Os comportamentos e os formatos sociais

Gosto muito de ler livros antigos, gosto de me imaginar noutros séculos com sinos em vez de telemóveis, com batéis em vez de navios, com carroças em vez de automóveis. Mas esse é apenas um aspecto da questão. As comunicações, as viagens e os meios de transporte variaram muito nos últimos séculos. Mas as pessoas, os seus comportamentos e os formatos sociais que as integram, esses, pouco ou nada mudaram. Vejamos um caso.

No dia 14 de Março de 1562, reuniu a Câmara Municipal de Benavente. Estando presentes António Baracho (juiz ordinário), João de Parada, Pedro Álvares Baracho e Gaspar Dias (vereadores), Gaspar Fernandes (procurador) e Manuel Frade (escrivão), foi decidido o seguinte: «Acordam que nenhuma mulher solteira possa viver sozinha nesta vila, sem amo, sem ninguém, pelo que deverá sair da mesma vila sob pena de 10 cruzados de multa mais um ano de degredo fora da vila ou termo. As mulheres casadas que vierem viver para esta vila, com seus maridos, terão de dar notícias de si, no prazo de 8 dias e mostrar donde vêm, sob a mesma pena, e isto atendendo a existirem nesta vila muitas mulheres solteiras que não têm amo nem vivem com ninguém.»

Já nesse distante ano de 1562 funcionava um sistema de repressão social contra quem se colocava fora da norma, fora do preceito, fora do que se supõe ser o que a sociedade espera de cada um de nós. Hoje, por outras palavras, o sistema continua a exercer a sua pressão sobre os comportamentos individuais tentando formatar (como hoje se diz) tudo pela mesma medida. Formatar, condicionar, proibir ou censurar vai tudo dar ao mesmo. Afinal não fizemos assim tantos progressos no campo das mentalidades.

José do Carmo Francisco

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