Puxo para aqui o curiosíssimo texto com que Orlando Braga comentou o meu post «Líricos, pobres e ibéricos», um texto que lança sobre o assunto uma luz desconhecida e incómoda. Existirá, então, uma ‘agenda ibérica’ comum a Zapatero e a Sócrates? Ou ela é só de Zapatero, mas Sócrates acha perfeito? Serão as declarações de «profundo iberismo» do ministro dos Transportes, afinal, menos anódinas do que pareceriam? Mantenhamo-nos atentos. E lúcidos. E críticos. Tanto mais que a nossa folclórica extrema-direita já anda cheirando a caça.
Li todos os comentários até agora e muita gente tem muita razão. Conheço muito bem Espanha, por imperativos profissionais; e quando digo que conheço, falo do conhecimento do país de lés a lés, das pessoas, de muita conversa com muita gente, desde o povo menos letrado até a intelectuais de renome.
É verdade que o “iberismo” em Espanha não existe (até há bem pouco tempo), porque o espanhol em termos gerais, ou é contra a Espanha das nacionalidades (integrismo espanhol, extensivo a Portugal), ou é a favor da independência da sua nação (separatismo); não existe, normalmente, meio-termo nesta escolha por parte dos espanhóis. Ora, o Iberismo pressupõe um compromisso entre estas duas hipóteses: resulta daí a ideia do Leviatão Ibérico.
O Integrismo espanhol é tanto de esquerda como de direita; de direita quando expressa no passado pelo “Império” celebrado pelos nacionalistas tradicionalistas (“nacionalismo tradicionalista” segundo o conceito de Fernando Pessoa) e de esquerda por via dos republicanos que sempre defenderam a anexação de Portugal. O separatismo existiu desde sempre. Não foi por acaso que durante séculos o centralismo de Madrid incentivou a “colonização” das nacionalidades peninsulares; hoje encontramos mais andaluzes, galegos, castelhanos etc. em Bilbau do que bascos. A língua galega é proibida nos organismos públicos galegos; o etnocídio galego continua.
Portanto, se a ideia da “união ibérica” das nacionalidades não existiu, é de facto “a novidade política” introduzida por Zapatero, naquilo a que os intelectuais espanhóis (integristas ou separatistas de direita e de esquerda) chamam de “deriva nacional-zapaterista”. O conceito de “união ibérica” segundo Zapatero, consiste no Leviatão Ibérico, independente — na sua dinâmica e ideário — do projecto europeu, embora se aproveite das suas sinergias políticas. É este o novo “iberismo”: a construção paulatina presentista de um supra-estado ibérico, um Leviatão que apague a memória histórica, e que a partir da Ibéria das Nacionalidades, contribua para a unificação ibérica sob uma bandeira e uma língua comum utilitária e civilizacional: o castelhano.
Depois disto, podemos compreender as “concessões” de Zapatero em relação às nacionalidades, podemos compreender os protestos da direita tradicionalista espanhola, e podemos entender que o que Mário Lino disse não foi consequência de uns copos a mais de bom Alvarinho. Teria dúvidas é se Sócrates está metido nesta mistela, mas em política, o que parece, é.
Orlando Braga tem um blogue.








