Desportos juvenis

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No metro de Amsterdão, não há sequer meia hora. Quatro adolescentes portuguesas e um moço de catorze anos (cálculo meu), sul-americano esse, vão sentados uns bancos adiante.

Grande galhofa. As miúdas ensinam português ao rapaz. «Vai-te foder!» E o miúdo, bom aluno, dá sonoridade latina à frase, audível em toda a carruagem. Ele ainda pergunta: «Pero qué quiere decir?» Mas as companheiras são cruéis. E passam à Lição 2: «És paneleiro?» E o rapaz, com graciosa pronúncia, vai repetindo.

Ninguém na carruagem os entende. O português é aqui língua desconhecida – embora procurada por alguns escolhidos, ao fim e ao cabo o meu ganha-pão.

Que fazer? Isto é: há que fazer alguma coisa? Estorvar a inocência? Infundir vergonha a duas ou três gerações da minha? Eu teria feito sucesso, sim, passando por perto deles e dizendo ao moço – que não me entenderia – «Giras, as miúdas, hã?» Podia fazê-lo, tenho cara para isso. Mas não fiz. Chegava a minha estação – e eu abandonei aquela aula, selvagem, da mais bela língua do mundo.

Saí eu, sem sucesso. Seguiram elas, sem vergonha.

21 thoughts on “Desportos juvenis”

  1. História antiga:

    Uma vez, também num metro mas no de Moscovo, eu e um bando de latino-americanos (não me lembro quantos; talvez cinco ou seis) entretivemo-nos durante duas paragens a troçar de uma gorda. Em espanhol claro. Depois que um deles, talvez o Ahmed, peruano de origem árabe que era quase sempre o primeiro nessas coisas, a apodou de “La Vaca”, passou a ser só la vaca pra cá, la vaca pra lá, la vaca pra cima, la vaca pra baixo. Tudo entre risinhos pacóvios, bem entendido.

    Duas paragens passadas, “La Vaca” sai da carruagem e passa por nós e diz, com sotaque russo mas de forma a perceber-se perfeitamente:

    – La Vaca agradece.

    Cinco ou seis engolidelas em seco, uns olhares de vergonha, alguns capilares dilatados em pelo menos metade desses cinco ou seis rostos, orelhas a arder como se as luzes da carruagem queimassem como o sol do Algarve. La Vaca abandona o campo de batalha com uma tremenda vitória. E nós, em nossa defesa só poderíamos aludir aos 18 anos.

    O moral secundário da história é que nunca é boa ideia assumir que lá por estarmos mergulhados noutra língua ninguém compreende a nossa.

    (Aliás, anos mais tarde, em Faro, um ou dois anos antes do início da grande onda de imigração vinda de Leste, aconteceu algo de muito semelhante, mas virado ao contrário: um bando de três russos, naturalmente em russo, a dizer uns aos outros que faziam e aconteciam (isto é, comiam e palitavam os dentes) com uma amiga minha. Para azar e imensa surpresa deles, estava lá eu.

    Terceiro moral da(s) história(s): isto de lusófono nada tem.)

  2. Desportos masculinos (ou outra história antiga)

    Janeiro de 1990, avião da Aeroflot, voo Moscovo-Lisboa. (Apesar da Perestroika e da recente queda do Muro de Berlim, Moscovo ainda era ponto de chegada de sindicalistas de pendor mais vermelhusco, ou escala para quem como eu vinha da África lusófona, e queria pelo menos dar uma volta à Praça Vermelha.)
    Nos bancos da frentre duma classe turística completamente cheia, viajava esta vossa criada, entalada entre a janela e dois nutridos (norte) coreanos. Mais atrás, um grupo numeroso e ruidoso de sindicalistas galhofava. Pela pronúncia, eram do Porto.
    Fazia um calor doido, e eu morria de sede, como sempre me acontece nos aviões. Várias garrafas de água mais tarde, e por entre pedidos gestuais de passagem e vénias orientais, encaminhei-me para o fundo do corredor, pela razão que decerto adivinham. No meio da coxia, de asas abertas, com os cotovelos apoiados nos bancos dum lado e doutro, e de costas para a frente, perorava um dos rapazes sindicalistas. Com a algazarra e o barulho dos motores, não me ouviu pedir licença mais que uma vez, nem se apercebeu de que estava atrás dele. A minha urgência era urgente, como imaginam, de tal maneira que saí a contragosto da minha discreção habitual e lhe dei uma pancadinha no ombro…Olhou de revés, viu uma gaja com um ar não tipicamente latino que ainda por cima lhe tinha tocado, e aí vai disto: ” Ó filha não me toques, se não eu depois bou-te ó pito!”
    Não sou de resposta pronta, mas naquele dia o cómico da situação inspirou-me:” Ó filho, você vai é para o pito da sua prima!”
    O homem despencou em cima dum banco com ar de quem ia ter uma paragem respiratória, e o avião ia caindo com as gargalhadas dos camaradas.

  3. uma conhecida minha, que tinha a mania que era esperta (contou-me quem assitiu), entrou num restaurante duma cidade enropeia e perguntou ao empregado «ó meu paneleiro, diz lá onde se mija nesta espelunca» e o rapaz respondeu «vai mijar prá puta que te pariu!».

  4. Este texto do Fernando mostra duas coisas: a irreverência da juventude mal educada portuguesa e a distância da sua (nossa)geração. Na Holanda há milhares de portugueses o que devia ter levado as jovens a pensar que outros passageiros entendiam a sua língua.
    A mim aconteceu-me estar a gabar os lindos olhos de uma muçulmana, de lenço a tapar o rosto, no sul de Marrocos aí por volta de 1970 e ela responder-me : “em lisboa nós somos assim” e acabarmos numa noite divertida.

  5. [Só vou dizer isto uma vez, esta e vale para todos os textos que colocar aqui e eu não comentar. ]
    Alguns textos do Fernando Veríssimo comovem-me, outros espantam-me e quase todos me encantam.

  6. [Trilby, aqui que ninguém nos ouve. Eu sou, também eu, um aficionado do Fernando Veríssimo. Por isso – e não obstante supor, temerariamente, que você visava outra pessoa – deixo estar como está].

  7. Fernando, peço-lhe desculpa. Sabe que não é a primeira vez que dialogamos aqui (talvez não se lembre) e era mesmo a si que eu visava. Foi apenas uma associação. Não conheço nenhum Fernando Veríssimo só um Erico.

  8. Inocência, desvergonha, ou outra coisa?
    Sei bem como assim é, o relativismo corrente e tudo o mais.
    Mas nunca deixa de me doer.
    Nunca deixo de lamentar aquilo que não observo na juventude doutros países, quando vejo passar a portuguesa.
    É a falta de compostura, a grosseria, a afirmação pelo primarismo muitas vezes, o impudor manifesto neste caso.
    Nunca deixa de me doer, que a juventude do meu país confunda desenvoltura mental e liberdade com alarvice.
    Eu não sou de catequeses, mas dói-me sempre. Que o meu país, e a juventude que há nele, estejam tão bem um para o outro.
    Caso diverso é o do post, claro está, que é bem apanhado, e não tem nada a ver com isto!

  9. Trilby,

    Luís Fernando Veríssimo é um cronista brasileiro que escreve (também) no «Actual» do Expresso. E havia o romancista, também brasileiro, Érico (ele escrevia de facto «Erico») Veríssimo.

    Não tenho nada a desculpar.

  10. O poeta e tradutor Manuel Simões vive em Itália desde 1972 e fala muito bem a língua de Paolini. POis quis o destino que se sentasse no Metro de Lisboa ao lado de duas jovens italianas, lindas de morrer. Percebeu tudo das suas dúvidas sobre as linhas verde e azul e lá lhes explicou tudo muito bem. REagiram mal. Aqui está um exemplo oposto: jovens que se portam mal perante pessoas de meia idade que só querem ajudar. ERam bonitas mas eram estúpidas. Acontece.

  11. Cronista mas não só: escritor, jornalista, humorista, “cartoonista”, tradutor e saxofonista. E filho de Érico Veríssimo. :)

  12. O poeta Manuel Simões que vive em Itália desde 1972 estava no Metro de Lisboa e ao lado dele duas italianas lindíssimas discutiam as ligações da linha verde com a azul. Ele explicou tudo muito bem e elas ficaram enxofradas, estúpidas, mal agradecidas. É um bocado ao contrário da história de Amsterdam: por bem fazer mal haver.

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