Que turismo entre cães e moscas?
A urina dos cães queima a borracha dos pneus e os latidos em escala alteram a paz da aldeia. As moscas saltitam do pão para o queijo e do queijo para os copos na mesa. Aos cães respondem os galos e as cabras nos respectivos currais das casas das terras da Beira Baixa. Ao lado há uma aldeia do circuito das chamadas «aldeias de xisto» mas a sua loja, simpática embora, vende «T-Shirts» a quinze euros. Claro que não vende porque toda a gente sabe o preço real de uma «T-Shirt» e quinze euros é uma barbaridade porque nada tem a ver com o preço real do produto.
Numa das casas mais bonitas desta aldeia, oferecem-me café e um cálice de medronho (fabrico particular) mas, de repente, surge o focinho de um cão vadio a centímetros dos bolos secos feitos do belíssimo mel daqui. Os donos dos cães não os controlam nos seus próprios espaços, suas casas, seus quintais e adegas. Qualquer porta aberta é um convite a entrar e a levar para sua casa um sapato, uma luva de jardinagem, uma peça de roupa.
Esta noite desapareceu a malinha de um emigrante português (Paris) em férias anuais. Essas malas de trazer junto ao cinto no Verão são ideais para quem não gosta de usar casaco à caçador mas uma distracção fê-lo ficar sem nada (dinheiro, livro de cheques, cartões de crédito, carta de condução) e já a pensar em telefonemas para França.
Não se pode esperar turismo num espaço onde os cães circulam como reis e senhores, entram na casa de qualquer um e levam na boca tudo o que calha. E onde as moscas fazem exercícios de aviação nas mesas da cozinha. Por acaso a bolsa apareceu. Alguém se lembrou de seguir o rasto do cão e chegou ao lugar onde brinca com outro cão.

















