Vinte Linhas 523

Isto é «Para acabar de vez com a cultura»

Quando alguém está metido numa embrulhada muito difícil de explicar diz-se que a situação é kafkiana de Franz Kafka (1883-1924), autor de vários livros (p.e. «A metamorfose», «O processo») nos quais o absurdo se passeia de situação em situação. Desta vez, e para ir directo ao assunto, escolho não Franz Kafka mas o título de um livro de Woody Allen – «Para acabar de vez com a cultura».

De facto há Associações Culturais e Câmaras Municipais cujo objectivo mais parece ser acabar de vez com a cultura em vez de, como seria lógico, divulgar, promover e dar às pessoas das suas localidades a possibilidade de dialogar em directo com os agentes culturais. Participei há meses num Festival de Poesia e Artes Plásticas e ainda não recebi os valores em euros que paguei para a minha deslocação de comboio. Muito menos o valor dos outros recibos já entregues e, muito menos ainda, o valor do recibo verde respeitante às ajudas de custo da participação no dito cujo Festival.

Tenho fotocópias dos diversos documentos e cópia do recibo verde mas não tenho o dinheiro. Nem é o dinheiro que me mais interessa embora seja importante o reembolso do que já paguei à CP. O maior problema é a atitude negligente de quem me convidou. Porque no fundo o que eu receber (se receber…) passados tantos meses só servirá para compensar o que gastei em licores, bolos e outras recordações regionais. Acabar de vez com a cultura é isso mesmo – convidar e depois afugentar aos poucos os agentes culturais, as pessoas que, com todas as boas intenções do Mundo, não recebem sequer o dinheiro gasto nas duas viagens de comboio a partir de Santa Apolónia.

11 thoughts on “Vinte Linhas 523”

  1. “Chora Mariquinhas, chora…”.

    Suponho que, como “agente cultural” e amante de Poesias e Artes Plásticas, conheças essa linha de cantiga cheia de plangor dum lírico popular qualquer que desconheço. Terei eu razão, ou haverá justiça, em ta lembrar? Se não tiver ou não houver, desculpa, se sim, responde com a urgência que o caso impõe.

    Também, uma coisa em que desejaria matutasses com toda a energia do teu intelecto, mas esquecendo as contabilidades que aprendeste durante o teu Curso Geral do Comércio, é que o comportamento dos responsáveis por esses atrasos nos reembolsos é, em si próprio e sem outras ajudas, uma manifestação genuinamente cultural, pois trata-se de costumes enraizados nas secretarias das câmaras e em ninhos burocráticos de todo o tamanho.

    Acredita, a Cultura tem uma vagina mais funda que a mula do tio Policarpo. Isto é o que eu penso, o Schopenhauer pode ter tido outras ideias, mas isso a mim não me interessa nada.

  2. José do Carmo Francisco: que maravilha é ler-te. Isto porque estás sempre fora do horizonte de expectativas do HTML. A sério, és talvez o melhor caso (que conheço) de alguém que escreve fora dos guiões mais ou menos convencionais da bloga. Que maravilha.

  3. Pois, pois…

    Existem grupos etnográficos que para manter a cultura duma determinada região, actuam gratuitamente;

    Existem bandas filarmónicas que actuam gratuitamente para se manterem vivas, mantendo vivo o ensino da musica;

    O Carlos Paredes tocava gratuitamente e onde quer que fosse;

    O António Chaínho vai fazer a apresentação do seu ultimo CD (multicultural) no Marim Moniz dia 19 de Setembro 2010

    A verdadeira cultura não se faz a troco de trocos, mas sim assumindo uma perspectiva ampla de responsabilidade social

  4. No meu tempo de Canto Coral a canção chamava-se «Chora chora chora Luisinha chora / dá meia voltinha, vamo-nos embora» mas não tem nada a ver com isto. Interessa é ver o assunto na globalidade a partir dum pequeno caso pessoal. Muita malta quer é mesmo acabar de vez com a cultura…

  5. Sem o reembolso das despesas não há cultura.
    Cultura é bom, mas pagar por ela é mau.
    Sejamos objectivos: onde foi? Quem foi? ou trata-se “apenas” daquela mancha branca que existe no mapa da cultura em Portugal, ali para os lados de Castelo Branco? onde uma pianista desculturou e nunca mais se ouviu? por atrasos e não pagamentos culturais.

  6. Meu Caro Zé Carlos (que não sei se és) aqui o importante é a situação, não as pessoas e os lugares. Algumas dezenas ou centenas de euros – isso é outra coisa. O que conta é a atitude. Nem é um assunto pessoal.

  7. Ena, pá, tantos recibos verdes! Referentes ao «custo dos bilhetes de comboio apanhado em Santa Apolónia», outro «respeitante às ajudas de custo da participação» (ajudas de custo de quê, de quê?) e mais «o valor de outros recibos já entregues». Não serão demasiados recibos verdes a pagar pela referida Câmara (qual é, qual é?) para «divulgar, promover e dar às pessoas das suas localidades a possibilidade de dialogar em directo com os agentes culturais», como afirma JCF?! E cá o temos como agente cultural não pago. Vendo bem, fica caro. Fala ele de «boas intenções». As dele, são bem claras: ganhar o seu, que, pelo número de recibos verdes entregue não deve ser pouco, a troco da leitura de uns poemas de sua autoria. A isto, não se chama cultura, chama-se negócio. Chorudo e só para alguns, que as «capelinhas» existem não apenas para rezar aos santinhos. Não é para «acabar de vez com a cultura», não senhor. É para acabar de vez (e não conseguem!) com os mamões, os gulosos que por aí vegetam a encher as algibeiras com o dinheirinho dos munícipes das respectivas Câmaras, isso, sim! Quantos e quantos escritores o fazem sem receber um cêntimo. Esses, são os que promovem a verdadeira cultura. Os outros, são apenas agentes mercantilistas, como prova este post..

  8. JCF:
    Em Freamunde a cultura é diária. São os ensaios e as actuações do Grupo Teatral Feamundense (GTF) do Grupo de Teatro Pedaços de Nós, do Grupo de Castanholas, Big Band, Grupo de Repercussão. Tem corrido o País a dar espectáculos gratuitos, para Associações de Pais e comparadas. Quem os convida só paga as despesas de deslocação, chegando ao ponto de eles (actores) irem munidos com um farnel.
    Isto é fruto do associativismo e de pessoas que depois do seu trabalho diário ainda se dispõem a ensaiar e actuarem nos fins-de-semana. Tudo isto se deve a uma a uma pessoa que não revelo o nome porque se o fizesse ela aborrecia-se comigo.

  9. Senhor
    JFk,

    Deixe para lá! Pagou e não foi reembolsado. Participou, partilhou, mostrou, deu.

    Isso é que importa. O resto é irrelevante.

    GirofLé,ke issu da coltura ter a vagina mais funda que o naoe seie ké?!!!!!!!!!!!Porra, pá, eu a pensare que só habia buracus negrus no unibersu.

    Oube, pelo menus, o JFK puvlica o ka escrabemus, o manganaoe do balupi, biatu do catanu, é inbejoso e apaga.

  10. Não pagar esta chusma de recibos verdes é capaz de ser a forma das Câmaras deste país acabar de vez com a chulice dos pseudo-intelectuais.

  11. È claro que não é o dinheiro, mas a atitude.É o status do que somos e do que temos. Afinal da nossa identidade, ou falta dela, mais defeito e caracteristica do que adn.
    Aliás as Cãmaras são os piores pagadores, mas para receberem estão sempre prontas.
    Pior, pior só o Estado. Aliás é por isso que tudo custa muito neste país, pois quando se faz o preço já se conta com um ano para receber ( se tudo correr bem) logo, os juros vão incluidos.
    Há quem pense que o trabalho que não é manual deve ser à borla.A propósito de quê? É o País do esforço esforçado que temos, em que só o trabalho braçal conta ( veja-se o caso dos incêndios – muito esforço e resultados mínimos, mas muitos elogios e custos gigantescos)

    Um abraço – pois é, sou….zé carlos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.