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ALARMISTAS OU OPORTUNISTAS?

De vez em quando lá estou eu, sem quase dar por isso, a ler os “chamativos” títulos das capas das revistas portuguesas, que se avolumam nos escaparates, sempre que encontram um cantinho disponível: nos hipermercados, estrategicamente dispostas junto às caixas registadoras; nos postos de abastecimento de combustíveis; nos quiosques; nas chamadas tabacarias ou casas dos jornais; nos passeios (sempre apelativas), em cima das mesas dos cafés (aqui, mais os jornais) …
Sem falar nos lugares onde as “revistas à portuguesa” não se encontram à venda, pela simples razão de que já foram adquiridas. É isso. Ali estão elas à mão de quem espera a sua vez nos cabeleireiros, nas esteticistas, nos consultórios médicos, etc.
Por fim, temos as amigas ou familiares, que não resistiram à tentação da compra, e que, gentilmente, nos dizem: “Eu já li, se quiseres, leva…”
Por vezes, levamos…Também, se não levássemos, como poderia eu, agora, escrever este texto?

Soledade Martinho Costa

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Os comportamentos e os formatos sociais

Gosto muito de ler livros antigos, gosto de me imaginar noutros séculos com sinos em vez de telemóveis, com batéis em vez de navios, com carroças em vez de automóveis. Mas esse é apenas um aspecto da questão. As comunicações, as viagens e os meios de transporte variaram muito nos últimos séculos. Mas as pessoas, os seus comportamentos e os formatos sociais que as integram, esses, pouco ou nada mudaram. Vejamos um caso.

No dia 14 de Março de 1562, reuniu a Câmara Municipal de Benavente. Estando presentes António Baracho (juiz ordinário), João de Parada, Pedro Álvares Baracho e Gaspar Dias (vereadores), Gaspar Fernandes (procurador) e Manuel Frade (escrivão), foi decidido o seguinte: «Acordam que nenhuma mulher solteira possa viver sozinha nesta vila, sem amo, sem ninguém, pelo que deverá sair da mesma vila sob pena de 10 cruzados de multa mais um ano de degredo fora da vila ou termo. As mulheres casadas que vierem viver para esta vila, com seus maridos, terão de dar notícias de si, no prazo de 8 dias e mostrar donde vêm, sob a mesma pena, e isto atendendo a existirem nesta vila muitas mulheres solteiras que não têm amo nem vivem com ninguém.»

Já nesse distante ano de 1562 funcionava um sistema de repressão social contra quem se colocava fora da norma, fora do preceito, fora do que se supõe ser o que a sociedade espera de cada um de nós. Hoje, por outras palavras, o sistema continua a exercer a sua pressão sobre os comportamentos individuais tentando formatar (como hoje se diz) tudo pela mesma medida. Formatar, condicionar, proibir ou censurar vai tudo dar ao mesmo. Afinal não fizemos assim tantos progressos no campo das mentalidades.

José do Carmo Francisco

Cristiano Ronaldo fora da legenda

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Leio e não acredito. No Diário de Notícias de 21-4-2007 pedem a Eusébio da Silva Ferreira, simplesmente Eusébio, o pantera negra, que escolha o seu onze ideal. Quem pede? A Karen que deixou de ser Jardel e passou a assinar com o nome de solteira – Matzenbacher.

Eis o onze ideal de Eusébio: Buffon, Miguel, John Terry, Ricardo Carvalho, Roberto Carlos, Kaká, Deco, Gerrard, Cristiano Ronaldo, Thierry Henry e Ronaldinho Gaúcho. O treinador é Eriksson e os suplentes são: Van der Sar, Lampard, Rooney, Ferdinand, Beckham e Maldini.

Até aqui tudo bem. Um onze ideal é apenas um exercício magazinesco. Agora o erro, erro crasso, erro monstruoso está na legenda que é a seguinte: «A minha equipa – Só dois portugueses, Miguel e Ricardo Carvalho, e um luso-brasileiro, Deco. As escolhas de Eusébio para o melhor onze da actualidade.»

Reparem bem. Cristiano Ronaldo fica de fora na legenda. A minha dúvida é só uma: será que no novo Diário de Notícias os revisores também foram substituídos pelos computadores? Então o melhor jogador do Mundo, o Cristiano que eu vi chegar a Alvalade com onze anos trazido pelo Dr. Marques de Freitas e pelo seu padrinho (o senhor Fernão), o Cristiano Ronaldo que gostava de ver os juniores nos sábados à tarde sentado ao meu lado e do grande José Travassos (o primeiro português a jogar na selecção da Europa) no banco verde que ficava em frente às cabinas do velho campo número dois, o Cristiano Ronaldo, esse mesmo, desaparece da legenda do Diário de Notícias.

Não pode ser. Não pode ser.

José do Carmo Francisco

Natália Correia lida em voz alta no North Yorkshire

No dia 27 de Abril de 2006, na pacata localidade de Harome no Yorkshire, aconteceu o casamento da minha filha Ana Maria. Tal situação em si (e só por si) não justificaria a existência de nenhuma crónica, pois os assuntos privados não podem servir de ponto de partida para um exercício de escrita e de leitura. Não aos assuntos privados. Mas há sempre um mas.

Neste caso um dos aspectos mais comoventes da cerimónia do casamento foi a leitura pela minha filha Marta do poema de Natália Correia que começa assim: Creio nos anjos que andam pelo Mundo / Creio na Deusa com olhos de diamantes / Creio em amores lunares com piano ao fundo / Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes. O mais curioso tem a ver com o facto de o poema terminar desta maneira: Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.

Ora a senhora conservadora do Registo Civil de Molton a princípio recusou o poema porque incluía a palavra «Ámen», mas a minha filha Ana Maria teve artes de a convencer que aquele «Ámen» tinha o significado poético de «Assim seja» pois todo o poema está construído numa dinâmica de afirmação. Numa cerimónia totalmente civil uma referência a temas religiosos seria inaceitável, mas felizmente a senhora conservadora (tão conservadora que ainda usa mata-borrão) acabou por aceitar o poema de Natália Correia lido em voz alta pela menina das alianças, a minha filha Marta. O meu filho Filipe registou tudo em filme funcionando assim de modo informal como o fotógrafo do casamento.

Para uma cerimónia que teve início ao som da música de Eric Satie nada melhor que as palavras fortes, altas e sonoras de Natália Correia numa grande profissão de fé no amor. Assim seja.

José do Carmo Francisco

Um sociólogo com um discurso aterrador

Ele dá pelo nome de Alberto Gonçalves e é apresentado pelo Diário de Notícias de hoje como «um cronista reconhecido pelo seu estilo contundente». Não há exagero, pois a sua entrada nas páginas 8 e 9 do DN deste domingo fez mais estragos que um elefante numa loja de cristais.

O homenzinho usa um estilo («dizer mal de tudo») parecido com Vasco Correia Guedes (que assina Vasco Pulido Valente) e faz também lembrar um tal Pedro Arroja que nos anos 90 ficou conhecido por querer privatizar a PSP, a GNR e os Tribunais. Começa por se definir em relação aos americanos dizendo-se recém-chegado de Nova Iorque onde há tudo o que ele gosta numa grande cidade: «livrarias a sério, museus dignos desse nome e restaurantes abertos até de madrugada». Com este cartão de visita, já não estranho os insultos ao governo da Palestina, a José Afonso e à Brigada Vítor Jara. O homenzinho utiliza comas para a palavra antifascismo e finge nada saber sobre o Aljube, Caxias, Peniche e Tarrafal, mas já utiliza comas para se referir a José Afonso como «Zeca» e chama ociosos e desempregados às pessoas que se manifestaram em Viseu e Santa Comba Dão contra a construção do Museu de Salazar.

Está visto que com um cronista destes o Diário de Notícias está à procura de grossa polémica. Mas alguma coisa não bate bem nesta prosa: se o homenzinho gosta tanto de Nova Iorque e dos seus centros comerciais abertos toda a noite, então vá viver para lá e deixe em paz os leitores do DN não estragando a manhã a quem atravessa o Chiado para beber a bica, saborear o sol e ler o seu jornal.

Sociólogo ou suciólogo – eis a questão.

José do Carmo Francisco

Um lençol português

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Texto sobre Miniaturas (Colibri, 2001) de Paulo Kellerman,
aparecido no «Expresso» de 16 de Junho de 2001.

Três livrinhos discretos, quase clandestinos, revelam um ficcionista desenvolto e cruel

Numa vida, o que não falta são desencontros. As oportunidades abundam, nisso a vida parece um paraíso, mas não tardamos a acordar, de encontro a mais uma parede, guardando agora debaixo do braço, ou sabe-se lá onde, esse novo peso, mais uma frustração. E, isso, em hipótese favorável. Porque, de um desencontro, pode bem simplesmente morrer-se.

Parece trivial. Até ao momento em que alguém achou forma de no-lo narrar com uma tremenda verdade e desarmante desprendimento. É o que consegue Paulo Kellerman (1974, Leiria). As suas histórias não podiam ser mais convincentes de que nascemos com o estranho dom de enganar-nos. E de que disso se definha. E, em casos graves, não se aguenta vivo. Não servir tanta tristeza para cansar-nos, e antes nos faça pedir por mais, é o mérito do artista e prova do nosso bom gosto.

De enganos está cheio o volume Pequenas Nuvens Solitárias Perdidas no Imenso Azul do Céu (Sem Editora, 2001). Enganos como o de Jorge, que ama desesperadamente a vizinha enfermeira, que nunca saberá a tempo que ele se chamava Jorge. Na sua última manhã, o rapaz tomará um café no exacto sítio onde o pai, ali empregado, servira a mãe, e de onde a levara para que Jorge fosse feito. Agora, na última tarde, um atraso irá, pelos melhores motivos, impedir a enfermeira de salvar o moço do suicídio.

Ou, então, o caso do homem que vive, e sabendo-o, o último despertar com aquela mulher, e da mulher que se prepara para não regressar à vida com aquele homem, e da casa a que, sabemo-lo só nós, logo à tarde ninguém regressará. Ou o caso do lençol de «As sirenes que tocam», que está sendo feito em Portugal por uma moça que o imagina cobrindo, um dia, orgasmos americanos (nada de assombroso, segundo um jornal em epígrafe «Dez por cento dos lençóis comprados nos EUA são portugueses»), o exacto lençol que vai tapar um corpo, sim, americano, mas esfacelado.

São episódios de intensa proximidade, os que povoam os contos de Paulo Kellerman. Daí a crueza dos desenlaces, impossível de prever numa escrita tranquila e quase inocente. Há aqui uma arte do decoro e, no fim, a ciência de um curto golpe. Há um quotidiano frustrante, comum a recentes narrativas, mas severo, quase brutal. Estamos a milhas do aveludado de Pedro Paixão.

Em colectânea anterior, Sete (Sem Editora, 2000), já os desacertos reinavam, já as situações terminais afluíam, com o assinalável virtuosismo de «Sexo», cadeia de dez histórias e um epílogo, por onde vemos passarem Silvestre, o taxista que não resiste a violar a virgem que traz, ébria, de uma despedida de solteira, ou Simão, que reencontra prostituta uma colega da escola, e se descobrirá, «embriagado de dor e desespero», seropositivo.

Reconhecimento público, obteve-o Paulo Kellerman (ligado, informa-se-nos, à rádio e a jornais) com Miniaturas, prémio «Manuel Teixeira Gomes», de Portimão. São 56 histórias curtíssimas, esguias de mais para o desenvolver de uma trama, mas, como uma boa piada, tirando forças da exiguidade. E, se é certo haverem-nas algo insulsas – outras, e não poucas, magnificamente engendradas, têm o certeiro e o assustador de um açoite, com o arguto expediente de usar termos que, por instantes, críamos metafóricos, e logo descobrimos arrepiantemente literais.

O jovem Paulo Kellerman mostra uma desenvoltura de temas e de processos que nos convencem e entusiasmam. E que só espantarão a quem pensasse que a ficção portuguesa já deu o que tinha a dar.

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Um fim-de-semana tranquilo

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Se tudo correr bem, muitos espectadores da SIC, sobretudo entre os mais tardios, vão entrar esta noite num fim-de-semana particularmente tranquilo. Razão? Digamo-lo já: Santiago vai mostrar-se a Laura.

Imagino um leitor – você aí, por exemplo – a perguntar-se sobre a transcendência disso: de Laura ir ver Santiago a descoberto. O seu mundo dispensou-os até hoje, e não se vê bem por que ele, o seu mundo, seria, por isso, menos perfeito. Na melhor hipótese, você está fantasiando algum filme soft porno, em que aparecem coisas, ou pessoas, a serem mostradas.

Pois engana-se. Trata-se de uma série que não atenta contra nenhum princípio moral, seja cristão seja burguês – e a diferença poderia ser especiosa. Baste-lhe saber que ali entra um padre, e nada modernaço, que resiste (até hoje eficazmente) contra as propensões da carne. Da carne. Você percebeu, não se faça sonso.

Pois bem. Se a série Vingança lhe é desconhecida, tenho a respeitar as suas prioridades – mas não as lamento menos. Você, verdadeiramente, não sabe o que perde.

Eu não vou aqui, claro, explicitar a sua perda. O seu tempo é precioso, já vi, e o meu, acredite, não o é menos. Mas convém-lhe, talvez, saber que, se você der amanhã, no centro comercial, ou na simples rua, com rostos desafogados, isso pode ter a ver com a descontracção que o primeiro-ministro acaba de comunicar a um País até hoje tão tenso. Mas pode também, e com maior probabilidade, dever-se a terem-se Santiago e Laura finalmente encontrado esta noite, ela que o julgava há dez anos morto.

A sério (e já se vinha falando muito a sério): aí está uma série televisiva portuguesa, numa só palavra, magnífica. Como diz? Há nela coisas inverosímeis? Decerto. Mas tem você visto séries brasileiras? E não se seguram elas por uma inverosimilhança a potes? E não são elas, sem favor, em questão de séries (bom, tirando CSI Miami), as melhores do mundo?

Um bom serão.

TABACARIA

Ela, mascando a chicla de boquinha aberta, os óculos arrumados no toucado. Ele, a bermuda abaixo do joelho, de barriga precoce a desabar.
Ela vai à escola de Comunicação Social, ele à Sociologia.
– Tás a ver?! Álvaro de Campos! Não gostas?
– Quê, o das odes?! Não, sou mais o outro, o Caeiro! É mais coisa!
Ontem, na festa, ele bebeu, gritou, curtiu o homem do chapéu. Ela apenas riu muito, pulou, os braços a adejar.
Ambos são o futuro, mas ainda é cedo.

Jorge Carvalheira

A porta para nenhures

Aqui fica a fotografia completa da Sininho. As suas explicações seguem.

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O Fernando foi malandro porque cortou a segunda fotografia… mas são duas Rifanhas, no “conversé”, à porta de uma porta que já não é porta para lado algum. É que, a casa que está por detrás foi toda demolida (e Fernando, a prova que foste malandro, é que isso não se vê com a fotografia cortadinha…). Essa mesma fotografia (inteira) tem em primeiro plano, um candeeiro de rua, de modelo tradicional mas com uma lâmpada branca, daquelas bem brancas e fluorescentes, fruto da modernização. Para reflectir: para quando os postes eléctricos no Sahara?

O Mundo começa nas Escadinhas do Duque

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No já distante ano de 2004, mais precisamente no dia 9 de Outubro, o poeta brasileiro Alexei Bueno andou por aqui e escreveu um poema com o título de «Lisboa». Trata-se de um soneto que termina com estes versos:

Poço dos Negros, Praça da Figueira
Escadinhas do Duque. Com os amigos
Mortos, vivos, é andar a noite inteira

No sonho, em meio aos planos e perigos
Ou será já verdade, ou bebedeira
Tal dor dos dias límpidos e antigos?

O curioso de tudo isto é que o seu livro A árvore seca vai ser publicado em Portugal dentro de pouco tempo pela Editora Bonecos Rebeldes que (por notável coincidência) fica situada nas Escadinhas do Duque, no número 19-A. No mesmo lugar onde se estão a publicar, a um ritmo paulatino e decidido, todas as aventuras do Príncipe Valente. Pela primeira vez em Portugal e com tradução directa do original, sem traduções transversais do francês ou do castelhano.

Mas esta de um poeta brasileiro ter ficado encantado em 2004 com um designação toponímica invulgar, escrever um poema no qual regista esse encanto e esse poema ser editado em 2007 por uma jovem editora situada nesse lugar, é obra!

José do Carmo Francisco

O homem que não lia livros

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Eduardo Gageiro, Bairro Alto

Moro no Bairro Alto desde 1976, mas vivo em Lisboa desde 1966. E comecei por viver em Campolide uns meses e em Santa Catarina vários anos. Quer isto dizer que são já 40 anos de convívio permanente com alfarrabistas, leilões de arte, antiquários, livrarias, bibliotecas, etc.

Outro dia fui ver a exposição de mais um grande leilão no Palácio do Correio Velho, ali na Calçada do Combro. Claro que não tenho dinheiro para mandar cantar um cego, mas vou lá pelo prazer de ver. Neste caso descobri um quadro de Sousa Pinto, um notável pintor paisagista que nasceu em Angra do Heroísmo no ano de 1856 e faleceu na região da Bretanha francesa em 1939. Trata-se de «Acendendo o cachimbo pela madrugada», um quadro muito famoso que vale pelo menos 30 mil euros. Vejo a seu lado quadros de Silva Porto, Dominguez Alvarez, Jaime Murteira, Isaías Newton e muitos outros. Não posso comprar, mas venho feliz com o que vi.

De repente, suspendo a marcha porque descubro um jornalista dito cultural, numa minúscula galeria de arte, a falar para uma pequena plateia. Paro e fico a pensar. É este o homem que no seu jornal viu os meus livros um a um e sistematicamente dizia «este não interessa nem ao Menino Jesus» Bastava-lhe olhar o nome do autor e o título.

Este pobre e pequeno homem não percebe que a história da literatura não passa por ele. No tempo de Cesário Verde quem era conhecido era Cláudio Nunes, no tempo de Eça de Queirós quem era popular era Pinheiro Chagas e no tempo de Camilo Pessanha o poeta era Augusto Gil.

Olho para o homenzinho sem nenhum rancor. Ele está, como sempre esteve, a falar para o boneco. Eu, pelo contrário, estou vivo e tenho pessoas que tomam a sério o que eu escrevo. O resto é conversa.

José do Carmo Francisco

Língua movediça

Para os leitores do post abaixo, do Valupi, algumas informações mais,
de um artigo que publiquei na KAPA, em 1992.

Há tempos, O Independente ocupava-se de um tema amargo. Falava-se da estadia de gatos em ‘pensões’ durante as férias dos donos. Consolações só havia uma: a de o bicho, numa segunda estada, já ter noção do que lhe acontecia. A partir daí, escrevia o jornal, «o bichano já percebeu que só está ali de férias e que eventualmente o dono irá recolhê-lo». E nós, amigos de gatos, ficamos tristes outra vez. Porque afinal só eventualmente o dono o virá buscar. Depois, se o entristecimento não toldar de todo a razão, há-de haver quem recorde o seu inglês. E lá está: o dono há-de vir finalmente buscar o tareco. «Eventually», era bem de ver.

Este drama passou. Mas ainda há-de ver-se muito sofrimento inútil. Por impensável que, assim a frio, possa parecer, este decalque inglês vem tomando entre nós apreciável terreno. Não poupa ninguém. No Expresso pode escrever-se isto: «Os físicos do início deste século viviam um sentimento de crise e eventualmente de desespero». Leia-se em inglês e percebe-se. Mas mesmo um autor tão seguro como Jorge de Sena se refere a poemas «em que o poeta, eventualmente regressado à sua terra natal, se compraz nadando», etc. (em O Reino da Estupidez, II).

É grave? Não sei. Só sei que há mais e há pior. Por exemplo, já ninguém tem mão nesse tresloucado virtualmente. Pois, que pode supor-se signifique «O avião tornou-se virtualmente incontrolável?». Ou: «Possuindo uma aparência característica, é virtualmente impossível confundi-las»? Que aconteceu, para poder dizer-se «Todos os medicamentos são há anos virtualmente desviados para o Zaire»? Será verdade que «as visões da nossa poesia são virtualmente ilimitadas»? Tudo isto de fonte impoluta e exemplar, casos do Expresso ou do JL. Para quem não souber o que «virtually» quer dizer (e é esta coisa simples: ‘quase’, ‘praticamente’) aquilo são afirmações que soam no vazio.

A significação das palavras é, foi sempre, um dos segmentos mais movediços da linguagem. E nada como os advérbios para mostrarem elasticidade. Já a nossa bisavó gatinhava, e ainda o advérbio ultimamente significava ‘em último lugar’. Novamente equivalia, por essa altura, a ‘recentemente’. Assim continuará a ser. A semântica do advérbio é um encadear de desvirtuamentos. As acções de salvamento individuais não conservam, passados anos, senão o lado grotesco. Na melhor das hipóteses, consegue-se enternecer a posteridade.

Dito isso, avancemos. É que esta batalha pode não estar de todo perdida.

Não é só o inglês que nos perpassa as porosidades, o francês faz outro tanto. Todos temos um amigo português em França que nos escreve, rendido: «Finalmente tinhas razão». Ele quer, é evidente, dizer: «Afinal tinhas razão». Ou surge-nos de lá uma amiga, também portuguesa, a informar: «Normalmente chego hoje». Ela queria apenas dizer ‘em princípio’.

Mas como os amigos na França são muitos, há de que recear-se. Em particular quando as forças francesas e inglesas se aliam para a desestabilização. Veja-se o caso de aparentemente. Ele tem, coisa conhecida, o valor de ‘à primeira vista’, ‘na aparência’. Seja este exemplo: «O líder dos conservadores afirmou que a nova ideia, aparentemente benéfica, se transformara, quando posta em prática, numa monstruosidade perversa». É isso. Estava, não há muito, nesta revista.

Acontece porém que, dois em cada três casos, aparentemente se nos oferece com significado alienígena. Exemplos? Eles são diários, veja-os o leitor por si mesmo. E substitua-os por qualquer coisa como ‘ao que parece’, ‘segundo tudo indica’, ‘pelos vistos’, ‘ao que consta’. Isto é português e, para mais, bastante menos monótono.

É consigo. Mas, se fosse eu, agarrava esta língua antes que resvalasse mais. À bruta, se necessário.

O mais das vezes, nem tanto será preciso.

Revista KAPA, nº 11, 1992

Eduardo Mourato ou as emoções pressentidas

Eduardo Mourato (fotógrafo nascido em Portalegre no ano de 1966) expõs no Centro Comercial Fonte Nova de Lisboa um conjunto de fotografias sobre uma actividade artesanal que está hoje em dia quase em vias de extinção. As salinas são locais onde se desenrola uma espécie de serena liturgia da paciência. Numa solidão extrema e com a utilização de utensílios muito rudimentares, homens sem rosto e quase sem voz, organizam de madrugada o trabalho que os raios de sol são convidados a realizar durante o dia. A água salgada vai, num processo muito lento, dar origem ao sal, um produto tão velho na Terra como o próprio Homem. Tão antigo que a palavra salário deriva do seu nome, um nome assim antigo e cheio de peso. Muitos soldados recebiam o seu pré em sal e o salário nunca mais deixou de ser uma palavra nobre, o preço do suor, o valor do esforço, a contrapartida para a silenciosa abnegação de quem trabalha junto às matérias mais elementares do Mundo – a água e a terra.

As fotografias de Eduardo Mourato são uma serena recusa do bilhete-postal. Nelas não surgem salineiros em esforço mas antes as lentas etapas da construção das pirâmides brancas, ponto de encontro entre a força dos homens e o poder da Natureza.

São essas as emoções pressentidas que, qual música sem nome nem destino, povoam as salinas do Algarve que estas fotografias trazem de volta para todos nós numa cidade onde tudo (ou quase tudo) é hostil, frenético e veloz.

José do Carmo Francisco

Não há bela(s) sem senão(s) II

Pegando numa outra ponta da meada, ou seja, na sequência do meu texto anterior, gostaria de acrescentar que a senhora ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, sugeriu, referindo-se ao programa em causa, “A Bela e o Mestre”, da TVI, “que a Comissão para a Igualdade dos Direitos das Mulheres (CIDM) deveria ter uma palavra a dizer sobre o assunto”.

E assim foi. Inspirada nas palavras da ministra, a Comissão informou “estar a preparar uma queixa junto da Entidade Reguladora”, por achar “inadmissível nos dias que correm haver um programa deste tipo”. Mais. “Programa que desconstrói todo o trabalho que tem sido feito no sentido de promover a igualdade de oportunidades e acabar com a discriminação com base no género.”. E a presidente do CIDM, Elza Pais, acrescenta: “O nosso objectivo é claro: fazer com que o programa seja suspenso.”

Será, pergunto eu? Ou todo este burburinho não acabará, isso sim, em benefício (ou publicidade) ao reality show, acima citado? É bom lembrar que as audiências são sempre o que mais interessa aos canais…
Minhas caras senhoras (e com todo o respeito), as “belas” foram, por acaso, obrigadas a concorrer? Não. As “belas” ficam, por acaso, tristes quando são eliminadas do concurso? Sim. As “belas” sentem-se, por acaso, desconsideradas pelo “pessoal” da Endemol, pelos apresentadores, pelo júri, pelo público, que as aplaude entusiasticamente? Não. As “belas” (qualquer uma) gostaria, por acaso, de ganhar os tais 100 mil euros no final do programa? Sim.

Só existe um “pequenino” pormenor: as “belas” não têm a mínima “vocação” para aquilo a que chamamos cultura geral. E não se envergonham. Assumem. Para isso é que as “belas” lá estão (no concurso), certo?
Assim sendo, tudo corre sobre patins. Já repararam nas reportagens de rua, em que os entrevistados sabem na ponta da língua os nomes das “belas” e dos seus “mestres”? Os portugueses mostram que vêem e apreciam o concurso e a Televisão somente oferece aos portugueses aquilo que os portugueses apreciam e merecem!
Cancelar o programa, só porque nos é dado constatar a realidade que confrange uma minoria? Porque está ali uma parte da juventude feminina que temos? Cancelar o programa para “tapar o Sol com a peneira”? Para “vender gato por lebre”? Para esconder, do sexo oposto…Isso não vale!

Agora, não me venham escrever alguns cronistas (eu li) que a culpa desta incultura feminina é deste ou daquele ministro da Educação de há uns anos atrás. Tenham dó! Política, mas não tanto…

Voltando à senhora ministra e à Comissão, penso que não têm que se preocupar. Em vez de pedirem ao José Eduardo Moniz para cancelar o programa (ele que investiu um dinheirão no projecto!), peçam, sim, um outro programa do mesmo género. Com a diferença de que os nossos jovens devem ficar no lugar das “belas”. Escolhem-se alguns Adónis (nunca houve tantos, quem sabe à procura de uma oportunidade), e, minhas senhoras, podem ter a certeza de que a equidade entre sexos, no que concerne a cultura geral, é perfeita. Não há igualdade mais igual!

Sejamos realistas e menos ingénuos. Neste país, quase ninguém pode nada, contra nada nem ninguém – só alguns e esses são poucos. Poucos e não estão integrados em Comissões. Estão interessados, perdão, integrados noutras coisas…

P.S. Acabo de ser informada de que no “Correio da Manhã” de hoje, vem uma notícia a dar-me razão. Está previsto um novo programa na TVI onde os “belos” tomam o lugar das “belas”. Não tenho bola de cristal, mas “nada acontece por acaso”, como diz uma amiga minha…

Soledade Martinho Costa

«E Deus Pegou-me pela Cintura»

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Luís Carmelo

Este apontamento crítico saiu hoje no «Actual» do Expresso.

Uma jornalista portuguesa, em trabalho no Líbano, é raptada. Estamos no início de Outubro de 2006. O fim da guerra com os israelitas não tornou a região menos confusa. A diplomacia portuguesa prova pouca agilidade, e Rute Monteiro acabará assassinada, com realismo videográfico «on-line», embora sem confirmação. Sobre esta tragédia escreveu Luís Carmelo o romance E Deus Pegou-me pela Cintura. É um relato «de geração» (o episódio terrorista é apenas pretexto) e pretende-se retrato dum país inteiro.

O romancista, também professor universitário, ensaísta e conhecido «blogger», engendrou um pré-lançamento a que não faltava invenção: a blogosfera forneceria uma inaudita «cacha». Bloguistas amigos, ou cúmplices, emprestaram credibilidade ao drama, enquanto a paralela «apatia» dos «media» tradicionais funcionava como escândalo e prova de inaptidão. «E porquê este silêncio todo?», lia-se numa caixa de comentários. «Eu acho arrepiante.»

O golpe publicitário (bom, a «antecipação ficcional», como o autor lhe chamou em entrevista na rádio a Francisco José Viegas) não pôs lírica a blogosfera inteira. Nada de estranhar, considerou Eduardo Pitta: semelhante «enfado» perante a lúdica manobra só nos ilustrava a incapacidade de rir. O que não convenceria Rui Bebiano, que via no «artifício wellesiano» uma certa «banalização do mal».

Movimentam-se, no romance, três espaços de tempo. Há a história actual, a do sequestro – e tão estritamente contemporânea que desembocará no próximo futuro Verão. Há o longínquo panorama revolucionário de uma Rute em Évora e seu namoro com Guilherme, colega universitário. E há o reencontro dos dois, de Setembro de 2006, em Lisboa, ela já repórter conceituada, ele cartoonista diário. Com algum pormenor se preenchem, ainda, os 30 anos intercalares. Em todos estes cenários é alimentado o contacto com a História exterior (das ocupações de latifúndios, em 1975, à última guerra no Líbano e à mensagem de Natal de José Sócrates), numa fusão que, aqui e ali, ganharia com mais subtil tratamento.

Alguma subtileza se desejaria, também, às cultíssimas alusões que povoam os romances de Luís Carmelo, onde (são dois exemplos, neste, inofensivos e nacionais) uma vivenda será «estilo Raul Lino» e certo bebé nascerá «no dia da morte de Vitorino Nemésio». Mais precária, todavia, é a atmosfera premonitória (digamo-lo assim) que embebe estas ficções. Só no cenário de Évora abundam o «promissor», o «providencial», o «auspicioso», o «significativo», o «sintomático». Estamos num universo conspirativo, como o que Hélia Correia constrói, mas aqui com os cordéis todos à mostra. Por ironia? Seria difícil supô-lo. Na ritualizada literatura de Luís Carmelo, quando há riso, diz-se que há.

Um escândalo internacional como trama, aí está um achado. Mas ele pressupõe uma desenvoltura que este autor não explorou, embora o pudesse. A bem conduzida cena do interrogatório de Guilherme por uma PSP intrigada pelo rapto, único momento vibrante do volume, mostra um Luís Carmelo capaz de outras façanhas. Subaproveitado, portanto.

E Deus Pegou-me pela Cintura
Luís Carmelo
Guerra & Paz, 2007, 192 págs., €17

À atenção de (pelo menos) Jorge Candeias

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A coisa já não é recente. Passa-se no longínquo 1993. Recente é a recordação dela.

O bloguista Jorge Candeias lembrou, aqui abaixo, na nossa caixa de comentários, certo texto de Francisco José Viegas, na Ler, de que era director (foi-o durante dez anos), texto crítico que FJV intitulou «A bosta do trimestre» e tinha por pretexto uma Antologia de ficção científica, O Atlântico tem duas margens, de autores brasileiros e portugueses. Hoje, por sua vez, Jorge Candeias designa por «texto merdoso» o de Viegas.

Fica a gente pasmada. Vamos ao número 23 da Ler (suba ao sótão, ou peça a um amigo atento ao mundo… e aproveite para ler aí, também, a minha entrevista ao célebre escritor holandês Gerrit Komrij, que reside na nossa Beira Baixa), e vemos Viegas achar «defeituosos, sem graça, mal escritos» alguns dos contos antologiados. Faz, ainda assim, referência a «excepções (e assinaladas, do lado português)».

Compare-se este, talvez útil, e decerto simpático, apontamento de Viegas com a crítica que, do mesmo livro, faz o próprio Jorge Candeias (pode achá-la no seu blogue), onde damos com apreciações (cada uma referida a um texto diferente) como «um conto com algum interesse», «um conto muito esquecível», «um dos piores do livro», «bastante fraco», «não é dos melhores», «não está particularmente bem escrito», «longe da sua melhor forma», «pouco ou nada de relevante traz», «não é dos melhores». E, apreciando o conjunto, Candeias diz que «não chega a poder ser considerado bom».

Não conheço a Antologia. Mas algo me diz que tanto Jorge Candeias como FJ Viegas têm suma razão. Só não atino é com o que haja de «merdoso» na crítica de Viegas e de, por isso, tão intensamente inteligente na de Candeias.