O Quinto Império vai ter olhos azuis

O que vai ser de Portugal? A economia esboroa-se. O optimismo foi fazer companhia aos dodós no paraíso das criaturas alérgicas à realidade. Os analistas mais lúcidos só concordam num ponto: ninguém sabe porque é que esta nação porfia na acédia e derrapa na ineficiência desde há séculos. As “elites” empresariais rabiam à caça de culpados, nunca se lembrando de procurar no cotão dos seus umbigos forrados a Maludas. Os pessimistas passam dias a gemer o luto antecipado pelo finis patriae. E a realidade teima em dar-lhes razão: a cada ano, lá somos ultrapassados por mais um recém-chegado à europeia fraternidade. Até já se estimou a data em que daremos connosco a segurar com cotos decrépitos a lanterna vermelha desse pelotão imparável: 2050.
Se Portugal fosse um animal, a extinção seria destino certo e merecido. Mais uma experiência falhada, mais um projecto simpático mas inviável. Um dia, Portugal acordaria vazio. Assim sem mais menos. E, como a geopolítica e a demografia têm horror ao vácuo, logo outras populações viriam reclamar tanta riqueza imobiliária devoluta. Construindo cidades vibrantes onde hoje estiolam praças desertas; empresas inovadoras em vez dos estaminés que agora se limitam a dar “empregos”, não trabalho; multidões alegres em lugar das sorumbáticas turbas portuguesas.
A única coisa que nos poderia salvar? Uma mutação inopinada que nos ofertasse novas qualidades, que nos trasnmutasse em criaturas plenas de energia, inteligência e instinto. Impossível, desconfia o bom-senso. Infelizmente, acrescenta o mesmo.
Mas… e se esta mutação já estiver mesmo em curso?


A coisa apresentaria funcionamento simples: primeiro, tratamos de insistir na nossa única exportação viável, além da cortiça: os bravos e esforçados emigrantes portugueses. Ajudamos a renovar a força de trabalho de países mais produtivos e salvamos — enviando para o exílio os mais inconformados com esta piolheira — boas amostras do nosso património genético, para erudição dos estudiosos do futuro.
Depois, abrimos as portas a populações que, por motivos diversos, apresentam características mais talhadas para a sobrevivência. E lá vêm os Xiangs, as Natachas, os Gersons e mais um mundo de gente com sangue na guelra e ousadia na cabeça.
Ontem, já admirávamos os feitos de atletas fugidos de África para os nossos reluzentes estádios. Hoje, já todos lemos as histórias dos meninos ucranianos e chineses que são invariavelmente os melhores da turma. Amanhã, talvez tenhamos a sorte de ser comandados por esta malta.
Arrisco até a profecia: há-de chegar o dia benfazejo em que vamos alegremente eleger um primeiro-ministro de nome impronunciável e ancestrais perdidos numa estepe longínqua. Só então poderá Portugal enfim renascer das cinzas frias. E é nação esplêndida esta que está na calha: a determinação eslava aliada à alegria e ao jogo de cintura sempre pronto a fintar a vida de angolanos, cabo-verdianos, brasileiros. Sem esquecer, vá lá, uma ou outra costela lusa; para dar colorido melancólico ao local, que o turista não dispensa o seu Fado.

Triste fim? Ná. Sempre será destino mais aprazível do que aquele que há muito se nos adivinha:
“Já Deus, coveiro de colossos,
Ó Portugal, ó maldição!,
Dia e noite martela a tumba onde os teus ossos
Na cripta do silêncio eterno dormirão!”

29 thoughts on “O Quinto Império vai ter olhos azuis”

  1. Os analistas mais lúcidos só concordam num ponto: ninguém sabe porque é que esta nação porfia na acédia e derrapa na ineficiência desde há séculos. As “elites” empresariais rabiam à caça de culpados, nunca se lembrando de procurar no cotão dos seus umbigos forrados a Maludas.

    O problema estará em que os tais empresários portugueses não discutam acima de tudo a sua parcela de culpa, já que é esta a que sabem e podem mais facilmente tratar e melhorar. Que os trabalhadores não façam o mesmo em relação a si mesmos pelos mesmos motivos. E os políticos também a mesma coisa. A culpa da falta de productividade é de quem produz, mas quem produz qualquer coisa é demasiado valioso, ainda para mais quando a produção escasseia, para que só seja visto pelos outros, não productores dessa coisa, do ponto de vista da sua relativa e suposta incapacidade productiva.

  2. A coisa soa-me bem, mas um pouco utópica. Num país cobardemente xenófobo (digo cobardemente porque não tratamos mal os estrangeiros, dificultamos-lhes a vida às escondidas e praguejamos secretamente contra a sua presença) como o nosso, não creio que chegará o dia que um “Dimitri” ou um “Isaacson” subirá ao poder. Não, os imigrantes estão destinados a cargos menores assim como os nossos emigrantes estão na maioria das situações. É triste mas é real. Ainda assim, a esperança é a última a morrer, e não há-de ser por acaso que grande parte da nossa bandeira é verde. Até lá, mantenhamos o bom senso e confiemos na geração vindoura.

  3. ///

    —>>> A Comunicação Social europeia propagandeia aos ‘sete ventos’ que a imigração é necessária para resolver o Problema Demográfico Europeu… e, assim sendo,… a imigração vai assegurar a Sustentabilidade do Sistema de Segurança Social…

    —>>> Ora, qualquer Povo do Planeta… com UM MÍNIMO de ‘coluna vertebral’… JAMAIS aceitaria que viessem outros de fora… para resolver o Problema Demográfico… ou para assegurar o pagamento das Pensões de Reforma……

    CONCLUSÃO ÓBVIA: Os Nativos Europeus ( a Maioria -> vulgo Parasita Branco ) são… em dúvida alguma… o Maior MONTE DE BANDALHOS da História da Humanidade!!!

    ///

  4. Só para manifestar o meu apreço e admiração por mais uma excelente prosa-comentário de L.R. que continua a misturar humor e desencanto como poucos (ninguém?) na blogosfera.

    Resta então esperar que os predadores não dêem completamente cabo “disto” de maneira a que, num dia longínquo, o atavismo que persiste numa curva oculta do n/ADN seja considerado uma virtude e cada um possa utilizar o ócio para aquilo que bem entender (p.ex: coçar a barriga, olhar as estrelas, trocar afectos, admirar/criar coisas bonitas, etc. sem o remorso actual que as elites ainda mais preguiçosas nos querem impingir…)

  5. “A economia esboroa-se”.
    A ECONOMIA – o princípio e o fim.O Alfa e o Ómega. Os novos deuses do mundo, os que ditam as regras, os que sabem tudo e nunca se enganam – ECONOMISTAS – são eles os culpados da depressão colectiva.
    Já não há espaço para o belo, para a arte.

  6. Porque será que os esquerdistas, que chamam os da direita nacionalista de racistas e xenófobos, nunca tiveram nenhuns políticos pretos, africanos, brasileiros, ucranianos, etc?

    Duas simples perguntas que nunca tiveram resposta” – Dra. Kity in “Criaturas Falsas”, Revista “Espírito”, nº 17, 2005.

  7. Excelente e ajuizada congeminação do Luís, sem dúvida inspirada pelo fado da espécie não-voadora dodó. Só peca por não ter incluido um pequeno aviso às massas divertidas: o fenómeno não é exclusivamente português.

    O mal (se mal for, só o futuro o confirmará) é pandémico, contagioso, inflamante, desorientador, divisivo, e muito provavelmente planeado. E mais agora, nestes tempos de violências que têm tanto de natural como o virus da Sida. As xenofobias de várias indumentárias e odores, tal como os patriotismos, são sentimentos territoriais de dois gumes aproveitados pela intriga para manipular tanto a direita como a esquerda. É preciso não esquecer isso, que às vezes até pode ser importante.

    Defakto

  8. Duzentos capitães ! Não das caravelas

    Não os heróis das descobertas e conquistas,

    A Cruz de Cristo erguida sobre as velas

    Como um altar

    que os nossos marinheiros levavam pelo mar

    À terra inteira !(Ó esfera armilar. Que fazes tu nessa bandeira?)

    Ó marujos do sonho e da aventura,

    Ó soldados da nossa antiga glória,

    Por vós o Tejo chora,

    Por vós põe luto a nossa História !

    Duzentos capitães destes de agora ! (Pobres inconscientes)

    Levando hilares, ufanos e contentes

    A Pátria à sepultura,

    Sem sequer se mostrarem compungidos

    Como é dever dos soldados vencidos,

    Soldados que sem serem batidos

    Abandonaram terras, armas e bandeiras,

    Populações inteiras

    Pretos, brancos, mestiços (Milagre português da nossa raça)

    Ao extermínio feroz da populaça.

    Ó capitães traidores dum grande ideal

    Que tendo herdado um Portugal

    Longínquo e ilimitado como o mar

    Cuja bandeira, a tremular,

    Assinalava o infinito português

    Sob a imensidade do céu,

    Legais a vossos filhos um Portugal pigmeu,

    Um Portugal em miniatura,

    Um Portugal de escravos

    Enterrado num caixão d’apodrecidos cravos !

    Ó tristes capitães ufanos da derrota,

    Ó herdeiros anões de Aljubarrota,

    Para vossa vergonha e maldição

    Vosso filhos mais tarde ocultarão

    Os vossos apelidos d’ignomia…

    Ó bastardos duma raça de heróis,

    Para vossa punição

    Vossos filhos morrerão

    Espanhóis !

  9. Insano , tocou numa verdade terrível , realmente a sociedade Portuguesa puxa o tapete aos imigrantes pela calada como brasileiro residente em Portugal a mais de 20 anos conheço bem a situação. Mas de facto o pior é que a sociedade está
    a funcionar um pouco assim mesmo entre os Portugueses
    e entre as próprias Instituições tentando assim manter suas regalias ou status quo, não permitindo a renovação de idéias e pessoas .

    Vai ser muito complicado , dar a volta por cima , mesmo com meu espírito brasileiro , ando preocupado e nada Otimista.

    Fechei a minha Empresa há 3 anos e só trabalhava com produto nacional de alta qualidade , estive na China
    com tempo e olhos de ver, e o que eu posso dizer é que é urgente Portugal e a Europa reorganizar os seus objectivos no sector produtivo porque vai ser muito complicado gerar empregos de média qualidade. O Crescimento da India e da China não vão permitir.

    Mauro Burlamaqui Sampaio

    http//:mauroburlamaquisampaio.blogspot.com

  10. Mauro

    Fechaste a tua empresa e piraste-te para Portugal.

    “produto nacional de alta qualidade”?

    “fui à China”?

    Tá bém tá!

  11. Não, ratinho ,não percebeu ,
    eu trabalho e ainda trabalho com o melhor fabrico nacional de mobiliário , e não estou a falar de fábricas parôlas de Paços de Ferreira , desta forma não é possível desenvolver diálogo , sou bom conhecedor do mercado , vivo desde sempre em Portugal e sei o que estou a dizer , não preciso de me armar em nada ,

  12. Fechei a empresa em Portugal , como fecharam milhares por causa da recessão , a visita a China foi feita profissionalmente justamente para ver o que se faz de melhor lá nesta área e também noutras. O produto oriental na Generalidade está a melhorar com muita velocidade daí o grande desafio para a Europa .

    percebeu ?

    Pirei-me da onde ?

    Da China , do Brasil ou de Portugal ?
    t

  13. Luís,

    you got the picture: o quinto imério é mesmo isso, mais coisa menos coisa. E não estou ironizar.Há utopias menos utópicas do que parecem.

  14. O Ratinho “spam”?

    Mauro

    A China não faz nada de qualidade! Se queres ver qualidade vais aos Estados Unidos. A tua ida à China diz tudo! Tu queres é “Colidade”!

  15. Boa Nanda , mas, um pormenor .
    Claro que estive nos mercados de França e Alemanha também e é evidente que há uma enorme avanço de conceitos etc etc , EUA , mais ainda provavelmente , a questão não é esta o problema como coloquei acima é a velocidade da actualização deles aí é que está o problema ,por exemplo voce consegue defender os princípios do produto Nacional ou Europeu mas quando faz a sua casa compra perecido no Ikea e
    habitat ( àrea ) porque é parecido e custa 1/3 , complicado não é , mas é a realidade .

    Eu estive com estes produtos em mão é tudo Chines e Indiano , se quiser Oriental , a viragem deles para a qualidade julgo está para muito breve . Pode crer.

  16. Gibel , eu percebo ,e esta correcta a afirmação com ou sem ironia do ” quinto império “, mas este império não pertence a ninguém nos somos o império o importante é proteger o Planeta julgo que no mínimo cabe ainda aos Europeus e agir de forma sublime ou seja ,
    ” Em momentos de crise , só a imaginação é mais importante que o conhecimento ”
    Albert Hinstein

  17. O Povo português é neste momento um povo Mofo. Sim, MOFO!. Apesar de nao ter vivido o 25 de Abril, quando vejo documentários dessa época emociono-me e sinto que se perdeu uma grande oportunidade de começar de novo.
    A alta concentração/centralização a que Portugal se auto-condenou internamente levou e leva a uma maior falta de civismo, respeito e auto-respeito por parte do cidadão. Concentrados, mas isolados, dentro das grandes metrópoles, o Povo português está a abolecer por culpa própria, por ser passivo e amorfo.
    Seria tão bom que todos parassem e reflectissem… mas pelos vistos isso “aborrece e é inútil” do ponto de vista do cidadão comum.
    Cheira a MOFO e a única acção que vejo (comparável com os remendos das estradas) é apenas o breve aperto do botão da lata (“lata” também de alguns mediáticos portugueses…) de ambientador rasco…

  18. Obrigado LR , sou novato e nem sempre identifico com facilidade a participação activa , sim , praí um bocadinho burro, mas nada muito grave…

    Evidentemente que identifiquei a afirmação
    provável de um spam , a resposta pode ser transformada em participação, por vezes até ajuda , não tenha dúvidas ,
    que é importante por vezes
    fazer mo nos de estúpidos que é a melhor forma de oferecer -lhes um espelho .

  19. Oioi galera .. tudo em cima ??

    O pateta do xatto (piolho pubiano)disse no Semiramis que se eu viesse a este blog iria implodir ..
    Fiquei sem saber se era eu que iria implodir ou se seria este blog…
    Vim para ver…
    Olá Mauro.. sabes .. eu vivi a maior parte da minha vida aí na Portuga .. agora mudei-me para a tua terra ..estou a viver em Salvador .. e estou a adorar..
    Sabes outra coisa .. estás a apostar num cavalo coxo..
    Agora é o Brasil que é ( como diz Buarque) o grande Portugal…

    E tu Luís Rainha ..como vais grande palhaço ?

    À parte isto fica aqui a minha contribuição para mais este pucksickblog com uma novidade .. a partir de agora o vosso PM chama-se Sócratesto… a avaliar pelo Financial Times …
    E claro de um Socratesto só podem vir mais impostos ..

    Report: Portugal Plans Pension Reforms

    The Associated Press
    Monday, May 15, 2006; 4:04 PM

    LISBON, Portugal — Workers with fewer than two children will have to contribute more to their government pensions under planned reforms to prevent the collapse of Portugal’s retirement system, the prime minister said in an interview published Monday.

    Contributions would stay unchanged for people with two children, decrease if they had more than two and increase if they had fewer, according to an interview with Socialist Prime Minister Jose Socratesto published in the Financial Times.

    A Portuguese pension is calculated as a percentage of the top-earning 10 years of the last 15 years of the recipient’s working life.

    Under the reforms, the pension would be calculated according to the employee’s entire working life, the Financial Times said.

    Some workers will be offered the choice of working beyond the current retirement age of 65 or increasing their pension contributions, it said.

    Officials at the Health Ministry said the government planned to present reform measures to Parliament before the summer recess in July, but they could not provide any details.

    The reforms seek to address a pension crisis being felt in several European Union countries due to a falling birth rate and increased life expectancy, as well as lavish payouts.

    Finance Minister Fernando Teixeira dos Santos said earlier this year that at current levels of income and expenditure, Portugal’s pension fund may be unable to meet payouts in 10 years.

    Portugal’s birth rate has fallen to 1.5 children per family, down from 2.6 children per family three decades ago.

    With retirements looming for 78 million baby boomers, the trustees for the U.S. Social Security program said this month that its trust fund will be depleted in 2040, a year earlier than expected.

    The point at which the program will pay out more in benefits than it takes in will occur in 2017

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