Todos os artigos de Aspirina B

Ódios velhos

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Chegavam sempre no começo do outono, quando os corvos passavam ao fim da tarde, a grasnar às frialdades que vinham de Além-Douro. Interrompiam-nos a bola no terreiro, saltavam das carripanas escuras, abriam as gaiolas das matilhas. E caíam nos braços dum lavrador lá do povo, inchado por ter amigos na cidade. Soltavam palavrões que eu julgava proibidos, numa língua esquisita de pagãos, e escarravam muito pelo chão.
Manhã cedo faziam-se aos caminhos, de espingarda na ombreira, a açular a canzoada. E não havia brejo em todo o vale inteiro que escapasse à invasão. O cainçar dos podengos ouvia-se nas quebradas, e os ecos da fuzilada faziam ricochete nas encostas do vale, monte cá, monte lá, até ao cair da noite.
Retiravam-se ao terceiro dia, com as grelhas de metal enfeitadas de perdizes a largar nuvens de penas, e rosários de coelhos a pendular nos telhados das carripanas escuras.
Hoje vivemos paredes-meias. Os palavrões já me são familiares, e ao sotaque de pagãos acostumei-me aos poucos. Mas não sei como indultá-los do olhar morto das lebres, enforcadas nas janelas, a mandarem-me corrê-los à pedrada.

Jorge Carvalheira

UM JORNALISTA DESASTRADO

O drama que atingiu a família inglesa de férias no Algarve devido ao desaparecimento da sua filha Madeleine, de três anos de idade, levou o jornalista Hernâni Carvalho a fazer alguns comentários sobre o assunto no programa “As tardes da Júlia” (Júlia Pinheiro) na TVI.

O jornalista começou por referir “a taxa de desemprego que se verifica no Algarve”. Estaria Hernâni Carvalho a referir-se ao nosso Algarve? Pelos vistos, não.

Soledade Martinho Costa

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Dois debates: Galiza e Portugal

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CUMPLICIDADES e CONTRABANDOS: é o sugestivo tema para dois debates sobre as relações culturais entre Portugal e a Galiza. Terão lugar na Biblioteca do Museu República e Resistência, no Espaço Cidade Universitária, Rua Alberto de Sousa nº10-A, Zona B do Rego, Lisboa.

[e não, como noticiámos primeiro, na Estrada de Benfica]

TERÇA, 15 de Maio, 18.15 h

Debate moderado pela Directora do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional,
Prof. Ana Paula Guimarães. Debatem

Camiño Noia (Univ. Vigo)
Clodio González Pérez (Conselho da Cultura Galega)
João David Pinto Correia (Univ. Açores)
Paula Godinho (Univ. Lisboa)

QUARTA, 16 de Maio, 16.00 h

Debate moderado pela Coordenadora do Centro de Estudos Galegos,
Prof. Graça Videira Lopes. Debatem:

António Medeiros (ISCTE, Lisboa)
Fernando Venâncio (Univ. Amsterdam)
María del Carmen Espido Bello (Univ. Compostela)
Pilar García Negro (Univ. Corunha)

Semana de Cultura Galega

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PORTUGALIZANDO. SEMANA DE CULTURA GALEGA EM LISBOA

Entre os dias 11 a 19 de Maio, decorrerá em Lisboa a Semana da Cultura Galega Portugalizando. Organizada pela Cátedra de Estudos Galegos da Universidade de Lisboa, o Centro de Estudos Galegos da Universidade Nova de Lisboa, o Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da mesma Universidade e a Dirección Xeral de Creación e Difusión Cultural da Consellaría de Cultura da Xunta de Galicia.

Este programa ainda conta com o apoio da Secretaría Xeral de Política Lingüística, da Secretaría Xeral de Emigración, ambas da Xunta da Galiza e da Juventude da Galiza – Centro Galego de Lisboa. Esta semana, agendada em torno do Dia das Letras Galegas (17 de Maio), abarcará diversas vertentes da cultura galega contemporânea.

A iniciativa afigura-se da maior relevância para a divulgação da cultura galega contemporânea, e para o estreitamento das relações culturais entre Lisboa e a Galiza, povo que tanto contribuiu para a identidade da capital portuguesa.

Mais informações aqui e aqui.

O kispo da Mothercare

O desaparecimento da menina inglesa no Algarve lembra-me a ténue linha entre a negligência e a infelicidade. Sei-o por experiência própria, até.

Em 1984, o meu filho estava com a mãe e com uma tia à porta de uma pastelaria na rua principal de Algés. Ao ver-me a sair do automóvel do outro lado da rua, começou a correr na minha direcção. Aí surgiu um senhor que o puxou pelo kispo azul, evitando que fosse esmagado por um imponente Mercedes. Este poema de Dezembro de 1984 recorda-o.

F I L I P E

«Habitamos um corpo em perigo»
diria o João Miguel Fernandes Jorge
que tu não sabes sequer quem é
preso ainda à tua vida de criança
os bolsos cheios de miniaturas
as cantigas do colégio na tua voz

E contudo poderias ter ficado ali
como já em São Bernardino no Verão
quando vias o mar para ti sem fim

Esse mesmo mar que com os castelos
forma um dos campo ricos do teu vocabulário
que te enche a voz quando vês água
e chamas mar pequeno às minúsculas lagoas
breves como a chuva neste mês de Maio
breves como o grito de quem te viu
quase a ficar debaixo de um automóvel
em Algés – a fugir da pastelaria

E esse automóvel não era como tu
uma miniatura – era real e estava ali
como o mar e os castelos que quase perdeste.

José do Carmo Francisco

Questão com lágrimas

Uma veio do Brasil e por força há-de chorar todos os dias. Duas vezes. Faz-lhe bem, ajuda a alma, não sabe explicar porquê.
– As saudades da família, do calor, eu sei lá bem…
A outra veio de Angola mas não gosta de chorar, que lhe dá cabo dos olhos. E os olhos são o principal.
– O coração mais os olhos, são dois amigos leais…
Saem ambas na Praça dos Combatentes. E eu fico-me sem saber se é melhor cuidar dos olhos, da alma, ou do coração.
Vem-me à ideia que sou homem, proibido de chorar. E lá me livro destas hesitações.

Jorge Carvalheira

«Querido traficante» de Júlio Conrado

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Embora seja mais conhecido como crítico literário, Júlio Conrado (Olhão, 1936) tem neste Querido traficante já o seu oitavo romance. Foi vencedor do Prémio Vergílio Ferreira em 2006 com o seu próximo livro de ficção Estação ardente.

As personagens do romance agora saído movimentam-se num cenário recente: a passagem do milénio. A ponte de Entre-os-Rios que «tombou como uma peça de dominó no rio Douro», os peelings e os liftings das damas do jet set, o crime de Fortaleza, o assalto às torres gémeas de New York: «De um instante ao outro se esfanica a aura de uma América impune e arrogante.» Este é o tempo, mas o lugar é Portugal, onde também chegou (mas tarde) uma certa ideia de Europa: «o povo, mergulhado em duradoura melancolia e sem vislumbrar saída para os seus agravos, vivia resignadamente aquilo a que um escritor além-Pirenéus chamara um dia «ao tempos cobardes da democracia».

Os encontros e desencontros deste enredo são múltiplos: começam num jantar no Guincho com diplomatas de dois países a propósito das palavras de um deputado português sobre um país da América Latina e acabam num crime com um velho retornado a matar a sua mulher. Pelo meio um jogo de acasos faz com que um assalto a uma exposição de desenhos de Picasso se intrometa na vida dum traficante aflito e sem dinheiro, cuja irmã é uma modelo bem cotada no mundo da moda. E também uma escritora light que deixa morrer uma professora universitária que gostava de meninas e falava muito de Roland Barthes. Este livro lê-se com prazer no ritmo dum policial até à página 222. Nela se descobre que o acaso é o grande mestre.

Editora: Campo da Comunicação
Capa: Duarte Camacho

José do Carmo Francisco

«Pezinhos de coentrada» de Alice Vieira

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As crónicas publicadas nos jornais e nas revistas perdem-se poucos minutos depois de serem lidas. Recolhidas em livro, podem aspirar a alguma posteridade. Este volume de Alice Vieira recolhe textos publicados no Jornal de Notícias e nas revistas Tempo Livre, Audácia e Activa. Um dos textos tem o sugestivo título de «Ir à terra» e recorda uma visita da autora com Carlos Pinhão à Rua do Grilo ali no Beato, uma das muitas aldeias de Lisboa:

«Pareces o emigrante quando chega à aldeia – digo-te por brincadeira. Para o trabalho que tinha em mãos e para o qual pedira a tua ajuda naquela Lisboa para mim desconhecida, já não precisava de ver mais nada. Mas tu insistias: querias ver os lugares que existiam ainda e aqueles de que já nem sequer rasto havia. «Ali onde está aquela tabacaria, era a alfaiataria do meu tio. Eu ficava horas sentado à máquina de costura a pedalar, a pedalar, sentia-me o Trindade e o Nicolau… Depois o meu tio saía e dizia: «Vou entregar a obra aos fregueses» Ainda hoje sempre que tenho um artigo para entregar na Bola ou um original para a editora, digo sempre: «Vou entregar a obra aos fregueses». Entramos na escola primária, casarão imenso onde os degraus de madeira rangem tanto que até se deve ouvir lá fora, andamos por ruas e travessas, vilas e pátios, e reencontramos os olhos azuis da tua primeira namorada que engordou uns quilos e está cheia de rugas e cabelo branco e que, ao ouvir-te contar o tempo que passavas escondido só para a veres aparecer na rua, desfaz os teus sonhos com uma sonora gargalhada: «Olha que nunca dei por nada, palavra de honra!». «Fez-me bem ir à terra», disseste em jeito de adeus».

Editora – Casa das Letras
Capa – Neusa Dias

José do Carmo Francisco

«Retraimento»

RetraimentoÉ urgente
Que escreva este poema
E que te diga, mãe
Muito obrigada.

Assim
Sem frases de ternura
Rebuscada
Apenas
A teus pés agradecida
E ajoelhada.

E a olhar os teus olhos
Que me olham
Com enlevo
Com carinho
E devoção
Mais uma coisa, mãe
Peço perdão.

Pois muito embora
Venha a pensar depois
Que foi tolice
As palavras de amor
Que te neguei
Foi por vergonha, mãe
Que não tas disse.

Soledade Martinho Costa

Sonatina de rua

Dei com ela no passeio, ao fim da tarde, saíra há pouco da caixita de rodas. À frente, num tapete sobre o empedrado, tinha a dormir um gato de peluche, abrigado a uma sombrinha de bonecas. Ao lado um bouquet de plástico e a caixa do violoncelo, para recolher as moedas.
A violoncelista lembrava os trinta anos e tinha uma flor no cabelo, a derramar-se em cachos pelos ombros. Vestia a indumentária da função, ampla saia bordada até aos pés, uma blusa de cetim, o coletito preto a aconchegar o peito. E era diferente das outras porque tocava de pé. Fixou o espigão numa prega da calçada, acomodou no ombro o braço do instrumento, correu a mão esquerda nos bordões. E ficou ali suspensa, de arco enristado na direita, a afagar num trejeito um caracol rebelde.
O maestro é alemão, vem do Oberhammergau, vai dizer-mo no fim do recital. Ampara-se a uma muleta e reclina sobre a artista os alongados braços, a bafejar-lhe o sopro demiúrgico de quem vai repetir a criação. Das pontas dos dedos enluvados sete fios o ligam ao corpo da mulher, que volta a sujeitar o caracol. E quando liga a máquina do som, desliza ela os dedos sobre o ponto, tange nas cordas o rufar do arco, cresce na rua a melodia da Scarborough Fair.
Começou por hesitar, a multidão, apanhada de surpresa. Depois, à melopeia ondulada do El condor pasa, rendeu-se de encantamento. Até um grupo de catraias que passava ali ficou, a ondear os quadris. Lá para o final, mesmo com falta de naipes, o maestro aventurou uma sonata célebre. E a plateia, que lhe não sabia o nome, perdeu a compostura e desatou a aplaudir.
Nos intervalos choviam as moedas na caixa do violoncelo. Quando as ouvia cair, almofadado na caixita de rodas, um caniche abria o olho e ladrava uma alegria.

Jorge Carvalheira

Jorge Buescu ataca de novo

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Há sensações assim. Saber que vai sair um livro – e que a gente vai comprá-lo. Porque nunca poderá decepcionar.

Na informação que a editora Gradiva faz regularmente chegar por mail, vejo que, a partir de 22 de Maio, há aí um novo livro de Jorge Buescu. Sim, esse mesmo de O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias e de Da Falsificação de Euros aos Pequenos Mundos. São histórias de encantar: exactamente porque são verdadeiras – ou muito próximo disso.

Vem agora O Fim do Mundo Está Próximo? E é anunciado assim:

«O que é que poderá estar por detrás do funcionamento de um chuveiro, de uma vitória no euromilhões, do sexo ou do fim do mundo? Neste novo e brilhante livro de Jorge Buescu, um dos divulgadores de ciência mais interessantes e bem sucedidos do nosso país, o leitor descobrirá, com a ajuda da matemática, que afinal coisas que pareciam distintas partilham relações profundas e que o conhecimento humano não está dividido em compartimentos estanques. A matemática tem afinal inúmeros segredos para revelar e é isso que a transforma numa ciência tão fascinante.»

Está a ver: por 13 €, vai ter duzentas e vinte páginas de boas vibrações.

«As pequenas memórias», de José Saramago

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O título deste livro, explica o autor, deve-se a nele surgirem «as memórias pequenas de quando fui pequeno». Mas começou por se chamar «O livro das tentações». Não era nada fácil nos anos 20 do século XX a vida dos pais do (ao tempo) pequeno José Saramago: a mãe doméstica e o pai guarda da PSP, mais tarde o subchefe Sousa. Quartos, partes de casa e, finalmente, casas, constituem-se no quase infindável roteiro: Rua E ao Alto do Pina, Rua Sabino de Sousa, Rua Carrilho Videira duas vezes, Rua dos Cavaleiros, Rua Fernão Lopes, Rua Heróis de Quionga, Rua Padre Sena de Freitas e por fim a Rua Carlos Ribeiro. Uma rua sem saída de onde José Saramago viria a sair aos 22 anos para casar com Ilda Reis.

Há neste livro memórias alegres e irónicas, mas também amargas e infelizes. Como por exemplo a morte do seu irmão Francisco: «A mãe e os filhos chegaram a Lisboa na Primavera de 1924. Nesse mesmo ano, em Dezembro, morreu o Francisco. Tinha quatro anos quando a broncopneumonia o levou. Foi enterrado na véspera de Natal. Em rigor, em rigor, penso que as chamadas falsas memórias não existem, que a diferença entre elas e as que consideramos certas e seguras se limita a uma simples questão de confiança, a confiança que em cada situação tivermos sobre essa incorrigível vaguidade a que chamamos certeza. É falsa a única memória que guardo do Francisco? Talvez o seja mas a verdade é que já levo oitenta e três anos tendo-a por autêntica…Estamos numa cave da Rua E ao Alto do Pina. É o Verão, talvez o Outono do ano em que o Francisco vai morrer. Neste momento é um rapazinho alegre, sólido, perfeito.»

Editorial Caminho
Colecção O Campo da Palavra, 149 páginas

José do Carmo Francisco

«El lugar, la imagen – O lugar, a imagem», de Ruy Ventura

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O mais recente livro de Ruy Ventura (n. Portalegre, 1973) é uma edição bilingue da Editora Regional de Extremadura com poemas traduzidos por António Saez Delgado e capa de Julian Rodriguez. Se toda a obra de arte surge como uma humana rejeição da morte, um poema que canta a alegria do encontro do poeta com essa mesma obra de arte é um duplo registo da negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

Este livro abre com um poema dedicado a uma escultura em barro do século XVIII:

«um corpo nasce nas mãos do oleiro / um corpo desce. procura / a raiz, a porta, a lareira / acenderá o mundo com o seu sopro / com a sua voz.»

Segue-se a meditação sobre uma escultura de madeira do século XVII:

«em que palavras leste a semente desse brilho? / no verbo que ele guardou no teu silêncio? / no coração, ardendo na memória? /ergues os olhos, saciando /o cálice em que saciámos a nossa sede.»

Mas pode ser também uma moeda romana do século I depois de Cristo, o motivo do poema. Ou uma estela funerária. Ou uma escultura em Lagos. Ou uma casa em Arronches. Depois pode ser uma catedral em Compostela, uma fortificação templária em Aveyron ou um poço num certo lugar em Penamacor.

Livro feito (como diz o título) de lugares e de imagens, em todas as suas páginas vibra uma voz poética a ligar a Natureza e a Cultura. Como por exemplo em «arquitectura», poema escrito perante o castelo e a judiaria de Valência de Alcântara:

«subimos à torre para melhor vermos / o círculo que nos une a esta terra / desce o firmamento. hesita esta memória / em tocar o bosque cuja língua desaparece. / de súbito, uma águia /a música que escrevemos. para sempre. /de regresso à largueza / da floresta»

Assim se prolonga poeticamente a rejeição da morte, o mesmo é dizer, a negação das sombras, do esquecimento e do desespero.

José do Carmo Francisco

«Eu tenho um sósia…»

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Gerrit Komrij, poeta holandês
residente em Portugal

DIAFANIA

Eu tenho um sósia que me põe maluco
Querendo ser em tudo a mim igual.
Possui o mesmo sósia, e então apanha
Com um grande susto ao ver-me, e mais ao tal.

Assim me assusto eu ao ver-nos ambos.
Ele nada me oferece. É um ladrão.
Não pára de sugar ecos em mim
E nada meu sobra em tal multidão.

De início, havia ainda um certo laço.
Vivíamos em paz, aos dois, aos quatro.
Agora, aonde eu olhe, vejo o meu vulto
E a quantos fantasmas já dou resguardo.

Quando eu morrer, um ser desfigurado
Há-de achar-se estendido no caixão.
E o corpo transparente abrigará
Não um cadáver, mas coisa de um milhão.

GERRIT KOMRIJ
Contrabando
Assírio & Alvim, 2005
Trad. fv

Dura lex!

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O homem veio de Castelo Branco, a arbitrar, na Luz, um jogo. Há tempos. No final produziu um relatório de ocorrências.

“O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio da utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu.
O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe.
Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva.”

Imaginemos só que a lei era mais mole!

Jorge Carvalheira

Viver com os outros também cansa!…

Isabel da Nóbrega, cujo nome foi rasurado na dedicatória do Levantado do chão de José Saramago mas não da nossa história literária, é a autora de Viver com os outros. Este título é um achado, pois viver com os outros é o nosso maior problema. Gostaria de vos contar uma pequena história de proveito e exemplo.

Há 25 anos conheci uma escritora. Sobre alguns dos seus livros publiquei notas de leitura em jornais, em revistas e em blogs, além de crónicas na Rádio. Apresentei um seu livro no auditório da Antena 1 nas Amoreiras. Mais tarde escrevi o prefácio para uma sua antologia poética. Aqui há tempo, telefonou-me a pedir ajuda pois estava doente. Prontifiquei-me a levar umas coisinhas da mercearia próxima de sua casa e lá levei as Cerelács, os Nestums, o pão, o leite de soja, a manteiga e as bolachas. Depois de colocado todo aquele material na bancada da cozinha, e como sei que há mais mundo e mais coisas para fazer, comecei a prepara as despedidas.

Desejei as rápidas melhoras e ia para dar um beijinho na face, mas aí, terrível momento, a senhora fez um movimento brusco no cadeirão e a minha boca aproximou-se perigosamente da sua. Recebi um sonoro, adversativo e imperativo «Então?!!!». Como se estivesse a ser acusado de querer roubar um beijo a pretexto dos 16 euros que tinha pago pelas coisinhas da mercearia. Como se, com 56 anos de idade, eu não soubesse e não tivesse a obrigação de saber que os beijos não podem ter preço; se o tiverem deixam de ser beijos. Desapareci daquele terrível momento de desencontro o melhor que pude e desci aquelas escadas em alta velocidade a lembrar-me de uma frase de Verlaine: «Tenho tanto medo dum beijo como duma abelha».

José do Carmo Francisco

«15 Poemas do Sol e da Cal». Uma Leitura

Paisagem e povoamento em «15 Poemas do Sol e da Cal»
de Soledade Martinho Costa

Cada poeta retira da realidade a sua realidade – isto é, denuncia, no modo como se apropria da paisagem geográfica e humana, o sistema ou processo que preside à construção de sua realidade poética.
Enquanto outros poetas usam o teatro, povoando os seus poemas de protagonistas e mantendo a geografia como cenário, Soledade Martinho Costa, por seu lado, elege a pintura como sistema e articula nos seus poemas (como num quadro) a água, o sol, o vento, as cores, a fauna, a flora, a paisagem, enfim…
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de Manuel da Fonseca – a Nena, o António Valmorim, o Senhor António, o Francisco Charrua, o Zé Gaio, o Julinho, o Zé Jacinto, o Manel da Água, a Marianita ou a Maria Campaniça?
Quem esqueceu os protagonistas dos poemas de García Lorca – a Preciosa, o Juan António, a Soledad Montoya, a Anunciacion de los Reyes, o António Torres Herédia, o Pedro Domecq ou a Rosa la de los Camborios?
Para Soledade Martinho Costa cada poema é um quadro, uma paisagem que, pese embora o povoamento permanente (os mendigos, os pastores, os ganhões, a fiandeira, o artesão) tem como produto final a terra seca e atormentada – ela sim eleita personagem última do poema.

José do Carmo Francisco

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Duas histórias deliciosas para ler ao serão

Na Travessa de São José nº 1, ali entre São Bento e o Príncipe Real, nasceu uma nova livraria. Melhor dizendo, um «alfarrabista», pois o livro antigo e o livro usado são a especialidade da casa. Fundada em 1870 como mercearia, vai passar a chamar-se Livraria 1870, que é um excelente nome, pois tem a ver com as Conferências do Casino preparadas em 1870 e realizadas em 1871 aqui perto no Chiado.

Pois lá descobri duas histórias deliciosas no livro Football para o serão de Armando Sampaio. O livro é de 1944 e é constituído por memórias do futebol de Coimbra e não só. Coimbra, cidade onde os jogos entre a Associação Académica e o União de Coimbra faziam sempre faísca. Como a PSP vinha a simpatizar com o União, a GNR voltava-se para a Académica. Daí o comandante da GNR de Coimbra dizer aos seus homens antes dos jogos: «Se houver conflito vocês só batem nos de azul!»

A segunda história tem a ver com a rivalidade Porto-Sporting: «No Porto presenciei eu um dia este facto: um sportinguista, num camarote do Estádio do Lima, empunhava uma bandeira verde e gritava com toda a força – Sporting! Sporting! Sporting!. Um portuense, alucinado com o resultado que lhe estava sendo adverso, subiu os degraus da bancada e arrancou a bandeira das mãos do lisboeta que o empurrou, fazendo-o ir de rebolão por ali abaixo estatelar-se mesmo no meio da claque tripeira. Sabem o que lhe aconteceu? Levou uma tremenda sova dos patrícios que, vendo-o com a bandeira leonina o julgaram alfacinha! Quando conseguiu dizer que era do Porto já tinha a cara amachucada!»

O livro é de 1944. As histórias são obviamente anteriores. Prova-se assim, uma vez mais, que não há nada de novo debaixo do sol.

José do Carmo Francisco

Conhece Carlos de Oliveira?

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Um dos poucos poemas que sei de cor de Carlos de Oliveira é do livro Sobre o lado esquerdo e diz assim: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra.» O outro é o que fala do sal: «O sal é o mar servido às nossas praias domésticas de linho.» São poemas muito belos que me acompanham todos os dias desde sempre, desde que um dia o visitei nas águas furtadas da Avenida Praia da Vitória. A Maria Ângela ainda era uma mulher muito bonita nesse fim de tarde em que me ofereceu uma fotografia de Carlos de Oliveira tirada pelo Augusto Cabrita.

Encontro casualmente nas escadas rolantes dos Armazéns do Chiado um poeta meu amigo que é também jornalista profissional. No passado dia 1 de Julho, registaram-se 26 anos sobre a morte física de Carlos de Oliveira, o poeta de Micropaisagem, o romancista de Uma abelha na chuva. Bem informado e perfeitamente capaz de organizar um texto motivador chamando a atenção para a obra do autor de Casa na duna, que nasceu no Brasil em 1921, o meu amigo poeta e jornalista elaborou e assinou o texto alusivo à efeméride e fê-lo entrar no circuito dos assinantes da sua agência noticiosa.

Pois a verdade é que nenhum jornal pegou no assunto. Nem transcrevendo o texto nem convidando nenhum dos seus «sábios» colaboradores a pegar no tema. Há alguma crueldade nesta situação. Não sei os motivos deste esquecimento, mas talvez todos tenhamos que dar razão ao próprio Carlos de Oliveira que, em O aprendiz de feiticeiro, escreveu esta frase lapidar: «Escrever é lavrar – e lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, significa sacrifício, abnegação, alma de ferro.»

José do Carmo Francisco