O homem que não lia livros

s500x500.jpg

Eduardo Gageiro, Bairro Alto

Moro no Bairro Alto desde 1976, mas vivo em Lisboa desde 1966. E comecei por viver em Campolide uns meses e em Santa Catarina vários anos. Quer isto dizer que são já 40 anos de convívio permanente com alfarrabistas, leilões de arte, antiquários, livrarias, bibliotecas, etc.

Outro dia fui ver a exposição de mais um grande leilão no Palácio do Correio Velho, ali na Calçada do Combro. Claro que não tenho dinheiro para mandar cantar um cego, mas vou lá pelo prazer de ver. Neste caso descobri um quadro de Sousa Pinto, um notável pintor paisagista que nasceu em Angra do Heroísmo no ano de 1856 e faleceu na região da Bretanha francesa em 1939. Trata-se de «Acendendo o cachimbo pela madrugada», um quadro muito famoso que vale pelo menos 30 mil euros. Vejo a seu lado quadros de Silva Porto, Dominguez Alvarez, Jaime Murteira, Isaías Newton e muitos outros. Não posso comprar, mas venho feliz com o que vi.

De repente, suspendo a marcha porque descubro um jornalista dito cultural, numa minúscula galeria de arte, a falar para uma pequena plateia. Paro e fico a pensar. É este o homem que no seu jornal viu os meus livros um a um e sistematicamente dizia «este não interessa nem ao Menino Jesus» Bastava-lhe olhar o nome do autor e o título.

Este pobre e pequeno homem não percebe que a história da literatura não passa por ele. No tempo de Cesário Verde quem era conhecido era Cláudio Nunes, no tempo de Eça de Queirós quem era popular era Pinheiro Chagas e no tempo de Camilo Pessanha o poeta era Augusto Gil.

Olho para o homenzinho sem nenhum rancor. Ele está, como sempre esteve, a falar para o boneco. Eu, pelo contrário, estou vivo e tenho pessoas que tomam a sério o que eu escrevo. O resto é conversa.

José do Carmo Francisco

22 thoughts on “O homem que não lia livros”

  1. Isto de ser crítico está na berra e na ordem do dia (está visto).
    Não podemos agradar a todos. Nem queremos, pois não?

  2. O auto-elogio pedante é feio. Intelectual pobre ma culto é tão dejá vue… Vá, deixe-se dessas coisas, só lhe ficam mal. Deixe que sejam os outros a elogiá-lo. Um bocadinho de humildade não fica mal a ninguém. Olhe, comece por retribuir a cortesia de linkagem a quem lhe faz publicidade. Eu já o cortei da minha lista de blogs recomendados, só cita outros pedantes como V. Senhoria.

  3. Whatever,

    1. Você é vago quanto ao seu interlocutor. Será José do Carmo Francisco, autor do texto? Será o Aspirina enquanto blogue?

    2. Pelo Aspirina: conforta-nos saber-nos publicitados, mesmo desconhecendo que se no-lo faz, ou fazia. Nós também temos linkagem para blogues que estimamos, mesmo quando não retribuídos. Ninguém é obrigado a gostar de nós.

    3. Ficámos informados de que somos pedantes, e que só a pedantes citamos. Não exultamos com a opinião. Mas é a vida.

    4. Lamentamos que – whoever you may be – nos tenha deslinkado.

  4. Caro amigo,

    Gosto de ler o que escreve, mas não me caiu nada bem o tom deste texto. Transpareceu uma certa raiva pela pessoa que demonstrou por diversas vezes não gostar de si ou do que escreve, não interessa. Cada vez aprecio mais a humildade. Não somos nada, meu querido amigo. Abandone esse tom, please!

    Abraço,
    RP

  5. Não é agora com 56 anos de idade e 29 anos de actividade jornalística e poética que vou mudar. Ouvi demasiadas vezes a pergunta «Que queres daqui?». Reparem que eu escrevi «sem rancor» e não há rancor no que escrevo.

  6. Eu nâo sei quem foi que creticou a minha caligrafia,com os erros ortograficos que faço.Mas teve a gentileza de ler,para poder fazer a cretica é obvio que pessoa nâo goste de ser creticado:mas sem ter podido ver ou ler a minha obra,a cretica é uma ofensa! Como posso fazer o elogio d’éssa pessoa?

  7. Feio. E não é desmentindo o óbvio que se esconde o rancor. Além do mais, o homem não “lia livros” ou apenas evitava os seus?

  8. Apesar de escrever coisas bonitas, desilude-me como pessoa, Francisco.
    Não se julgue mais importante do que realmente é.
    E trate as pessoas pelos nomes, não se esconda atrás dos pilares. É muito feio, fazer isso, para não chamar um nome ainda mais feio.

  9. Por vezes penso que um tipo como Pierre Assouline,em dando a sua opiniâo neste blog seria enviado vivo as féras esfomeadas

  10. Alguns comentadores pegaram na “queixa” do José do Carmo Francisco contra um certo homem cultural mas nenhum deles reparou na pertinente observação-conclusão à volta dos valores literários perdurantes, muito interessante para quem aprecia estas coisas da evolução do gosto literário entre os entendidos.

    Lembrou-nos ele, à sua maneira de quase cicerone, que também nisto das Letras “quem ri no fim é quem ri melhor”, apesar da evidente dificuldade que os restos mortais de escritores e poetas têm em rir quando já andam a fazer tijolo há muitos anos. Mas não deixa de ser refrescantemente cultural, ou culturalmente refrescante, sabermos que a populaça compradora de folhetins encadernáveis ou livros de papel quase pardo não ligava muito ao Cesário Verde no seu tempo e a outros grandes como ele, todos vitimas dos paladares das eras respectivas em que viveram.

  11. Inquiridor,
    o que já menos pilhéria tem é vermos que esses casos foram citados porque o autor do desabafo já se sonha no Olimpo dos escolhidos pelos pósteros…

  12. Anonymous,

    Poderá ter (alguma) razão no que diz, mas não acredito o JCF capaz de recorrer a tais extremos de (óbvia) vaidade. Há que pormo-nos no seu lugar, o homem sofreu uma afronta, e não me parece que poderia ter escolhido um argumento mais impessoal.

  13. Em 16 comentários, espanta-me que apenas 1 ou 2 tenham criticado o tal “jornalista dito cultural”, que faz censura aos livros que lhe são enviados “eliminando-os”, à partida, sem sequer os ler.
    Se o faz com os livros do JCF, decerto o fará também com a obra de outros autores, não tenho dúvidas quanto a isso.
    Ao dizer que os livros de JCF “não interessam nem ao Menino Jesus”, assim, sem mais explicações, não abona a seu favor.
    Cabe-lhe a obrigação e o dever (se tem a seu cargo a crítica literária num jornal) de ler as obras e depois fundamentar a sua opinião, principalmente se for negativa.
    Deste modo procedem os críticos literários honestos, que fazem crítica isenta (e construtiva).
    A História de qualquer Literatura constrói-se a partir de obras e não de críticos (ou críticas).
    Não deve misturar-se simpatias ou antipatias pessoais com a qualidade (ou não) da obra literária de cada autor.
    Será só o JCF a merecer palavras reprovativas? A impunidade que nesta área (e noutras) gira à nossa volta, acaba por dar este resultado…
    Quem disse que a censura tinha acabado neste país? Basta levantar uma pontinha do véu (ou espreitar nos bastidores), e ela lá está: sem lápis azul, mas de óptima saúde. Os métodos podem ser diferentes, mas vai tudo dar ao mesmo…
    O que será mais reprovável: a pseudo-imodéstia ditada por uma certa mágoa ou a arrogância e prepotência de alguns senhores que se julgam os donos do Mundo?

  14. Cara Soledade,

    Pois tem muita razão.

    Se prosseguíssemos este estudo que surgiu pendurado ao passeio pelas galerias e casas de leilões (que não interessa, evidentemente, porque isso poderia forçar-nos a violar as privacidades dos roteiros citadinos de cada um), estou absolutamente certo que descobriríamos que o JCF mandou na altura da afronta uma fax (eu, no seu lugar, também o teria feito) ao tal senhor que usou o nome de Jesus em vão, pelo menos para lhe dizer que se os seus livros não interessavam ao Filho de Deus era porque obviamente a Criança não sabia ler. Os insultos, correctamente ditos da praxe porque merecidos, poderiam vir antes ou depois dessa explicação cortez e curial, mas melhor seria que nunca viessem, a bem do civismo que convem resguardar. É sempre bom acreditarmos de vez em quando no Amor sem vinganças nem rancores. Hoje, é verdade, esse Amor não anda muito na moda, como sabemos, mas pode ser que um dia seja diferente. É como o caso duns terrenos baldios que estavam há anos à venda na área da Ota e que ninguém dava um corno por eles.

  15. E – tem piada – o meu tio também viveu no Bairro Alto como o JCF, num quarto alugado duma casa que fora em tempos um bordel muito em conta (vinte paus cada gargarejo com direito a um pires cheio de tremoços) mandado encerrar por um Salazar que pensava que não havia putas em Amesterdão ou Las Vegas. A vida clandestina-mixta do meu tio era como as de muitos outros: civis, militares, enganados, enganadores, cobras, lagartos e morcegos. No quarto ao lado do seu vivia um jornalista jovem, barulhento, intenso fã, ou fanático, de fados dolentes de Coimbra, de jazzes americanos, carmagnolas francesas e guantanameras cubanas, que, presumivelmente, se iniciou na esquerda indefinida com direito a promoção, mas acabou, tragicamente, por suicidar-se pouco depois do 25 floridíssimo porque o “mundo não o merecia”, ou coisa que o valha, e deixou isso escrito para que mais ninguem do resto da Humanidade se sentisse culpado. Pelo que o meu tio me conta, deve ter esse jornalista provavelmente andado iludido e enganado a maior parte da sua curta vida política e quando um belo dia acordou e abriu os olhos para a realidade dos encontrões da mudança, fechou-os logo, surpreso, dorido na alma, cego pelos holofotes, com receio de inquirir no novo escuro deste mundo dirigido por Iluminados.. Por que ruas de subir e descer de bairros doutras Lisboas paralelas andará ele a passear a esta hora? E haverá também uma rua da Barroca numa Lisboa paralela?

    TT

  16. Eu, se fosse crítico, também me recusava a pousar os olhos em certas coisas. Ou julgam que alguém tem tempo para ler tudo o que por cá se edita?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.