A corda

Os roteiros estavam feitos, os actores sabiam de cor e salteado as falas de que foram incumbidos. Mal se soube que o despacho do MP tinha poupado José Sócrates no caso Freeport (e todos aqueles com responsabilidades públicas à data dos factos) foi o próprio a dar o mote – na alocução ao país de 28 de Julho, quando disse esperar que aquela fosse “a última vez que falava no assunto”-, Sócrates disparou o tiro de partida para uma operação político-mediática bem urdida cujos efeitos se pretendiam estender para além do Verão.

Carlos Abreu Amorim

*

Assim abre um texto que é paradigmático da crise da direita portuguesa e sua falência intelectual e ética. Repare-se no sofisma: haveria um plano montado pelos poderosos e terríveis socráticos para lançar uma campanha de vitimização, mas a qual foi logo por água abaixo porque… eles nem sequer conheciam o que constava no despacho… Esta contradição, de tão básica e vinda de quem vem, é linda. Entende-se ainda melhor à luz da reacção de Mário Crespo no próprio dia em que se publicaram as conclusões da investigação. Crespo, num espaço pseudo-jornalístico, afirmou à boca cheia que Sócrates devia ter conhecimento ilícito do teor do despacho por ter feito uma declaração onde manifestava o seu alívio pelo fim da suspeição que sobre ele pendia há anos. A calúnia como espasmo que se lança em soberba impunidade é a marca desta direita decadente a que pertence Carlos Abreu Amorim. E o que diz do Procurador-Geral da República segue a mesmíssima lógica, apodando de incompetência o que começa, objectivamente, por ser independência da investigação, não interferência da hierarquia máxima e delegação de poderes nos responsáveis. De resto, foi ordenado um inquérito, o que irá aumentar a transparência do caso.

O combate político pode gerar monstros de impiedade. Não ter empatia pelo sofrimento que o Freeport causa nos alvos de suspeições só se explica pela convicção de culpa associada à bestialidade. Para quem ataca Sócrates por se congratular com a notícia de que o seu nome deixava de estar relacionado com as fases seguintes de um processo judicial, o apuramento da verdade é algo desnecessário. O que os seus inimigos e os aproveitadores mediáticos disseram é que conta, chega e sobra. O mesmo para as reacções da comunidade, onde os Carlos Abreu Amorim da triste cena publicista só conseguem detectar marionetas. O cinismo é tal que vivem num mundo onde apenas reconhecem liberdade, vontade, carácter – portanto, natureza humana – a quem pensa como eles. É um mundo tóxico, sulfúrico, asfixiado.

A civilização também se fez contra esta turbamulta desembestada. Estes são os mesmos que sempre preferiram fazer justiça ao pé das árvores, e ainda não acordaram.

16 thoughts on “A corda”

  1. Por tudo o que se vê, ouve e lê, este é apenas o início de um processo de degenerencia social, no qual a política e os seus actores possuem responsabilidades ilimitadas.

  2. “De resto, foi ordenado um inquérito, o que irá aumentar a transparência do caso.”

    Aumentar a transparência do caso? Não é possível, só contaram p´ra você.

  3. A mim um desses «pobres» tentou tudo para me despedir e não conseguiu. Fiz uma entrevista de agenda ao presidente da Câmara de Alcochete antes dumas eleições. Foi considerado como uma influência mas afinal aquela força política até perdeu… Tenho a certeza que não vai (nem ele nem os outros) conseguir despedir o primeiro-ministro.

  4. Mais uma vez se acusam os socráticos de terem uma máquina bem oleada sempre pronta para mais uma ‘operação político-mediática bem urdida’. Não se percebe, pois a maioria dos orgãos de comunicação social não é propriamente socrática. Na blogosfera também não dominam, basta ver que são acusados de socráticos apenas dois ou três blogues, sempre os mesmos. Como se leva para a frente a tal operação nestas condições? A menos que o CAA diga que são poucos, mas bons, mesmo muito bons…
    Se neste caso pareceram mais as vozes da esquerda, foi porque quase toda a direita se fingiu de morta mal foi conhecido o despacho, só por isso.

    Além disso, se os socráticos montam operações político-mediáticas tão bem por que razão não têm protegido Sócrates e o Governo deste e doutros casos? Por que carga de água não tem sido, por exemplo, o caso do BPN a estar na berlinda em vez do Freeport? Talvez fosse mais compatível com a existência das tais operações bem urdidas. Só falta vir alguém dizer que Sócrates tem beneficiado com este arrastar do nome pela lama.

  5. o caa, com a sua figura rançosa, ilustra bem esta direita onde a predomina o rasteirismo e a sabujice. livrai-nos da possibilidade destas desgraçadas figuras nos governarem algum dia. não estarei muito enganado se disser que na sua actividade professional o caa prima pela incompetência, preferindo as bojardas ao trabalho árduo. levou 10 ou 15 anos para fazer um doutoramento (o que na opinião de certas sumidades da nossa praça, como a graça franco da rr, isso é muito ilustrativo pois “não se trata de um doutoramento qualquer, de 3 ou 4 anos”). apresenta-se e faz-se a apresentar com um comentador na rtpn, quando na realidade é um activo membro da entourage do passos coelho. agora vem este caa acompanhar o pacheco na insinuação que tudo isto que se tem passado nos últimos anos e mais concretamente neste recente freeport reloaded, é obra da impiedosa máquina que está por detrás de sócrates. ora era isto mesmo que essa gente argumentava com as escutas do sócrates ao cavaco e vai-se a ver era o sócrates o escutado. tal como o lomba, o problema do caa é o desespero com o tempo, demasiado, de espera pelo lugar de assessor. e o desespero, tal como se vê, leva à esquizofrenia.

  6. “apenas reconhecem liberdade, vontade, carácter – portanto, natureza humana – a quem pensa como eles. É um mundo tóxico, sulfúrico, asfixiado.”

    É um retrato real e letal destes sujeitos pseudo-investidos de poderes sobrenaturais que os capacitam de uma iluminada autoridade para denegrir tudo e todos em seu redor. Com tais capacidades, é uma pena que só tenham queda para comentadores semanais. Perde o país duas vezes: não fazem, nem deixam que se faça.

  7. Ao ler o assis, ocorreu-me que toda esta obsessão patológica com os cargos que, alegadamente, muitos de nós aqui no aspirina (começando pelo Valupi) ocupam à conta de Sócrates, revela a ordem de valores porque se rege esta gente: para exporem ideias e demonstrar ética, teriam de lhes pagar. Mau negócio para o “cliente”, porque não possuem uma coisa nem outra.

  8. Que pensa, reflecte, diz, disto tudo, o Venerando?
    vai chamar de novo o Sr. Palma?
    Vai largar pelos cafés da Avenida de Roma,o seu Acessor especial, Dr. “não me lembro o nome”…

    e o Poeta,
    que tanto forçou a sua nomeação como candidato do PS às presidenciais, onde pára ele, a sua voz rouca e sem medo?

    acho que, com todo sentido,

    e contra esta mistificação de “procuradores”, “jornalistas, “politicus”,

    a luta tem de continuar…

  9. Balupi, meue,

    Issu ou é admirassaoe por mim ou é gozo. ça kizeres PÀ, pudemos brincare os doise um bucadinhu, bamos a «shots» cumu faze o adurábele Giroflé e o Sr. Berdamerda.

    Façu-te um desafiu. Eu soue polibalente, meue, já parssabeste, num é, entãoe, laba os tumatinhus, e puvlica a MERDA ca escrebu. Saves purquê? Purke tem qualidade pá, e oube, bamos já definire as premissase: nãoe soue sucialista, e axo ku sócratese é um gaju em keu aduraria pôre as mãose em cima. Tás aber? Entãoe, cunsegues aguentare cumigu ou nãoe? Bamos jugare limpinhu?

    Oube outrabez, num me mandes largare o binhu, Pá, keu gostu de cousas voas, e oube se tu não gustas da binhu, temos o caldo enturnado Pá.

    Percaveste esta Porra toda? Num puvliques, PÀ, istu é só pra tie.

  10. Ok balupi, meu biatu karalhadu, o dia ka me puzerese a falare a sérioe cuntigu, soue capaze de cumeçare a lere o ka tu esckrebes. Até láe tenze muitu pra me conkistare.

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