Vinte Linhas 61

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

6 thoughts on “Vinte Linhas 61”

  1. Já tive, antes, o gosto de, lendo-te, conhecer esse calvário do teu pai para tirar a carta de pesados, incluindo o detalhe do excesso de bagagem em batatas para mercadejar. O texto está bom, porque simples e sem gritarias de vaidades gritantes e desnecessárias, muito embora, confesso, me tivesse deixado um pouco desorientado nas suas últimas quatro linhas.

    Fico à espera que me contes, por ex., peripécias, coisas lúbricas, frios de invernos, casamentos ateus, pirocadas ao luar, etc., relacionadas com o teu primeiro ou segundo romance com uma mulher, ou de quantos quilos pesavas quando te apresentaste à inspecção militar. Coisas novas e frescas para mantermos uma boa e saudável circulação. Há uma porta aberta para te amarmos, não a feches.

  2. Urgásmicu. Urgásmicu.

    Tamém kero ber. Posso contar a minha primeira pinokada? Foi à noute, dapoije de uma granda bubadera, dakelas em que se vê duas pessoas em uma. Porra o Tântrico já duraba há horas, purque já tinha estado a enfardare sarbêja desde a manhãe. Cum catano, era só pontas da cigarro nu chãoe. Atirê-me em boo picado pra cima da cama,eu bia alguém lá em cima, carago, mas akilo era efeito da bubadêra. Vati com os cornos num sei onde. Dormi que nem um caparro durante dias.

  3. Como diz o outro: os desígnios do Senhor são insondáveis. Digo eu: os desígnios do Senhor para criar um marxista-leninista ainda mais insondáveis são.

  4. parabens, doce e sentido relato. Gostei. As coisas escritas co coração têm sempre algo que chega o leitor.

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