ALARMISTAS OU OPORTUNISTAS?

De vez em quando lá estou eu, sem quase dar por isso, a ler os “chamativos” títulos das capas das revistas portuguesas, que se avolumam nos escaparates, sempre que encontram um cantinho disponível: nos hipermercados, estrategicamente dispostas junto às caixas registadoras; nos postos de abastecimento de combustíveis; nos quiosques; nas chamadas tabacarias ou casas dos jornais; nos passeios (sempre apelativas), em cima das mesas dos cafés (aqui, mais os jornais) …
Sem falar nos lugares onde as “revistas à portuguesa” não se encontram à venda, pela simples razão de que já foram adquiridas. É isso. Ali estão elas à mão de quem espera a sua vez nos cabeleireiros, nas esteticistas, nos consultórios médicos, etc.
Por fim, temos as amigas ou familiares, que não resistiram à tentação da compra, e que, gentilmente, nos dizem: “Eu já li, se quiseres, leva…”
Por vezes, levamos…Também, se não levássemos, como poderia eu, agora, escrever este texto?

Soledade Martinho Costa


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Não devo estar enganada quando penso que nem todos devem gostar daquilo que escrevem nas ditas revistas (e os jornais não ficam de fora…). A falta de emprego grassa por aí. Mas gostem ou não, o problema ultrapassa o bom senso do jornalista. Com a maior impunidade, atingem-se pessoas a quem os títulos, principalmente, são dirigidos. As vítimas. Os visados. Não me refiro àqueles que fazem da sua vida privada as páginas das revistas. Esses, são aqueles que as vendem! Refiro-me aos que ficam incomodados, chocados, calados (a mais das vezes), sem “armas” para combater o abuso. Abuso que causa, quase sempre, dano e sofrimento.
Já me disseram que os títulos bombásticos, ou premeditadamente alarmantes das tais revistas, são escolhidos pelos próprios directores, independentemente de o texto do interior dar ou não continuidade a esse título (regra geral, não dá!). Será que o jornalista não tem mesmo conhecimento do título que, na capa, faz a introdução (e o chamariz) do artigo que escreveu? Talvez…
Sempre se disse que “um título vende um livro”. Hoje, a coisa está mais alargada: quem diz um livro, diz uma revista ou um jornal, verdade?
Para comprovar, aqui vai o exemplo de um desses títulos: «Letizia e Leonor – DRAMA NA COROA ESPANHOLA – o Sofrimento da Princesa com os Herdeiros do Trono».
Não me apetece escrever o nome da revista nem o da jornalista que assina o texto. Apenas gostaria de saber que espécie de drama é que se passa na coroa espanhola e qual o sofrimento da princesa, em relação aos herdeiros do trono!? O que vamos encontrar é a descrição dos enjoos de Letizia (“que foi obrigada a engravidar de novo”); no que consiste a laqueação das trompas; a ausência de Letizia nas festas de aniversário dos sobrinhos; os seus diferendos com a cunhada, a infanta Cristina, e por aí fora…Quem comprou a revista à procura de uma tragédia (muito ao gosto português) enganou-se. O que custa é esta falta de respeito (aqui, sinónimo de ganância), que não poupa as crianças, nem sequer aquelas que não nasceram ainda…
A mesma revista, algum tempo depois, traz este título (também com mãe e filha na capa): «Letizia já tem Problemas com o Crescimento da Filha. Menina vive rodeada de Enfermeiras. O Drama da Pequena Leonor».
Quem assina o texto? A mesma jornalista (numa letrinha que só com lupa, pudera!).
O que escreve? Meras suposições. Tipo cartomante a adivinhar o futuro…Nada daquilo que o povinho português que se preza, espera: mais uma vez, compra furada! Felizmente, a menina é linda, saudável e cresce feliz.
Tenho por Ruy de Carvalho e família a maior consideração e estima. Devo a Ruy de Carvalho a gentileza de ter lido poemas meus na SPA. Devo a mesma gentileza a seu filho João de Carvalho (meu amigo mais íntimo e vizinho). A nossa Amizade vem de longe. Do tempo do saudoso José Álvaro Vidal, dos almoços, dos jantares, do convívio salutar, duma grande obra que nasceu.
Tive a honra de passar muitas horas em casa de Ruy de Carvalho, com ele e a esposa, D. Ruth. Gravei com o Actor uma longa entrevista (uma parte publicada na “Notícias Magazine”, do “Diário de Notícias”), convivência e entrevista que me impressionaram pela extrema simplicidade e bondade do Homem que tinha na minha frente. Pela sua humanidade. Amor pelo seu amigo. Amor e respeito ao próximo. Amor aos jovens. Aos idosos. Amor, muito amor à Família. À esposa.
Conversei algumas vezes com D. Ruth. Tinha sempre a sensação de estar a falar com o marido! Conheço os netos e a filha. Conheço o grande Amor que une esta Família fantástica. Ruy e Ruth estão casados há mais de 60 anos e começaram a namorar ela com 17, ele com 18 anos. Sei, pelo João, da aflição, do desgosto, do medo que os junta, neste momento, à volta dos problemas de saúde (graves) de D. Ruth. Sei, ainda, dos 30% de hipóteses numa operação de risco ao coração, onde se instalou um determinado vírus.
Mas também sei de um outro título a induzir ao erro. Medonho, insensato, revoltante, vergonhoso. Eram estas as palavras que podiam ler-se, umas semanas atrás, desta vez num jornal diário: «Mulher de Ruy de Carvalho Desiste de Viver»!
Ela pode desistir. Mas ainda não o fez. Não anunciem, para vender jornais, uma mentira que fere quem mais de perto vive o drama de poder vir a perder a Esposa, a Mãe, a Avó. “Virem essas bocas para lá”, como dizem os brasileiros.
Respeitem a dor alheia antes de deitarem contas aos milhares de jornais que venderam nesse dia.
Para o Grande Actor (a passar por uma enorme tristeza desde há dois anos) vai este poema, com a minha admiração e amizade de sempre. E desculpe.

RUY DE CARVALHOSer do palco o senhor
E ser seu escravo
E saber dele só amor e dano
E ser seu lume
Génio
Fama
É ser maior que as ovações.

Há nomes
Onde nunca cai o pano.

Soledade Martinho Costa

23 thoughts on “ALARMISTAS OU OPORTUNISTAS?”

  1. Os caixotes de lixo passaram para as primeiras páginas de alguns jornais e de muitas revistas. Vale tudo menso tirar olhos. Ou também já vale tirar olhos. Isto está um nojo.

  2. Sim, mas vá às livrarias e conte-me um conto. Ou pensa que temos dois países. É esta inocência que me faz doer. Assim não vamos lá, é só gastar tinta.

  3. LM:
    Desculpe-me. Qual inocência? A de “pensar que temos dois países? Não acha que me chega (e sobeja) saber que tenho apenas um!?
    Mas tem razão. Foi um lapso não incluir as livrarias nesse grupo, visto venderem revistas e jornais. Só isso. O mais, está fora do contexto.
    O problema das livrarias é outro. Começa logo nos “bonecos” das capas de grande parte dos livros. E não são as livrarias as culpadas. São as editoras.
    Criticar quando há razão, também não me parece que seja “só gastar tinta”, como diz.
    Quanto ao seu “Assim não vamos lá”, ensine-me, então, o caminho para chegar ao sítio certo…

  4. Emº Senhor (?) Luikki:

    Ainda hoje (e, naturalmente, para sempre) os amigos e colegas de Amália Rodrigues a tratam por Dona Amália. Há outros casos. Chama-se a isso respeito, já ouviu falar?
    Diga-me lá: está tão zangado…Desconfio que foi você quem escreveu aquele falso título sobre a Dona Ruth, adivinhei?

  5. As duas coisas, susana: a deferência (geralmente)só a podemos ter com quem nos merece respeito. É o caso. Mas não vás muito por aí. Sou pouco dada a salamaleques…
    Nunca tratei a minha Avó nem a minha Mãe por tu. Nem mesmo alguns dos meus amigos de longa, longa data. Os meus filhos, sim. São outros os tempos.
    Tenho amigas de muitos anos a quem trato por D. Isabel, D. Teresa, D. Celeste, D. Belmira. São hábitos. Mas também costumo tratar por tu pessoas com as quais privo pela primeira vez. É tu cá, tu lá…Acontece.
    O que me parece é que os comentários se estão a distanciar do verdadeiro motivo que levou ao texto, não achas? Dizem que “as palavras são como as cerejas”. Pois parece que sim.
    Ainda a respeito de “deferência”, pensando bem (e não sendo o caso), podemos manifestá-la, por exemplo, perante um idoso e por todas as pessoas que, de algum modo, a mereçam, independentemente de se sentir por elas qualquer amizade…Acho-te inteligente bastante para não confundires “deferência” com “lambe-botas”!

  6. não, não… aliás, num dicionário até podem aparecer como sinónimos, «respeito» e «deferência». é uma subtil diferença e percebo a posição. a minha avó tinha amigas que a visitavam e com quem fazia mais cerimónia; o tratamento era esse.

    o tema do texto: pois, nas filas de pagamento das estações de serviço sou por vezes chamada por títulos bombásticos e ao espreitar o interior encontro nada. mas o boato parece chegar para a fatia de público que as compra…

  7. Ainda bem que nos entendemos, susana (e que nos tratamos por tu!).
    És uma “miúda” (?) inteligente e eu gosto.
    Quanto à fatia de público, olha que não é assim tão pequena…

  8. FV:

    Gostei que tivesse retirado os dois comentários intrusos e desenquadrados que estavam aqui ainda há pouco. “Cada macaco no seu ramo (ou galho?)”!
    Estes senhores (?) além de se esconderem sob pseudónimo, fazem suas as palavras dos outros (e graves). Ou seja, não sabem alinhavar duas linhas sobre política e pretendem passar por revolucionários e fazer um brilharete! São uma verdadeira praga…

  9. (offtopic, pois claro e nunca sei onde ficam as letras dobradas)

    Soledade, apenas uma nota para dizer que as caixas de comentários têm vida própria e muitas vezes levantam voo do tema do post. É (também) essa uma graça dos blogs.

    Não me lembro de ter lido posts seus, falha minha, talvez, mas bem vinda à praça pública, se era virgem nisto.

  10. Grata pelas boas-vindas, C.C.! Mas por causa “das caixas de comentários terem vida própria e por vezes levantarem voo do tema do post”, é que alguns são retirados…
    Repare: um escritor fica à espera de uma crítica a um livro seu. O livro fala na guerra do Iraque e o crítico escreve sobre o Carnaval no Rio! Nos posts é um pouco assim…
    Quanto a ser virgem nisto, sê-lo-ei um pouco. Estreei-me no “Aspirina B” há 3 posts atrás (22/3,4/4 e 8/4).
    Confesso que algumas coisas me vão surpreendendo nos blogues. Umas pela positiva, outras não (principalmente, quando a linguagem utilizada nos comentários, por grosseira, ultrapassa o que é inadmissível). Mas é mesmo assim, não é?
    Um abraço!

  11. Soledade,

    Sugere você que aqui se retiram comentários por não condizerem com o tema do «post». Nada é menos verdade.

    Aqui só são retirados comentários ofensivos (grosseiros e chocarreiros não chega, é preciso que sejam ofensivos) ou comentários enlatados (isto é, indiscriminadamente repetitivos).

    Comentários que se ‘desviam do tema’ não são, só por isso, retirados. Somos uma casa livre. Pode-se entrar e deixar um cartão de visita… sobre uma mesa qualquer.

  12. Nada liga com cáries dentárias. São um horror! E eu que o diga que até tenho por vício levar livros dentro no saco e que, talvez por isso, nem sabia dessa história da Letizia (na realidade, nem sabia que se escrevia com z…). Quanto ao caso de Ruy de Carvalho, que também desconhecia (só agora li o resto do texto deste post), não vale a pena chover no molhado. As figuras públicas estão sujeitas a títulos com esse. E se há limites para o que, da privacidade chega à praça pública (e Portugal até é bastante manso neste aspecto), com certeza proibir títulos não será a solução nem fará melhorar a saúde de ninguém. C’est la vie, para rematar com uma banalidade

  13. Caro Fernando Venâncio:

    Os comentários que afirmei serem, por vezes, retirados, são exactamente aqueles a que se refere. Parece, apenas, que não me fiz entender como desejava…
    Ofensivos, já dei por alguns, mas reparei que desaparecem quase de imediato.
    Que o «Aspirina B» “é uma casa livre” (e bem-humorada, já agora), não tenho dúvida; basta ler quer os posts, quer os comentários…

  14. Anonymous:

    Não se trata de proibir títulos, mas sim que os títulos sejam a introdução para uma leitura condizente e honesta.
    Por cá, nada se proíbe, meu caro: nem o fogo dos incendiários, nem a pedofilia, nem a corrupção, nem os apitos e sacos de todas as cores, nem o lixo e os urinóis por tudo quanto é canto, nem as descargas poluentes, nem o desemprego, etc., etc., etc. Quanto mais títulos de jornais e revistas!
    Sobre o Z de Letizia, tente informar-se, por favor…

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