Todos os artigos de Aspirina B

Dia da Raça

Falam-nos dum passado de marinheiros audazes, em que nos fomos ao mar,
a descobrir novos mundos que demos ao mundo velho.

Do mar trouxemos por junto uma epopeia de mitos, feita de deusas carnudas,
e uns tantos heróis pintados, e adamastores de papel.

Arrenego um tal passado. Que ou não somos, agora, o que já fomos, ou
nunca fomos o que nos dizem que somos.

Levaram-nos, é o mais certo, a fingir o que não fomos. Se assim for,
nunca seremos o que nos dizem que somos.

Jorge Carvalheira

Bah!

A Ministra reconduz. O Primeiro consente. O Presidente cala.

É cá uma fezada que o Ministério da Educação está atafulhadinho destas prepotências. Com uma cultura muito local. Quanto menos capazes, mais espezinham, e mais sobem. E com um PS tão rosadamente clientelar…

Por onde pegar, então? Pela primeira ponta que se veja. E esta é cá uma!

«Casal». E que casal!

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Isto de a gente ser portador dum segredo é tramado. Dá à vida um ar de irrealidade, mas não nos faz feliz. Trata-se de quê, desta vez?

Bom. Você já terá andado de metro em Lisboa. Talvez até tenha saído, ou entrado, na estação Cidade Universitária. Possivelmente, reparou que tem azulejaria de luxo e perguntou-se pelo artista. Já menos provável é que certo conjunto, onde figuram dois seres de aparência humana, lhe tenha embargado o passo. E é já da ordem do conto de fadas supor você identificando as figuras. Concedo: não é nada, nada fácil.

Dou-lhe conta duma primeira tentativa. Na edição de luxo de Lisboa, Livro de bordo, de José Cardoso Pires (Dom Quixote, 1997), aparecia a tal figuração, com a legenda: «Estação Cidade Universitária. Painel do Cais, com retrato de casal». E vinha o nome do, neste caso, «da» artista: Vieira da Silva. Pois já então eu soube que carregava um pesado segredo.

O «casal» é formado por Vergílio Ferreira, à direita, e Alexandre Pinheiro Torres. Se há ali um casal, é de discórdia. A autora quis decorar a estação ‘universitária’ com a recordação de uma polémica. Uma polémica intelectual, o que só fica bem.

Os dois escritores degladiaram-se em inícios dos anos 60, a pretexto (sim, puro pretexto, depressa esquecido) da publicação de Rumor Branco, de Almeida Faria, que Vergílio apadrinhara. Uma luta surda fazia ali erupção. Pinheiro Torres batia-se pelo Neo-realismo, Vergílio execrava-o, e Faria, com um romance experimental (a sua extraordinária, e ainda hoje obrigatória, Paixão demoraria ainda uns anos), constituía a bem-vinda pedra de escândalo. Meses a fio, tout Portugal conteve a respiração.

Quando, pois, você de novo por lá passar, lembre-se de que, discretamente, o debate intelectual português tem ali o seu monumento.

Para a petite histoire

Isto, sendo uma revelação, não é a primeira que é feita. Quis o destino que, na mesma exacta hora, dum fim de tarde de 1997, em que, na Câmara de Lisboa, era apresentado o livro de José Cardoso Pires, moderasse eu, na sede da SPA, um debate sobre Alexandre Pinheiro Torres, que vivia há muitos anos fora do País, e que eu achara dever ser homenageado pela passagem de 50 anos de vida literária. Estavam na mesa, e na conversa, Mário de Carvalho, João Aguiar, Inês Pedrosa e Regina Louro, que me pareceram comparsas do bom-gosto e da ironia de Torres. Recordo-me de ter, então, revelado o segredo do Metro de Lisboa. Mas, ainda agora, nenhum motor de busca dá conta dele. Depreendo que o black-out foi, até hoje, geral.

Sobre Alexandre Pinheiro Torres veja a excelente página de Carlos Ceia.

Duas opiniões

«A história que hoje podemos fazer dos últimos trinta anos dá-te [a APT] razão, pois Almeida Faria não se tornou o grande escritor que Vergílio Ferreira augurara» (Carlos Ceia, no site acima)

«Entre 1965 e 1983, Almeida Faria publicou a sua «tetralogia lusitana» (Paixão, Cortes, Lusitânia e Cavaleiro Andante), que confirmou o vaticínio de Vergílio Ferreira: o de que estávamos perante um ‘futuro grande escritor’» (António Guerreiro, hoje no «Expresso»)

Qual é a sua?

Luís Amaro – Um poeta discreto

A revista Alentejo – Terra Mãe publica-se em Évora e, no seu recente número 6, relativo ao primeiro trimestre de 2007, inclui três páginas de homenagem a Luís Amaro. Até aqui tudo bem.

A primeira página inclui um perfil biográfico: «Nascido em Aljustrel em 1923, Francisco Luís Amaro começou a escrever aos 12 anos em jornais alentejanos, veio para Lisboa no Outono de 1941 e nunca mais de lá saiu. A sua obra poética é breve mas intensa.». A segunda página reproduz a capa do volume Diário Íntimo de Luís Amaro na recente edição da Editora «& etc», além de da bibliografia total: livros, revistas e trabalhos desenvolvidos na revista Colóquio Letras. A terceira página tem uma foto de Urbano Tavares Rodrigues e o seu depoimento que começa assim: «Sou amigo do Luís Amaro desde sempre. Sempre foi um homem muito cordial, sempre disposto a ajudar alguém, de uma grande generosidade e, ao ler este livro, fiquei comovido e muito feliz.» Até aqui tudo bem, mas a partir daqui tudo mal.

É que a fotografia que acompanha este trabalho assinado por Emília Freire tem a ilustrá-lo uma fotografia de Manuel Poppe. Demorei algum tempo a descobrir de quem era a foto trocada. Tinha uma ideia, mas não tinha a certeza. Foi num exemplar do Jornal de Notícias que vi a mesma foto ao lado da coluna de opinião «O outro lado», assinada por Manuel Poppe.

Será caso para dizer: Luís Amaro é discreto, mas não ao ponto de se diluir na sombra das páginas de uma revista…

José do Carmo Francisco

Os Dois Onésimos

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Na mais recente festa de formatura da Brown University, de Providence (costa leste dos Estados Unidos), coube a Onésimo Teotónio Almeida ser – nas suas venerandas palavras – «o portador oficial do símbolo do poder da universidade, à frente da reitora nas procissões». E recorda o seu estatuto de ex-seminarista (acontece aos melhores), suspirando: «Para o que havia de estar guardado quem há muito despiu a batina!»

Julga você que se trata do mesmo Onésimo Teotónio Almeida, autor das descontraídas crónicas de Que Nome É Esse, ó Nézimo, e Outros Advérbios de Dúvida, 1994, de Rio Atlântico, 1997, de Viagens na Minha Era, 2001, e de Livro-me do Desassossego, 2006?

Esfregue os olhos. Pode estar a sonhar.

Coisas de muito espantar – 2

PRAZERES RÁPIDOS

– Sabias que não precisas de ser gay para escrever uma bela história do género?
– Que género?
– Género gay. Arre, és lento de percepção.
– Tu é que complicas. Mas então estavas a dizer…?
– Que não é preciso seres…
– Yá. E é porreiro. Assim, ainda guardo as minhas chances.
– Exacto. Agora, já só te falta escreveres bem.
– Filho da…
– Mas há mais.
– Mais?
– É que, para escreveres uma linda história lésbica, também não precisas de ser mulher.
– Essa… essa é do catano. E como é que sabes?
– Li.
– E quem é que disse?
– Ninguém. Eu li. Li a história. Chama-se Sedução. É dum português.
– Título basto comercial.
– Tás a gozar. Mas hás-de ler. Já ouviste falar do José Marmelo e Silva?
– Marmelo… conheço.
– Esse ainda é um gajo novo. O Marmelo e Silva morreu há anos largos. E o livro, esse é
dos anos 30. Uma pequena pérola, vai por mim. Há edições recentes.
– Hei-de ler. E a outra coisa… Essa do straight. Também é português?
– Era. O Alexandre Pinheiro Torres. O nome diz-te alguma coisa?
– Vagamente.
– Não diz nada, portanto. E é um fabuloso romancista. É, não duvides.
– E escreveu um romance gay.
– Uma novela… O título, aviso-te, é foleiro à brava.Segura-te. Amor, Tudo Amor, Só Amor.
– Ui!
– E disse-me um gajo, amigo dele, que o convenceu a encurtar. Mas o que interessa: a história
é de partir o coco.
– Vou ler também.
– Lê. Mas devagarinho. São prazeres muito rápidos.
– … Espera. E… e malta gay com grandes livros straight?
– Essa é aos montes.

Saber antigo

A menina era gentil. E bonita, santo Deus! Da ementa que me trouxe constava xôpa grelhada.
Pareceu-me estranho. Pedi explicações.
– É um peixe do mar, sei lá!
Fiquei na mesma. E logo ela harmonizou. Abriu-me o menu da véspera, paspada no carvão.
– Come e cala-te! – disse eu, a rosnar com os meus botões.

Jorge Carvalheira

De Cardoso Pires a Fernando Mendes – Um Peso certo, uma palavra errada

Para quem possa parecer insólita esta associação entre o escritor José Cardoso Pires e o actor Fernando Mendes esclareço já que se trata de ligação legítima. O autor de Balada da Praia dos Cães nasceu no Peso (Vila de Rei) e o apresentador do «Preço certo» esteve no Peso (Santa Catarina) numa festa com a finalidade de angariar fundos para o piso sintético do campo de futebol local. Tenho aqui o livro A república dos corvos de José Cardoso Pires com uma dedicatória amável datada de Maio de 1991 que conclui deste modo: «José do Carmo Francisco oxalá encontre o mesmo prazer que eu encontrei nos seus Jogos Olímpicos. Um abraço de parabéns José Cardoso Pires». Na contracapa lá está o erro crasso: «José Cardoso Pires nasceu no Peso, Covilhã, a 2 de Outubro de 1925.» Na página 5535 da Nova Enciclopédia Larousse vem de novo o mesmo erro: «Pires (José Cardoso) escritor português (n. Peso, Covilhã, 1925)» Nós sabemos que Vila de Rei é cá para baixo e Covilhã é lá para cima. O Fernando Mendes aparece no Diário de Notícias de 3-6-2007 a dar um pontapé de saída para um jogo no Peso (Santa Catarina), mas a notícia assinada por João Fonseca de Coimbra refere outra coisa: «As centenas de pessoas que assistiram ao jogo, ontem à tarde no Peso, Caldas da Rainha, não tiram os olhos do pelado mas no final não se entendem quanto ao resultado.» O Peso onde Fernando Mendes esteve fica na freguesia de Santa Catarina e não na freguesia de Caldas da Rainha. Isso era se o Peso ficasse no Avenal ou na Lagoa Parceira. Mas não. Fica em Santa Catarina, a mais de 18 quilómetros das Caldas. O Peso do Cardoso Pires é ainda mais longe: de Vila de Rei à Covilhã é um esticão. Mas ambos estão errados.

José do Carmo Francisco

É pa rir?

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Uma sessão de autógrafos de ANTÓNIO MANUEL VENDA , na Feira do Livro de Lisboa, foi cena de perturbação. Mais publicidade para O Que Entra Nos Livros? Por aí, não haverá queixa. Mas a ordem pública parece, com isto, desafiada.

Está tudo contado no blogue do autor.

O contador está maluco

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Acontece. Aos melhores, claro. Confia-se na técnica, e ela emperra. Não que seja decisivo. Com dez leitores por dia, o Aspirina esmerar-se-ia na mesma. Mas acontece que recebemos bem 1000 visitantes por dia (e mais 1000 caem aqui trazidos pelo vento). Isto em média.

Até há poucos dias. Porque o contador entrou em crise. Emocional, suponhamos. E hoje, está vendo, ainda ninguém nos veio ver. Não, querida leitora, querido leitor. Você… não conta.

Para o contador. Connosco é outra história.

Bem-vindos, pois. Entrem e sentem-se.

Balada nocturna para Eduardina

Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

Na Rua dos Navegantes
Como na Horta, cidade
São as coisas importantes
Que criam maior saudade

Entre igrejas e conventos
Entre ermidas e mercados
Ficam no pó dos momentos
Os teus passos registados

Nas janelas dos solares
Na Ribeira da Conceição
Nos mais diversos lugares
Angústias em construção

Viola-da-terra, menina
Mas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

Das Angústias, freguesia
Pode nascer um compasso
Com palavras de alegria
É esta canção que faço

Jardim Florêncio Terra
Num coreto silenciado
Uma voz em pé de guerra
Procura por todo o lado

Qual é o exacto lugar
Onde fica a sua canção
Será na Rua do Mar
Ou na Rua de S. João

Viola-da-terra, menina
Nas mãos de Hélio Beirão
Cria na voz de Eduardina
O rumor duma canção

José do Carmo Francisco

Escrito depois de um concerto de viola-da-terra
na Casa dos Açores

Iniciação

Os pais deixaram Gonçalo à porta de Gina, a caminho do aeroporto, para umas férias de sendeirismo nos Cárpatos.

Gina acolheu encantada o seu ‘menino’, agora de dezasseis anos. Tinha sido ama do pai
e só saíra para casar. O casamento durara um fósforo, mas agora via-se com casa.
Quartos de criada nunca mais.

Os oito dias das férias paternas, passou-os Gonçalo na cama com Gina. Aquilo havia sido fulminante, diria o moço com mais preparação. A novidade, as estatísticas hormonais e um começo de viciação, também ela de foro científico, facilitaram o débito.

Quando os pais vieram buscá-lo, Gina não pôde conter-se: ‘Está um homenzinho’.

A mãe, no lugar do passageiro, sorriu. O pai, ao volante, compreendeu, e sorriu também.

A Gina continuava impecável.

fv
Amsterdão, 3.6.2007

A terceira solidão de Miguel Garcia

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O herói de Alkmaar foi desterrado para Reggio Calabria. Houve quem lhe chamasse o leão de Alkmaar. Para outros, Miguel Garcia foi o herói de Alkmaar. Foi ele que no minuto 120 do jogo entre o AZ Alkmar e o Sporting marcou um golo inesperado, insólito e mágico e colocou a sua equipa na final de Taça UEFA. Por esse golo morreu o jornalista Jorge Perestrelo, com o coração despedaçado pela alegria multiplicada nas ondas da TSF.

Nunca uma derrota tinha sabido tão bem. Perder por 3-2 fora suficiente para festejar a passagem à final de uma Taça Europeia. Soube hoje que este alentejano discreto acabou desterrado para a ponta da bota italiana – Reggio Calabria. Depois da solidão no Entroncamento em 1999, depois da solidão de 2006 na selecção de esperanças, esta é a terceira solidão de Miguel Garcia. Foi como se uma borracha gigante apagasse um percurso límpido desde os primeiros tempos do Atlético de Moura, quando o tímido Iniciado do Sporting estranhava a vida turbulenta de Lisboa e só andava de Metro na companhia segura do colega Valdir.

De repente Miguel Garcia aparece substituído por um obscuro suplente no Sporting de Braga. Até Pinto da Costa (honra lhe seja feita) se referiu ao modo miserável como a imprensa desportiva fez o branqueamento da grande penalidade cometida por Simão Sabrosa sobre Miguel Garcia no recente Sporting-Benfica. Foi castigado como se a culpa fosse dele. Sofreu uma falta grave que o árbitro não assinalou e foi afastado como se fosse sua a culpa da derrota.

O herói de Alkmar leva nos olhos para o Sul de Itália a música triste da sua campina, onde as máquinas substituem os ceifeiros e quem passa nas estradas vê nas casas dos cantoneiros a apoteose da solidão.

José do Carmo Francisco

Coisas de muito espantar – 1

FORTE DOS TEIXOS

– Sabes o que têm Évora e York em comum?
– Não. Uma universidade?
– Também. Mas mais importante.
– Eh pá, não sei. Serem cidades bonitas?
– Outra coisa. Bom, dou-te uma ajuda. O nome.
– O nome?
– O nome.
– Agora está a querer gozar.
– Pode-te parecer, mas é como eu digo. York e Évora têm o mesmo nome. Bom, tiveram.
– E qual? Pode saber-se?
Eboracum. Tinham uma fortaleza.
– Ah!
– E havia por lá uma data de teixos.
– Teixos?
– É um tipo de árvores. Coníferas, nunca ouvistes falar? Têm frutos em forma de cone.
Como o pinheiro. É também uma conífera.
– O que tu sabes! E então…
– Então, os celtas, porque foram eles, chamaram eboracum, a essa fortificação que ficava
ao pé dos teixos.
– E isso foi em Évora?
– Exacto.
– E em York?
– Nem mais.
– Mas então…?
– Então, de eboracum formou-se «York», como se formou «Évora». As leis da derivação não
são universais.
– Eu fico espantado.
– Não fiques. Daqui a dias, conto-te outra.

Peripécia com cadela e bispo

Peço desculpas ao Aspirina inteiro, pela vastidão da postagem. Mas encontrei esta história ali num disco velho. E hoje é o dia de eu me divertir.

Nesse tempo o Largo João de Almeida era para nós um sítio onde paravam táxis. Só muito mais tarde havíamos de saber que, por trás do topónimo, se escondia um herói de bigodes, um guerreiro do império que passara o melhor da vida a espingardear bacongos nas matas dos Dembos, e a enxotar os cuamatos das savanas da Huíla.
Ninguém levava as glórias nacionais mais a sério que nós, que resistíamos com tenacidade às provas de fogo das aulas de história. Apenas se sentava, o velho mestre surdo, logo chamava em seu auxílio um lente
– tu! traz o compêndio!
E lá ficava a ler páginas e páginas do livro do Matoso. Às vezes morria um rei, achava-se no mar uma ilha deserta, casava-se a princesa, havia um terramoto. Um dia alguém matou o Miguel de Vasconcelos, amigo da duquesa. E logo a voz do mestre, com aquela autoridade que nasce do saber
– sublinhai!
E era na perturbação desses momentos que eu esticava o olho à carta de marear do adversário, e lhe dava o tiro de misericórdia no último submarino.

Jorge Carvalheira

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Rendimento mínimo

Nestes prados da quinta dos cavalos não há cavalos nenhuns. Só João vai caminhando pela berma da estrada e o viajante pára ao lado dele. Não sendo velho é uma figura antiga, delida pelo tempo, ou pela vida. E há nele a servitude primitiva que este viajante já julgava extinta.
De manhã tirou-se de cuidados e foi à vila ao médico espanhol, à boleia dum vizinho. Em breve se despachou e agora não há transportes, não tem remédio senão voltar a pé. Tem a mãe à espera em casa, já muito velha, e ainda mais achacada do que ele. Há mais irmãos mas desgarraram todos, depois que voltaram de Angola. Foram para lá quando eram pequenos, cresceram nos colonatos do Cunene. Havia o gado, e aquelas terras grandes… Agora o que lhe vale é o rendimento mínimo.
Quando o carro estaca no largo, João ainda não se convenceu de que o viajante parou na estrada e o trouxe para casa. O que lhe vale é o rendimento mínimo. E ao vê-lo assim, a afastar-se cabisbaixo, fica a pensar o viajante que deu boleia a um símbolo de alguma coisa maior.

Jorge Carvalheira

«Rua do Arsenal» de José Ferreira Marques

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Se o espaço deste romance é a Rua do Arsenal, o tempo é o tempo português dos anos 60 do século XX: «Aos novos, levava-os a guerra. Outros fugiam a salto para França. Os menos afoitos não resistiam ao encanto das luzes da capital.». Luís chega da sua terra a Lisboa olhando para os títulos de uma vitória do Benfica à porta de Santa Apolónia. Começa por descobrir os cafés: «juntou-se a uma tertúlia que abancava no Café Império, mistura de marialvas, amantes do fado, alguns estudantes e até forcados.» Cansado de ouvir na televisão a preto e branco «Adeus até ao meu regresso», participa na campanha eleitoral de 1969, mas acaba preso pela PIDE como se lê no bilhete entregue a Cecília: «O Luís foi preso. Deve estar em Caxias. Não me procure. PS – Consta que foi um Silveira do Técnico que o acusou.» Trata-se de Fernando António, o primeiro marido de Cecília. Ele simboliza o Portugal «velho» enquanto Luís surge como o Portugal «novo» ao lado de quem Cecília vai ouvir a célebre frase «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!». Entre dois mundos opostos, Cecília rejeita Fernando e corre para Luís na Rua do Arsenal, a rua onde se começaram a amar. A mesma rua onde foi assassinado o rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe em 1908 e mesmo ao lado da Câmara onde foi proclamada a República em 1910. Depois de Bichos do Mato com o olhar da guerra colonial, este Rua do Arsenal desenha em páginas vibrantes o mundo cinzento dos escritórios, dos cafés, dos estudantes e dos polícias que povoaram a Lisboa dos anos 60. Quando os homens «enchiam os bolsos de esperança» e fugiam a salto, que o medo «não matava a fome».

Editora – Palimage

José do Carmo Francisco