A náusea de ontem

Há uns dias, a Fernanda Câncio juntou a sua voz ao animado coro de reprimendas à TVI pela forma algo necrófaga como explorou a morte do jovem actor Francisco Adam: “Raras vezes se terá assistido a um tão acabado exemplo de autofagia mediática e de canibalismo sentimental”.
A tese subjacente a estes lamentos é sempre a do plano inclinado em que vamos deixando escorregar os nossos valores civilizacionais — “a náusea de ontem é a normalidade de hoje”. Por outras palavras, estamos pior que ontem, mas não tão mal como amanhã.
Para quem se sinta tentado a acreditar na tese e a fazer de conta que a Imprensa só agora descobriu esta fossa para chafurdar, talvez seja boa ideia relembrar o caso do bebé Lindbergh. Os fotógrafos invadiram a morgue onde jazia o caixão da criança e trataram de o abrir, em busca de fotos mais “emocionantes”.
Pois. Apesar de tudo, ainda não regressámos a tais paragens.

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