Todos os artigos de Aspirina B

A CAMA GRANDE

À memória, escusado lembrar, de Mestre Leiria

Martim amava Sílvia. Amava-a muito. Por assim dizer, todas as noites. Para o irmão Paulo, na cama ao lado, era um tormento que ninguém merecia.

Chegou a Martim o primeiro ataque cardíaco. Iria ser também o último. Numa tarde, saíra Sílvia a fazer compras, disse ele a Paulo:

– Chavalo, eu sei como vai ser, quando eu lerpar.

Paulo fez-se desentendido, e até podia está-lo. Martim, mano como poucos, explanou.

– Quando eu for desta, tu hás-de, malandro… Se até se lê nos olhos!

Paulo, olhando agora o chão, rendia-se. Martim prosseguiu:

– E já que é isso, mais vale ires aprendendo. Eu nunca a tratei mal.

A partir dessa noite, dormiram todos três na cama grande. Anos, anos largos.

Morreram sem dar por isso, uma noite de Inverno em que o calorífero lhes queimou o ar.

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Amsterdão, 27-V-2007

«Lugares Comuns»

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Conhecia eu, de JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES, os malandros sonetos de Este Lado Para Cima, de 1994, mais as esplêndidas crónicas que, no ano seguinte, escreveu no JL. Depois perdi-o de vista. Ou outros, alguns bem menos interessantes do que ele, ma toldaram.

Só recentemente soube que, nesses dois exactos anos, estava ele trabalhando numa série de curtos textos, que em 2000 (ed. de Mariposa Azual, Lisboa) apareceram, e a que chamou Lugares Comuns. Todos concebidos e redigidos num café do Porto. Como esta minúscula obra-prima:

26 DE SETEMBRO

Há muito tempo não me calha um café pela chávena esquinada. Por ela me apercebi que o ciclo de rotação das chávenas pelos clientes é, em média, de uma vez por mês.
Setembro inteiro passou sem que me tivesse calhado uma curta vez que fosse, a familiar chávena esquinada. Dia após dia rodei a pequena asa branca, na pressa de conhecer no perímetro da cerâmica, aquela ferida antiga. Na última vez que a usara, uns lábios tinham-na beijado com tanto afago pela manhã que pelo final do dia trazia ainda, indeléveis, as marcas daquele afecto. Não é fácil lavar um beijo.
De quando em vez o acaso rasga o espaço do Café, e chega-nos desde o balcão a inconfundível voz de cacos espalhando-se em descuido contra o mosaico do chão.
Desconfio seriamente que a chávena tenha morrido.

Há mais aqui. João Luís Barreto Guimarães (1967, na vida diária médico-cirurgião) tem ainda, junto com Jorge Sousa Braga, um blogue sobre poesia.

O esplendor da ignorância numa página da «Sábado»

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Estive no Castelo de São Jorge numa feira «alternativa» e deram-me a revista Sábado, edição de 10-5-2007, depois de ter votado num concurso para apurar a melhor fotografia do seu «stand». Até aqui tudo bem.

Depois a coisa azedou. Descobri na página 14 do caderno «Primeira escolha» um artigo de divulgação com o sugestivo título de «Um bar de poetas». Segundo a jornalista Catarina Serra Lopes, a «livraria-bar» fica junto ao elevador da Bica. Passo a citar: «Daí a criação de A Da Mariquinhas, inaugurada, com ironia, a 1 de Novembro, Dia de Finados, um dia apropriado para abrir uma livraria de poesia visto que a maioria dos poetas já morreu». Mas não se trata de ironia; é apenas ignorância. Ignorância esplendorosa, pois se atreve a vestir a capa da ironia.

O que os proprietários não sabem (nem a jornalista) é que a «comemoração de todos os fiéis defuntos» ocorre de facto em 2 de Novembro e não a 1 de Novembro. Nessa data surge outra festa, de conteúdo muito diferente – a festa de todos os santos. Trata-se de uma das festas maiores da Igreja. Chamar-lhe «Dia de Finados» é um erro crasso. No estado actual das coisas não se pode esperar que um agente cultural (ou o jornalista que o entrevista) conheçam a história da Igreja, mas aqui trata-se de uma questão de calendário civil. Qualquer agenda lhe dirá que o dia 1 de Novembro é o de Todos os Santos e não o Dia de Finados.

Que não saibam o que é o amicto, a alva, o cordão, o manípulo, a estola, a casula, o cálice, a patena, o corporal, o sanguinho, o véu, o turíbulo ou a naveta – vá que não vá. Passa. Agora chamar Dia de Finados ao Dia de Todos os Santos é mesmo o esplendor da ignorância. Ou, como dizia o Jô Soares – Esta juventude é um espanto!

José do Carmo Francisco

«Enfim, só!»

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Os largos ombros do Público que me desculpem, mas este texto, de António Barreto, é histórico. Um dia será ‘nosso’. Seja nosso já hoje.

ENFIM, SÓ!

Público, 27.05.2007
António Barreto
Retrato da Semana

A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam. Entre estes, está o facto de o candidato à autarquia se ter afastado do governo e do partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal. A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta. Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão. Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

Oestilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado. Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo. Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.

Duas lágrimas e uma chaga

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Ninguém me consola de ver o Esplanar parado. Supõe-se (bom, suponho) que tanto Carlos Leone como João Pedro George andam em parte incerta.

Aliás (uma confissãozinha, num blogue anti-confessional, como é este), se eu alguma vez – quod Deus avertat – começasse um blogue sozinho, haveria de chamar-lhe assim: Em Parte Incerta. Não tenho planos. Estou muito bem aqui. Mas, pelo sim pelo não, ponho o pezinho em cima do lindo nome. Até porque há quem tenha um blogue pessoal e um Aspirina… Mas não falem disto ao Zé Mário.

Ninguém me consola, também, de dar com o Não li nem quero ler de rodas no lamaçal. Ele que era tão parvo, tão divertido e, aqui e ali, tão indispensável.

Mas nem tudo são desconsolos. As Ligações perigosas – essas, de cabo a rabo indispensáveis – continuam ligadas ao mundo.

Actualização

Uma busca sobre Casais Monteiro leva-me ao blogue A Vez do Peão b. Carlos Leone mora aqui.

Tudo pela Pátria

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Manuel Passos é homem para sessenta. – Mais um pouco! – concede ele, a silvar a dentadura. Há trinta anos regressou de Angola e deixou passar o tempo. Logo que o génio lhe deu algum sossego, arranjou a caixa dos apretrechos. E quando está de maré vem abancar no Rossio, os olhos cheios de paisagens africanas. Toma o lugar do cliente, encosta-se à parede da farmácia, e fica-se a olhar os restos do império, que ainda passam.
Traz no braço dois obuses tatuados, pequeno espólio do serviço militar.
GAC 2 – Tudo pela Pátria – 1968
E ao mesmo tempo que vai puxando o lustro, olha de lado um africano enorme, que lá vai, de braço dado, com a sua matrona branca.
– Cada um com o seu é que estaria bem! Branco a branco, preto a preto! Mas cada um sabe da sua vida!
A matrona e o africano pararam no passeio, a quezilar com um patrício inconformado.
– A cabeça é o ponto fraco deles, vê-se na porrada e nos estudos. Não são dados a inventar, ficam-se pelo que ouviram. E nunca se atiram de cabeça!
As lembranças que me sobraram da guerra desmentem-lhe a teoria. Mas alimento a conversa e tomo notas.
– Isso é para quê, diga lá?!
– Para nada! É tudo pela Pátria!
O Passos põe-se a olhar os canhões que traz no braço. E sorri-me, displicente, já andava esquecido deles.

Jorge Carvalheira

«Os Dias na Noite»

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Pedro Chagas Freitas

Tive o prazer de apresentar, na Fnac do Chiado, o novo romance de Pedro Chagas Freitas. Como escreveu este vosso servidor no prefácio à obra, Os Dias na Noite é um livro «duro», «mais um», do jovem jornalista de Guimarães. «Para ler com algum contrapeso de esperança no mundo.»

E mais escreveu o prefaciador: «Pedro Chagas Freitas é um modelo de crueldade literária. Não há miséria humana que o comova, e que por isso se adoce a nossos olhos. Não existem suficientemente boas disposições no bicho humano que o convidem ao lirismo. O sangue corre, as almas dilaceram-se. Cedendo a alguma pirosice, diríamos que a bolinha vermelha é, no que ele escreve, constante».

Sr. Ministro, leia aqui no Aspirina

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O ministro, a Ota ou como o autismo só pode criar suspeições

Público, 25.05.2007
José Manuel Fernandes

O ministro das Obras Públicas passou da teimosia ao autismo e deste a uma tão desastrada cegueira que, com toda a frontalidade, é preciso perguntar: a quem interessa este ministro? A quem interessa mesmo que o aeroporto se construa na Ota? Por que motivos a insensatez de tal opção não é explicada numa altura em que já se percebeu que os motivos que levaram a escolher a Ota já não são válidos? É que se não há um argumento racional a favor da Ota, só outras fidelidades, ou interesses desconhecidos, podem explicar uma tal teimosia. Por isso, ou o ministro e o Governo explicam a bondade da Ota, ou a dúvida instalar-se-á na opinião pública. É que se Mário Lino estivesse limitado à capacidade de raciocínio de quem tem um único neurónio, algo que por certo não sucede num engenheiro “a sério” que até está inscrito na Ordem, o que disse seria desculpável. Tendo mais neurónios, por que fez do discurso uma sucessão de atoardas, inverdades, mistificações e disparates?
Como é que um ministro diz que a Margem Sul do Tejo é um “deserto para onde seria necessário deslocar milhões de pessoas”? E como foi possível tentar corrigir agravando o disparate, dizendo que não se referia à Margem Sul, apenas às localizações alternativas propostas para o novo aeroporto?

Para assim falar, ou Mário Lino nunca olhou para um mapa de Portugal, ou vive em Marte. Qualquer das alternativas fica mais perto de Lisboa do que a Ota; qualquer delas é hoje servida por duas ou três auto-estradas já construídas. Há uma linha férrea que passa por lá. Um hospital central mais perto do que haveria na Ota. Indústria por todo o lado. Há portos perto, enquanto para a Ota só se poderia contar com o “famoso” porto de águas profundas de Peniche, hipótese que alguns lunáticos já colocaram. Em suma: qualquer das novas localizações está mais próxima dos milhões de pessoas que deveria servir do que a Ota. Mesmo para quem mora em concelhos a norte do Tejo como Cascais, Sintra ou Oeiras. De resto, se para ter um aeroporto fosse necessário deslocar para as suas proximidades “milhões de pessoas”, então o melhor é deixá-lo onde está, no centro de Lisboa. Mário Lino falou também de um deserto e de sítios “sem gente, sem turismo, sem comércio” quando lhe bastaria, de novo, olhar para o mapa ou abrir o Google Earth para perceber que estava a dizer um disparate. Ou não existissem estudos a defender que, excluindo o impacto ambiental, Rio Frio seria melhor do que a Ota, estudos que estão na Internet mas que Lino disse não existirem…

Não contente, interrogou-se sobre se a engenharia portuguesa teria alguma dificuldade em resolver o problema de “um aterrozinho num mundo onde se constroem aeroportos no mar”. Sucede que o tal aterrozito implicará a movimentação do equivalente a uma coluna de terra com as dimensões de um campo de futebol e 10 quilómetros de altura. Faz-se, mas só com muito dinheiro. Ou, por outras palavras, dando muito dinheiro a ganhar a muita gente. Em Portugal sabe-se o que isto costuma significar.

Mário Lino quer ainda construir uma nova central ferroviária em Chelas. Caríssima, como está bem de ver. E quer levar o TGV por viadutos e túneis até à Ota, outra obra faraónica e propícia a megaconcursos e monumentais derrapagens financeiras.

A pérola final foi considerar que escolher aquelas localizações seria como construir “uma Brasília no Norte do Alentejo”. Norte do Alentejo? O nosso engenheiro “a sério” já esqueceu a instrução primária, pois lá terá aprendido que os lugares em discussão ainda ficam na Estremadura, e nunca deve ter olhado para os mapas das regiões-plano, pois situam-se na que é conhecida por “Lisboa e Vale do Tejo”.

É caso para perguntar se o ministro sequer leu os dossiers…

José Manuel Fernandes

«Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos»

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Graça Pires, neste seu nono livro de poemas, organiza o texto poético em dois registos bem diferentes: Cultura e Natureza. Os primeiros onze são poemas em prosa, numa recriação muito pessoal do célebre episódio de Marta e Maria no Evangelho de São Lucas. Entre Marta (atarefada) e Maria (contemplativa), o poema inscreve-se em duas memórias. Uma real («Olho pela janela à procura da minha infância e reparo que já esqueci a paisagem e os rostos desse tempo»); outra imaginada: «E perdoou à adúltera a quem queriam apedrejar por saber que só é culpado quem não procura ser feliz.» Desse cruzamento de memórias surge a escolha: «Por isso escrevo. Escrevo desesperadamente. Escrevo para não esquecer.» O segundo núcleo de 22 poemas não trata já da Cultura mas da Natureza, o mesmo é dizer a Geografia: «Pelo lado interior do tempo / assinalo, com traços de luz, / a cidade litoral onde nasci / rente à fragilidade do Outono. / Era Novembro / e uma estranha sede / pairava sobre a terra / ávida de líquidas paisagens / quando minha mãe me tomou nos braços / e disse: esta é a minha filha / O seu corpo doía de tanta comoção. / Agora, que uma luz difusa me fascina / retenho a idade em que não ousava / fazer do coração um lugar de conflito. / Escoa-se de meus lábios / sem aviso prévio / um excessivo odor a maresia / como se o Verão atasse ao meu pescoço / a sombra das dunas e todos os ventos / afugentassem a inevitabilidade da morte. / É de musgo, a vertigem / onde demoro as mãos, / para tornar legível a emoção.» Tornar legível a emoção é o grande projecto de qualquer poeta. Graça Pires já o consegue desde 1990 quando se estreou com «Poemas».

Capa – Katarina Rodrigues
Foto – Manuel Fazenda Lourenço

José do Carmo Francisco

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM: AS CASAS

Nas planícies, socalcos e outeiros, desabrocham as orvalhinhas cor-de-rosa e brancas; as ervilhacas roxas e amarelas; as corriolas lilases, em forma de sino; o cebolo bravo, de espigões de um roxo esmaecido; as calcinhas de cuco, indecisas entre o cor-de-rosa e o lilás e os pregos de ouro, amarelos, como o metal precioso.
E o vento, gira que gira, numa roda-viva, de repente, vai esmorecendo, vai esmorecendo, vai calando a fala. Até que deixa de se ouvir. O vento está a meditar. E a seara de trigo, lá em baixo, torna-se então plana como uma estrada aberta.
Tanta beleza por esses campos a perder de vista… E um perfume raro a respirar na aragem. São ramos das mais belas flores. Mas as casas… Ah, as casas, são as flores mais bonitas da paisagem!
Aqui e além, repousam na paisagem verde. Que verde é a paisagem e o aroma. Umas, meninas traquinas empoleiradas no cimo dos montes. Menos destemida, outras, aconchegadas nas várzeas que as viram nascer.
Velhas de pedras de muitos anos. Tantos, que se perdem na memória dos olhos. Na lembrança daqueles que as habitam e que por elas sentem um amor que vem da lonjura do tempo.
Casas baixas, caiadas de branco. Gratas por terem vivido tanto e por tanta coisa terem visto. É por isso que as casas sabem sempre muitas histórias. Que guardam dentro de si como um livro.
Alegres umas, tristes outras. Histórias que fazem com que as casas possuam vida própria. E mágica. Construída de muitas vidas e de muitas histórias.
Mas a vida das casas também é feita de esperança. Assente no desejo de se manterem intactas e amadas.
Em troca, oferecem a dedicação de serem o abrigo, o tecto daqueles que por si são amados. Nada mais pedem. A não ser, ainda, que a saudade, um dia, venha morar no coração dos homens.

Soledade Martinho Costa

Liberais

No princípio eram a guarda avançada das ideias mais ilustres das Luzes e da Razão. Tomavam como bandeira a constituição dos direitos, a liberdade dos espíritos e a emancipação dos homens. Contra a cerração do dogma, a injúria do privilégio, o esmagamento do poder absolutista. Antepunham o direito natural ao pedigree.
– Deixai passar, deixai fazer quem faz! – E alguns desembarcaram no Mindelo.
Hoje afadigam-se a virar às avessas este mundo e o outro. Às bestas da natureza, recambiam-nas ao criacionismo, que o mundo todo está na mão de Deus. Porém aos homens reservam a dura selecção darwinista, porque o mundo é uma coutada dos audazes.
Idolatram o dividendo, cultuam bezerros de ouro. Aos que já não derem lucro, facilitam o antigo logradouro da superstição, e da crença no milagre. Dizem que é isso o progresso. E dão como garantido um favorzinho da fome, para nos meter na cabeça o conto do vigário.

Jorge Carvalheira

Primeiros amores

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O primeiro grande romance gay da nossa literatura, acabou por escrevê-lo Eduardo Pitta.

Poderíamos tê-lo desejado de Guilherme de Melo, autor de Ainda havia sol (1984) e O que houver de morrer (1989). Ou esperado de João Aguiar, que com Navegador solitário (1996) pareceu aproximar-se da proeza. Ou aguardado de Frederico Lourenço, cuja trilogia iniciada com Pode um desejo imenso (2002) veio pôr a razoável nível a fasquia.

Poderiam tê-lo ousado grandes contistas como Mário Cláudio, que escreveu «Il Signore Inglese», em Itinerários (1993). Ou José Lourido, autor do fabuloso e desconhecido «A absurda eficácia da matemática», em O príncipe que se transformou em sapo (1993). Ou Possidónio Cachapa, autor do não menos fabuloso e felizmente algo mais conhecido O nylon da minha aldeia (1997). Ou Miguel Vale de Almeida, com as excelentes narrativas de Quebrar em caso de emergência (2001).

Mas não. Haveria de ser Eduardo Pitta, com esta Cidade proibida, acabada de sair na Quid Novi. Do contista de Persona (2000, agora reeditado na mesma casa) poderia já esperar-se a façanha. Mas as grandes obras são sempre uma surpresa.

O livro é um must. E não só pela temática (sempre curiosa, mas nunca garantia de qualidade), como sobretudo pela valente respiração de que o relato se toma. Os lugares, as épocas, os ambientes, tudo rodopia com nitidez, com embalo, com vertigem (só aqui e ali excessiva para a concentração comum, como a deste leitor), criando sabiamente expectativas, conferindo colorido a personagens e brilho a episódios.

Assinale-se a crua limpidez do vocabulário erótico. Assinale-se, também, a abrupta e bem gerida inclusão, em existências queque, do elemento bas fonds.

Lamente-se, sim, a frívola atracção das etiquetas, a obsessiva pose dos livros, da música, dos vinhos, das iguarias, da hotelaria, dos diplomas, que roça a obscenidade na descrição dum jantar volante, quase a meio do livro. O leitor verá. E tentará perceber porque é que – banal exemplo – haverão uns sneakers de ser tão fatalmente Louis Vuitton.

Ninguém morre. Ninguém fica com ninguém. E os primeiros amores, mesmo se proletários, revelam-se, embora definitivamente perdidos, os verdadeiros.

Definitivamente perdidos? A estas alturas do campeonato (perdoe-se o registo), a malta cheira as sequelas. De momento, basta esta Cidade proibida para encher as medidas.

A paranóia das Ligas voltou a atacar

Com a última jornada do campeonato, hoje, e na possibilidade de qualquer dos três chamados «grandes» poder ser campeão, lá voltou a paranóia das Ligas. Não há jornal nem jornalista que não venha com a «história» das Ligas. Qual história? – perguntarão os leitores. Trata-se de uma doença: uma febre vermelha. A situação é a seguinte.

Nas épocas de 1934/5, 1935/6, 1936/7 e 1937/8 foram organizados quatro torneios particulares, experimentais e sem atribuição de qualquer título nos quais entraram por convite 8 clubes portugueses. Ao mesmo tempo que decorria essa experiência, continuou a ser disputado o Campeonato de Portugal, esse sim, o torneio desportivo que atribuía o título de campeão de Portugal. Ora acontece que nos Campeonatos de Portugal entre 1934 e 1938 o Benfica ganhou 1, o F.C.Porto venceu outro e o Sporting ganhou dois. Mas, ao mesmo tempo, os torneios particulares e experimentais chamados Ligas tiveram como vencedores o F.C.Porto (1 vez) e o Benfica (3 vezes). Como lhes convinha para efeitos de estatística, muitos jornalistas simpatizantes do Benfica começaram a apagar os Campeonatos de Portugal de 1934 a 1938 (Benfica ganhou 1) dando relevo às Ligas (Benfica ganhou 3) como se de campeonatos se tratassem.

Ora, o campeonato da I Divisão só começou em 1938/9 tendo sido vencedor o F.C.Porto. Se as Ligas fossem campeonatos (e não torneios experimentais), não teria havido Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938 e a Académica, o último classificado da Liga de 1934/5, tinha descido de divisão. Mas não desceu até porque não havia ainda II Divisão. A Académica voltou a jogar na Liga em 1935/6 sendo de novo o último classificado. Depois foi 5º em 1936/37 e 6º em 1937/8. Tal como o da I, o campeonato da II Divisão só começou em 1938/9, depois de 4 anos de experiências com 4 vencedores deste torneio experimental: Carcavelinhos, Olhanense, Boavista e Leixões.

Esta é a verdade. Já chega de paranóia das Ligas. Basta!

José do Carmo Francisco

Bazar

O livro está ali no escaparate, “traduzido para mais de dez línguas”. Serão doze, uma vintena? As mais são apenas dialectos?
Conheço bem o romance, li-o mais do que uma vez. É um edifício robusto, construído à moda antiga. Andam-lhe águas no telhado, e tem algumas rachas nas paredes. Mas não se gasta nos umbiguismos correntes, nem nos enfada a cabeça. Um leitor sem exigências de ouvido toma-o por sinfonia e dedica-lhe o serão. Não admira a trigésima edição.
Já “traduzido para mais de dez línguas”, que parte da humanidade andará privada dele?

Jorge Carvalheira

Ambiguidades

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No portal do Público, está a versão integral, e muito ilustrada, da entrevista que Luís Miguel Queirós fez a Eduardo Lourenço, e saiu na última «Pública».

Destaco esta passagem, que já vinha em papel e que merece reflexão.

Veja o Aquilino, que os mais militantes da minha geração inscreveram quase à força nas suas hostes. Depois de 1945, ele chegou realmente a ter obras apreendidas. Mas sempre trouxe nas badanas dos seus livros uma frase de Salazar, a gabar-lhe o estilo. Eram da mesma geração, tinham passado ambos pelo seminário, não eram homens com a mesma mentalidade, mas eram homens do mesmo mundo.

Lembro-me de o Torga me ter contado uma história que se passou com um ministro de Salazar, o Leite Pinto, que ia ao Brasil. O Torga tinha estado lá e era muito conhecido no Brasil, de modo que podia servir como uma espécie de cartão-de-visita, mesmo sendo hostilizado cá dentro. Ora, esse Leite Pinto, antes de partir, foi-se despedir de Salazar e, nessa visita, começou a recitar um poema do Torga. O mais interessante é que Salazar continuou o poema, e acabou de o dizer. O Torga contou-me isto com lágrimas nos olhos. A vida é muito complicada.

«O fio de ouro» de Fátima Murta

Já se disse tudo da literatura. Pensamos nós. Já se disse que depois dos fornos crematórios de Auchwitz não seria mais possível a poesia. O mesmo foi dito dos massacres de Shatila e Sabra. Já se disse muita coisa, mas afinal ainda está muito por dizer. Desde logo cada abordagem à literatura é feita por cada pessoa em função da sua biografia, do seu passado, das suas circunstâncias.

Recebi na minha banca de trabalho um pequeno livro de apenas 51 páginas. O título é O fio de ouro e todos os seus poemas tratam do tema da violência sobre as crianças. Chamou-me a atenção o poema «missiva ao rapaz com patas de urso» e aqui fica um pouco desse poema com toda a sua carga de testemunho transfigurado em arte: «Tão pesadas são as patas / do rapaz que me rasgou / uma costura de alfinetes / encostada ao frio / meia vergada sob o peso / do andaime das amarguras / tão grandes as tuas mãos / agarradas aos meus ombros minúsculos / tão pesadas as patas de urso / deformação genética antes do nascimento / feres-me os punhos como anilhas nas rolas / são pesadas, já disse, as tuas patas de urso / sobre mim que ocupo o espaço / entre dois dos teus dedos menores. /Todo tu és pesado a todo o meu corpo e alma / o Espírito brotou e logo foi cuspido num balde / És um rapaz já homem diferente de todos os rapazes / E tão igual a tantos homens à volta da terra / Não são as patas de urso / Eu gosto tanto dos animais! / É a força que anima as tuas patas de urso / e me sufocas os gemidos com elas e o seu peso / Se os meus gemidos se ouvisse na liberdade das árvores / Fariam chorar os pássaros adormecidos nos ninhos. / Não escolhi que sejas diferente como os monstros / não gosto da tua diferença de patas de urso. / Rapaz, tu cresceste! Nem eu sou mais uma menina com as tranças louras e longos lacinhos brancos a condizer com os sapatos»

José do Carmo Francisco

«O enigma da Atlântida» em Banda Desenhada

Descubro algo incrédulo um livro de Edgar Jacobs intitulado O enigma da Atlântida da série «As aventuras de Blake e Mortimer». Se uso a palavra incrédulo, isso tem a ver com os desenhos; não com a história. A história é passada na Ilha de São Miguel cujo mapa é mais ou menos fidedigno, mas que evidencia um aeroporto chamada de Santana na zona entre a Ribeira Grande e Porto Formoso, mais ou menos. O professor Mortimer aluga a Quinta do Pico e tem como feitor um tal Zarco Neves. Isso é o menos mas o mais intrigante é a maneira como os homens contratados para transportarem a bagagem do cientista se apresentam vestidos. Eles surgem como os campinos do Ribatejo mas de barrete vermelho. E andam sempre de burro. Aliás os burros estão muito presentes nesta história de banda desenhada. Tanto quanto me é dado saber, não há nem nunca houve homens de barrete vermelho em São Miguel e quanto aos burros parece-me que não há mais burros por quilómetro quadrado na Ilha Verde do que no restante território português. Incluindo a Ilha da Madeira, já agora. O meu amigo José Vilela, editor da nova série do Príncipe Valente, explicou-me que era vulgar os autores de banda desenhada no passado recorrerem à sua imaginação quando não tinham elementos verídicos para trabalhar. Era preciso escrever uma história passada em São Miguel, mas ou porque a viagem era cara ou por outra qualquer razão iam-se buscar as referências a outras regiões. Daí os barretes que saíram vermelhos talvez para que não houvesse confusão com os campinos da lezíria ribatejana. Coisas da Banda Desenhada.

José do Carmo Francisco

Pastelaria Suíça

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O senhor que me serve o café já reparou em mim. Nada de particular. É um bom empregado. No seu registo profissional, eu sou aquele fulano que aparece por ali quando lhe dá na telha, isto é, servindo um perfeito caos estatístico.

O que ele não sabe é que, todos os dias que Lisboa tem de aguentar-me no lombo, a minha chávena de café é feita ali. Não porque a qualidade do produto seja grande. Mas sou eu que, numa vida certinha, acabo dando chances ao irracional.