Todos os artigos de Aspirina B

Se estiver por aí…

Hoje, sexta-feira, às 20.40, em conversa com Bárbara Guimarães, no programa Páginas Soltas da SIC Notícias, poderá ver e ouvir Paulo Kellerman, um dos contistas mais interessantes do (nosso) momento.

Não consegue ver? Tem nova chance, na segunda-feira, dia 9, às 15.00.

Actualização

Você talvez estivesse por aí – o programa é que não estava. Passou uma hora antes. Não o vi. Mas espíritos exigentes dizem que não decepcionou.

Não há bela(s) sem senão(s)

Tenho visto a espaços e por períodos curtos o novo entretenimento televisivo “A Bela e o Mestre”, que passa diariamente na TVI.

Uma coisa é certa: se a cultura está ao alcance de todos (principalmente a chamada “cultura de jornal”, que sempre ajuda), já o mesmo se não pode dizer da beleza. Um ponto, pois, a favor das “belas”. As raparigas, todas elas, foram escolhidas a dedo (tenho a certeza!). Mesmo ao “natural”, sem pinturas, sem saltos, sem penteados ou vestidos caprichosos, merecem bem a metade do título que dá o nome ao programa.

O que me espanta é que sendo as “belas” tão jovens (uma delas fez há dias 19 anos), afirmem repetidamente: “ Eu sabia isso. Eu estudei isso. Mas já não me lembro…Foi há tanto tempo!”. Por este andar, ninguém chegava a “mestre”! Ponho mesmo a hipótese, com o correr dos anos, de que um dia, eu própria, venha a esquecer como se escreve o meu nome e tenha de assinar em cruz!

Bom, mas a vida está má, e sempre são vinte mil euros. Conforme diz o anúncio “há quem faça tudo para ter € 6000 ”… Pois aqui têm a resposta.

Soledade Martinho Costa

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Os galegos não são tartamudos, estúpidos ou tontos

Na sua edição mais recente, o Dicionário da Real Academia Espanhola chama aos galegos «tartamudos, estúpidos e tontos» e isso, naturalmente, está a provocar reacções negativas. O filólogo Román Raña, o poeta Salvador García Bodaño e o escritor Xosé Luís Méndez Ferrín juntam-se ao deputado Francisco Rodríguez nos protestos. Querem que a Real Academia Espanhola volte atrás nas palavras do verbete.

Eu, que tenho amigos galegos, frequento restaurantes galegos e gosto de literatura galega, também fico indignado. Há quarenta anos, quando cheguei a Lisboa para trabalhar, via todos os dias um galego segurando um molho de cordas no alto do elevador da Bica à espera de ser chamado para transportar móveis. «Galego» era sinónimo de moço de fretes. Hoje esse trabalho é feito por empresas. Quando vim há trinta anos morar para a Travessa de S. Pedro, ocupando o espaço que em tempos foi da revista «Távola Redonda», ia muitas vezes comprar vinho a granel a uma taberna de um galego que também vendia carvão. «Galego» era sinónimo de taberneiro. Hoje o vinho é vendido por empresas e em garrafas.

Os dicionários devem respeitar as mutações da história da língua e das pessoas que usam essa mesma língua. Mas, vendo bem, este problema não acontece só com a palavra «galego». O mesmo dicionário da mesma Academia chama aos ciganos «alguém que rouba ou tenta enganar os outros» e às sinagogas «reuniões com finalidades ilícitas». Sendo assim, estamos conversados…

José do Carmo Francisco

SPORTING – Os que escrevem com os pés em cima da mesa (II)

Escrever com os pés em cima da mesa tem sempre más consequências. Para além de tudo o mais, tal atitude demonstra uma enorme falta de respeito pelos outros que são assim obrigados a conviver com estes xerifes sem estrela. Sem estrela e sem grande capacidade para escrever textos que os outros percebem.

Por exemplo, a jornalista que escreve com os pés em cima da mesa chama duas vezes Vasco Campos a um jogador cujo nome é Vasco Oliveira. Sobre o jogo Sporting-Alverca em «juvenis», escreve em dois parágrafos diferentes duas opiniões distintas. Começa por escrever que os leões «tiveram pouca sorte na finalização» mas, mais à frente, afirma que os leões acabaram por empatar «por falhas na finalização». Ora «sorte» é uma coisa mas «falhas» é outra e bem diferente. Sorte tem a ver com felicidade, com fortuna, com acaso e tudo a correr bem. Ora falhar é errar o alvo. Portanto se a ideia é justificar o empate com a falta de sorte não se utilizam argumentos como falhas na finalização. Porque quem falha na finalização não pode invocar a falta de sorte. Falta de sorte para um atacante é uma bola que bate num poste e vai até ao outro poste e salta para as mãos do guada-redes. Isso sim, é falta de sorte.

O outro jornalista que também escreve com os pés em cima da mesa faz grossa confusão na ficha do jogo Barreirense-Sporting em «iniciados», ao repetir as substituições do Barreirense que assim surgem como se fossem dez e não cinco. No que diz respeito ao Sporting a confusão aparece quando se escreve «35m saiu Daniel Pereira e Ariclene Oliveira», quando deveria estar escrito «saiu Daniel Pereira e entrou Ariclene Oliveira». Coisas que acontecem a quem escreve com os pés em cima da mesa.

José do Carmo Francisco

SPORTING – Os que escrevem com os pés em cima da mesa (I)

A jornalista que escreve com os pés em cima da mesa não pára de surpreender. Como fuma muito, o fumo complica no cérebro o valor das palavras. Usa uma expressão sem sentido para descrever uma festa de adeptos de um clube. Escreve «o bom ambiente e a alegria foram a tónica dominante» e no parágrafo seguinte repete «a música foi sempre a tónica dominante». A jornalista que escreve com os pés em cima da mesa não sabe que a tónica é a primeira nota numa escala e a dominante é a quinta. Logo não pode haver uma nota que seja ao mesmo tempo duas coisas. O que ela queria escrever se soubesse era a palavra «leitmotiv», mas o fumo não a deixou.

Escreveu que os adeptos assaram um porco «no local» como se não fosse óbvio que o porco não podia ser assado a vinte quilómetros. Mais à frente repete-se num confuso parágrafo: «Os dois técnicos aproveitaram para conviver com os adeptos e aproveitaram para pedir o apoio de todos». Como escrever é ‘revelar o pensamento’, a jornalista que escreve com os pés em cima da mesa escreve textos confusos porque confusos são os seus pensamentos.

O jornalista que escreve com os pés em cima da mesa não fica atrás da colega. A propósito de um jogo de futebol entre os juniores do Sporting e os do Alverca, assinala na ficha que o resultado ao intervalo era de 6-1, quando era de facto 3-0. E confunde os nomes dos jogadores, chamando Bruno ao Marco Matias. E confunde os leitores quando escreve: «O Alverca visitou a Academia com o objectivo de prolongar o primeiro golo leonino», o que significa que o Alverca queria que o primeiro golo se prolongasse até ao minuto 90. O que ele queria dizer era «com o objectivo de prolongar o aparecimento do primeiro golo». São assim os que escrevem com os pés em cima da mesa.

José do Carmo Francisco

Da pastorinha de Fátima ao rei D. Duarte

Sou um prático das notas de leitura; não tenho qualquer diploma. Escrevo sobre livros em jornais e em revistas desde Agosto de 1978. Comecei no Diário Popular com Carlos Pinhão e Jacinto Baptista. Sou do tempo em que não havia computadores e os jornais eram feitos com granéis de chumbo. Tenho 56 anos e sou um velho.

Mas, se alguém me perguntasse o que é que mudou para pior nos livros que todas as semanas se publicam no nosso país, eu diria que é a arte final. Hoje fazem-se contracapas arrepiantes, cometem-se erros terríveis no «miolo» dos livros. Parece que ninguém se preocupa em ler os textos de ninguém. A figura do revisor está em vias de extinção. Um certo «engenheiro», administrador de uma empresa jornalística, disse sem partir os dentes: «Isso não é preciso; os computadores fazem tudo!». O parvo…

Pois acabei de ver algumas coisas curiosas em dois livros – Máscaras de Salazar de Fernando Dacosta e D. Duarte de Luís Miguel Duarte.

Na contracapa do primeiro, refere-se que Álvaro Cunhal fugiu de Caxias, quando foi de Peniche [já sobre isto escrevi no Aspirina]. Na página 250, aparece a pastorinha de Fátima como Francisca e não como Jacinta, seu nome real, que até tem uma rua em Lisboa. Na página 107 e em outras páginas desse livro, aparece uma infecção que se chama «colecistite» tratada como «coleciste». Na página 254, refere-se «uma bala na câmara» quando se fala de um crime, mas na página 257 já aparece «não tinha bala na câmara».

Na biografia de D. Duarte, lê-se na página 116, a propósito do seu casamento: «As dificuldades causadas pela transferência apressada das celebrações de Coimbra para Évora pareciam parcialmente ultrapassadas». A verdade é outra: o casamento era para ser em Évora, e foi mudado para Coimbra.

José do Carmo Francisco

Uma tia espectacular

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Para um comentador literário, poucas coisas são mais irritantes do que a doentia necessidade de alguns colegas de ‘dizer bem’. Não é só por aquela decisão, cobarde, de nunca escrever ou falar sobre livros de que não se goste. As coisas são, se possível, piores ainda: por princípio, acha-se bom tudo quanto aparecer em papel. É a maior das falsificações. É a forma acabada do contrabando.

Porque o fazem eles? Certezas não tenho. Mas pode supor-se que desejem assim assegurar uns tostões. Há publicações preguiçosas que tudo aceitam. E pode imaginar-se que o móbil seja algo difuso: um vago medo de se verem chamados à responsabilidade. Dizendo logo bem de tudo, ninguém depois os virá chatear.

Acontece que tenho um respeito de fundo pelos meus colegas, e não penso logo na solução, ainda assim a melhor, de armar-lhes uma espera para a sova definitiva. Por isso, tento ‘explicar’ a bons modos. Explicar dá muito trabalho, mesmo mais do que armar esperas. Mas com alguma coisa se terá de ganhar o céu.

Peguemos por uma ponta erótica. Não porque o erotismo assegure logo especial prazer (exactamente não assegura, e é disso que vai falar-se), mas porque permite situações claras. É o que se consegue lendo, seguidos, dois livros: A Casa dos Budas Ditosos, do romancista brasileiro João Ubaldo Ribeiro (nas Publicações Dom Quixote), e A Vida Sexual de Catherine M., da escritora francesa Catherine Millet (nas Edições Asa). Podem ler-se em formato de bolso, indo o primeiro às 230 páginas e o segundo às 160. Num livro e noutro livro, uma mulher relata detidamente uma existência sexual dissoluta, e fá-lo em termos directos, despudorados. As semelhanças acabam, também, aqui.

Há, logo à partida, uma circunstância que aparta os livros. O de Millet é uma autobiografia, mesmo podendo admitir-se que, aqui e ali, pensando no bem do leitor, se ficcione o seu tanto. Já o de Ubaldo é ficção pura e dura, por mais que possa imaginar-se (e não faz mal fazê-lo) que o autor alude a factos seus conhecidos.

Mas onde os livros se afastam, para nunca mais se encontrarem, é no modo como um e outro autor conceberam a história e como a redigem. O livro de Catherine Millet é um desconsolo. Repetitivo, confuso, nunca levanta voo, antes consegue o pior: não criar surpresas nem qualquer esperança delas. Bem diferente nos surge João Ubaldo, de quem, de resto, se conheciam já romances vigorosíssimos, como Viva o Povo Brasileiro, em todos os sentidos um sucesso. Ora, quem é a narradora de A Casa dos Budas Ditosos? É uma tia espectacular, absolutamente insuperável, senhora de artes espantosas, de deixarem ofegante o leitor.

Da leitura dos dois romances, pelo menos isto ficará claro: que há uma literatura que nos arrasta consigo e uma outra que nem gato é, julgando-se lebre.

Aos críticos literários que, depois disto, não virem a diferença, desejo sinceramente que dêem bons hortelões.

Um português em Alcácer-Quibir

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Se lhe disserem que o marujo aí acima esté em Alcácer-Quibir, você não acredita, pois não? Os mitos pátrios imaginam, à viva força, uma aldeola no deserto. Pois enganam-se, mais uma vez, os mitos. O leitor está a ver-me frente a um dos centros comerciais de… pois, de Alcácer-Quibir.

Agora, uma explicação. O lugar da batalha não é aí, mas 16 km a nordeste. Mais exactamente, aqui:

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Como vê, uma planície de cultivo. Era, de resto, o que Sebastião, o Tal, procurava. Marrocos era – e é – um celeiro. E Portugal, em 1578, tinha fome.

Este visitante escreveu no livrinho Quem inventou Marrocos o apontamento que segue:

Quarta, 14 de Março de 2001.

A cidade de El Ksar El Kebir, ‘o palácio grande’, ignora quanto é famosa. Provavelmente nenhum habitante sabe que o nome da terra, corrompido em Alcácer-Quibir, foi servir de pesadelo a um povo do outro lado do mar. É certo que a batalha não foi exactamente ali onde é a cidade. Os exércitos defrontaram-se 16 km mais a norte, em campo aberto. Estranha coisa: a persistente imaginação lusitana, e o filme de Oliveira, colocam-na no deserto, quando o deserto dista centos de quilómetros daqui. Toda a metade norte de Marrocos é verde, bem mais verde do que o nosso, esse sim desértico, Alentejo.

O sítio exacto da grande refrega é, já vou avisado, difícil de achar. Sei que há um monumento, que fica junto a um velho apeadeiro de comboio. Vou-me valendo das indicações de Amadeu Lopes Sabino, num artigo há anos no DN, mas, ainda em plena cidade, a posição do sol diz-me que vou mal. Um polícia sinaleiro apercebe-se e vem ter comigo. Estamos em Marrocos… Tivesse eu saído do carro, e ele acolhia-me com um braço pelos ombros. «Monsieur», digo, «je cherche la gare de El Makhazen.» «La guerre?» «Non, monsieur, la gare.» «Mais oui, la guerre, la bataille.» O parvo, afinal, sou eu. Solícito, ele indica-me o «feu-rouge» onde devo virar à esquerda.

Como é que uma estação de caminho de ferro o informou da minha exacta busca, havia eu de compreendê-lo quando chegasse ao sítio: ninguém procuraria, naquele lugarejo, senão exactamente isso. Mas já então eu dera voltas inúteis, já encontrara também, tal como Sabino relata que lhe sucedeu, quem gritasse «Sébastien, Sébastien!» apontando o infinito, e, mais que tudo, já eu me apercebera de que o depósito da gasolina estava, talvez, nas últimas gotas. Quem anda atrás da História não repara em ninharias.

E foi assim que, junto ao minúsculo monumento à Batalha dos Três Reis, a designação marroquina do recontro onde os três deixaram a vida (mas certezas só há dos dois monarcas locais), nesse lugar anódino onde as nossas esperanças de grandeza se finaram, foi assim que eu, em vez de curvar a extenuada cerviz e meditar no destino, só soube perguntar onde era a bomba de gasolina. Riram. Não havia tal. Fi medina, ‘na cidade’, gritaram-me alvoroçados. E eu pensei que, se em algum lugar do mundo tivesse de ser infeliz, antes aqui.

Um camponês de idade incerta disponibilizou-se a acompanhar-me. Aceitei logo. Por aqueles ermos, ninguém falava senão marroquino, e a suprema desgraça seria ver-me no descampado sem gasolina e sem idioma. Pelo caminho, pediu-me dinheiro para certo ferimento no tornozelo. Vi a coisa muito cicatrizada. Mas nós tínhamos por ali, lembrei-me, ainda alguma dívida.

Cheguei a Alcácer-Quibir já o carro soluçava.

Serão chuva, serão gente…

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Enviou-nos o José do Carmo Francisco esta peça, de amiga sua.
Com gosto a publicamos. À peça, e a ela.

De início pensei que não tinha ouvido bem. Fiquei atenta ao episódio seguinte da novela Tu e Eu, que passa na TVI. Tony Carreira a cantar, no genérico musical da telenovela “… serão tu e eu…”. Não podia ser. Mas era.

Confirmei. Mas não me conformei. Como tenho a mania de querer endireitar o Mundo, comecei por ligar para a produtora da novela. “A pessoa responsável pela selecção das músicas está de férias”. Tempos depois, continuava de férias.

Falei para a SPA. Contei a história. Sugeri falar com Tony Carreira. “Os artistas, por vezes, aceitam mal as críticas…”, foram alertando. Fiquei a saber que a canção já tem uns anitos. Que foi gravada várias vezes pelo cantor e que faz parte do trabalho discográfico de outros artistas (sempre com o “…serão tu e eu…” pelo meio).

A minha teimosia levou-me a contactar a TVI. “O Dr. José Eduardo Moniz está fora, mas volta daqui a dois dias”. Que (eu) tinha razão, mas ela (a secretária) “nem via telenovelas”. Passados dias voltei a ligar. A mesma secretária informa: ” O Dr. José Eduardo Moniz já está ao corrente de tudo”.

A novela passa todas as noites e tem repetição no dia seguinte. Quantos meses vai isto durar? Que providências foram tomadas para que este pesadelo linguístico deixe de atormentar os ouvidos dos portugueses (que não são surdos), como eu?

Nada me move contra Tony Carreira. Apenas me assiste o direito de contestar o malfadado verso, que envergonha a Língua Portuguesa! Muito mais, quando no concerto efectuado no Campo Pequeno se ouviram milhares de vozes, que esgotaram a praça, a cantar o “… serão tu e eu…”, sem o menor conhecimento e respeito pela Língua que é a nossa. Tony Carreira precisou de uma palavra de duas sílabas para “encaixar” na música. “…seremos tu e eu…” tinha três sílabas. Porque não optou, então, por “…serás tu e eu…”, que tem as mesmas duas sílabas?

Um músico amigo disse-me: “Deixa-te disso, eles (?) não ligam a essas coisas!)”. Uma amiga escritora ironizou: “ Não te canses, que não merece a pena…”. Dou a mão à palmatória. Ambos tinham razão. Mas eu também tenho. Por isso, continuo à espera.

Soledade Martinho Costa

Serei eu um sádico?

Porque é que li, leio e vou continuar a ler em jornais coisas sobre o CDS? Porque é que destino a isso uma parte, pequena é certo, mas mesmo assim preciosa (julgo eu) do meu tempo?

Será porque a política portuguesa me interessa até esse ponto? Será porque intuo que, um dia, ainda o CDS vai ser decisivo no trem de vida nacional?

Poderá haver, ainda assim, outras motivações, menos nobres (ah!…), para isso, como o fascínio pelo lado ficcional dos eventos, ou por essa pessoa soturna, matreira, mas levianamente suicidal que é Paulo Portas, ou mais rasteiramente por uma bela bulha pública, aqui, por casualidade, política. Ou, muito mas muito mais chãmente, porque vem excitar-me o lado sádico, que anda pouco desenvolvido.

Não sei. Repito a confissão: não sei. Mas qualquer coisa me diz que, se eu (e você) não olhasse, eles resolviam a coisa como damas e cavalheiros. Assim, dão espectáculo. E nós, por mil e um motivos, temos um grande fraco por coisas que mexem.

Um idioma fascinante, mas sem comentários

Neste atribulado mundo em que somos forçados a viver, parece que já não há tempo para nada. O escritor Ruben A., que conheci através de José Palla e Carmo (meu colega no Banco Português do Atlântico), tinha sobre este assunto no final dos anos 60 uma expressão muito curiosa: «Uma pressa para coisa nenhuma». Parece que foi o caso, desta vez.

Então um texto do Fernando Venâncio, uma prosa bem aparelhada sobre um livro recente de Ivo Castro e intitulada «Um idioma fascinante», passou aqui pelo blog sem um comentário, uma observação, um desdém sequer. Nada. No momento em que escrevo, acabo de confirmar o facto lendo de novo o texto datado de 25 de Fevereiro próximo passado. Não sendo eu filólogo nem especialista nesta matéria, não posso (mesmo assim) deixar de assinalar o caso. Trata-se de uma injustiça. E como acabei de ler o livro D. Duarte, de Luís Miguel Duarte (uma edição do Círculo de Leitores), acabam por conjugar-se as coisas.

Afinal o D. Duarte não foi só o primeiro rei que sofreu de uma depressão nervosa e que sobre o mesmo assunto escreveu. Ele foi também o introdutor na língua portuguesa de alguns latinismos que se tornaram, depois dele, vocábulos aceites por todos: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto e intelectual. Além do mais, este rei melancólico analisou os campos semânticos de diversas palavras, como previsto, percebido, avisado, saudade, desprazer, pesar, aborrecimento, nojo ou tristeza.

Já sei que me poderão dizer «Quem anda à chuva molha-se», significando que quem publica um texto num blog sujeita-se a não ter comentários. Mas se nós não nos interessarmos pela nossa língua, então corremos o risco de a perder. E depois começamos a falar inglês como nos computadores? Será esse o futuro? Bem eu gostaria que não fosse.

José do Carmo Francisco

Desportos juvenis

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No metro de Amsterdão, não há sequer meia hora. Quatro adolescentes portuguesas e um moço de catorze anos (cálculo meu), sul-americano esse, vão sentados uns bancos adiante.

Grande galhofa. As miúdas ensinam português ao rapaz. «Vai-te foder!» E o miúdo, bom aluno, dá sonoridade latina à frase, audível em toda a carruagem. Ele ainda pergunta: «Pero qué quiere decir?» Mas as companheiras são cruéis. E passam à Lição 2: «És paneleiro?» E o rapaz, com graciosa pronúncia, vai repetindo.

Ninguém na carruagem os entende. O português é aqui língua desconhecida – embora procurada por alguns escolhidos, ao fim e ao cabo o meu ganha-pão.

Que fazer? Isto é: há que fazer alguma coisa? Estorvar a inocência? Infundir vergonha a duas ou três gerações da minha? Eu teria feito sucesso, sim, passando por perto deles e dizendo ao moço – que não me entenderia – «Giras, as miúdas, hã?» Podia fazê-lo, tenho cara para isso. Mas não fiz. Chegava a minha estação – e eu abandonei aquela aula, selvagem, da mais bela língua do mundo.

Saí eu, sem sucesso. Seguiram elas, sem vergonha.

«A Terceira Atlântida», de Fernanda Durão Ferreira

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Em www.aterceiratlantida.com, a Editora Contraponto publica o mais recente trabalho de Fernanda Durão Ferreira, jornalista, investigadora e sócia da Sociedade Portuguesa de Geografia – secção de História.

A conexão da Ilha Terceira com a Antiguidade poderia parecer forçada, mas não é. Já Vitorino Nemésio tinha escrito: «A Geografia, para nós, vale tanto como a História.» A partir de textos de Platão que descrevem a Atlântida e de uma observação no terreno sobre algumas tradições terceirenses, a autora chega a uma conclusão: «as culturas tradicionais transformam-se; não desaparecem». As touradas à corda, a justiça da noite, o sangue cozido nas festas tradicionais terceirenses, o azul, o açor e o próprio nome da Ilha são aqui estudados à luz da relação entre os textos de Platão e a realidade real da Ilha Terceira.

O nome da Ilha pode ter uma relação directa com as ideias de Joaquim de Fiore para quem a idade do Pai compreendia o tempo desde a criação do Mundo até Moisés e a idade do Filho era o tempo desde Moisés até Jesus Cristo. A terceira idade, idade do Espírito Santo, era uma resposta à corrupção que grassava na hierarquia da Igreja do século XIII. Outra hipótese é o nome Terceira derivar na verdade de outro facto: depois das primeiras (Cabo Verde) e das segundas (Madeira e Porto Santo) as ilhas açorianas seriam as Ilhas Terceiras.

Um aspecto igualmente curioso e fascinante neste texto é a semelhança claríssima entre o mapa da Ilha de S. Miguel e a parte inferior do chamado painel do Arcebispo pintado por Nuno Gonçalves. O Infante D. Pedro, filho de D. João I, era o donatário de S. Miguel e as cordas estão dobradas numa semelhança quase total com o recorte da Ilha de S. Miguel. Na Net ou em papel, um texto fascinante.

José do Carmo Francisco

HISTORIOGRAFIA SEM FIOS

E de que História é que me estão a falar? Da escrita, da cantada ou da que passa de pais para filhos pela via oral entre dois bafos de aguardente de aliviar empachos? Ou será da que tem a ver com eventos reais, da bem limpa? Não me queiram meter em trabalhos. Reparem que só aconteceu há dois dias, mas já temos várias versões em papeis magros e amarelos do 25 de Abril turbulento e os versos do Zeca não nos ajudam nada ao seu deslindamento.

A Pavorosa, ou o crer na sua existência, não anula a História – confirma-a, dá-lhe o paladar da dúvida intrigueira e incita-nos a provocar rubores aos que a torcem e desfocam. A História das verdades verdadinhas, das Assírias aos Tuntankamuns (denial is not a river in Egypt, have you noticed that?) e das Grécias às Revoluções Francesas e das Comunas aos comunas, poderá existir como narração, sim senhor e sim senhoras, mas só comprimida ou espalmada direitinha em tubinhos de pepino ressequido sob as ruinas de qualquer convento ou igreja algures na Europa tricolor continental e insular.

Esses edificios e templos, aliás, continuam a apontar aos nossos narizes chatos ou de cavalete restos de representações pagãs em pedra que põem em questão não só a idade de Deus organizado na terra, na versão de Pai, de Filho, ou Espirito Santo, como também a veracidade das hagiografias cristãs pintadas à mão em scriptoria com távolas com tampos de carvalhos gretados e as relações comerciais dos seus tementes com os judeus, manos nossos na alegria do impingir nessa única e verdadeira Idade Média do conhecimento da história natural das pessoas e dos grupos. Da Revolução Francesa para cá, sabe-se um pouco mais e por isso mostramos o sorriso de termos menos medo de estarmos enganados sobre as garantias que os nossos avoengos nos deixaram em legado.E nos últimos 150 anos fomos aprendendo só aquilo que decidimos não esquecer, mas ainda não sabemos muito bem quem, de facto, inventou a rádio. Foi um russo fiquem sabendo que não foi um italiano.Não, perdão, foi um homem muito humano e cristão que acreditava nas inúmeras viagens do espírito para cá e para lá entre a vida e a morte e céus mal definidos.

Temos todos a Razão, aquela que procede e ao mesmo tempo se insurge contra a anarquia bem ordenada do corpo pensante. Quando a malbaratamos ou subutilizamos, temos os delírios purificadores automáticos, excreções dos sons a mais que nos empurraram pelos ouvidos dentro durante tantos anos – aliás, esta excreção é o estado de comunicação simultâneamente forçado e desejado. Nem se quer outro porque não há alternativa nem remédio se nos queremos alimpar. São inseparáveis, a máquina e o serviço que a mantém.

Aqui para nós, pessoalmente, direi que no delírio delirante não há dolor, per se. Só taquilalia febril e desordenada. Normalmente, se é a História que me anda a moer por dentro, cerro os olhos sem chonar, e logo vejo que Nápoles se chama Troia e que Bizâncio é o irmão mais velho de Britanicus, uma boa diferença de idades mas germanos, notai bem e ainda bem; que equus e aqueus não se podem confundir, mas são quase iguais na comparação dos detalhes da escrita passada a limpo. Cavalo na água, ou cavalo marinho, que estupidez sem pés nem cabeça, mesmo em estado de delírio! E que suor quente! Vou já enxotar os súcubos maus e acordar da modorra.

Espero sem impaciência. E quando o quente na testa se esfria um pouco mais, miro cuidadosamente a representação pintural duma cena velha com Sócrates e outros muchachos sem guitarras andaluzas e reparo que quase todos vestem anacronisticamente na moda imposta nos tempos da Rainha Dona Isabel das rosas e do milagre. Estranhas pinceladas ainda sem perspectivas revolucionárias…a enganarem-me, as putas, putas, putas. Decido por fim sacudir-me para ver se me livro dessas visões distorcidas do tempo e do terrivel mau gosto na boca e vou à janela e vejo bichas e bichas enormes, paralelas, de milhões à espera de serem vacinados contra um virus inventado no mês anterior para pôr cobro ao desemprego no serviço de saúde. E depois apareces tu, maldita, a contrariar-me. Só me resta chorar desconsolado: afinal não há ninguém na Torre do Tombo para me apertar a mão e chorar que concorda comigo.

TT

O’Neill, Pacheco e os universos paralelos

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Lida a extraordinária Biografia Literária que Maria Antónia Pereira escreveu de Alexandre O’Neill, fica-me uma pergunta, que cada vez mais se avoluma: como é que, entre as dezenas de indivíduos com que o poeta contactou na Lisboa dos anos 40 a 80, entre o Chiado e o Príncipe Real, não aparece Luiz Pacheco?

No livro, o nome de Pacheco figura uma vez, e, convenhamos, nada tem aí a ver com O’Neill. Lê-se que Pacheco teria descoberto que, em certa capa de revista que O’Neill editara, aparecia não uma mulher mas um travesti. Isto constitui, em termos de relações pessoais, zero vírgula zero.

Ora, como compreender que, durante decénios de vida, num circuito cultural fechado, numa época e zona de Lisboa que, na nossa memória cultural, os evocam a ambos, com amigos íntimos comuns (como Cesariny), com círculos literários comuns (como o surrealismo), sendo os dois notórios espalha-brasas e enfants terribles, nunca O’Neill e Pacheco tivessem criado um mínimo de relacionamento, suficiente para, numa biografia de mais de 300 páginas, os encontrarmos algures juntos – nuns copos, num café, numa tasca?

Revezavam-se eles, porventura, em perfeita coreografia, no espalhar das brasas, sem nunca se encontrarem, mas divertindo o mesmo público? Terão eles alguma vez escrito um sobre o outro – ou também no próprio papel se ignoraram, se evitaram? Se existem universos paralelos, e nós neles, será este um exemplo, e logo espectacular?

Quem souber diga. Ardo de curiosidade. Talvez assim este Mundo se entenda um tudo-nada melhor.

Um scotch para Maria José

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O whisky que me ofereceste hoje como resgate de um Natal sem ponto de encontro possível na rigidez dos horários e na força opressiva das convenções quotidianas tem doze anos. Ostenta mesmo um insuspeito certificado emitido pela destilaria que o fabricou, afirmando que foi mesmo há doze anos que se juntou o malte à mais pura das águas das terras altas da Escócia.

Mas nós não temos doze anos. Temos muitos mais. Eu comecei a querer conhecer-te em 1976, o mesmo é dizer trinta anos, quando chegaste de um banco comercial mais pequeno que o nosso e ficaste admirada com a vivacidade dos nossos plenários. No teu pequeno banco no largo do Rossio, toda a gente se conhecia e não havia plenários com votações de braço no ar.

Junto dois cubos de gelo ao whisky no qual fizeste para mim uma festa de Natal em Abril e bebo de puro prazer à tua saúde. E também à nossa. Ter saúde é tu continuares a ser aquela mulher-menina que corava com as piadas mais desenvoltas e picantes de um grupo numeroso e habituado a trabalhar num grande espaço e em quantidades industriais.

Tu vinhas até nós, simples, paciente e discreta, mas na verdade chegavas de uma espécie de oficina de artesanato. Nós éramos muitos e, nessa escala, éramos uma grande fábrica. O teu banco era pequenino; o nosso era um colosso.

Ter saúde é eu poder continuar a ver nos teus olhos a frescura da água que desce da tua terra até ao leito do afluente mais bonito do Rio Mondego. Ter saúde é eu poder continuar a cantar em prosa e em verso o som da tua voz que multiplica os sons da terra. Ou do teu rosto onde há sementeiras de luz e de ternura. Hoje, como em 1976, continuas a ser uma mulher-menina a corar perante uma piada de escritório.

José do Carmo Francisco

COGUMELOS E CAPICOMUN ISMO

No meu post de há dias, A Pavorosa, aludi a um “boato”, já velho e enfeitador de dezenas de livros e milhares de sites na Internet, segundo o qual os americanos teriam oferecido aos russos, de bandeja, o segredito da nojentíssima invenção chamada bomba atómica. O Fernando estranhou, não sei se no gozo. Vou arrancar mais umas quantas pétalas a essa flor da intriga. Desculpem-me os que sofrem de alergias.

Do ponto de vista conspiracionista, que é o meu, e portanto sem peso político nenhum, a prova de que os segredos da bomba atómica foram passados aos russos por certos americanos nos poleiros e corredores do Poder dessa altura, possivelmente antes do clarão experimental, é até uma das que oferece menos problemas com a venda a retalho ao público curioso. Baseia-se nuns diários pessoais publicados por um oficial do exército americano, um tal major Gordon, encarregado de abrir e despachar caixotes, durante a guerra, via Alasca, para a União Soviética, no âmbito dum programa de ajuda então chamado Land Lease. Segundo o senhor, o segredo ter-se-ia feito acompanhar de todos os ingredientes necessários à produção do maravilhoso cogumelo de exterminação de inocentes. Aquilo, pràticamente, era só montar e carregar no gatilho. Nada de matemáticas nem dores de cabeça.

Há dois caminhos por onde se pode encaminhar a lógica disso ter acontecido. Por um lado, os USA e a URSS eram duas nações òbviamente interessadas, nessa altura, em derrotar a máquina de guerra da Alemanha, ela própria a trabalhar esforçadamente para conseguir a sua bomba, e do Japão. E por outro – dependendo daquilo que tenha sido acordado em Ialta pelas três cabeças grandes aliadas, e que não deve ter sido pouco em matéria da divisão do bolo que já estava no forno em Stalinegrado – uma planeada Guerra Fria depois da vitória, seria muito mais plausível e credível se ambas as partes possuissem as mesmas armas de dissuasão. Bem dito e bem feito. Em princípio.

Claro que durante muitos anos o major George Racey Gordon foi apodado de maluco e mentiroso tanto pelo “establishment” americano como pelos comunistas locais, uma dupla que também funcionou muito bem durante o chamado Mcarthyism, a tal caça às bruxas que em Portugal ensejou muitos discursos em cinematecas introdutórios de projecções de obras-primas da suposta sétima arte. Foi nessa altura que ficámos todos a saber que o Humphrey Boggart, Truman Capote e Richard Comte eram progressistas e John Wayne e Robert Taylor eram reaccionários.

Até aí tudo bem, normal e esperado nas reacções à indiscrição do nosso major – chama-se queima das papeladas e testemunhos de certos soldados curiosos que podem contrariar ou impedir o desdenrolar calmo da História de acordo com as agendas secretas. O pior é que, um belo dia, o próprio filho de Roosevelt, de seu nome James, resolveu sair-se com um “romance” que intitulou A Family Matter. Não obstante tratar-se de um trabalho “ficcional”, o enredo, contam-nos os que leram a obra, anda à volta da “decisão audaciosa do Presidente (Roosevelt) em partilhar com os russos os resultados das pesquisas do Projecto Manhattan”. E, claro, Bingo! Mas nunca ninguem explicou por que razão Holywood dos anos 80 não fez um filmeco sobre esse pedacito importante da história da guerra, de acordo com os relatos de Gordon e James. Que raio, a Joan Fontaine e o Gregory Peck ainda estavam em idades de aparecerem no papel do casal Rosenberg e o que não faltava era sub-estrelas gordas e matulonas, com ou sem bigode, para fazerem de Churchill e Staline. Talvez o Valupi, que é muito dado a andar pelas tecas do cinema, tenha uma explicação para isso.

O capítulo 29 do livro The Unseen Hand, de Ralph Epperson (corram que talvez ainda consigam apanhar um exemplar dele esquecido no armazém dalguma editora macaca de Lisboa ou na Feira da Ladra) descreve, baseado em numerosíssimas fontes e autores, esse passo da intriga atómica e muitos outros, mormente sobre as ajudas tecnológicas e económicas do Capitalismo, antes, durante e depois do New Deal e do Land Lease, ao Comunismo de Lenine e Staline e por ai fora, com a construção de refinarias e siderurgias, e duma famosa fábrica Gorki construida por Henry Ford nos anos trinta, etc., etc., tudo 100 por cento tecnologia americana, com os cumprimentos desse e também dos Rockfellers, da Standard Oil e da ubíqua Shell, a das libras e tulipas. Que não é vergonha nenhuma num mundo ideal e transparente, diga-se de passagem, pois somos todos do mesmo planeta e devemos entreajudar-nos. O que é vergonha, altamente suspeito e inegàvelmente conspirativo, é não se ter contado isso aos operários e intelectuais da esquerda crédula e babosa, pois teria-se-ia evitado muito trabalho e especulação por parte dos teóricos marxistas remendões que mais tarde vieram imputar ao “revisionismo” as culpas pela queda estrondosa do edifício soviético no fim da década de 80. O mal vinha de longe e nem era “mal”, afinal. Era agenda por encomenda. Agenda que continua, viçosa e criativa, a enganar outros com os truques embasbacantes dos novos ilusionistas. Que rico circo!

TT