As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
A outra metade é feita de tijolos
Tristes porque são todos iguais
Na sua tão repetida monotonia

À volta da avenida fica o arvoredo
Antigo como as casas dos guardas
Lembra um velho tempo de quintas
Com cavalos e carroças no mercado
Hoje só recordado aos domingos

Esquilos nos ramos, corvos na relva
De noite raposas fogem assustadas
Dos poucos táxis a circular na rua
Na escuridão fria da noite inglesa
À hora dos comboios mais raros

Envolvido nas rotinas das escolas
Levo na mão o meu neto de manhã
E vou buscá-lo perto do meio-dia
Pego na pasta azul com o seu nome
E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala
São elefantes, borboletas e ovelhas
Entram na floresta que eu lhe conto
E tremem de medo dos monstros
Como eu tremo de medo da doença

São todas de madeira e de vidro
As casas de Blackheath Park
Frágeis perante a neve a chegar
Tal como eu frente ao pâncreas
Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos
Maneira de eu dizer adeus à vida
Todos os momentos são preciosos
Para que o meu neto me lembre
E não se esqueça de me recordar

7 thoughts on “As casas de Blackheath Park”

  1. José, vate querido e companheiro de armas,

    A tua intenção é sublime, lá isso é, mas vejo que não te esforçaste muito a sublimar este teu trabalho até à essência dos óleos horacianos- que era, afinal, o que interessaria mais aos grandes apreciadores de poesia directa como eu. Repara que entras logo no poema com a noção (em poesia vale tudo, eu sei, não te enerves) que corresponde a uma autêntica declaração de hostilidades à arte do fraccionamento. Não és arquitectonicamente reaccionário, mas és, por força das metas quinquenais poéticas que impões a ti próprio, inegavelmente desfraccionário.

    However, há sempre um however, insulo como de bom gosto a tua referência às oscilações dos sucos pancreáticos que não te largam da braguilha – a ti e a todos os que te lêem, sem excepções.

    Afectuoso amplexo.

  2. Amigo da velhinha Universidade do Carmo, fiquei preocupado. Deixa lá os sucos pancreáticos ( Giróflé dixit), enquanto viverem aqueles que nos amam, nós estaremos sempre vivos. Permite-me um abraço.

  3. Sr. JFK

    Publique mais, kisto anda muito triste por este ladu, nem bontade tenho pra dizer umas asneiras. Faça uma cousa com pradarias, violinus e cantaris de anjus. falo a cério mas num mapetesse escrabere vem.

  4. Zé, dilecto amigo,

    Passou-me, ontem, pedir-te por favor para me mostrares uma fotografia de Blackheath Park. Essa aí com a igrejinha toda séria e misteriosa não me parece que o seja até me provares o contrário como é norma no Estado de Direito e opinião da Sofia. Se o provares, prometo que a minha vergonha será seguida dum imediato pedido de desculpas que abarcará também a leviandade de te dizer, agora, que não há mal nenhum em comer queijo, especialmente se for recomendado pelos médicos.

    Um, muito apertado.

  5. SR. JFK,

    A imagem que publicou é triste mas convidativa. Descansa ao mesmo tempo. Mas é triste, muito triste, saudosa, como se fosse um portal de despedida. Faço ideia nos dias de chuva, deve ser de uma beleza extraordinária, não pela paisagem humana de per se, mas pelo que transmite, nos prende e não nos deixa fugir.

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