HISTORIOGRAFIA SEM FIOS

E de que História é que me estão a falar? Da escrita, da cantada ou da que passa de pais para filhos pela via oral entre dois bafos de aguardente de aliviar empachos? Ou será da que tem a ver com eventos reais, da bem limpa? Não me queiram meter em trabalhos. Reparem que só aconteceu há dois dias, mas já temos várias versões em papeis magros e amarelos do 25 de Abril turbulento e os versos do Zeca não nos ajudam nada ao seu deslindamento.

A Pavorosa, ou o crer na sua existência, não anula a História – confirma-a, dá-lhe o paladar da dúvida intrigueira e incita-nos a provocar rubores aos que a torcem e desfocam. A História das verdades verdadinhas, das Assírias aos Tuntankamuns (denial is not a river in Egypt, have you noticed that?) e das Grécias às Revoluções Francesas e das Comunas aos comunas, poderá existir como narração, sim senhor e sim senhoras, mas só comprimida ou espalmada direitinha em tubinhos de pepino ressequido sob as ruinas de qualquer convento ou igreja algures na Europa tricolor continental e insular.

Esses edificios e templos, aliás, continuam a apontar aos nossos narizes chatos ou de cavalete restos de representações pagãs em pedra que põem em questão não só a idade de Deus organizado na terra, na versão de Pai, de Filho, ou Espirito Santo, como também a veracidade das hagiografias cristãs pintadas à mão em scriptoria com távolas com tampos de carvalhos gretados e as relações comerciais dos seus tementes com os judeus, manos nossos na alegria do impingir nessa única e verdadeira Idade Média do conhecimento da história natural das pessoas e dos grupos. Da Revolução Francesa para cá, sabe-se um pouco mais e por isso mostramos o sorriso de termos menos medo de estarmos enganados sobre as garantias que os nossos avoengos nos deixaram em legado.E nos últimos 150 anos fomos aprendendo só aquilo que decidimos não esquecer, mas ainda não sabemos muito bem quem, de facto, inventou a rádio. Foi um russo fiquem sabendo que não foi um italiano.Não, perdão, foi um homem muito humano e cristão que acreditava nas inúmeras viagens do espírito para cá e para lá entre a vida e a morte e céus mal definidos.

Temos todos a Razão, aquela que procede e ao mesmo tempo se insurge contra a anarquia bem ordenada do corpo pensante. Quando a malbaratamos ou subutilizamos, temos os delírios purificadores automáticos, excreções dos sons a mais que nos empurraram pelos ouvidos dentro durante tantos anos – aliás, esta excreção é o estado de comunicação simultâneamente forçado e desejado. Nem se quer outro porque não há alternativa nem remédio se nos queremos alimpar. São inseparáveis, a máquina e o serviço que a mantém.

Aqui para nós, pessoalmente, direi que no delírio delirante não há dolor, per se. Só taquilalia febril e desordenada. Normalmente, se é a História que me anda a moer por dentro, cerro os olhos sem chonar, e logo vejo que Nápoles se chama Troia e que Bizâncio é o irmão mais velho de Britanicus, uma boa diferença de idades mas germanos, notai bem e ainda bem; que equus e aqueus não se podem confundir, mas são quase iguais na comparação dos detalhes da escrita passada a limpo. Cavalo na água, ou cavalo marinho, que estupidez sem pés nem cabeça, mesmo em estado de delírio! E que suor quente! Vou já enxotar os súcubos maus e acordar da modorra.

Espero sem impaciência. E quando o quente na testa se esfria um pouco mais, miro cuidadosamente a representação pintural duma cena velha com Sócrates e outros muchachos sem guitarras andaluzas e reparo que quase todos vestem anacronisticamente na moda imposta nos tempos da Rainha Dona Isabel das rosas e do milagre. Estranhas pinceladas ainda sem perspectivas revolucionárias…a enganarem-me, as putas, putas, putas. Decido por fim sacudir-me para ver se me livro dessas visões distorcidas do tempo e do terrivel mau gosto na boca e vou à janela e vejo bichas e bichas enormes, paralelas, de milhões à espera de serem vacinados contra um virus inventado no mês anterior para pôr cobro ao desemprego no serviço de saúde. E depois apareces tu, maldita, a contrariar-me. Só me resta chorar desconsolado: afinal não há ninguém na Torre do Tombo para me apertar a mão e chorar que concorda comigo.

TT

5 thoughts on “HISTORIOGRAFIA SEM FIOS”

  1. …deixa estar rapaz, a gente pensa, pensa e pensa, e regressamos a Heraclito e às Cartas de Iwo Jima. Eu então pensei, pensei, pensei, e vou mas é bazar, passar uma semana a C Verde ou assim (tenho de ver do vento, não gosto de zumbidos nos ouvidos e areia na boca), e esuqecer-me nos braços de alguém e no mar, que também é preciso descansar.

    (sim eu sei das italianas, escusam de dizer)

  2. Já te encontrei
    Todos os dias sem te conhecer

    E de tão longe que ficaste
    Na tertúlia do rapaz pobre
    Fingindo do fingimento
    Ou bebendo da cor do vento

  3. As sociedades secretas não tem inicio e fim em si mesmas simplesmente por refletirem as necessidades mais prementes do sistema organizado. Isto é claro, limpido e cristalino, são o reflexo dos condicionamentos impostos. Entretanto é admissivel e concordo plenamente que uma vez organizadas possam tomar rumos até então não suspeitos. É o que ocorre na maioria das vezes. Vejo falar-se muito nestas sociedades, mas não no poder real delas, até porquê, convenhamos, são secretas. Tal fato tem servido de veículo às paixões mais ardorosas e opiniões um tanto duvidósas. Mas o que não é dito nem lembrado é que estas sociedades tem como base de impulsão a impessoalidade e sobretudo a grande capacidade de sobrepor-se ao tempo daqueles que se jugam poderosos. O plolitico mais poderoso e famoso tem um mandato pré-determinado. O maior industrial tem seu período na chefia dos seu conglomerado estável até a primeira contestação do conselho o que afeta diretamente o valor das suas ações na bolsa. Na sociedade secreta não existe seguidores, as questões são conjunturais e extremamente exigentes em soluções impessoais.
    Olhando assim de primeira divisada não se consegue vislumbrar os enormes beneficios do sistema nem os seus horrores e perigos.

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