Um idioma fascinante, mas sem comentários

Neste atribulado mundo em que somos forçados a viver, parece que já não há tempo para nada. O escritor Ruben A., que conheci através de José Palla e Carmo (meu colega no Banco Português do Atlântico), tinha sobre este assunto no final dos anos 60 uma expressão muito curiosa: «Uma pressa para coisa nenhuma». Parece que foi o caso, desta vez.

Então um texto do Fernando Venâncio, uma prosa bem aparelhada sobre um livro recente de Ivo Castro e intitulada «Um idioma fascinante», passou aqui pelo blog sem um comentário, uma observação, um desdém sequer. Nada. No momento em que escrevo, acabo de confirmar o facto lendo de novo o texto datado de 25 de Fevereiro próximo passado. Não sendo eu filólogo nem especialista nesta matéria, não posso (mesmo assim) deixar de assinalar o caso. Trata-se de uma injustiça. E como acabei de ler o livro D. Duarte, de Luís Miguel Duarte (uma edição do Círculo de Leitores), acabam por conjugar-se as coisas.

Afinal o D. Duarte não foi só o primeiro rei que sofreu de uma depressão nervosa e que sobre o mesmo assunto escreveu. Ele foi também o introdutor na língua portuguesa de alguns latinismos que se tornaram, depois dele, vocábulos aceites por todos: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto e intelectual. Além do mais, este rei melancólico analisou os campos semânticos de diversas palavras, como previsto, percebido, avisado, saudade, desprazer, pesar, aborrecimento, nojo ou tristeza.

Já sei que me poderão dizer «Quem anda à chuva molha-se», significando que quem publica um texto num blog sujeita-se a não ter comentários. Mas se nós não nos interessarmos pela nossa língua, então corremos o risco de a perder. E depois começamos a falar inglês como nos computadores? Será esse o futuro? Bem eu gostaria que não fosse.

José do Carmo Francisco

6 thoughts on “Um idioma fascinante, mas sem comentários”

  1. José,

    Bem-vindo à blogosfera. Estás em condições óptimas para colher esta agridoce lição: os posts não se medem pelos comentários.

    E acrescento, mal de nós!

  2. Tem toda a razao, mas os exemplos deviam vir de cima e infelizmente, nao temos muito por onde copiar, ele sao os politicos, os jornalistas, etc, etc.
    Ate eu que resido em pais de lingua “alglo” vejo como de muito mau gosto, o uso e abuso de termos estrangeiros para substituir os nossos de lingua portuguesa!

    Saudacoes d’Algodres.

  3. Não podes extrapolar o facto de não teres comentários num post sobre a história da nossa língua para um desinteresse generalizado sobre a mesma, acho eu. Reli o texto de 25 de Fevereiro e concordo contigo: é uma prosa extraordinariamente interessante e bem aparelhada… O meu problema (e, eventualmente o de outras pessoas que por aqui passam) é que são demasiados arreios para a minha hacaneia, portanto resta-me ler, reler e pasmar – como tão bem fazem os porcos das pérolas. Beijos.

  4. José do Carmo Francisco, nem sempre é por falta de tempo ou desinteresse que os frequentadores não comentam. Passo por aqui todos os dias, quase todos mais do que uma vez e leio os posts todos. Muitas vezes não sei o que comentar, a maior parte delas por não encontrar nada inteligente para dizer.

  5. Um blogue, com os seus postes, é uma nascente à beira do caminho, uma dessas bicas de estrada que havia antigamente, quando se andava por aí de pés no chão.
    O caminhante passa e serve-se a gosto. Às vezes saboreia, outras nem tanto. E vai à vida, não tem que se pôr com endechas bucólicas.

  6. Ora aí tem, Zé, seu baboso, cinco comentários que provam que ninguém o ignora, ou o Fernando, ambos muito respeitados nesta tertúlia descoesa (a ver se pega, à D. Duarte). Aceito a explicação do Trilby como a razão provável na maior parte dos casos.

    PS Outra coisa: também não o vejo muito na taberna dos comentários a outros posts. Ah ah, por esta é que você não esperava, seu malandro. Anyway, os bancários foram sempre assim, especialmente os do BPA.

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