A herança negra de Cavaco

Carlos Blanco Morais, um conselheiro político do Cavaco que esta semana cessou funções e foi por ele condecorado, deu hoje uma longa entrevista ao DN em que revela detalhadamente os cenários e estratégias que Belém engendrou para os tempos mais próximos. Vir a público com tais “confidências” só pode ter sido incumbência que o patrão lhe confiou.

Segundo o conselheiro, tudo indica que Cavaco irá nomear Passos Coelho para chefiar um governo sem o acordo nem o apoio parlamentar do PS. O fulano não diz uma palavra, obviamente, sobre as repetidas juras do seu patrão de não dar posse a governos minoritários sem apoio maioritário no Parlamento! Deve ter sido ele a aconselhar Cavaco nessa matéria…

Segundo o conselheiro, se o programa do governo minoritário da direita for rejeitado pela maioria da esquerda, Cavaco não destituirá o primeiro-ministro chumbado pelo Parlamento e mantê-lo-á em funções até ao termo do mandato presidencial, lá para Março de 2016. Pelos vistos, um governo de gestão pode durar o tempo que este “pesidente de todos os putugueses” quiser e ele está aparentemente decido a não dar posse a um governo apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda. Com toda a probabilidade, o novo presidente (que a direita acredita piamente será Marcelo) deverá então dissolver a AR e convocar eleições, na esperança de obter uma nova maioria para a direita. O conselheiro não diz isto preto no branco, mas nas entrelinhas lê-se o seu desejo. Prevê, contudo, uma campanha presidencial “envenenada” pela questão do governo. De facto, os eleitores exigirão saber de cada candidato se, no caso de vitória, irá ou não dissolver o Parlamento que há dias elegemos.

Seguem-se, portanto, longos meses de instabilidade, com um Orçamento para aprovar não se sabe por quem, um governo que não pode governar e um Parlamento que entretanto fará as leis que apetecer a qualquer maioria que se forme. É esta a herança que Cavaco deixa ao pais.

12 thoughts on “A herança negra de Cavaco”

  1. já não me lembro onde li que o nosso Cavaco sofre de alzheimer desde há meia dúzia de anos. ora isso, a ser verdade, poderá explicar muita coisa. :-)

  2. Ó Júlio, também me parece que vai ser isso que vai suceder .

    É capaz de ser a Constituição Negra .

    Há três tipos de Constituição: a em branco ( alegadamente Santana dixit) a preto e branco ( que é a escrita que temos ) e em versão colorida ( para os gays ).

    Cavaco, que prima por ser conservador e discreto, dá numa de criativo e lança a Constituição Negra ( texto em negro sobre fundo preto ).

  3. Roubado a pedrolains.Quem quiser ver o resto consulte o blog

    Há um tratado qualquer que obriga o Governo a apresentar em Bruxelas, até ontem, o Orçamento de 2016. O Governo, afinal, parece não ser lá muito de tratados internacionais. Por que não o apresentou? E por que não abriu as contas ao PS? Olhando para o que se passou nestes anos, podemos especular à vontade. As contas do Orçamento estão todas enganadas, por causa das eleições, e Passos estava à espera de ser novamente Governo para depois fazer pressão sobre o PS com a urgência de apresentar um Orçamento de “rigor” em Bruxelas. Pelo menos foi com esse tipo deinteligência subtil, por assim dizer, que fomos governados durante quatro anos. Incluindo vários ……

  4. “Quero ser califa no lugar do califa!”. Esta é a rotineira exigência de Iznogoud, vizir e personagem criada na década de 60 por Goscinny, o génio da banda-desenhada francesa também por detrás de Asterix. Cruel, colérico, viciado na intriga e cego pela sua própria ambição, as aventuras de Iznogoud narram os seus incansáveis empreendimentos em busca do poder, nos quais os fins justificam os meios. Ele prepara golpes engenhosos. Ele aplica os truques mais improváveis. Ele elabora as conspirações mais vis. Ele vicia as regras institucionais. Daí o seu nome – uma fórmula afrancesada da expressão inglesa “is no good”, que designa alguém que é má rês. Ora, Iznogoud é mesmo má rês e, felizmente, também é dado ao infortúnio – por mais que se dedique e tente, as suas aventuras enumeram uma longa sucessão de fracassos que o impedem de ascender a “califa no lugar do califa”. O seu prémio de consolação foi elevar-se, em França, a símbolo da ambição política desmedida, servindo de caricatura para algumas das maiores figuras da classe política francesa.

    António Costa não quer ser califa, mas quer ser primeiro-ministro no lugar do primeiro-ministro. Se fosse francês, teria o seu Iznogoud personalizado nos jornais. Como é português, descrevem-no com ligeireza como um político profissional e ambicioso. Só que esta já não é uma simples história de ambição política (dessas há muitas por aí). É a história de quem coloca o poder acima de tudo o resto, a começar pelo seu próprio partido e a acabar pelo país. Sem olhar a meios ou ver limites num percurso delineado por golpes, truques e traições, por guinadas e viragens, por ditos e desmentidos.

    Note-se que, em menos de um ano, Costa já defendeu um bloco central, um governo minoritário do partido vencedor das eleições, um governo minoritário do PS (o partido derrotado). Já elogiou o Syriza e já o criticou. Já disse que a economia portuguesa estava em recuperação e já negou que a recuperação existisse. Já argumentou que, com governos minoritários, o maior partido da oposição deve viabilizar os orçamentos de estado e já garantiu que não viabilizará o orçamento de estado que PSD/CDS apresentarão. Enfim, já atacou ferozmente os partidos à esquerda do PS e, agora, com eles já só encontra convergências. Ou seja, António Costa escolheu, disse e fez sempre aquilo que, em cada momento, o tornasse mais popular, lhe valesse mais aplausos, o aproximasse mais do lugar que ele julga ser seu por direito – São Bento. É essa a sua coerência.

  5. Na entrevista citada pode ler-se o seguinte:

    «Se um novo governo da PAF for demitido em razão da rejeição do seu programa, o Presidente pode, no plano jurídico, aceitar que se quede em gestão até à eleição e posse do seu sucessor, em março. O OE de 2014 vigoraria em regime duodecimal e medidas financeiras de urgência poderiam ser sempre tomadas, caso sejam assumidas como necessárias e inadiáveis, à luz da jurisprudência constitucional sobre a [sic] governos em gestão. É que o Presidente pode nomear, mas não está vinculado a proceder à nomeação de um novo primeiro-ministro oriundo dos partidos que perderam a eleição.»

    Note-se que a constituição estabelece claramente (art. 195º) que a rejeição do programa de governo implica a demissão do governo que o apresentou, e consequentemente, em circunstãncias normais, a nomeação de outro governo.

    E o que o conselheiro parece estar a esconder de forma matreira, através da fórmula sugestiva de uma «aceitação» (sic) presidencial, inocente e quase passiva, de que o governo demitido «se quedasse em funções» à luz da jurisprudência sobre governos em gestão, é que o boicote activo de uma possibilidade de governação democrática e maioritária, por um presidente apostado em impor durante 6 meses a minoria incapaz de governar do seu próprio partido, poderia ser justificada através da alegação do tipo de condições anómalas ou de excepção que geralmente são supostas estar na origem da manutenção de governos demitidos em funções de gestão.

    Claro que o resultado de um tal exercício de má-fé em presença de uma maioria pronta a governar e em condições de fornecer garantias escritas de estabilidade durante pelo menos os 6 meses em questão, seria um escândalo político e inauguraria um período de paralização e golpadas, provavelmente de todas as bandas, ruinoso para o país, mas esse tipo de considerações não costuma incomodar muito estes sectores maquiavélicos que gostam de brincar com o fogo, nos psicodramas da sua imaginação .

    Pobre país o nosso.

  6. O Costa argumenta como quem vendeu a alma ao diabo.
    Tem o genes daquele que era da telecom, vão até ao fim.
    A Mortágua é que podia explicar o fenómeno.

  7. Gungunhana
    podias ter citado o resto da resposta do Morais:

    “Tudo depende de uma avaliação que faça sobre a consistência das soluções governativas em presença, seu impacto político e financeiro e os seus riscos objetivos na salvaguarda do interesse nacional e no regular funcionamento das instituições. Uma maioria absoluta matemática das oposições que não tenha consistência política ou programática não possui qualquer título preferencial sobre uma maioria relativa que se revele mais coerente.”

    Como é que o gajo de Belém iria decidir que a “maioria matemática” não teria “consistência política ou programática” se lhe fosse apresentado um acordo ou plataforma de governo por essa “maioria matemática”, ou seja, o PS/BE/PCP? Em que se fundamentaria o gajo para achar mais “coerente” a maioria relativa da direita?

    O Morais apela, de facto, a um golpe do PR.

  8. O conselheiro ganha a vida aconselhando por isso, segue o velho
    princípio de albardar à vontade do pagante! Não esquecer que,
    estes especialistas, trabalham noite fora e, como se sabe a priva-
    ção do sono conduz a situações de perfeita alucinação!!!

  9. Há ainda outra resposta do Morais a um pergunta do DN que revela bem o carácter sofístico da argumentação do sr. conselheiro:

    “DN – Há países europeus em que o maior partido não chefia o governo. É de ter isso em conta?

    Carlos Blanco Morais – São escassos. Além do caso atípico (e patológico) da Bélgica, recordo-me recentemente, fora da União Europeia, da Noruega (aliança entre conservadores e a extrema-direita soft core do Partido do Progresso) e da Dinamarca, que não integra a zona euro e em que o Partido Conservador, o terceiro mais votado, lidera um governo apoiado no Parlamento por um poderoso partido de extrema-direita colarinho branco, o Partido Popular, que ficou em segundo lugar e gere à distância com mão dura a política de imigração. Será este o paradigma que se deseja no nosso sistema político?”

    O papão da extrema-direita usado à falta de argumentos pertinentes pelo sr. professor catedrático de Direito…

  10. Madeira
    o sr. conselheiro é pago, como os outros, mas o que ele é acima de tudo é político e “conservador musculado” segundo disse o DN em 2008. Acho que ele se preparava agora para ser o próximo ministro da Justiça. Já se falava dele em 2011. No Estado Novo faria carreira junto do Botas.

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