Vinte Linhas 526

Que turismo entre cães e moscas?

A urina dos cães queima a borracha dos pneus e os latidos em escala alteram a paz da aldeia. As moscas saltitam do pão para o queijo e do queijo para os copos na mesa. Aos cães respondem os galos e as cabras nos respectivos currais das casas das terras da Beira Baixa. Ao lado há uma aldeia do circuito das chamadas «aldeias de xisto» mas a sua loja, simpática embora, vende «T-Shirts» a quinze euros. Claro que não vende porque toda a gente sabe o preço real de uma «T-Shirt» e quinze euros é uma barbaridade porque nada tem a ver com o preço real do produto.

Numa das casas mais bonitas desta aldeia, oferecem-me café e um cálice de medronho (fabrico particular) mas, de repente, surge o focinho de um cão vadio a centímetros dos bolos secos feitos do belíssimo mel daqui. Os donos dos cães não os controlam nos seus próprios espaços, suas casas, seus quintais e adegas. Qualquer porta aberta é um convite a entrar e a levar para sua casa um sapato, uma luva de jardinagem, uma peça de roupa.

Esta noite desapareceu a malinha de um emigrante português (Paris) em férias anuais. Essas malas de trazer junto ao cinto no Verão são ideais para quem não gosta de usar casaco à caçador mas uma distracção fê-lo ficar sem nada (dinheiro, livro de cheques, cartões de crédito, carta de condução) e já a pensar em telefonemas para França.

Não se pode esperar turismo num espaço onde os cães circulam como reis e senhores, entram na casa de qualquer um e levam na boca tudo o que calha. E onde as moscas fazem exercícios de aviação nas mesas da cozinha. Por acaso a bolsa apareceu. Alguém se lembrou de seguir o rasto do cão e chegou ao lugar onde brinca com outro cão.

5 thoughts on “Vinte Linhas 526”

  1. Zé,

    Já faz tempo que não escrevias nada que não me deixasse ficar com a sensação de que estava a perder parte do meu tempo precioso. Poderias ter evitado essas frustrações que vivi se escrevesses mais coisas bonitas como esta de vez em quando. Lembrei-me logo daquela cena rústica no E Macário do Grande Camilo.

    E eu que até à quinta ou sexta linha me parecia que era o Valupi a repetir a proeza dontem! Coisas do catano.

    Abraço.

  2. O seu post faz-me lembrar a aldeia da Pena onde há tempos estive: mesmo com cães vadios, moscas abjetas, o sinuoso percurso e a cena das T-Shirts recomenda-se a visita. Para quem gostar de ervas aromáticas como a carqueja e o tomilho selvagem é só parar o carro e servir-se à vontade.

  3. Fica no distrito de Viseu, mais propriamente perto de S. Pedro do Sul.
    A carqueja e a bela-luz(variedade selvagem do tomilho) eram, há cerca de 30 anos abundantes nessa região e utilizadas nas fogueiras de São João devido ao seu aroma perfumado. Hoje, já quase não existem.
    Fica a informação para os apreciadores de plantas aromáticas: a bela-luz é um excelente substituto do sal.

  4. Ontem fui ao hospital da pequena cidade onde vivo visitar uma pessoa que lá se encontra e que é da minha terra. Não se trata de familiar meu e nem sequer pertence ao meu círculo de amigos, mas o facto de ser da minha aldeia é razão suficiente para merecer a minha visita, pois a nós, os da aldeia, consideramo-nos como se pertencessemos a uma só família, valor que tento incutir nos meus filhos. Voltando, então, à visita, constatei que na infermaria A, local onde de encontra o meu conterrâneo, o ambiente era deplorável: no pequeno espaço estavam três doentes, havia um televisor ligado e afixado numa das paredes sendo acessível apenas a um dos doentes que, por sinal, se agitava na cama e emitia sons imperceptíveis. Os outros dois doentes, também acamados e sonolentos não prestavam qualquer atenção ao televisor que só servia para abafar os lamentos do doente. Mas o que me chocou foram as moscas que se passeavam por lá ziguezagueando e se refastelavam na chávena de chá que o “meu” doente tinha na mesinha de cabeceira. Fiquei tão enjoada e tão revoltada com a situação que fiz o reparo junto da enfermeira ao que ela respondeu:”Ó minha senhora, que quer que facamos? As moscas também têm direito à vida”.
    Na segunda feira volto lá, mas vou levar a minha mãozinha mata-moscas para o meu amigo se livrar destes insectos nojentos, sempre quero ver a cara da enfermeira.

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