Vinte Linhas 525

Os campinos não usavam telemóvel

A fotografia sem autor sugere a data de 1961. Ou talvez 1962, quando o Tóino vinha de quinze em quinze dias da Lezíria receber o avio da mãe e deixar a roupa para lavar no poço da casa no Bairro do Bom Retiro. A água desse poço era salobra como a da fonte do bairro do Mártir Santo e os irmãos (Manel e Marcolina) iam com os vizinhos buscar água para beber nas bilhas de barro à fonte de Santa Sofia.

Nesse ano Salazar tinha gritado «Para Angola rapidamente e em força!» depois de antes ter agradecido «Obrigado portugueses, temos o Santa Maria connosco!», isto em pleno esforço repressivo com o quadrado da infâmia: Aljube, Caxias, Peniche, Tarrafal.

No Bairro os homens faziam horas frente à televisão no café do senhor Jorge a ver o Benfica e o Sporting nas vitórias europeias – Berna, Amesterdão, Antuérpia. Outros jogavam à malha no terreno anexo, havia sempre espectadores no primeiro balcão. As mulheres, por sua vez, já pensavam na chamada guerra do Ultramar, começada em 1961. Mostravam o exemplo dos campinos e dos rapazes do Parque de Alverca, o outro nome das OGMA. Quem tivesse um sargento conhecido podia aspirar a uma cunha para um filho entrar no Parque. Podia ser um cabo desde que tivesse influência. Diziam entre si, as mulheres do Bairro: «Quem não tem padrinhos morre moiro!». Hoje os campinos usam telemóvel para avisarem da descoberta de um toiro tresmalhado nos confins da Lezíria. Se em 1961 nos viessem dizer, ao Tóino e aos miúdos do Bom Retiro que uma caixinha de plástico nos punha a falar com o Mundo, todos nós teríamos dito: «Pode lá ser!». Mas afinal podia ser. Em 1961 os campinos não usavam telemóvel.

13 thoughts on “Vinte Linhas 525”

  1. Olá. meu Caro José do Carmo Francisco:
    Obrigado pelos seus escritos, apesar do calor de Verão.
    Pois não, nem telemóvel, nem moto 4, se é assim que se diz, ainda usavam meias arrendadas, os campinos, que não eram alugadas, mas feitas de renda e cavalos .
    Eu fiz a guerra com alguns deles, em Moçambique – rapidamente e em força, também – como na Guiné, como em Angola.
    Se você visse o tamanho do ” telemóvel” que nós usávamos e da geringonça que também levávamos para lhe fornecer energia de pedais ?
    Muitas vezes ás costas, meu Caro JCF, que você fez tropa muiito mais tarde, já no mês de ABRIL, pelo que lhe apanhei, isso é já ceara de satélites, e GPS a chegar.
    A minha guerra foi de Mouzinho, sem cavalos, que eu era de Infantaria, nem cargas de cavalaria ao amanhecer.
    Obrigado
    Jnascimento

  2. É sempre assim, Zé, quando o país anda em guerra, lá estão os homens a jogar à malha ou nos cafés dos jorges a verem o benfica e o sporting a jogar à bola. Dantes como agora, nesta guerra entre as inteligências subnutridas e as consciências políticas.

    E noto com pesar que nunca mais tens emenda, sempre a martelares no quadrado diabólico do cárcere e tortura que andaste lá em Angola, de certa forma, tens que admiti-lo, a defender em Angola. É que nem sequer tiveste tomatinhos (seria da água salobra?) para desertares e andares como eu na clandestinidade quase dois anos em Lisboa sem subsídios de partidos, sempre activo politicamente … e a trabalhar para sustentar a família.

    Ouve uma coisa, já leste por acaso um livrinho da Bertrand com o sugestivo título de “Salazar, o Maçon”? Lê, e depois escreve aqui a tua opinião, se o Valupi te autorizar, é um bom princípio para quem não gosta de ir à missa como tu e para te desprogramares clinicamente das febres crónicas terçãs que ainda carregas. Quem sabe, talvez sejas o primeiro a solucionar o eterno problema da quadratura do círculo. Mas cuidado com a Piramídea.

  3. Giroflé,

    Li-o com atenção, muita atenção. Que política defende? Formata-se na direita, na esquerda ou no centro? Faço-lhe a pergunta com a maior sinceridade, pois apaixona-me lê-lo. Admiro-o profundamente. Como estou a anos luz da sua escrita, oratória, raciocínio, análise, frontalidade, discernimento.

    Nada sei efectivamente, e a VIDA já me surpreendeu com lições de tristeza, de luta, mas quando leio textos como os seus, que não se quedam pelo simples «literal», penso que pena, o tempo engana, prega rasteiras, porque para além daqueles que nos deram o Ser, há outros Patronos, com quem se pode aprender.

  4. Não conheço o livro «Salazar, maçon» mas não posso conhecer tudo embora receba muitos livros aqui em casa. Qual é a editora, já agora?

  5. Estou a perder muito tempo contigo, Zé.

    http://www.bertrand.pt/catalogo/detalhes_produto.php?id=181941

    “Aos vinte e cinco anos (1914), Salazar deixou de se confessar e de comungar. Os seus Discursos mostram que Salazar rejeita os dogmas da Santíssima Trindade e da Divindade de Jesus. Quer dizer, Salazar mudou de religião, escolhendo a «religião natural». Salazar tornou-se não apenas crente, mas sacerdote e pregador da sua nova religião, que é também «um sistema universal de ensino e de governo». Este livro apresenta algumas das provas, das muitas disponíveis e geralmente conhecidas mas ocultadas, de que Salazar mudou de religião, aderindo a uma nova fé.”

    17 mocas e 7 centimos

  6. oube lá ó girofle, a gente num pode a mudare a nomen juris dos tributus naxionaise. Tás a ber a cousa, eu da bez em kuando alembro-me destas cousas. Oube tu saves o qu eé o PEC?
    O plano do Socratese para enravar contribuintes, tás aber?

    Balupie toma um trifene pá, kisso passa-te.

    Sr. JFK, maje puesia se faze fabore.

  7. Achei piada ao Giroflé.
    Com que então era preciso tomatinhos para desertar, hein? De certo modo dou-lhe razão, pois era preciso ter uns grandes tomates, uns tomatões, para aguentar a guerra e lutar contra a guerra dentro da guerra.

    Quanto a Salazar, o Maçon, há tempos Salazar, O Engatatão, não me admiraria que um dia destes aparecesse um “estudo” do Mário Machado a revelar que Salazar foi um audacioso comunista, aliado do Kremlin, só para chatear o Paquito Franco.

  8. Zèquinha,

    Como este post já cá vem no profundo, podes aproveitar, levar o Salazar à superficie, e desafiar-me com uma cópia desse teu comentário num post a nivel do mar. Se eu o ler, que é o mais certo, poderei concordar contigo, o que não é provável.

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