Arquivo da Categoria: VISITAS ANTIGAS:

A Guerra em close-up

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Como fazer uma série de televisão sobre uma operação militar que envolveu centenas de milhares de soldados, sem dispor de grandes meios? Como mergulhar no inferno, sem gruas, hordas de extras, meses de pós-produção? Simples mas não fácil. Filma-se de perto a verdadeira matéria-prima das grandes guerras clássicas: a carne.
Eis a verdadeira vedeta da série “Dunkirk”, da BBC, de que ontem voltou a ser exibido o último episódio. A carne dos soldados. Carne suja, suada, rasgada, amputada, gangrenada. Ou apenas exaurida por esforços para lá do humano. A câmara faz mais do que procurar intimidade com as suas presas. Ela aproxima-se até que a pele mais não permite. Fixa-se nos poros, num nariz sujo, num ombro destroçado, numa esfregona que limpa um convés, ensopada de sangue. A câmara recusa a imobilidade, adopta os ritmos daqueles derviches insones; gira e rodopia, bem dentro do desespero dos soldados e civis envolvidos na maior evacuação militar da história. Induz a vertigem no espectador, faz do seu movimento mais uma barreira entre o horror da guerra e a nossa tranquilidade no sofá. De quando em vez, lá surgem as imagens documentais, algumas a cores, para nos lembrar que tudo aquilo aconteceu mesmo, ainda no tempo dos nossos pais. Estranhamente, os grandes planos de multidões em fuga a custo organizada, as enormes barcaças em chamas, todas as intrusões do mundo real no tecido microscópico da narrativa de “Dunkirk” acabam por funcionar como um contraponto perturbador na sua coerência: como se a verdadeira guerra apenas conseguisse igualar, nunca ultrapassar, em “realidade”, a presença palpável da carne dos actores.
E há o fantasma da sempre presente caução (bem anunciada no início de cada episódio) realista: estas histórias foram todas recolhidas de entrevistas e diários de sobreviventes. Cada nome, cada corpo, pertenceu mesmo a um ser humano. A intimidade que a câmara celebra a cada segundo não é apenas um artifício da ficção; é uma busca da realidade perdida no pó dos arquivos. Um último resgate dos heróis de Dunquerque.
E há os olhos também. Os olhos que são dos poucos sinais a distinguir cadáveres de combatentes ainda vivos. Os olhos do oficial inglês que abate um seu camarada desertor. Do ferido que só aguarda o tiro de misericórdia e recebe dos alemães um cigarro e água. Do moribundo que pestaneja sob a chuva, gota a gota, do sangue do seu companheiro de beliche. De Churchill ao ordenar que os feridos sejam deixados para trás.
“Dunkirk” é excessivo, manipulador, exibicionista, quase demagógico. Por tudo isso, é uma grande obra de televisão.

O Tibete de África

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O primeiro romance de MARGARIDA PAREDES é logo, também, um de violência, de sexo, de traumas. A receita da época? Enganam-se. A história não é de hoje, tem o seu desenlace numa guerra africana dos anos 90 e lança raízes numa Angola colonial, ela também em guerra. Que tudo gire em volta duma jovem gestora portuguesa de telecomunicações, eis o que não se esperava.

Só este pormenor: um dos apresentadores do livro – quarta, 17 de Maio, às 18.00, na Biblioteca Orlando Ribeiro, sita à Estrada de Telheiras, 146, em Lisboa – é este vosso servidor.

Multidão ausente

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A 36.000 pés, e como uma embaladora turbulência, leio um suplemento do NRC-Handelsblad, o diário holandês de referência. Traz um artigo sobre a tese de Kurt Gödel de ser o decorrer do tempo uma ilusão. A tese não convenceu ninguém, nem o seu amigo Einstein. Por um raciocínio que não penetrei totalmente, considerava-se que, a ser realidade o que Gödel intuíra, estaria a máquina do tempo praticamente concebida.

A corroborar tão decepcionante conclusão, o artigo dizia: «Se a máquina do tempo fosse possível, podia ter-se esperado um público considerável na crucifixão de Cristo».

E eu não sei que mais lamentar: se a falta da multidão, com a minha ausência nela, se a inexequibilidade da máquina do tempo. Cristo morreu para nos salvar? É, não se pode ter tudo.

Mais «eduquês»

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Jorge Buescu

Leio no número de Maio de A Página da Educação, excelente jornal de – e para – professores, o artigo de Licínio C. Lima, «O ‘anti-eduquês’ como ideologia pedagógica». É uma crítica, segura e moderadíssima, ao livro de Nuno Crato, O “Eduquês” em discurso directo, da Gradiva. Esse número de Maio, note-se, ainda não está em linha no site da Página.

A questão do «eduquês» e da ideologia que o inspira tinha, em França, excitado os ânimos, e feito estragos, no âmbito do Caso Lafforgue. Já aqui o tínhamos referido, citando Guilherme Valente, que, num artigo no Expresso, se referira ao mesmo Caso.

De uma comentadora nossa, Shyznogud, recebi – e muito agradeço – a referência de um artigo anterior de Jorge Buescu sobre a mesma «affaire». Veio publicado no número de Janeiro/Fevereiro de 2006 na Ingenium, Revista da Ordem dos Engenheiros. O texto foi, informa-se-nos, retirado da página da Escola Secundária de Alberto Sampaio, de Braga.

É um artigo magnífico, como são todos os deste grande mestre da divulgação. Lembram-se de «O mistério do bilhete de identidade e outras histórias» e de «Da falsificação de euros aos pequenos mundos»? É ele.

Destaco a passagem: «Estas políticas foram inspiradas por uma ideologia que consiste em passar a não valorizar o conhecimento, associada ao desejo de fazer a escola desempenhar outros papéis que não a instrução e transmissão do saber, à crença em teorias pedagógicas delirantes, ao desprezo das aprendizagens fundamentais, à recusa do ensino construído, explícito e progressivo, à doutrina do aluno “no centro do sistema” que “deve construir ele próprio os seus saberes”».

Trata-se da mesma visão das coisas – digo eu – que, na teorização literária, afirmava que «o leitor é que constrói o livro», a mesma que, portanto, permitia, e avalizava, monstruosidades, publicadas ou por publicar. Era a mesma, também, que proibia qualquer afirmação de gosto. Sim, proibia-se (e ainda se proíbe, senhores) dizer isto: «Gosto deste livro». Pois, a literatura é para ser ‘analisada’, não propriamente lida, e por nada deste mundo degustada.

Parecendo promover o aluno, essa pedagogia não faz senão abandoná-lo.

O Quinto Império vai ter olhos azuis

O que vai ser de Portugal? A economia esboroa-se. O optimismo foi fazer companhia aos dodós no paraíso das criaturas alérgicas à realidade. Os analistas mais lúcidos só concordam num ponto: ninguém sabe porque é que esta nação porfia na acédia e derrapa na ineficiência desde há séculos. As “elites” empresariais rabiam à caça de culpados, nunca se lembrando de procurar no cotão dos seus umbigos forrados a Maludas. Os pessimistas passam dias a gemer o luto antecipado pelo finis patriae. E a realidade teima em dar-lhes razão: a cada ano, lá somos ultrapassados por mais um recém-chegado à europeia fraternidade. Até já se estimou a data em que daremos connosco a segurar com cotos decrépitos a lanterna vermelha desse pelotão imparável: 2050.
Se Portugal fosse um animal, a extinção seria destino certo e merecido. Mais uma experiência falhada, mais um projecto simpático mas inviável. Um dia, Portugal acordaria vazio. Assim sem mais menos. E, como a geopolítica e a demografia têm horror ao vácuo, logo outras populações viriam reclamar tanta riqueza imobiliária devoluta. Construindo cidades vibrantes onde hoje estiolam praças desertas; empresas inovadoras em vez dos estaminés que agora se limitam a dar “empregos”, não trabalho; multidões alegres em lugar das sorumbáticas turbas portuguesas.
A única coisa que nos poderia salvar? Uma mutação inopinada que nos ofertasse novas qualidades, que nos trasnmutasse em criaturas plenas de energia, inteligência e instinto. Impossível, desconfia o bom-senso. Infelizmente, acrescenta o mesmo.
Mas… e se esta mutação já estiver mesmo em curso?

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Bubble Boy

Depois de uma semana passada debaixo de água, no interior de uma esfera de acrílico, em Nova Iorque, o ilusionista David Blaine quis rematar o brilharete com um recorde mundial: ficar nove minutos submerso e sem respirar, ao mesmo tempo que se libertava de pesadas correntes que lhe prendiam as mãos e os pés. A coisa deu para o torto ao fim de sete minutos, quando o pseudo-Houdini desmaiou e tiveram que o retirar da água in extremis. Mais do que a desfaçatez de querer ultrapassar limites de apneia ao mesmo tempo que fazia um exercício de escapismo, o que mais impressiona nesta história toda é a tortura voluntária a que Blaine se entregou. Além de muitos outros efeitos secundários da permanência durante sete dias dentro de água, a partir de certa altura a pele do ilusionista começou a cair, sobretudo a das mãos (o que obrigou ao uso de umas luvas especiais). Nas palavras de Blaine, a dor equivalia a ser picado de forma constante por agulhas. E para que serviu tanto sofrimento? Para os 15 minutos de fama da praxe (a juntar aos que recebeu quando ficou suspenso numa caixa sobre o Tamisa)? Please. Como diz a outra, get a life, Bubble Boy.

«Modernos escravos»

Em comentário ao post Uma agenda ibérica?, a nossa comentadora Sombra produziu o texto que aqui se transcreve.

o direito dos povos à sua autonomia é uma conquista muito importante. há alguns k ainda lutam por ele, vejam o caso dos tibetanos. a luta pela liberdade, o direito a não ser subjugado por outro povo, não é uma questão de esquerda ou direita. tanto uns como outros têm interesses aí. o k acontece é que são por vezes parciais: defendem esse direito quanto a uns povos, e recusam-no a outros conforme os interesses geoestratégicos que defendem. eu, como portuguesa k sou e ciente de que mesmo ganhando mais, não estaria melhor dominada por castela, prefiro de longe lutar para k o meu país, com todas as debilidades k tem, permaneça uma pátria livre. sabem como nos classificaram os romanos quando aqui entraram? como um povo de escravos k trabalhava para os castelhanos. escravos de castela… é isso k querem voltar a ser? a troco de quê? mais uns tostões no bolso? a dignidade e a liberdade não se vendem. e isto não é de direita ou de esquerda, é um valor humano. bascos, catalães e galegos ainda hoje lutam por isso…querem deitar fora aquilo porque outros estão dispostos a morrer? portugal é uma conquista de todos nós e um direito que legamos aos nossos filhos. escravos modernos, é isso k querem para eles? na galiza só é aceite o galego escrito e falado à espanhola, a norma linguística imposta por castela. aqui há uns anos uns professores de galego que ensinaram a norma de raiz portuguesa (a verdadeira, a do galaico-português) tiveram processos disciplinares e já nem sei se foram mesmo presos… eu própria – em tempos idos que não há muito – transportei para a galiza (a pedido de amigos galegos) livros sobre a galiza e portugal que eram proibidos lá. porquê ? porque eram sobre a independência da galiza, ou defendiam a norma linguística proibida! temos é de lutar por viver melhor neste país, não vendê-lo mais do que já está. não ficaremos melhor. isso é uma ilusão. olhem o k nos aconteceu com os filipes e olhem o que está a acontecer agora: não nos estão a ajudar em nada, colocam a todo o momento obstáculos à entrada das nossas empresas e entram tanto quanto podem aqui, para quê? deixam aqui o dinheiro? não, levam-no para a sua pátria e vão. nos deixando cada vez mais pobres a nós. já se esqueceram do que nos tentaram fazer com o petroleiro que destruiu a costa galega? mandá-lo para aqui, só não entrou pk tínhamos um governo que o impediu (e tb não interessa se era de direita ou esquerda, interessa k nos protegeu). mas a galiza não escapou e castela não a protegeu. abandonou-os, lembram-se ? é isso k quereriam para nós? e não, não troco o alentejo e o algarve pela galiza. algarvios e alentejanos, são portugueses, os galegos… bem, são galegos…têm algo a ver connosco, mas não são portugueses. ao longo da história assim o foram provando. Viram-se para nós quando lhes interessa para “chatear” castela, mas depressa se voltam contra nós e nos traem a favor de castela quando têm algo a lucrar com isso. queiram ou não queiram, portugueses somos nós, e ou fazemos algo por este país, ou estamos perdidos. ninguém vem cá dar-nos nada. só tirar se puderem. não tenham ilusões. nunca ouviram dizer que não há almoços grátis?

Sombra

Uma terra sem blogues (de novo)

Ainda algumas anotações, para os amantes da estatística, sobre a blogosfera holandesa.

1. O título do post original, «Uma terra sem blogues», era uma alusão cultural (porventura demasiado subtil), não um dado estatístico.

2. A cada nova estatística, estes dias aqui aduzida, sobre os blogues em neerlandês, mais nítido se me tornou que, na Holanda, a blogosfera NÃO VIVE. Há imensos blogues? Seiscentos mil? Será a realidade subestimada, e são um milhão? Seja. E todavia, comparando com o nosso estremecido Portugal, É COMO SE NÃO EXISTISSEM. Quase não têm significado social, cultural. Mesmo gente culturalmente empenhada tem dificuldade em perceber o que possa ser isso de um «blog» ou um «weblog». O termo, de momento, não se lhes agarra a nada na mente.

3. É, talvez, significativo que o termo «blogosfeer», que nada impede de funcionar em correntio neerlandês, quase só aparece em contextos de… marketing.

4. No arquivo do diário NRC (digamos, o «Público» holandês) aparecem as seguintes referências à blogosfera:

Blogosfeer, 20-04-2006
Elke seconde komt er een weblog bij, 06-08-2005
De nieuwe Orwell, 27-05-2005
Het slagveld van de waarheid, 24-12-2004
‘Rathergate’ en de oude media, 07-10-2004
Veel te verliezen, 07-10-2004

Isto é, em dois anos e meio, o termo (não só o tema, mas o termo, a palavrinha) apareceu apenas seis vezes: três em 2004, duas em 2005 e uma neste corrente 2006. E esta última vem na secção de… Economia.

Moral: não se criou ainda, na Holanda, qualquer noção da blogosfera como comunidade cultural. Um «Aspirina B» (ou um Barnabé, ou um Abrupto, ou um Blasfémias, ou um Da literatura, até mesmo um Esplanar) seria, de momento, coisa impensável. Mas, sobretudo, não sei como se tornaria ela realidade. Necessitaria de uma dinâmica. Que não vejo desenhar-se nem sei que caminhos seguiria.

Sobre isto, e sobre a viva blogosfera portuguesa, reflecti um pouco no post original. E a minha perplexidade foi, aí, compartilhada por vários comentadores (inclusive blogueiros), que também conhecem o meio holandês. A perplexidade continua.

Eu sou o outro

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Há décadas que a minha vida é assombrada por um duplo. Tudo começou quando um fulano bem apessoado me cumprimentou em plena rua de Cascais, bramindo o seu espanto com o quanto eu engordara, perguntando-me se “continuava ir ao rugby” e despedindo-se com sentidos votos de felicidades para uma “esposa” que eu nem tinha à altura. Escusado será dizer que nunca antes vira tal criatura.
Depois, foi o abraço de urso que me desferiram à má-fila num centro comercial. O simpático agressor estava deliciado por me voltar a ver, eu que tinha sido um dos poucos amigos a ir visitá-lo ao hospital e estas coisas um gajo não esquece porque antes quando estava à porta da discoteca era só palmadinhas nas costas e tu-cá-tu-lá mas depois da cena do tiroteio e da granada já ninguém o conhecia de parte alguma. A não ser eu, claro está. Que até lhe tinha emprestado dinheiro. Recusei um súbito assomo de ganância e disse-lhe para me pagar noutra altura mais propícia, depois de endireitar a vida e despistar os tais “gajos” que teimavam em apoquentá-lo.
Os encontros mais ou menos pícaros foram-se sucedendo. E nunca me passou pela cabeça desfazer o equívoco e tentar convencer aquela malta que não era eu o tipo porreiro que já não viam há uma carrada de anos. Agradava-me a ideia de manter algures uma vida secreta; tão secreta que nem eu desconfiava o que andaria a fazer (sempre era uma explicação mais agradável para o costumeiro cansaço matinal do que uma apneia do sono ou coisa que o valha).
Afinal, ter um sósia tem o seu frisson metafísico; nem é preciso ser fanático do Borges para apreciar o calafrio da identidade dúplice, a vertigem do labirinto de espelhos. Tudo isto dá uma certa gravitas à minha ronceira vida de suburbano hipertenso.
Ainda há uns meses, numa função solene em pleno Alentejo, dei com mais um destes “amigos” contrafeitos. Um tipo bastante bêbado que começou por se pendurar no meu braço a recordar episódios de batidas ao javali e uma regata que devíamos ter ganho. Depois, insinuou que a minha relação com a sua mulher tinha ar de não ser inteiramente sã e que a próxima caçada poderia incluir um acidente muito desagradável. Sendo já tarde demais para denunciar o engano, limitei-me a tartamudear um “eh pá, deixa-te lá disso” e fugi para junto da mesa dos canapés, onde meti conversa com um padre que parecia mesmo o Ricardo Araújo Pereira a fazer de padre. Sei agora que o meu alter-ego afinal é um valdevinos apostado em causar-me algum percalço. Talvez seja boa ideia cortar a barba.
Mas se calhar há por aqui eventos mais complexos do que uma simples parecença física. Uma qualquer instância arbitral destes mistérios ontológicos pode bem ter procedido a uma experiência de âmbito inescrutável, criando não um mas dois eus, dando-lhes depois circunstâncias e acasos diversos. Palpita-me que o meu doppelganger é que ficou com a vida aventurosa e divertida. A mim tocou-me o jardim sempre em estado semi-selvagem, as contas do saneamento básico, as idas ao Continente e as varizes.
Se algum dia o encontrar, sou homem para trocar de lugar com ele. Nem que seja à força.

Lá volta a cantilena do “Fidel milionário”

É coisa cíclica: volta meia volta ouvimos falar duma por certo rigorosa lista da revista Forbes que atribui a Fidel Castro uma fortuna esbugalhante. Desta vez, é-nos apresentado como sétimo líder mais rico do mundo, na formidável companhia de reis, sultões e príncipes casadoiros.
E como é apurado o valor do criminoso pecúlio do ditador cubano? Varia de ano para ano. Mas é sempre método mui científico e fiável. Antes, calculavam, para poupar trabalho, uma percentagem do PIB de Cuba e atribuíam-no a Fidel. Passados uns anos, começaram, generosamente, a dar-lhe uma fatia das receitas das empresas estatais que representam, nas palavras da insuspeita revista, «state-owned assets Castro is assumed to control».
Este ano, é tudo mais rigoroso: «we assume he has economic control over a web of state-owned companies (…) To come up with a net worth figure, we use a discounted cash flow method to value these companies and then assume a portion of that profit stream goes to Castro. To be conservative, we don’t try to estimate any past profits he may have pocketed, though we have heard rumors of large stashes in Swiss bank accounts.» Partem do princípio, assumem e até dão de barato os esbulhos passados, apesar dos credíveis rumores que andam por aí.
Que a Forbes, notória pelo seu militante anti-castrismo, persista na fábula mascarada de jornalismo, ainda vá. Bizarro é que tanta gente — da RTP a blogues respeitáveis — nem se dê ao trabalho de investigar o site da revista antes de dar eco a historietas sem qualquer fundamento visível.

Eucaliptex

«O acesso electrónico do Diário da República vai poupar ao Estado quatro milhões de euros por ano, anunciou o Ministro da Presidência, Pedro Santos Silva, que salientou que, com esta medida, “vai haver uma redução de 1400 toneladas de papel por ano, o equivalente a 28 mil eucaliptos”.»

[in Diário de Notícias, edição de hoje]

Gineceu (2)

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Aqui há uns dias, chegou de Angola uma notícia alarmante: a miss angolana, a belíssima Stiviandra Oliveira — que encima estas linhas — seria impedida de participar num concurso internacional de beleza por «ser muito clara para os gostos da maioria negra».
Tal campainha bastou para levar saliva a algumas bocas. Curiosamente, a direita civilizada e a “outra” coincidiram quase ipsis verbis numa análise: «Imagine-se a reacção dos media e dos arautos do politicamente correcto (a nível nacional e internacional) se se tratasse de um caso inverso, intitulado por exemplo “Miss Portugal é muito escura”…» teve como contraponto «Agora imagine-se que em Portugal, ou em qualquer outro país europeu, sucedia o mesmo (eleição duma negra como miss) e havia alguém a usar o argumento racial… caía o Carmo e a Trindade e a súcia anti-racista militante vinha para a rua protestar…»
A grande diferença acabou por ser que o Insurgente tratou de afixar um desmentido a atribuir as dificuldades de inscrição da jovem ao regulamento sobre as idades das concorrentes. Os “outros” ainda por lá andam a discutir a notícia inexistente.
Indesmentível é que parece crescer em Angola um clima de hostilidade para com os mestiços. Basta colocar um olho nos comentários que a eleição de Stiviandra suscitou para confirmar que, em nome do regresso a uma supostamente autêntica “negritude”, muitos julgam mesmo que esta miss não deveria representar o seu país. No meio da discussão, lê-se de tudo: do bruto «Para já os latons e as latonas africanos (as) deveriam é maritar com os senegalés, puros negros. A mulher mais linda é a mulher de natureza negra e sem nenhuma melanjerias» ao elaborado «Nos, os negros Angolanos, temos que passar a valorizar a nossa cultura. Nisto, teremos mesmo que por os mulatos e brancos de lado; eles teem a sua própria agenda, que é subjugar-nos permanentemente. Vejam só a volubilidade com quem os latoes e pulas, nesse comentários, estão a celebrar a vitoria desta latona como Miss Angola! O pais é nosso, agora muitos de nos passamos a ter muito dinheiro; deixemos esses apatridas de lado».
O preconceito, por muito pensado que seja, é sempre espectáculo feio. Mas os “separatistas raciais” portugueses esmeram-se na arte: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Pretos racistas contra pretos? Estarão a evoluir?»; «Os pretos são mesmo feios, como é possivel haver lá “misses”?!!»; «Pelos vistos fazes parte daquela camada que foi “socializada” – (leia-se sujeita a lavagem cerebral) e que agora acha muito giro ver uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita…». A não esquecer: é disto que falamos quando falamos da nossa extrema-direita.

Mas vamos ao que interessa: não sei se a Stiviandra vai mesmo ser candidata ao tal título “universal”. Certo é que parece ser mulher para dar “dez a zero” à desengraçada miss lusa

Uma terra sem blogues

Hoje, numa aula, aproveitei um momento de descontracção para falar de blogues. Andamos entretidos com o estatuto jurídico das línguas minoritárias, não-estatais, na Europa, e eu contara aos alunos o que sabia sobre a bela posição do galego, há tempos 14º em espaço na Internet, muito devido ao grande número de blogues. E falei-lhes, sob esse pretexto, no mundo trepidante da blogosfera. Eu sabia que estava a falar de Marte, mas a minha missão, e o meu prazer, é desenvolver culturalmente aquelas dezenas de jovens adultos. Mesmo com assuntos exóticos.

Na Holanda, a blogosfera não existe, nem como conceito nem como realidade. Alguns políticos têm uns blogues, mas nada que se assemelhe ao Abrupto ou à Causa Nossa. São simples caixas de propaganda, modernaças e pirosas. Os paisanos têm uns diários com grande renovação fotográfica e emocional, e alguns jornalistas disponibilizam simpaticamente textos já aparecidos. Não é estranho?

Não, não é. Os holandeses conhecem, já de há dezenas de anos, vivíssimos circuitos de opinião. Todas as quartas-feiras aparecem os semanários, uns bons doze à escala nacional, e neles a reflexão, a tomada de posição e o confronto predominam, com muita crónica, muito ensaio opinativo, muita divulgação, muita reacção de leitores. E os diários, mesmo decrescendo em vendas, conservam um considerável número de assinantes, que muitas vezes os acumulam com os semanários.

Será a blogosfera, então, um índice de subdesenvolvimento? Acho-me longe de supô-lo. Estaremos, antes, perante um simples funcionamento do ‘avanço retardador’. Nos transportes em Portugal paga-se electronicamente, na Holanda ainda se usam módulos, que um dia foram inovadores. Nós ultrapassámo-los com a blogosfera. Mas vínhamos de muito pouco, quando eles já nadavam em fartura de opinião. Não, os meus alunos vivem, aí, em pleno século XX. Eu só estava a falar-lhes do futuro.

Um módico contributo para o tento na língua

No afã de dar mais “modernidade” e “flexibilidade” ao Português, não cessam as novidades teratológicas. Depois do infame e esverdeado “glauco”, que continua a sua profícua carreira por esse mundo fora, salta-me agora a atenção para o vocábulo “módico”.
Mas quem se terá primeiro lembrado de martelar o pobre adjectivo até dar em substantivo? Hoje, de João Pereira Coutinho a este mesmo blogue, passando por locais mais ou menos recomendáveis e por fontes mais ou menos abruptas, poucos escapam à epidemia.
Não sei se a coisa terá raizes eruditas, no latim “modicus”; parece-me mais provável a parola importação directa do Inglês. Ao pé disto, julgo que a história do “estória” é inovação perfeitamente benigna e até louvável.