Conhece Carlos de Oliveira?

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Um dos poucos poemas que sei de cor de Carlos de Oliveira é do livro Sobre o lado esquerdo e diz assim: «A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da terra.» O outro é o que fala do sal: «O sal é o mar servido às nossas praias domésticas de linho.» São poemas muito belos que me acompanham todos os dias desde sempre, desde que um dia o visitei nas águas furtadas da Avenida Praia da Vitória. A Maria Ângela ainda era uma mulher muito bonita nesse fim de tarde em que me ofereceu uma fotografia de Carlos de Oliveira tirada pelo Augusto Cabrita.

Encontro casualmente nas escadas rolantes dos Armazéns do Chiado um poeta meu amigo que é também jornalista profissional. No passado dia 1 de Julho, registaram-se 26 anos sobre a morte física de Carlos de Oliveira, o poeta de Micropaisagem, o romancista de Uma abelha na chuva. Bem informado e perfeitamente capaz de organizar um texto motivador chamando a atenção para a obra do autor de Casa na duna, que nasceu no Brasil em 1921, o meu amigo poeta e jornalista elaborou e assinou o texto alusivo à efeméride e fê-lo entrar no circuito dos assinantes da sua agência noticiosa.

Pois a verdade é que nenhum jornal pegou no assunto. Nem transcrevendo o texto nem convidando nenhum dos seus «sábios» colaboradores a pegar no tema. Há alguma crueldade nesta situação. Não sei os motivos deste esquecimento, mas talvez todos tenhamos que dar razão ao próprio Carlos de Oliveira que, em O aprendiz de feiticeiro, escreveu esta frase lapidar: «Escrever é lavrar – e lavrar, numa terra de camponeses e escritores abandonados, significa sacrifício, abnegação, alma de ferro.»

José do Carmo Francisco

28 thoughts on “Conhece Carlos de Oliveira?”

  1. COLAGEM

    Palavras,
    sereis apenas mitos
    semelhantes ao mirto
    dos mortos?
    Sim,
    conheço
    a força
    das palavras,
    menos que nada,
    menos que pétalas pisadas
    num salão de baile,
    e no entanto
    se eu chamasse
    quem dentre os homens me ouviria
    sem palavras?

    Carlos de Oliveira

  2. Faz-me lembrar que, sendo Almada Negreiros a figura que foi durante toda a sua vida na cultura portuguesa, só teve acesso tardio à televisão em 1969 (seria?) no programa ZIP-ZIP.

  3. Ó André Esteves,

    Então agora andas, ao doce mando da Maçonaria, a convencer malta para levar nos cornos da polícia. Fraco gosto, rapaz! Olha que na polícia também deve haver muitos irmãos de avental. Explica lá isso aos meninos das bandeiras para ver se eles põem os neurónios em ordem. Um abraço do

    Camarada Judas (Da loja Platão Feliz)

  4. Os jornais andam a dormir. No entanto, há mais de uma década que Carlos de Oliveira é um dos poetas mais estudados em Portugal (talvez só o Ruy Belo o ultrapasse actualmente). Carlos de Oliveira mamou, digeriu e depois vomitou como ninguém as concepções teóricas do neo-realismo, Foi igualmente o escritor que mais se degladiou com as questões da referencialidade e da re-escrita (aí, o «Finisterra» ergue-se como um dos mais importantes romances portugueses do século XX).

    Bem lembrado.

  5. Já só até amanhã, encontram-se livros do Carlos de Oliveira a bons preços na feira do Livro manuseado da Assírio & Alvim. Foi assim que a preço de saldo enriqueci a biblioteca com a obra completa do escritor: a poesia toda, Finisterra, Pequenos Burgueses, A Casa na Duna, Uma Abelha na Chuva e O Aprendiz de Feiticeiro.

  6. Parece-me que, contrariamente ao que sobre ele se diz, Carlos de Oliveira utiliza métodos narrativos alheios ao pensamento neo-realista como sejam a representação simbólica e a subjectividade veiculada através da consciência das personagens.
    Isso, é visivel no romance “Uma abelha na chuva”

  7. Não são alheios, Rita. Qualquer noção narratológica ou poeticista do Carlos Oliveira parte da matriz do neo-realismo. O que acontece ao longo da sua obra é que ele se vai afastando dessa concepção. Mas cuidado: esse afastamento é gradual e, sobretudo, sempre dialecto com essa matriz. O «Finisterra» (que é um re-escrita de «Um abelha na chuva») vai ainda mais longe e convoca como tema a problemática da referancialidade, tão cara aos neo-realistas.

    Quando digo que o Carlos Oliveira é o maior escritor do neo-realismo é exactamente pelo facto de ele ter reflectido sobre os seus pressupostos. Praticou-os, testou-os, reflectiu sobre eles e, por fim, os rejeitou.

  8. Tipilina,

    A inquietação patenteada em perguntas – na realidade, sugestões – do tipo da sua é indício de insegurança sexual própria. No que não há nada de grave, claro. Mas, e isso já lhe convém saber, sempre há gays que se assustam com estas nervosas piaditas. É susto de parte a parte – o que é um bocado de sustos de mais. Não acha?

  9. O Fernando assustou-se com a pergunta ? Não era minha intenção! O Luis Rainha bem me disse que era muito sensível.

  10. Ah, Tipilina. Eu tenho casca grossa. O Luis Rainha, simpático, deu-lhe uma ideia favorável. Há destas sortes!

  11. Tipilina,

    O Fernando pode ter a casca grossa mas lá casca-grossa é que náo é! Especialmente agora, depois do recente edital afixado aos portões do Aspirina, às ordens dele.

    Não vá mais longe, pergunte aos Bigornas, felizes com a amnistia que ele lhes outorgou.

    Polido homem, este Fernando, muito teso, tem pau (inteligência), é muito valentão e liberal com excelência!
    (a rima não foi propositada).

  12. “Casca Grossa” ?

    Depreendo que queira dizer “calos”, está muito “calejado” devido ao uso excessivo! Há coisas que foram feitas para se usar num só sentido e o senhor optou pelos dois. E eu que o achava tão macho.

  13. Ah, Tipilina, querida. Engana-se. Julga que percebeu, e ei-la ainda longe de entender. A sua existência é, não me desminta, um frenético rosário de surpresas. Vida invejável, caramba. Quanto ao macho, recomenda-se.

  14. Foi o meu avõ, seu amigo, que lhe ensinou os nomes das coisas da Gândara, em longos passeios pelos campos, para escrever o Casa na Duna. Pode ser dos poetas actualmente mais estudados, mas não está na moda. Talvez por ser difícil. De tempos a tempos lá se lembram dele nos jornais ou aqui nos blogues. O Uma Abelha da Chuva ainda se engole, mais ou menos. Mas o Finisterra é muito difícil. Mas compensador, para quem consegue.
    Gostei muito de o ver aqui lembrado

  15. JPC,

    Está certo quanto à referencialidade a que alude. Porém, em ” Uma Abelha na Chuva”, a realidade já não é imposta do exterior, mas imana da subjectividade da linguagems e das personagens, mais preocupada com a sua natureza simbólica.Ou seja,o símbolo assume em “Uma Abelha na Chuva”, uma função primordial, dá-lhe algo de poético e confere-lhe maior sentido estético afastando-se do neo-realismo inicial.

  16. Tripirilina, quando fores velha, engelhada e te sentires um trapo, recorda Abril de 2007 e as oportunidades que a gente perde pela vida.

    Gostei deste bocadinho, boneca.

  17. Será que Carlos de Oliveira era mesmo neo-realista?
    – então porque é que o processo de re-escrita da obras incidiu na fase mais jovem do escritor, nomeadamente durante a sua vivência em coimbra e não na fase dos anos 40 e 50, décadas de novas correntes literárias.

  18. Carlos de Oliveira apostou muito cedo na convicçao de que a forma literària também fazia (era) sentido. o processo de sedimentaçao da paisagem gandarense na sua ficçao revela uma tentativa de imitar na escrita o rigor (a austeridade)tanto social como paisagistico da época em que vivia. No escritor mal se pode distinguir a poesia da prosa uma vez que a escrita depurada (aliviada dos pormenores e caminhando rumo ao centro das coisas)adquire o teor alquimista da pedra que se transforma em ouro.O poeta foi grande admirador dos surrealistas franceses Supervielle, Aragon, Eluard e de Afonso Duarte.

  19. alguém poderia me ajudar como identificar o neo-realismo na obra de Uma Abelha na Chuva de Carlos de Oliveira.

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