Estimada e leda MUSA

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No Verão de 2003, três alfacinhas de férias na Zambujeira do Mar, cercados por fogos de dimensão histórica, incendiaram-se num projecto: organizar, editar e publicar, com distribuição internacional, um livro exclusivamente só com peças de design gráfico de artistas portugueses. Na Primavera de 2006, conseguiram-no.

MUSABOOK foi o nome escolhido; e desse projecto nasceram outras actividades preparatórias, complementares e divergentes, reunidas sob a marca Musa. A editora é a IDN, de Hong-Kong, uma das maiores e mais reputadas editoras mundiais em design gráfico.

O feito é tanto de realçar quanto em Portugal, como indulgente e auto-intitulado “país de poetas”, não existe cultura visual. Essa iliteracia estética está patente na feia paisagem urbana, na modéstia da pintura, na pobreza da ilustração, no deserto do cinema. Mesmo assim, e até por isso, o espírito que animou o projecto tinha um cunho decisivamente nacional e geracional.

Este vosso humilde escriba assina, com outro criptónimo, um dos textos introdutórios no livro, mas não faz parte do trio fundador, sequer partilha as mesmas disciplinas. Acontece, apenas, haver uma coincidência de olhares. Consequentemente, o que atrás fica escrito não tem um único caractere imparcial.

18 thoughts on “Estimada e leda MUSA”

  1. Teresa:
    Este Valupi é um apressado. Não lhe leve a mal.
    Sempre se disse, e ainda se diz, “Fulano é um bom carácter”. Ou “Ao contrário do que dizem, Portugal não é um jardim de bons caracteres”. Até aqui tudo bem!

    Houve, porém, um dia, em que os textos começaram a medir-se em caracteres e não em páginas. E foi aí que o problema surgiu.
    “Pedi-te um texto com 3000 caracteres, não mais!”.
    No plural não há estranhezas. E no singular?
    “Acrescenta aí um ‘carácter’, para ficar a conta certa!”. (Esta situação é teórica, evidentemente, mas não lhe parece estranha?).
    Parece-lhe bem este singular único, para os dois significados?
    O ´caractere´ de Valupi vem daí. Não sei se já entrou nas bíblias linguísticas ou não. Mas normalmente aquilo que tem que ser tem muita força.

  2. Psicologicamente, o falante de há muito distingue o “carácter” do “caracter”; sendo o primeiro termo significante de “conjunto de características”, e o segundo vocábulo de “símbolo gráfico”.

    Ora, a Língua escrita é inevitavelmente mais conservadora do que a Língua falada; como tem de ser. Porém, está em causa impedir que se institua um barbarismo, que seria a grafia “caracter” em vez de “caractere”. Por essa razão, a escolha em causa.

    Quanto ao Ciberdúvidas, que se leia, então, algo mais fresco.

  3. “Muitas vezes as minhas dores de cabeça, são dores de parto cerebrais, em que nascem ideias para combater a Esquerda. Neste aspecto sou uma depravada: ando sempre grávida” – Kitéria Bárbuda

  4. a ideia é bem interessante.

    Quanto ao carácter/caractere/caracter

    vem tudo do mesmo. A descoberta do carácter fez-se pelo estudo da “escrita” das marcas na face que mostravam o que se passava no interior. Fiz um post sobre o assunto e até mandei a parte incial para o bacano do Conta Natura.

    De qualquer forma limitei-me a sistematizar questões que estão mais que estudadas. Foi o Hogarth um dos que mais se bateu para que o desenho do carácter não fosse confundido com a caricatura. E ao Descartes deve-se a sistematização dessa “escrita” de teor mágico no Tratado das Paixões da Alma.

    Concluindo: o Valupi não escreveu nada errado e a diferença é muito moderna.

  5. não deixa de ter piada vir tanto “expert” a terreno para provar a diferença de uma coisa que se criou por se igual.

    Nunca lhes passou pela cabeça fazer a pergunta mais simples: mas afinal de onde vem caracter como escrita e de onde vem carácter como personalidade?

    é que estas coisas não nascem das palavras. O caminho é inverso. As palavras é que nasceram de identificações comuns. Neste caso a decifração da escrita facial: Os metascopoi que qualquer senhor romano tinha em casa.

    Para quem quiser basta ver o post “escrito na face”

    e muito obrigada por este pequeno memento de publicidade

    “:O)

  6. «…um cunho decisivamente nacional e geracional…»

    “geracional” ainda vou lá, porque o design está cada vez mais igual em todo o lado (e no particular, os designers portugueses gostam muito de bolinhas, dj’s e frases em inglês perfeitamente ocas), mas “nacional” é que não atinjo.

  7. Zazie

    Antropologia somática é tema encantador (pun intended). Muito obrigado por teres deixado a informação. Recomendo muito (mas só a alguns, que o assunto é para poucos) a leitura dos teus dois textos.

    Anon

    Concordo contigo. E depois, logo a seguir, discordo.

    “Nacional”, apenas por obrigar a essa condição de participação: ser-se português. Obviamente, tem como agenda secreta (ou descarada) a promoção de uma realidade até agora inexistente, o “design português”.

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