditou a morte de Sá Carneiro, falou-se em atentado e enquanto muitos esperavam que isso teria reflexos num certo sentido do desenrolar da eleição presidencial, o facto é que não só Soares Carneiro teve uma derrota estrondosa, como Ramalho Eanes teve uma vitória clamorosa .

    Para mim tenho que, o unanimismo na cartilha do não há alternativa, foi o factor decisivo, tenha-se em atenção o discurso do Medina Carreira, que foi ministro das Finanças de Mário Soares e mais remotamente, o discurso no mesmo sentido, de, Silva Lopes, que foi governador do Banco de Portugal, no tempo da governação socialista .
    Ambas estas duas figuras, próximas do PS, lançaram o seu peso sob a chamda TINA.
    Silva Lopes, foi até, pioneiro na sugestão dos cortes nas reformas e pensões, lembro-me perfeitamente de o ver na TV, nos primórdios da acção governativa Passos-Portista e ainda estes não tinham anunciado a medida, dizer na TV, que não bastavam as primeiras e até aí então algo tímidas e pouco temerárias iniciativas do governo, iria ser necessário mexer também nas reformas e pensões .
    Portanto, a meu ver, o unanimismo dos comentadores do mundo académico da área da economia e dos jornalistas da área da imprensa económica, conjugado com a falta de assunção por parte de Costa da intenção de um corte radical com o passado, terá ditado que o eleitorado ficasse desiludido e sem grande incentivo para votar .
    Votar para quê, terão pensado, se é para ficar tudo ou quase tudo na mesma .
    Isso, a meu ver, é que terá pesado mais .
    Veja que os partidos que pugnaram pela mudança mais radical, não obtiveram maus resultados .
    Costa, manietado por tudo aquilo que sabemos, optou por uma proposta política honesta e possível, o que lhe foi fatal .

  26. “A única maneira de o PS negociar um compromisso com a direita é deixar aberta uma real possibilidade de acordo com os partidos à sua esquerda. A direita só entende essa linguagem. E vice-versa: a única maneira de o PS negociar um acordo com o Bloco e com o PCP é deixar aberta a alternativa de um compromisso qualquer com a direita. A extrema-esquerda também só entende essa linguagem. Mas o PS precisa de deixar também aberta uma terceira possibilidade: não acordar nada com ninguém e proceder com inteira liberdade numa oposição autónoma ao governo de direita.”

    Conversa vazia.

    O que vamos ver é o que vai apoiar o PS, um governo de esquerda ou um governo de direita?

  27. pimpaumpum:
    essa sua teoria de que os votos de uns valem mais do que os votos de outros deve ser metáfora ou força de expressão, não?

    “Democracia orgânica”, sem partidos nem liberdades, foi a fórmula doutrinária, aliás abençoada pelo papa Pio XII, a que o Botas recorreu no fim da segunda guerra para mostrar a americanos e ingleses que o regime católico-fascista português era muito diferente do nazi-fascismo derrotado. A doutrina da democracia orgânica corporativista opunha-se de facto ao “voto inorgânico” dos regimes de democracia liberal. O “voto inorgânico”, para esses doutrinários, é o que não faz distinção entre os cidadãos, é o one man’s vote, ou seja, o pilar daquilo a que a ultra-direita continua a chamar a “ditadura do número” ou a “ditadura da maioria”. Para essa gente era impensável que um desempregado ou um varredor pesasse tanto nas contas eleitorais como o engenheiro Belmiro, o cardeal patriarca ou o prof. Lobo Antunes.

    Apesar de na democracia portuguesa já ninguém ousar falar do “voto inorgânico”, vemos agora responsáveis partidários a depreciar os votos daqueles de quem não gostam. O imbecil Nuno Melo do CDS, que declara que uma coligação de esquerda seria agora um “golpe de Estado” e um regresso ao PREC, está a tentar pôr um sinal de igual entre a actual situação de normalidade democrática e a situação revolucionária que se viveu em 1975. Claro que ele não tem outro remédio senão aceitar a existência de 1 milhão de votos no BE e no PCP, mas acha que esses votos não deveriam contar para efeitos de formação de um governo. Ou seja, são votos maus, não prestam.

  28. «Júlio
    10 DE OUTUBRO DE 2015 ÀS 13:58
    pimpaumpum:
    essa sua teoria de que os votos de uns valem mais do que os votos de outros deve ser metáfora ou força de expressão, não?

    Aliás, por assim ser, a democracia do «ANTES GREGO» não permitia a todos a votar.
    Na verdade se em cem, cinquenta e um incultos, sem conhecimento adequado da realidade, votarem – quem ganha?! Quem se faz valer? O que em linguagem popular, inadequada ( claro), se diz – os BURROS. Isso torna a democracia no quê?

  29. “O que vamos ver é o que vai apoiar o PS, um governo de esquerda ou um governo de direita?” (joão)

    O PS não é obrigado a apoiar a coligação de direita ou a liderar uma coligação de esquerda.
    Não existe tal escolha fechada.
    Há a terceira possibilidade que mencionei, que é manter-se na oposição sem concluir acordos com ninguém.

    Para decidir o que vai fazer, o PS tem de consultar uns e outros e ver qual a solução que melhor se ajusta aos pontos programáticos que os socialistas defenderam durante a campanha eleitoral. Se não vislumbrar acordo possível nem à direita nem à esquerda, o PS optará pela oposição autónoma e, no parlamento, votará uma vezes com o BE e o PCP, outras vezes com a coligação, outras vezes sozinho e outras vezes abster-se-á.

    Se o PS quisesse saltar para o poder a qualquer preço, podia agora concluir rapidamente um acordo qualquer com o BE e o PCP. A questão é que, conhecendo nós muito bem o BE e o PCP, um tal governo corria o risco de descarrilar na primeira ou segunda curva. O BE e o PCP nunca deram mostras de saber fazer outra coisa, senão estar no contra, desapoiar, chantagear, protestar, fazer obstrução. Sobre o Euro, a UE, a dívida externa, as nacionalizações, as privatizações, etc. o BE e o PCP têm posições muito diferentes das dos socialistas. Conseguirão o BE e o PCP pôr de lado essas posições e assentar com o PS num conjunto de objectivos comuns (além de tirar a direita do poder)? Pessoalmente duvido que isso aconteça, mas não há como esperar pacientemente e pôr tudo em pratos limpos.

  30. o júlio descobriu agora um facho de pantufas fazer remix da neoconice observadeira. para mim, esse e o outro já tinham fazer companhia ao que já foi ou estão à espera duma atençãozinha da gerência caso os gajos consigam repor o feriado em 24 abril?

  31. Há quem fique refém dos estribilhos do passado e daí não passe. Os homens de hoje terão que fazer História para que vocês, historiadores, amanhã a possam compilar. Por isso, neste “nevoeiro”, parafraseando F.Pessoa, “É hora!” É hora!
    Costa é um político que, nestas legislativas, se apresentou com um programa honesto. Deixem-no, pois, fazer História! A sua e a nossa.

  32. “O PS não é obrigado a apoiar a coligação de direita ou a liderar uma coligação de esquerda.
    Não existe tal escolha fechada.
    Há a terceira possibilidade que mencionei, que é manter-se na oposição sem concluir acordos com ninguém.”

    Não há essa terceira possibilidade porque o PS vai ter de decidir se aprova a moção de rejeição que o PCP já anunciou e, mais do que isso, se deixa passar os orçamentos do paf, caso não aprove a moção de rejeição.

  33. ignatzia, olha que do nevoeiro só costumam sair burlões…

    Quem não quer aprender com o passado, comete sempre os mesmo erros. O que o PS já aprendeu com o PSD e com o CDS – antes, durante e depois do Bloco Central – é que não pode confiar neles para nada.
    O que o PS já aprendeu com o BE e o PCP é que não pode confiar neles para nada, nem sequer para barrar o caminho do poder à direita.

    O Costa, porém, tem que ouvir agora ambos os lados antes de tomar qualquer decisão. Perante os portugueses que o observam atentamente, tem de considerar a hipótese, embora muito remota, de a direita ou a extrema esquerda estarem realmente dispostas a negociar sem truques na manga. No mínimo, as posições de todos têm que ficar muito claramente expostas perante o país.

  34. joão,
    na terceira hipótese, sem acordos com a direita nem com a esquerda, os deputados do PS decidirão em cada caso livremente. Nuns casos votarão por, noutros votarão contra, noutros abster-se-ão.

    Vês as coisas de um ponto de vista fechado, que é o do PCP. Quem não votar as moções do PCP, está contra a “esquerda”. Mas a esquerda não é nem nunca foi propriedade do PCP. Neste momento, o PCP é apenas o terceiro partido da esquerda portuguesa e o quinto do parlamento. Com que direito é que o terceiro partido da esquerda quer impor a sua agenda ao conjunto da esquerda, que é numericamente dominada pelo PS?

    Se a lógica do PCP for igual à tua, jamais haverá uma coligação de esquerda. Aliás, o PCP geralmente nem sequer admite que o PS é um partido da esquerda… Só o admite muito raramente, e apenas implicitamente, quando fala de um “governo da esquerda”. Mas, para os comunistas, um “governo da esquerda” teria de ser dominado pela agenda do PCP. Ora bolas, camaradas!

  35. ” Aliás, o PCP geralmente nem sequer admite que o PS é um partido da esquerda…”

    Digamos assim: o PCP diz uma verdade, embora suporte essa asserção com as razões erradas. O PS tem agora uma ocasião de ouro de provar que é de esquerda. Agora essa cena de sugerir que o PS ande a sondar a PAF e a esquerda à sua esquerda para ver qual é que apresenta melhores condições para governar o país – é para rir, não? Depois dos quatro anos que passaram. Já para não dizer que alguém que oscilasse entre a direita extrema (ou tens dúvidas?) e uma extrema esquerda nominal, mas que na prática não é mais extrema do que a social-democracia, só poderia ser de esquerda por anedota.

  36. Júlio,

    Se o PS preferir que apresente a sua moção de rejeição. Não precisa de votar na do PCP. Agora se não aprova a rejeição e viabiliza os orçamentos, proporciona que uma minoria de direita governe. Isto, em conjunto com a rejeição de liderar uma maioria de esquerda, fará do PS um partido com uma evidente inclinação à direita.

  37. “Se o PS preferir que apresente a sua moção de rejeição.” (joão)

    Novamente estás a impor ao PS a agenda do PCP, que é apresentar uma moção de rejeição, haja ou não alternativa ao governo rejeitado.

    António Costa disse muito claramente na noite das eleições que não vai inviabilizar governos se não tiver um governo alternativo para viabilizar. Para haver um governo alternativo, teria que haver um acordo prévio entre os três partidos da esquerda. Se não houver um acordo prévio de governo entre os três partidos, o PS abster-se-á na moção de rejeição apresentada pelo PCP. É claro como a água e absolutamente compreensível.

    Mas o PCP não parece querer ceder um milímetro e já se está a preparar para as próximas acusações ao PS, que é o seu desporto favorito de todos os dias.

    Penso que a ideia dos comunistas – que nunca apoiaram um governo minoritário do PS! – é apoiar agora um “governo de esquerda” com o PS, porque os socialistas, com menos deputados do que a direita, ficariam mais dependentes do PCP (e do Bloco). É só mais uma esperteza saloia do PCP, que quer sempre ter mais influência do que aquela que os votos lhe dão. Se é isto que o PCP pretende, bem pode dizer adeus governo de esquerda, porque os socialistas não são parvos nem querem o poder a todo o preço.

  38. O Júlio

    Ponha aí outra hipótese em relação ao PCP.
    Na 6a feira antes das eleições o camarada Jerónimo ACORDOU do estado de coma e percebeu que agora também os comunas começarão a ser PRESOS porque a Direita já não precisará deles para mais nada.
    Logo, o sino tocou a rebate lá para as bandas da Soeiro Pereira Gomes.

  39. Júlio, o PCP informou já que não será por ele que o PS não é governo. Parece-me que qualquer recúo nesta matéria caso o PS formasse governo penalizaria muito o PCP. E o PCP não é conhecido por não cumprir o que acorda. Se o PS quer que o PCP integre o governo para aceitar um acordo então que o diga. O que me parece é que o PS vai ficar nas meias tintas como sempre e seguir a sua inércia que é, em dúvida, pró-direita.

  40. João
    O PS conhece essa posição dos comunistas, já reuniu com eles e vai reunir com o Bloco. Desses encontros Costa formará uma ideia do que ambos estão dispostos a abdicar em relação aos seus programas eleitorais, que em muitos pontos são divergentes, quando não contrários aos do PS.

    Não basta ao PCP dizer que não será por ele que o PS não será governo. O PS não corre para o poder a qualquer preço. Além de acordar uma plataforma comum de governo com o PS e o Bloco, o PCP teria de oferecer todas as garantias que se empenharia no êxito desse governo e não faria as usuais chantagens e oposições aos governos minoritários socialistas. Sem isso, o PS não aceitará, nas actuais circunstâncias, liderar um governo minoritário, pois ficaria prisioneiro das mais do que conhecidas tácticas e estratégias do PCP. Daqui a seis meses tiravam o tapete ao Costa e lá íamos de novo para eleições, sabe-se lá com quem em Belém.

  41. Jasmim
    pois é, o PCP vai agora ser outra vez um papão para a direita. O longo namoro da direita com a extrema esquerda, começado no tempo do Sócrates, continuou enquanto a coligação de direita teve maioria absoluta. Na campanha eleitoral, o PSD nunca atacou o Bloco nem os comunistas. Pudera, eles eram os melhores aliados contra o PS. A extrema esquerda era o seguro de vida do governo de direita, na medida em que BE e PCP impediam o PS de ganhar as eleições. Não podiam era ter um milhão de votos, porra!
    Na nova situação, a direita vai de novo diabolizar o PCP (e o BE) e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para dividir o PS.
    O que nós nunca tivemos foi um governo de direita com uma oposição de esquerda em maioria no parlamento. É uma experiência que se calhar vai ter que ser feita, mas o fim dela é previsível.

  42. “Não basta ao PCP dizer que não será por ele que o PS não será governo. O PS não corre para o poder a qualquer preço. Além de acordar uma plataforma comum de governo com o PS e o Bloco, o PCP teria de oferecer todas as garantias que se empenharia no êxito desse governo e não faria as usuais chantagens e oposições aos governos minoritários socialistas. Sem isso, o PS não aceitará, nas actuais circunstâncias, liderar um governo minoritário, pois ficaria prisioneiro das mais do que conhecidas tácticas e estratégias do PCP. Daqui a seis meses tiravam o tapete ao Costa e lá íamos de novo para eleições, sabe-se lá com quem em Belém.”

    Se não bastam declarações, o que precisa o PS? Um acordo assinado? Se é isso, então que o proponha.

    É preciso saber o que exige o PS para formar governo, só assim se saberá se o quer mesmo ou se está apenas a enrolar.

    Já sairam notícias sobre a abdicação por ora do PCP, com o intuito de facilitar a vida ao PS, da questão da saída do euro, da restruturação da dívida, da nacionalização do BES, da recusa do tratado orçamental e da saída da nato.

    O PCP não desmentiu esta notícia.

  43. “pois é, o PCP vai agora ser outra vez um papão para a direita. O longo namoro da direita com a extrema esquerda, começado no tempo do Sócrates, continuou enquanto a coligação de direita teve maioria absoluta.”

    Calimerismo. Com quem é que Sócrates negociou os PEC? Com o PCP não foi, nem com o BE. Foi com a direita. Quem é que assinou o tratado orçamental que oficializa a política económica de direita como a política de Portugal? PSD, PS e CDS. O PS não pode querer representar a esquerda enquanto aceita que a política económica de direita é a única realmente viável. Que é o que tem feito. Merkel gostava do PEC IV. Não sei em que é que isso é um trofeu de que gosta tanto o PS. Merkel é uma conservadora de direita.

  44. Ó Júlio, eu quando disse que os votos de uns valem mais que os votos de outros, foi, claro, no sentido de que, na hora de tomar decisões, os votos tomados ou considerados pelo seu peso específico, por conseguinte, referidos a pessoas e interesses que representam, têm pesos diferentes .

    É o caso dos chamados poderes fácticos ( por exemplo, futebol, igreja católica ) cujo votos ( somatório do conjunto de votantes que representam esses interesses ) têm um peso na hora da decisão governativa, desproporcional à expressão eleitoral dessa gente, demostrada nas urnas.

    Outro exemplo, duvida que o desejo por parte de um proeminente ” empreendedor capitalista ” de implementar um empreendimento num determinado local, ( ele representa apenas um só voto ) não se consiga facilmente sobrepor a um conjunto de pessoas que por variadissimos motivos se oponham a tal ( estes podem ser 50 ou até 100 pessoas, logo representam muitos mais votos ) ?

    Obviamente que, uma coisa é o voto anónimo e a sua contabilização para efeitos eleitorais ( aí os votos são todos iguais, valem todos o mesmo, uma pessoa, um voto ) outra coisa é o voto concreto desligado do anonimato e referido a uma pessoa ou instituição concreta identificável pelos interesses que representa, e já agora, identificável até pela sua natureza ideológica ou origem .

    No tocante à democracia orgânica, como sabe, é teoria que terá vigorado não só em Portugal como em vários outros países, por exemplo, em Espanha e na Itália fascista . Eu não me alonguei muito sobre o tema, e aliás, se leu bem o que escreví, compreenderá que sou contra, até me manifestei contra os efeitos perversos da defesa dos interesses corporativos, que ainda hoje desgraçadamente persistem e subsistem em Portugal .

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