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Sttau

Faria agora 80 anos. Passou por cá escrevendo teatro («Felizmente há luar!»), romance («Angústia para o jantar»), crónica («A Guidinha»). Nunca pertenceu ao inner circle da cultura, menos ainda da literária. Nunca relia nada, nem provas. Não ia a estreias das peças. «Sou isolado dos escritores. Isolado dos críticos. Isolado dos literatos», disse a Mário Ventura, para o DN, em 1981. Vivia do trabalho, tendo a mãe uma fortuna. Mas disse-se que vivia à custa dela. «Convinha à direita, e à esquerda resolvia complexos. Como é que o gajo, que goza, que bebe e que brinca, tem dinheiro? E então a explicação era a minha mãe. Esquecendo-se que eu às oito da manhã estava a trabalhar em agências de publicidade, vinha para casa escrever, marrava que nem um cão».

Diz-se, também, que a peça «Felizmente há luar!», de 1961, só foi representada depois da Revolução. Há um grupo de pessoas que sabem que não foi. Elas representaram-na em 1964, algures no País, para uma pequena multidão. Um dos actores, dos principais, era este vosso servo. Mas é a pequeníssima história. Uma página da Guidinha vale mais.

para os meus amigos publicitários

Preto no branco, ainda

Faça-se subir aqui a discussão que, nos cafundós do blogue, se vem desenrolando. Os dois intervenientes o desculpem, se era a discrição o que procuravam.

Nuno Ramos de Almeida | abril 19, 2006 11:32 PM

Valupi,
Ao contrário de ti e do professor Cavaco que estão convencidos que pessoas com informação igual chegam às mesmas conclusões, há no mundo gente que pensa que é possível ter ideias diferentes sobre a realidade. A função do Bloco, e dos outros partidos políticos, é defender um conjunto de ideias que acham importantes para melhorar a sociedade. Por muito que te custe entender, o Bloco defende propostas diferentes para imigração do que CDS/PP. As iniciativas como o Colóquio Internacional, para ti “sem contexto”, a exemplo do relatório aprovado no Parlamento Europeu ou das propostas legislativas sobre a imigração e a nacionalidade, servem para fazer este caminho.
Nesta matéria, ao contrário de outras áreas, o Bloco e os seus activistas têm muita actividade e, de alguma maneira, as suas ideias que só há integração com cidadania, têm-se tornado presentes na discussão democrática e na formação de novas maiorias sociais.
Tu não mostras realidade nenhuma, apenas teimas em remendar um post com uma perna de pau e outra amputada.
Eu acho que toda a gente percebeu que apesar das más companhias do Aspirina, tu não és, nunca foste, e nunca serás do Bloco ou de Esquerda. Mas não teria sido mais fácil publicar um anúncio no Diário de Notícias a garantir ao Sr. Prior que nada tinhas a ver com gente pecadora?

Nota: eu que não tenho nada que ver com organizações de imigração, já estive em reuniões com associações, iniciativas e diálogos com a população no Vale da Amoreira, na Azinhaga dos Bezouros, na Arrentela, na Cova da Moura, no Bairro do Fim do Mundo, para além da Bela Vista… vê lá tu, a quantidade de trabalho que militantes do Bloco que participam, por exemplo, na Solidariedade Imigrante e em outras organizações já fizeram…

Valupi | abril 20, 2006 03:47 AM

Nuno
Não estás de boa-fé nesta conversa (coisa que não me preocupa, esclareço, mas também não me diverte) e por isso estás a perder tempo. Se preferes fazer alusões ao Cavaco, ao CDS, ao Aspirina ou à Virgem Maria, em vez de apresentares factos e informações relativos ao assunto, não pagas mais por isso. Há fantasmas de estimação, compreende-se.

Nunca pensei que a prestação de um trio de luxo — tu, o Daniel e o “James” — se ficasse pela inanidade de reagirem emocionalmente num campo onde detêm tanta informação. O Daniel foi buscar a produção legislativa, tu puxaste da biografia e o “James” disse-me para contratar um detective. Mas nenhum foi capaz de indicar um qualquer meio para aferir, constatar, avaliar, ponderar, simplesmente conhecer o plano de actividades (já nem falo dos objectivos) do Bloco nas áreas em causa. Esse silêncio começa a ganhar estatuto de mistério.

Onde vocês se mostram muito descontraídos é na hermenêutica de posts e consequentes comentários. Pelos vistos, estão preocupados com a integridade do texto, não admitem qualquer desvio. Fica-vos bem esse cuidado e ofereço-me para vos ajudar.

Reparem que o parágrafo em causa começa com uma tese genérica: os partidos são os maiores responsáveis pelo marasmo social no que respeita à relação que temos com os nossos imigrantes. É uma tese não académica, confirmo. Mas permitiu dar dois exemplos: PCP e Bloco. O que eu fiz, todos o podem fazer; e daí tirar conclusões. Se os sites não são actualizados por causa de qualquer situação anómala ou porque nem sequer é um canal que mereça atenção, é problema que não me diz respeito. Fica que, como cidadão, não encontro em lado algum (nem nos veículos informativos oficiais!) a informação que procuro. Acham questão de somenos? Acham que é preguiça? Essas magníficas respostas, aqui em cima gravadas, dizem muito do autismo partidário.

Mas porquê dar como exemplo o PCP e o Bloco? Para o Daniel, eu não poderia ter escolhido pior; e não é que o homem acertou?… Realmente, algo de muito mau se passa em Portugal quando as duas forças políticas com maior protagonismo na defesa dos imigrantes são, ao mesmo tempo, exemplos de desleixo e inércia. Desleixo na comunicação e inércia no pensamento, eis o que está à vista no que apresentam e no que escondem. Porque se a actividade parlamentar e mediática, o trabalho com associações e populações, é uma constante, também constante é a tibieza desses resultados. De resto, seria inconcebível que organizações partidárias profissionalizadas, com orçamentos para gastos vários, pagando salários, tendo voluntários à disposição, não ocupassem as temáticas e tecidos sociais onde viabilizam a sua existência. Não há surpresa nenhuma, nem sequer merece frouxo aplauso, o facto de o Bloco e o PCP terem militantes e apaniguados seus metidos nas associações disto e daquilo, produzirem documentos ou organizarem colóquios. O que se discute é a eficácia dessas intervenções.

Para quem participa na vossa vida partidária, a revolução está de saúde. Há coisas a acontecer. Há papéis para mostrar. Há sítios para visitar. Há reuniões para comparecer. Há textos para escrever. Há fotos para mostrar. Há tempos de antena para preencher. Há eventos para encenar. Há pessoas com quem falar. A existência faz sentido, é uma questão de tempo até todos se convencerem das vossas verdades.

Entretanto, no mundo dos que apenas trabalham e vão para casa dormir, os dias passam sem se tropeçar nos partidos. A imigração cresce e as pessoas acomodam-se, mas não se aproveita a diversidade cultural para com ela fazer cultura. Esta a tese de todo o post, que abre com uma experiência no campo das ciências sociais. Por razões várias, Portugal poderia ser uma escola de solidariedade entre povos diferentes. Temos bagagem e lastro para tal, apenas nos falta a cabecinha. Dá-se é o caso dos partidos apenas se fazerem mediaticamente ouvir nessas matérias em períodos eleitorais. Mas ainda muito pior: os partidos não apresentam ideias do foro cultural, limitam-se a utilizar a temática para efeitos de combate político circunstancial. Os partidos não pensam, nem fazem pensar — são conúbios narcísicos.

Aborrece repetir o que já se repetiu: as propostas de lei, as participações em acções, a veiculação informativa (como no “Esquerda”, por exemplo) não estão em causa no post enquanto actividades formalmente meritórias. Para vocês, é o bastante. Para mim, não chega. Porque o modelo que reproduzem é o de uma organização fechada, cópia de associações de cariz religioso onde há um contentamento bovino com as virtudes próprias e uma acusação viperina na ponta da língua para exorcizar suspeitas alheias.

Que a coisa marchava assim, já o sabia. Depois desta discussão, fico assustado.

Portugal: queremos ‘isto’?

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Portugal integrado na Espanha seria mais desenvolvido, mais produtivo, mais habitável? Qualquer inquérito aleatório – de rua, em site de jornal ou a dois taxistas – diria que sim. Suponho mesmo que qualquer inquérito bem estruturado o diria.

Ora o anti-intuitivo veio ontem expresso num artigo de Paulo de Pitta e Cunha, no Público. Intitulava-se «A união ibérica e a União Europeia: refutando a tese iberista» e continha este passo: «Não precisamos da integração política ibérica para nos desenvolvermos mais depressa, antes ela poderia levar a que se perpetuasse o nosso relativo atraso». E expunha-nos isto: que a tese iberista – ainda recentemente reformulada, com entusiasmo, por Saramago – contraria a actual deriva exactamente desagregacionista na Europa: os casos da Jugoslávia, da Checoslováquia, as tentações activas na Itália e na própria Espanha.

Faltou lembrar algo mais nítido ainda: que ‘ser Espanha’, e sê-lo de há séculos, não leva a grande desenvolvimento. Aí está a Galiza a mostrá-lo. Não se duvide: também nós, uma vez integrados, perderíamos (sucedeu aos galegos) os instrumentos para gerirmos os nossos recursos, os humanos incluídos. A Espanha não dorme em serviço. Nunca dormiu.

Mas não é a Espanha um magnífico país, dinâmico e boémio em dose invejável? Claro, entra pelos olhos. Mas isso não é razão para nos perdermos nele. A única boa razão para fazê-lo será a definitiva descrença em nós, o termos decidido que ‘isto’ já não nos interessa.

Ainda não chegámos lá. É até provável que nunca cheguemos. Esta coisa é certa: enquanto os iberistas não produzirem doutrina mais sólida, resta-nos rirmo-nos na cara deles. E irmos ao trabalho, senhores.

¿Qué miran los poetas portugueses?

«José», de que ignoramos tudo excepto a acuidade dos seus comentários no Aspirina, envia-nos um texto, inicialmente destinado ao seu (temporariamente inacessível) blogue, segunda surpresa nossa. Havíamo-lo convidado a desenvolver certa, e curiosa, visão da blogosfera, e esperamos que venha a fazê-lo. De momento, vai este texto (permitimo-nos um ‘editing’), que abre pela «Balada para los poetas andaluces de hoy», poema de Rafael Alberti, cantado pelos Aguaviva.

Qué miran los poetas?

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre
pero, ¿dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, ¿dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, ¿dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.

No suplemento do DN , «6ª», publicado na sexta-feira passada, numa página de recensão de livros, podia ler-se um pequeno texto de apreciação a um livro de Charles Baudelaire, Conselhos aos Jovens Literatos. O texto assinado por JMS ( presumindo-se José Mário Silva), em pouco mais de uma dúzia de linhas, cita o tradutor- Jorge Melícias- para lhe dizer que traduziu «com pouco esmero» e com «alguns erros de palmatória» e refere uma particularidade do texto traduzido que seria «menor e quase juvenil», quando o autor das Flores do Mal andava pelos 25 anos. Depois, centra-se na pessoa do tradutor:

Ao desmascarar o “escritor maldito” que se revela um “burguês usurário e sem escrúpulos, alguém que confunde literatura literatura com licitação, poesia com juros», Melícias pretende apenas atingir, por interposta figura tutelar, a corrente estética da poesia portuguesa contemporânea oposta à sua. Raras vezes li ataque tão insidioso, tão desonesto e tão cobarde.

A seguir a este escrito, o visado Jorge Melícias, não perdeu tempo e no blog Da Literatura, logo no próprio dia, respondeu em letra de forma.

Não conheço o livro em causa, o qual, porém, admito folhear. Não sei quais são as correntes estéticas da poesia portuguesa de modo a poder alvitrar palpites sobre a justeza da crítica e da crítica ao crítico. De resto, nem leio poesia por aí além e este além, não passa daqueles livrinhos de recolha dela, editados por Assírio & Alvim, mas apenas nos momentos em que estou em livrarias. Estou por isso, muito desqualificado para comentar esta trica. Mas trinquei os dois textos o suficiente, para dizer algo de diferente.

Em primeiro lugar, o texto assinado por JMS ficaria num seguro olvido do não lido, não fora o reparo lido a propósito do ataque ad hominem. Em segundo lugar, deu-me para pensar que o universo da literatura em Portugal, escrita ou traduzida em português e particularmente da “poesia”, foi definitivamente apanhada numa onda onde emergem alforrecas e se afogam couves, para o caldo de cultura que está a parecer mais uma sopa de pedra: os últimos condimentos já são demasiado pesados para o estômago frágil do leitor acidental.

Cá por mim, este indivíduo pode ter razão, ao escrever sobre as…amizades na escrita. A qual implica uma outra face que tal como em Janus, a acompanha. As inimizades literárias podem bem descambar em menções pessoalizadas pelo meio restrito em que se movimentam.

Quantas pessoas, em Portugal, sabem que existem duas correntes estéticas (pelo menos), na poesia que se escreve e publica? Talvez as que frequentam as faculdades de letras… Então, pode muito bem perguntar-se: é para esse público que se escreve, publica e critica a poesia? Então, estão muito bem acantonados nos blogs! Deixem-se estar, nesses lugares tranquilos de reserva de caça às palavras escritas!

Porém, apetece repetir o título do postal: Qué miran los poetas… portugueses de ahora?!

JOSÉ

Os fantasmas ausentes

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Não sou um admirador da ficcionista Clara Ferreira Alves e conforta-me saber que o apreço é recíproco. Como este não é um blogue confessional, apresso-me a dizer que existe, de tão amável avaliação por parte da senhora, documentação impressa. Não sou, todavia, dos que fazem vida de apontar os fracos à cronista. Tenho pelo género ‘crónica’ a maior das estimas e considerei o trabalho de CFA assinalável o suficiente (e mais do que isso) para incluí-lo em antologia.

Tudo isto não teria a mínima importância, não fosse o caso de a cronista me ter, agora, desapontado. No Expresso da passada sexta, CFA escreveu sobre «A morte do romance» uma crónica assustadora, onde afirma, a dado momento:

«Dos romancistas franceses, italianos, alemães, americanos, ingleses, russos, austríacos, checos, irlandeses, latino-americanos, que assombraram e iluminaram a adolescência e o princípio da idade adulta de várias gerações, sobram uns quantos nomes, clássicos de clássicos, enunciados com a indiferença do que se ouviu falar e não se conhece ou já não se conhece.»

«Este é o tempo imperial de Dan Brown e de Paulo Coelho»

Não é questão de lembrar que isto é a ordem natural das coisas. Daqui a 30 anos, desses «uns quantos nomes» restarão bem menos ainda. Não é sequer questão de sublinhar que outros fantasmas estrangeiros assombram e iluminam hoje as mentes. Ou que é pelo menos desdenhoso dá-los, a todos, como Paulos Coelhos (no que faço a CFA a fineza de supor que ela não fala do Dan Brown do estimável «Código Da Vinci»).

Não. Do que se trata é de termos de espantar-nos da ausência, entre os numerosos nomes aduzidos, de fantasmas brasileiros na mente de Clara. Para quem carrega fantasmas dessa procedência, é um assombro que alguém não os tenha. E sente a «morte do romance» segundo CFA como uma tese manca. Tão manca que constrange e mete um dó. E que ninguém corra em socorro da cronista, lembrando que ela referiu os «latino-americanos». É que pretender diluir neles os brasileiros ainda faz pior.

E mais importante ainda: cem assombrados por Machado de Assis, ou por Mário de Andrade, ou por Guimarães Rosa, compensam bem as dezenas de milhares de parvos que compram Paulo Coelho. Mas terá Clara alguma noção disso?

Goza com a tua língua

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Lisboa é grande. Mas duvido que haja, nela, mais do que um Helder Guégués. Pois bem, esse mesmo, que talvez você conheça (Lisboa é grande, mas os círculos são pequenos), tem um blogue em que, com paciente regularidade, comenta questões (sobretudo «erros» e «falhas») do nosso idioma. Chama-se Letratura e está aqui. É um prazer, um gozo, uma lição.

Pilhei o título do post de um cartaz galego, erotizante de linguístico. Pilhei a assombrosa foto no blogue de Helder Guégués. «Tudo vos será perdoado».

Há rebuliço na cave

Na caixa de comentários do post PRETO NO BRANCO, há discussão da grossa entre Nuno Ramos de Almeida e o autor do mesmo, Valupi, sobre a actuação do Bloco de Esquerda.

Está o Parlamento em férias, a agora isto!

Como se tal não bastasse, no post LIMPAR A FULIGEM, andam em grande folia Jorge Carvalheira e a nossa querida Dona Ermelinda, «senhora» que aqui vem sobressaltar-nos em outros avatares, masculinos esses.

Quem disse que este blogue era manso, pá?

BLOGOMILHO

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Galiza, Festival de Ortigueira, 2005 (foto Vieiros)

Na Galiza, a blogosfera (e quem cunhou o termo? José Mário Silva? Paulo Querido? quem, quem?) chama-se «bloguesfera». Mas também, e mais garridamente, «blogomillo».

O blogomilho galego (há-de ter-se aqui uma ideia dele) acaba de ver-se reconhecido com um prémio nacional na concreta pessoa de MARTIN PAWLEY, autor de Días Estranhos.

aqui no Aspirina se noticiou um encontro, muito proximamente, de blogueiros galegos e portugueses. Agora citem-se palavras de Pawley, entrevistado no Portal VIEIROS (Caminhos).

Como valora a evolución do blogomillo neste tempo?
«É espectacular. Se alguén nos conta hai tres anos, cando eramos vinte sendo xenerosos os que tiñamos blogs en galego, que hoxe a cifra andaría perto de dúas mil, non o creríamos. O cambio máis importante é que agora non lle tes que explicar aos amigos que é un blog antes de dicirlle que ti tes [tu tens] un.»

E sobre o comportamento blogueiro:

«A xente ás veces confía nunhas estrañas regras de “cordialidade na rede” que non comparto según as cales non hai que afastarse xamais dun comportamento case monxil [monástico] para non ofender a ninguén. Eu levo discutido no blog, e moitísimo, e sobre materias ás veces delicadas, con persoas que hoxe teño por amigos. En Internet, como na vida, dúas persoas poden levarse a matar un día, e ao seguinte son amigos da alma.»

Alentejanidades

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O Valupi lembra-me a minha ascendência berbere. O Filipe Moura lembra-me que sou alentejano. A minha irmã, Maria Antónia Venâncio, que é lisboeta, lembra-me – com esta sua foto – que, se mais razões faltassem para o orgulho meridional, as flores do campo já serviam.

Ao longe, espreita a serra de Alcaria Ruiva. Mais 10 quilómetros, e estamos em Mértola. O centro do mundo, claro.

O Abrupto, a ameaça e a ficção

Às vezes, a gente lê o que quer ler. Sucede sempre aos outros, claro. Mas uma vez tinha que ser a minha. Conduzido por uma informação com certo picante, impedi-me de fazer o óbvio: ir verificar se de facto JPP tinha refeito o texto. Não tinha. Supu-lo cedendo a uma pressão. A ameaça era real, está documentada. Só não sei se foi exercida. Se o foi, saiu frustrada.

Tenho a pedir desculpa ao autor do Abrupto por imaginá-lo cedendo a correcções políticas. E aos leitores deste blogue por não ter feito o trabalho de casa. Quis fazer História. Mas fi-la romanceada. Se não foi simplesmente ficção o que fiz.

O Abrupto cede à correcção política?

Através de um «newsgroup» de galegos e portugueses, sou alertado de que o autor do Abrupto ofendeu a unidade da língua portuguesa. Se o meu revoltado co-foreiro reportou bem, José Pacheco Pereira terá anotado no seu blogue: «À minha volta fala-se brasileiro, língua dos empregados de restaurante em Portugal, produto da globalização».

Vou verificar. É um facto: JPP actualizou o post das 11.54 de ontem. Concretamente, terá eliminado essa passagem e algumas outras, tão inócuas como ela.

No nosso fórum (que, evidentemente, não identifico) lia-se: «No blog de Pacheco Pereira, ao que parece o mais lido de Portugal, é feita uma referência ao português do Brasil, que mais uma vez demonstra a falta de consciência de unidade da língua, vinda da parte de alguém que é claramente um membro da nossa elite e que, por esse motivo, devia ter mais consciência e deve ser mais responsabilidade em relação àquilo que diz. […] Este é mais um exemplo da diferença de atitude das elites castelhanófonas, francófonas e anglófonas, que têm consciência e promovem a unidade das suas línguas enquanto as nossas elites não têm essas consciência e não promovem o conceito de unidade das variedades de português. É caso para repetir pela milionésima vez: com elites assim o nosso país não precisa de inimigos. Contudo o importante é agir, e o sentido desta minha mensagem é o de incitar a que escrevamos para o endereço de email do autor do blog sobre esta questão, chamando-lhe a atenção para que no futuro não repita o erro num blog que, ao que parece, é tão influente» [negrita meu].

A pressão terá, pois, tido efeito. Fico perplexo, e na realidade decepcionado. Claro que o brasileiro nos é uma riqueza e um orgulho, e não posso imaginar que JPP o sinta diferentemente. Mas tudo indica que, cedendo ao clamor da correcção política, ele repudiou uma afirmação lúdica e totalmente inofensiva.

Signor Presidente del Consiglio

Para os meus alunos – eles rondam os 20 anos – o telemóvel existiu sempre. Como para mim o telefone. É isso: o mundo já veio feito assim. E é essa gratificante falta de perspectiva histórica, no dia-a-dia, o que permite imaginar-nos eternos. O que é, de resto, a melhor disposição para vivermos. Imagine-se o que era uma consciência contínua da nossa temporalidade. Não dávamos um passo. Íamo-nos arrastando. Sim, fazer-nos esquecer a morte é uma das espertezas da vida.

Tudo isto por causa das eleições italianas de ontem. Não se vê logo a relação? Exacto. Mas eu explico. O chefe do governo de Itália chama-se «Presidente do Conselho»… de ministros, claro. Também Mussolini tinha o cargo de «Presidente del Consiglio dei Ministri», e ignoro se a designação é anterior ao Regime Fascista.

Nós dizemos «primeiro-ministro». Mas dizemo-lo desde há trinta e pouco anos. Porque, antes, também o nosso chefe de governo se chamava «Presidente do Conselho». Só isso. Nunca se ouviu chamar a Salazar ou a Caetano «Presidente do Conselho de Ministros», mesmo em discurso indirecto, mesmo numa notícia de jornal. Isto era uma das finuras da nossa ditadura. O senhor não era o chefe de um grupo de pessoas, mas um chefe sem mais, um «Presidente». Havia portanto dois presidentes no país. E, na percepção pública, um deles era mais «presidente», e esse não era o da República. Era o outro, o eterno.

Nessa nossa atemporal percepção – eu tinha a idade dos meus alunos hoje – Salazar havia existido sempre. Por isso, o fim do Verão de 1968 foi um tempo tão delicioso. Falava-se do «sucessor», trocavam-se boatos. E isto na rua, lugar inaudito. Era o princípio do fim? Ninguém o sabia. Mas sabia-se que era o fim de qualquer coisa, de alguém. Do Presidente Eterno. Que só o tinha sido dos seus ministros.